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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe violenta

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.19

Montelimar - August 29, 1944.jpg

Não existem escalas ou patamares para que possamos classificar a barbárie.

É desumano ousar dizer que determinado acto é passível de se considerar dentro da normalidade quando está imbuído de violência.

Encontrar espaços onde a selvajaria é susceptível de ser aceite como regular, por considerarmos ser menor do que aquela que observamos ou imaginamos um dia, é permitir a existência de um apodrecido sedimento de maldade sob os nossos pés e aceitar que desse chão se possa fazer caminho e que desse movediço solo se erga uma destruição maior, para só então condenar aquela a que assistimos.

 

Quando da queda dos nazis, a França rejubilou liberta.

A barbárie tinha sido vencida.

No entanto, os franceses precisaram de um período de crueldade imensa para travarem a destruição das almas e dos corpos a que tinham assistido, como se o avanço do horror os tivesse contagiado, beneficiando de um tempo de travagem gigantesco, e que nesse estancar lento do medonho fosse tido como normal, aceitável, a continuação do inferno.

 

Depois da Guerra, os franceses torturaram franceses. Traíram franceses. Denunciaram franceses. Enforcaram franceses. Fuzilaram franceses. Aqueles que foram considerados, justamente ou não, colaboracionistas foram alvo da fúria ensandecida e vingativa dos que foram vítimas.

 

Interessam-me as mulheres, só as mulheres, neste momento. Não todas. Ignoro, por exemplo, Chanel que se ficou pelas mãos dadas a altas patentes nazis e, mesmo assim, alegadamente, que Chanel continuou a ser cara.

Olho apenas as que nas ruas e nos ermos franceses ocupados tentavam sobreviver, ou aquelas que amaram homens errados, militares rasos inimigos, camponeses e operários transformados em raça armada e eleita, sem sequer entenderem o sentido da morte que os convenceram a carregar e a entranhar e que os transformou em assassinos.

Olho as que foram despidas e humilhadas publicamente. Espancadas por túneis de gente por onde eram obrigadas a passar. Raparam-lhes a cabeça. Foram proscritas. Amaldiçoadas.

 

A brutalidade desumana exercida sobre estas francesas, por franceses, não pode ser nunca ser minimizada por ter sido consequência de outra. Não é menor e também não é maior, não é igual, nem diferente, que a perpetrada anteriormente ou a que nos permitimos imaginar no futuro. Não tem - nunca teve, nem terá -, termo de comparação. Ergue-se sozinha no meio das gentes e é absolutamente ímpar em cada instante, exclusiva e excepcional na destruição que provoca.

 

Não há uma violência dentro do normal e se existem acórdãos, leis, julgados, julgamentos, recursos e sentenças que contrariam este postulado, é porque quem os escreve, fideliza ou a eles se vincula, é também gente capaz de rapar o cabelo a mulheres, de as despir, de as humilhar publicamente e de as fazer espancar em túneis de ódio, justificando esta barbárie com a mentira que lhe diz que há sempre outra maior.  

 

Na imagem - Montelimar,  França - civis franceses castigam uma mulher por envolvimento com um alemão.

 photo man_zps989a72a6.png

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18 rabiscos

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De naomedeemouvidos a 06.03.2019 às 11:18

Subscrevo o repúdio aqui claramente manifesto. As tentativas de branquear o que se escreveu em acórdãos miseráveis e ultrajantes para as mulheres (e não só), sobretudo, para as mais indefesas, dão-me náuseas. A tão exaltada - e necessária! - independência dos juízes era quanto bastava para, precisamente, travar os ímpetos arcaicos dos de Moura e outras sumidades do género. Se não conseguem julgar apenas com base na lei, são incompetentes para a tarefa a que se propuseram, à partida. As opiniões são outra coisa e, essas, podem mantê-las e viver com elas.
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De Gaffe a 06.03.2019 às 11:40

Ou morrer com elas muito devagarinho e muito longe das vítimas.
É mortal conviver toda a vida com estas opiniões. Fatal para os que as proclamam e fatal para as que as sofrem.
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De naomedeemouvidos a 06.03.2019 às 11:46

Ou isso. Melhor ainda. Se é que se pode chamar àquilo opiniões, antes de mais; mas, como vivemos num país livre...
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De Gaffe a 06.03.2019 às 11:54

Livre. Um país livre, fofinho e muito preocupado:

Decreto n.º 8/2019 - Diário da República n.º 46/2019, Série I de 2019-03-06
Presidência do Conselho de Ministros

Declara luto nacional de um dia pelas vítimas de violência doméstica.


