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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe vê uma história

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.19

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Do fundo dos séculos, a ordem estava escrita na memória dos povos.

 

Na ala abandonada do castelo, onde cresciam desgrenhadas silvas, despenteados troncos, furiosos ramos de árvores que enlouqueciam devagar; onde os lagos secos recolhiam folhas calcinadas; onde os pássaros tinham desistido de fazer os ninhos nos beirais destruídos das janelas fechadas e as estátuas de mármore branco e de alabastro tinham sido invadidas por líquenes e musgo; ali, no torreão mais alto, erguido na terra ressequida que se esvaía nos dedos das gentes cinzentas e queimadas, onde a desolação e a sombra matavam a luz estendendo os dedos por todas as estradas, armadas com punhais de medo e de ameaça, onde a morte espreitava em cada esquina, em cada passo, em cada choro de criança, a Princesa tinha sido encarcerada.

 

A ama vigiava.

 

Avançava lenta. Os veludos e véus pesados do vestido levantavam a poeira de prata que pousava nas folhas e nos anjos dos lagos de mármore mortos. Velha como o tempo dos segredos, vigiava.

 

Ao menor som, ao menor gesto, à mais pequena lágrima, a ama surgia, mordia e lancetava. Vinha e ceifava, quem ousasse tentar imaginar um fio de cabelo da Princesa.

Os corpos encontrados nas ruelas eram incendiados para que a peste não encontrasse modo de avançar. O fumo e as cinzas erguiam-se e aliavam-se à penumbra que se adensava sobre a terra. Tinha deixado de haver amanhecer. Havia apenas uma claridade amortecida, porque a luz não surgia no corpo das nuvens de poeira e cinza. O reino gemia de dor e desespero.

Os pássaros haviam desistido de cantar. Abriam as asas sem voar, pousados mudos nos braços das laranjeiras secas e os sussurros das ruas não chegavam a tocar as paredes do quarto de Sua Alteza. As horas desfiavam os seus fios invisíveis enredando o tempo. A Princesa mantinha-se quieta e muda. Tentava não pensar, escoar o que se sentia a sentir e que lhe apertava o peito sem se conhecer tenaz. Os dedos frágeis apertavam a ausência de memórias. Inventava os contornos, os desenhos herméticos, os símbolos e as insígnias da imensa solidão, mas não a sentia nunca por nunca a chegar a conhecer.

 

Ao canto do quarto, de dentro das sombras, erguia-se o corpo velho da ama que havia servido e protegido desde o começo dos tempos todas as Princesas.

Tinha sido a escolhida. Morreria a defendê-la. Nenhuma seta, nenhum punhal, nenhum veneno, nenhuma espécie de morte tocaria a bainha do vestido da menina sem antes tocar o seu coração gigante de animal protector.

 

De cem em cem anos, a Princesa assomava a uma das janelas do torreão.

A velha ao lado. Amaldiçoando os ganidos da multidão. Ganidos como ferros intermináveis, afiados pelo som de uma dor eterna.

Se os olhos da Princesa tocassem nos que choram, tudo seria perdoado. A terra abriria. A floração da Esperança. A luz inteira jorraria pelas ruas. O olhar da menina era o Milagre.  

 Mas Sua Alteza sorria, não olhava. Não os via. De cem em cem anos.

 

Apesar da desolação, do medo, da ameaça de condenação eterna, o povo daquele dia, cem anos passados deste um outro dia, arriscou a morte, que vida não era. Forçou o portão de ferro enferrujado. O que iam fazer era um sacrilégio.

Havia chegado o tempo que a ama temia.

 

Os gonzos rangeram e as portas abriram. Uma corrente de ar gelada rompeu pelo quarto e tocou nas mãos de Sua Alteza. A luz tocou-lhe a barra do vestido. Uma luz cansada e ferrugenta. O sol era diferente nesse dia? Os aromas que vinham dos jardins de longe tinham mais peso, sufocavam. A menina sentiu uma dor pairar naquele instante. Uma dor que não era a dela, mas que vinha devagar e se apoderava de tudo. Chispas de fúria e de ruído anunciavam o caminhar do povo. Ergueu-se e esperou. O ar tornava-se gelado. O denso azul da tarde tinha submetido o aposento, e a Princesa entendeu que da penumbra e da sombra, do escuro e da bruma, a ama não voltava. O frio era uma faca e a luminosidade era agora azul.

 

As portas abriram-se.

 

A luz ténue e dourada do exterior invadiu de manso o quarto e o povo entrou.

Partículas de poeira volteavam em redor de Sua Alteza e um perfume de sândalo começava a sentir-se, enrolando o ar, escondendo-se nas fendas das pedras das paredes. A menina aproximou-se estendendo as mãos. Sedas e veludos, rendas e brocados, arrastavam-se no chão de pedra polida. O barulho do vestido era diferente. Como se houvesse pressa, como se existisse urgência no caminho, como se houvesse gente à espera.

o povo trazia nos olhos o brilho do medo. Trémulo, de joelhos.

Naquele instante a Princesa entendeu.

Aproximou-se. Estendeu as mãos.

 

A bengala tombou no chão como um animal morto e então aquela gente ajoelhada viu em carne viva que a sua Princesa não via.

Era cega.

 

Ilustração - Olga Esther

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Gavetas:


14 rabiscos

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De Sarin a 29.10.2019 às 14:08

O desenrolar da história é dolorosamente bonito. Mas o desfecho assemelha-se assustadoramente a uma realidade que acontece a cada ano.
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De Gaffe a 29.10.2019 às 16:33

:(
Suspeito que em quase todas as vidas. Não sei. Às vezes estou cega.
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De naomedeemouvidos a 29.10.2019 às 23:01

Não estás. Aliás, és uma explosão de sentidos, uma habilíssima contadora de histórias no que o hábil tem de mais completo e generoso.
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De Gaffe a 29.10.2019 às 23:31

O que dizes é imenso e claramente demasiado.

Não é merecido. A história surge apenas porque me sinto triste.
(Ou cega.)
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De naomedeemouvidos a 29.10.2019 às 23:44

Eu sei que estás triste. E lamento. Mas, isso não altera em nada o que escrevi antes.
Espero que fiques bem.
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De Gaffe a 30.10.2019 às 10:52

Vou ficar.
Obrigada.
*
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De Rui Pereira a 29.10.2019 às 22:41

É bonita!
A história. A menina.
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De Gaffe a 29.10.2019 às 23:32

Espero que sim. Diz um duro esforço.
:)*
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De Rui Pereira a 30.10.2019 às 10:16

Não fez nada! ;)
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De Gaffe a 30.10.2019 às 10:53

Ai!
Ao pé de si, uma rapariga não pode fazer de conta que se esforça.
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De júlio farinha a 29.10.2019 às 22:48

Bonito e significante.
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De Gaffe a 29.10.2019 às 23:33

Procurei que o tivesse. O significado.
Não sei se a tornei bonita.
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De Pequeno caso sério a 29.10.2019 às 22:56

Caramba...tão bonito.

Tão bem escrito que quase nos sentimos presas nessa torre também.
Ainda que mal comparado, faz lembrar "só " um dos melhores livros que li na vida : "O Perfume" de Patrick Suskind.
Conheces?
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De Gaffe a 29.10.2019 às 23:35

Li "O Perfume" há anos. Já não recordo nada. Tenho de o reler.
Obrigada.
:)*

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