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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe siderada

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.14

A porta que permite acesso ao quarto da minha irmã abre-se com estrondo.

A mulher estala no meu quarto dentro das miseráveis cinco horas da manhã, depois de uma noite que me arrasou o corpo e me esgotou por completo a capacidade de me manter acordada. Traz duas caixas cor de creme com o logo da Cerruti. Atira-as para cima da cama de modo a que me atinjam a cabeça e me despertem com a sensação de ter sido alvo de atentado terrorista. Afasta os pesados cortinados de veludo e deixa que uma luzinha enevoada e baça se permita invadir, sorrateira e tímida, o meu sono desfeito. Senta-se depois na poltrona. Usa um vestido azul negrume que a torna mais esguia. A gola alta laçada valoriza o pescoço quase demasiado alto e o cabelo preso numa arquitectura complexa consente que os olhos pardos descubram os mais subtis cambiantes de cinzas azuladas.

- Está na hora de te preparar. Levanta-te. Quero que vistas o que trago.

Sonolento espanto o meu, sentada num despertar de trombeta e de farrapos.

É cedo demais!

Arranca-me da cama e empurra o meu corpo extenuado.

- Não, minha querida. Veneza tem a cor do ocre envelhecido. É laranja e branca, suja e corroída. Só nas primeiras horas, à luz recém-nascida, tem a cor precisa, anilada e cinza. Tens de ver a cor dos príncipes perfeitos.

Convence-me. Quero ver às cinco da manhã as cinzas aniladas da cidade.

Ergo-me no exacto instante em que a minha irmã desata a abrir as caixas. É-me indiferente o que trás lá dentro. Seja o que for, é aquilo que precisa para compor a imagem de mulher que passa pelas ruas de todas as cidades como se todas as ruas de todas as cidades fossem sempre aquela que passa a vida inteira a atravessar.

Volto molhada com a toalha na cabeça.

- Agora tens de te vestir.

Tento apanhar os jeans. Impede.

Não! Veneza é o lugar mais subtil do mundo. Não é como Paris que nos deixa esvoaçar à toa. Veneza é protegida por leões. Não se vai deixar morrer de amor por ti se tu não fores exacta.

Não entendo.

Tapa-me o espelho do meu quarto, fazendo-o rodar contra a parede.

- Veneza é uma cidade de reflexos e tu serás como ela quer e te deseja. Nenhuma cidade foi tão igual a ti.

 Arranca-me a toalha. Estou molhada, tonta e espantada.  

Enfia-me uma blusa de malha fina azul nocturno, canelada, de gola subida, justa, mangas compridas a ocultar-me as mãos. Empurra-me e obriga-me a vestir uma saia escura, antracite e lanhos de um azul quase imperceptível. É estreita, tubular, exemplar, perfeita. Da segunda caixa retira uns sapatos clássicos, picotados, de couro imaculado, conservadores e preconceituosos. Masculinos.

Deixo-me vestir. Veneza é amante de mascarada onírica. Diverte-me a labuta ensandecida da mulher na ansiosa espera do resultado, que será tonto e desconexo, da união de uma vagabunda a luas de reflexo.

Penteia-me o cabelo ainda molhado. Retoca-me. Maquilha-me. Diverte-me.

Roda depois o espelho sobre o eixo que o sustenta preso ao tripé doirado de barroco.

Na luz difusa da manhã que entra, o que vejo emudece a minha alma pasma. Escura e ruiva e anil esguia, a reflectida é estranha a mim. Não reconheço a figura emoldurada em ouro, demorada de enigmas, de subtilezas e de secretos sinais plena e repleta, anil e preta e ruiva como os caixões das gôndolas. Nada sobrou de mim e assombrada deixo-me levar, muda de espanto, ao perceber que no espelho existe uma criatura que pertence à espécie de que a minha irmã é o exemplar perfeito.

 

Ora, mia cara principessa, La Serenissima... è la nostra.

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