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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe só com um beijo

rabiscado pela Gaffe, em 04.04.19

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Ao contrário do que parece ser habitual nos ouvintes que pela insistência acabam por reconhecer que determinada melodia lhes agrada, depois de a terem considerado atentado aos seus mimosos ouvidos, repetir Conan Osíris e os seus partidos telemóveis, tem um efeito contrário em mim. A surpresa muito positiva que foi a estranheza levada ao um extremo inusual da canção que defende, passa, em cada vez que o ouço, a uma irritabilidade muito pouco simpática.

 

 O rapaz cansa-me.

 

Conan Osíris vai esgotando a sua capacidade de seduzir com a imagem de excêntrico, muito street/trash/chic - ya, ‘tás a ver? -, e muito pouco mainstream; com a sua voz que invoca outras ainda mais potentes e com a mescla um bocadinho suspeita de ritmos e de frases melódicas oriundas de outros carnavais.

 

É constrangedor referir o bailarino que o acompanha, pois que se da primeira vez que o vi senti uma ligeira vergonha alheia que disfarcei, pois que era fruto dos meus mais negros preconceitos, agora reconheço-lhe um amadorismo, que a alegada improvisação acentua, que me deixa perplexa e assumidamente envergonhada.   

 

É evidente que o intérprete reúne todas as características que lhe dão a hipótese de se tornar campeão do Eurofestival - as que se referem, contabilizam -, mas, por estranho que possa parecer, dada a consagração de que é alvo e a aclamação das suas qualidades, quer vocais, quer de compositor, não acredito que dure muito mais tempo a minha paciência para o voltar a ouvir.

 

Esta minha sensação é fortalecida com o facto de existir Só Um Beijo de Luísa e Salvador Sobral.

 

A propósito, ou talvez nem por isso, levanto-me e aplaudo Salvador Sobral e a elegantíssima lição de jornalismo que este rapaz entrega de bandeja a Judite de Sousa que termina a entrevista relacionada  em exclusivo com o novo trabalho do intérprete com a ronhosa e ranhosa pergunta:

- E a sua saúde como vai?

que recebe esta brilhante resposta:

- Bem. E a sua?

 

A canção dos manos, com uma letra muito bonita, é de uma originalidade tão limpa e tão completa que chega a parecer fácil, frágil e evidente, esperada e pronta desde o início - quase desde a infância, porque há de certa forma um evocar dos ritmos que a povoam.

A canção vai fluindo devagar, quase contida, e sempre com a cristalina e fascinante surpresa, da descoberta do único, do novo, do nunca ouvido que não se escapa por fendas da excentricidade histriónica e menos inteligente.

É sobretudo belíssima e encantatória a mescla de frases diferentes que se enlaçam, sem atropelos, cantadas pelas duas vozes que se vão aproximando até desaguarem num mesmo verso. Nada é deixado solto, a não ser a perfeição das duas vozes juntas.

 

A diferença e a originalidade - não são sinónimos - estão bem presas.

 

Este facto, reporta-me finalmente aos adereços de Conan Osíris.

Se o rapaz usa uma lata na cara, sendo a lata mal moldada, mal colada, mal segura, mal desenhada, é apenas por não saber que Alexander McQueen já fez melhor.   

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14 rabiscos

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De Terminatora a 04.04.2019 às 13:50

O que me escangalha mais nessa música é o telelé. Que génio! (not)

Não... e não.
Já a do beijo ouvi há dois dias, fiquei rendida também. Eles são maravilhosos! Outra também lindíssima é a do Salvador com a Márcia- Pega em mim. Muito talentosa também esta rapariga. É na subtileza e fragilidade que transmitem o estilo de música deste cantores que está a verdadeira beleza do que fazem.
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De Gaffe a 04.04.2019 às 14:59

Francamente, o que me deixa pasmada é o bailarino. Aguento com o resto.

Ouvi a Márcia uma ou duas vezes e gostei muito. Não conheço a canção que partilha com o S. Sobral. Vou procurar.
Obrigada.
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De Corvo a 04.04.2019 às 14:16

São as nefastas vicissitudes da existência para os intrépidos sonhadores da arte musical nacional, sempre esperançados de que agora sim, isto vai!
Depois, defraudados, - neste caso defraudadas, ou melhor; uma defraudada nas suas legítimas aspirações pela elevação da bela melodia nacional, - caem na real e enervam-se pelo logro em que caíram.
Já agora: quem é esse? Osíris, que pelos vistos a enervou tanto?
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De Gaffe a 04.04.2019 às 14:55

Não diga estas coisas más!
A nacional cançoneta ainda tem redenção. Há por aqui gente que vale a pena ouvir.

