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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sinalizada

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.16

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A Gaffe decidiu adoptar o sistema das CPCJ quando o que previu correr mal lhe entrega o infeliz troféu da razão. Passará, em consequência, a substituir o irritante eu avisei! Pela profissionalíssima expressão já estava sinalizado pela CPCJ.

 

Por muito esforço que faça para afastar de si uma certa curiosidade mórbida, a Gaffe não resiste e tenta a todo o custo imaginar em que consiste o sinalizar CPCJotiano.  Acaba a imaginar a Assistente Social a sair do automóvel, a trocar os tacões pelas sabrinas - não vá pisar nada que conspurque o verniz -, a sacudir os rebuços do casaquinho e a retirar da carteira um autocolante redondinho e pequenino que vai colar na porta onde se suspeita existir violência, seja ela qual for e tome as formas que tomar. Feito o serviço, a Assistente Social troca as sabrininhas pelos tacões, enfia-se no carro e, chegada à sede, abre um dossier onde escreve o que fez, colocando-o depois na estante ao lado dos outros, alinhados e com cores harmoniosas, que as colegas vão coleccionando até se esgotarem as rodinhas coloridas.

 

A Gaffe fica sempre espantada quando se depara com uma criança que sofre sevícias tais que a deixam estropiada ou que a acabam por matar. Estava sinalizada, valha-nos Deus! Ninguém denuncia a empresa de autocolantes que os fabricam sem adesivo suficiente!

A Gaffe fica sempre boquiaberta quando lhe dão a entender que os autocolantes não são de grande qualidade, porque para quem é, bacalhau basta. Ninguém se lembra de sinalizar uma criança de doze ricos anos que exige ser defendida por uma das maiores e mais caras firmas de advogados do país no processo de divórcio dos seus progenitores-vedetas. No entanto, o facto de lhe chamarem Dinis Maria consubstancia já suspeita de agressão.

 

Um escândalo.

 

O autocolante luminoso, quando colocado devidamente, é acompanhado por procedimentos que podem ser efectuados no aconchego do gabinete. A Assistente Social senta-se na sua almofada contra as hemorróidas e envia aos médicos e aos professores um papel onde se solicita, respectivamente, informação clínica e académica relativa à criança que está no dossier, não se esquecendo de traçar com uma cruzinha feita a marcador fluorescente, que o acompanhamento está a ser executado como manda a Lei.

Havendo casos em que, por exemplo, os médicos - que nunca detectaram a mínima pevide de qualquer anomalia que indiciasse maus tratos e que são perfeitamente competentes e mais do que capazes de a denunciarem se perceberem que ocorre - ficam atolados com estas solicitações, depreende-se que existem CPCJ cujos gabinetes devem parecer um arquivo do Ministério da Justiça da República das Bananas, mas arrumadinho. Uma criança que espirre sem que a mãe a transporte em braços rumo ao 112, é caso de autocolante e posterior dossier que se for anafado prova que há trabalho feito e missão cumprida.

 

A Gaffe suspeita que existem casos sinalizados pelas CJCP que mereciam ser denunciados, não havendo penalização para a coscuvilhice mais sórdida ou para oportunismos carreiristas, como crime de abuso de confiança e de poder.

 

Às vezes, o autocolante fica tão bem cravado e a sinalização é tão zelosa que se torna excessiva e arranca seis crianças aos pais, enfiando-as em Instituições amorosas em que cada petiz albergado rende determinada quantia. Normalmente estes casos são notícia quando o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem reverte a decisão, anunciando que o amor nunca esteve em causa e que não é agradável afastar das famílias crianças que são amadas, porque se ignora ou não se quer acudir à situação de precariedade social e carência económica em que vivem.

 

É evidente que a Gaffe não conhece os casos em que as crianças foram realmente acudidas, mas pela quantidade de inutilidade a que se assiste, não é de admirar a ausência de parangonas sensacionalistas.

 

A Gaffe não admite, nem em pesadelo, colocar em dúvida a necessidade de supervisão do bem-estar infantil, mas perante o que vê, fica chocada com a quantidade de autocolantes que não funcionaram e intrigada com a inexistência de Equipas que não se limitam a lamber o selo do eu bem que avisei!

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11 rabiscos

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De M.J. a 09.03.2016 às 11:49

"eu bem que avisei dô-to-ra!"
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De Gaffe a 09.03.2016 às 11:53

"Sô-dô-to-ra", faz favor!
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De Maria Araújo a 09.03.2016 às 17:41



Equipas, com maiúscula, sinal de eficiência e dedicação.
Um belo retrato de como funcionam as equipas do CPCJ (e garanto que quase todas são vaidosas qb).
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De Gaffe a 09.03.2016 às 20:22

Não acredito que sejam vaidosas, pelo menos no sentido que entrego à vaidade. A vaidade - a saudável, as outras são balões inchados e doentes - tem na base um trabalho bem feito.
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De Maria Araújo a 09.03.2016 às 22:31


A Gaffe encontra sempre as palavras certas que eu poderia dizer mas passam-me " as outras são balões inchados e doentes".
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De Gaffe a 10.03.2016 às 09:32

Encontra, sim.
Estão mesmo ali!
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De Fernando Lopes a 09.03.2016 às 19:19

Muito bom, Gaffe. Ou como o que efectivamente interessa, a protecção dos menores, desaparece algures nos meandros da burocracia, perdido entre uma almofada para acomodar rabos badochas.
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De Gaffe a 09.03.2016 às 20:19

Pronto!
Com uma pincelada perfeita o menino resume todo o meu post!

Ai,que aborrecimento!
:)))*

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De Fernando Lopes a 09.03.2016 às 21:10

Não seja modesta, quando digo que gosto é porque me tocou, já sou demasiado velho para salamaleques.
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De Gaffe a 10.03.2016 às 09:31

Não precisava de ser agressivo.
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De Fernando Lopes a 10.03.2016 às 10:07

Não era essa a minha intenção. Desculpe o meu jeito bruto.

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