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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sonhadora

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.16

 

Quando era menina de bibe e totós, se me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia de imediato: reformada e chinesa.

 

Perdi a justificação para estas minhas ambições.

 

Fui aprendendo a reformular os sonhos, a adaptá-los e a modificar a luz do irrealizável, ocultando-lhe o brilho com véus opacos de modo a que apenas se iluminasse o círculo possível do chão que vou pisando.

Quando crescemos - e se crescemos - apenas as tocadas pelos deuses conseguem a façanha almejada de possuírem a eternidade com um perfil semelhante ao de Nefertiti. As outras, as mais quotidianas, deixam de sonhar com o glamour imperecível que as transforma em réplicas da belíssima rainha de Aquenáton. Descobrem lentamente que há sonhos que se vão esfarrapando à medida que a vida vai tentando coser os trapos com que procura esconder a nudez mais crua e que a réplica é apenas de carvão sobre papel.

 

Que sonhos podem ser diluídos e quais os que devem permanecer connosco até ao fim do tempo?

Se não podemos ser aquilo que queremos, valerá a pena ser outra coisa?

 

É sempre a desilusão que nos responde devagar. Não precisamos de varar a noite do nosso desassossego a procurar respostas. Chegam e reconhecemo-las como nossas, vindas com a poeira dos estilhaços que ficam depois da imperceptível derrocada das cintilantes bolas de sabão que nos rodearam a vida.

O esbater dos sonhos é um dos mais subtis processos de que há notícia. Crescemos quase sem sentir este esfumar. Deparamo-nos um dia a enfrentar a vida sem a nuvem do impulso do que já foi sonhado e surpreendemo-nos a pensar que a vida é assim.

 

Não há resignação na desistência, ou se ela existe, mascara-se com o convencimento de que o que acontece não é mais do que a realidade que nos bate à porta, mesmo sabendo que o real é pouco e mau vizinho.

Sobrevivemos depois do sonho tentando acreditar que tudo vale a pena, mesmo quando a alma não ficou grande coisa. Agarramo-nos à fantasia que cresce sem limite e acreditamos que ainda temos tempo para querer seja o que for e que não seja tudo, acomodando em nós as sombras do sonhado.

 

Não tenho nos cabelos a seda negra das lendas do oriente, mas ainda sonho com a reforma, muito mais enrugada e resmungona, numa ilha qualquer onde se tenha tudo e não uma outra coisa.

 

Foto - Gjon Mili, 1954

 

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1 rabisco

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De Corvo a 05.07.2016 às 21:34

Não sei, Gaffe: concordo consigo numas coisas, reparo melhor e vejo que não é bem assim, pergunto-me então por que não foi possível; paro e olhando quase toda a minha vida em retrospectiva concluo que só não foi possível aquilo que não dependia de mim.
Nunca na minha vida desisti de nada, fossem quais fossem as circunstâncias.
Por vezes vi-me tão grande, e sorri; outras tão pequenino e chorei, mas insisti sempre. Nunca parei nem me desviei do caminho.
E hoje posso dizer sem vaidade mas com orgulho que nunca perdi e fui eu quem sempre ganhou.
Não compreendo a desistência, passadeira convidativa à visita da depressão.
Sinto-me por vezes triste, muito triste mas nunca infeliz nem depressivo.
Por acaso quando eu era pequenino e me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, invariavelmente respondia: Ou presidente da república ou pedreiro.
Custou-me decidir e para não confundir ideias, nem uma coisa nem outra.
Acho que me alonguei por de mais, desculpe.

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