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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem Primavera

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.20

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Esta casa foi adquirindo uma entidade própria e uma determinação indómita. Foi, enquanto o tempo envelhecia, sobrepondo o desejo das pedras à vontade do dono de modo que se deixou de perceber quem domina quem. Como no poema, o senhor tornou-se servo, por amor.

Esta casa vai construindo as ordens, vai solidificando o poder da pedra sobre a carne, vai erguendo o seu esmagador domínio sobre quem a deixou de ter, porque ela o tem. Decide quem entra, escolhe quem será expulso e responde agressiva àqueles que sem o seu consentimento se atrevem a passar. Não passam se forem ameaça. Não passam se lhe causarem ciúmes. Não são acolhidos se arriscam o amor daqueles que são dela. Não permite a invasão da mais ínfima partícula de almas estranhas. Impede a luminosidade dos pássaros e a cumplicidade dos amantes.

Esta casa contém o interdito e cuida dos fantasmas.

 

É a ela a que chego agora. É dentro dela que retorno a mim, que me sinto dentro, por dentro. É dentro dela que fico em mim, a sentir o partir dos outros, dos que ficam a latejar nas pedras presas nas solidões que tombam como gotas grossas das águas das árvores depois de chover, em silêncio.  

 

É nesta casa que me recolho em mim e que reaprendo os pequenos passos, os mais breves gestos. Pormenores.

É nesta casa que toco nas pequenas, pequenas, pequenas, coisas. Nas toalhas de linho com monogramas bordados. No perfume de hortelã dos aventais da Jacinta agora morta. Na jarra de porcelana com peixes no dorso. Na cigarreira de prata sobre a escrivaninha. No papel de carta opalino pousado perto da imagem de marfim de um deus antigo. No constrangido marcador do livro que ninguém acaba. Nas folhas secas de tília mal florida que esperam por tisanas de abandono e de anoitecer. Na abóbada das mãos erguidas da imagem da Virgem do Amparo secular - que o seu santo manto nos cubra e nos porteja, hoje e para todo o sempre. Na tristeza que entardece este silêncio de gato enroscado no chão quente das cozinhas. No peso dos cortinados que se fecham sobre a luz cinzenta das copas de chuva dos candeeiros de mesa. Nos murmúrios das madeiras nocturnas e sozinhas.

É nesta casa que me deito dentro da sombra onde isolo a minha vida, no toque das pequenas coisas descobertas e neste poder da pedra sobre mim, sobre uma Primavera desgrenhada que emerge espantada e por iluminar.

 

É nesta casa que afloro as mais pequenas coisas esquecidas e é dentro delas que pressinto a urgência da memória para nos salvar a vida.  

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De Maria Araújo a 08.04.2020 às 12:21

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