Osíris é o representante de Portugal na eurovisão 2019 e não me enervou grandemente.
Cansou-me, o que é bem pior.

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De Corvo a 04.04.2019 às 16:31

Ah! Se ouvi-lo cansou-a dessa fadiga estou livre.
Muito agradecido pela prevenção.
:)
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De Gaffe a 04.04.2019 às 16:38

Mas mesmo assim experimente.
:)
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De Corvo a 04.04.2019 às 16:57

Muito agradecido, mas não.
Ainda estou extasiado com a última melodia nacional e não quero, nem por nada, perder-me do êxtase musical de onze motoristas para um utente a favor de um qualquer Osíris desta vida.
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De Gaffe a 04.04.2019 às 19:49

O meu querido amigo está a confundir fanfarra, acredito que momentaneamente já que há a proposta de regulamentação, quer do número de primos que suporta um governo, quer no montante de prendas que um representante "nosso" pode receber, quer ainda no que se relaciona a outras áreas que por distracção não foram abrangidas pela ética, pela dignidade moral, pela vergonha, pela consciência e por outras questões de somenos importância.
Chegará a vez de regulamentar a quantidade de motoristas que um governante do terceiro mundo pode ter ao seu serviço.
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De Maria Araújo a 04.04.2019 às 14:38

Desconhecia esta melodia dos irmãos Sobral.
Ouvi e está deliciosa.
Conan Osíris, não me convence.
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De Gaffe a 04.04.2019 às 14:52

E aparentemente é tão simples, não é?!
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De Quarentona a 04.04.2019 às 14:55

Já eu, continuo apaixonadíssima e talvez seja precisamente essa improvisação naif que me agrada tanto nos rapazes. Mas eu não conheci o Conan só agora que anda nas bocas do mundo e temo bem que esta massificação a que se está a sujeitar de algum modo o estrague, enfim...
Quanto ao Sobral e irmã, têm há muito lugar cativo no meu coração, lembro-me de ouvir pela primeira vez a Luísa e tratei logo de comprar o seu primeiro disco editado :))))
Ouve a versão que o Sobral fez do tema "Anda Estragar-me os Planos" que a Joana Barra Vaz interpretou no Festival da Canção do ano passado, ganhou toda uma alma nova no jeito "Sobralense" ;)))

https://youtu.be/klqA9HPgsho
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De Gaffe a 04.04.2019 às 15:18

Ah! Mas eu também o conhecia "de outros carnavais". Falamos as duas neste fenómeno muito antes de ser conhecido. Suspeito que os teus receios se cumpram.

Já conhecia "Anda Estragar-me os Planos" na voz e interpretação de Sobral e desconfiava que a tinha ouvido algures. É bem melhor na versão deste rapaz.
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De Pequeno caso sério a 04.04.2019 às 23:23

Não sei se realmente percebemos o Conan...
Há alturas que acho que ele se tem divertido muitíssimo mais com tudo isto do que qualquer um de nós que estranha a sua roupa, a sua música(?),o seu...bailarino, a sua mensagem. Acho que é daqueles casos que é tão mau, que se torna bom.


Em relação ao Salvador, a música é,literalmente, outra.
Confesso que não foi amor à primeira vista. Contudo, depois de ouvir com a atenção que merece, fiquei rendida.
Quando fiz anos a minha filha ofereceu - me o álbum e desde então nunca mais parei de ouvir. Se gosto de todas as músicas da mesma maneira? Não. Nem era suposto que assim fosse.
E depois vens tu, com este "só um beijo" que ainda não conhecia.
É de uma simplicidade avassaladora. Acho que me emocionei ao ouvir...
Talvez porque esteja num dia particularmente "xoricas" .Talvez porque o que cantam os manos Sobral me seja (ainda) dolorosamente familiar.

... ...
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De Gaffe a 05.04.2019 às 00:25

:)*
Tão bom ter-te aqui de coração tão claro!
Ser "xoricas" não faz mal.

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