Resolução do Conselho de Ministros n.º 52/2019 - Diário da República n.º 46/2019, Série I de 2019-03-06
Presidência do Conselho de Ministros

Cria uma comissão técnica multidisciplinar para a melhoria da prevenção e combate à violência doméstica.

Giro, não é?!
Mais um dia de luto e mais uma comissão. Neto de Moura será convidado?
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De naomedeemouvidos a 06.03.2019 às 13:03

Sem esquecer o workshop de maquilhagem. Dá sempre jeito. Aqui há uns anos, num país daqueles que Neto de Moura parece gostar de evocar, a televisão tinha um programa do género para ensinar mulheres a disfarçar marcas de mau humor dos maridos...
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De Gaffe a 06.03.2019 às 13:24

Falta tanto para conseguirmos descer das árvores.
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De Gaffe a 06.03.2019 às 13:29

O que mais me impressiona na fotografia que escolhi - creio mesmo que a escolhi por isso - é a mão que segura o queixo da rapariga que não consegue olhar para ninguém.
Aquela mão é absolutamente nojenta, obscena, vil e de uma violência atroz e continua a assinar acórdãos.
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De naomedeemouvidos a 06.03.2019 às 15:12

É a mais perfeita das metáforas. Completa, eloquente, terrível e perigosa.
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De naomedeemouvidos a 06.03.2019 às 15:24

Dizia eu que é a mais perfeita das metáforas. (fiquei momentaneamente sem net e acho que a minha resposta se perdeu)
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De Gaffe a 06.03.2019 às 16:04

Não. Não perdeu.
A fotografia pode perfeitamente deixar que o foco se concentre naquela metáfora.
É terrível e tão poderosamente eloquente.
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De Corvo a 06.03.2019 às 17:55

É, Gaffe. Se Neto Moura será convidado?
Talvez, ou não. O que certamente não deixará de lhe abrilhantar a secretária será a foto exposta.
A algum lado terá ido procurar inspiração para o seu sentido de justiça
Mudam-se os tempos perpetuam-se as vontades.
Mais do que a tesoura que violenta a indefesa cabeça, a mão que lhe conspurca a dignidade.
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De Gaffe a 06.03.2019 às 19:11

A secretária ou a "mesinha de cabeceira".
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De Genny a 06.03.2019 às 13:35

Um acórdão é assinado por três juízes. Onde estão os outros dois que assinaram estas barbaridades? Algumas dessas barbaridades contra mulheres foram assinadas por outras mulheres, e uma delas até disse que leu na diagonal e assinou sem prestar atenção.
Acho que já não há palavras para justificar isto em pleno século XXI...
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De Gaffe a 06.03.2019 às 14:34

Verdade.
Mas não me espanto.

Quem os informou que já estão no século XXI?!
Ninguém. Depreendia-se que tinham dado conta disso. Afinal, não.
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De Pequeno caso sério a 06.03.2019 às 13:39

Tudo certo no que escreves e embora não tenhas referido o nome daquele juiz que está na berra, não consegui deixar de estabelecer a relação.
Acho absolutamente hediondas as decisões tomadas por esse senhor (?) MAS assusta -me muitíssimo mais que parte da equipa desse juiz que validou tais decisões sejam MULHERES.
Isso sim . Quase tão revoltante como a mão que referes segurar o queixo da mulher da foto.
: /
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De Gaffe a 06.03.2019 às 14:32

Neto de Moura era coadjuvado por uma juíza que leu na diagonal o primeiro acórdão, mas que suspeito assinaria exactamente da mesma forma se fizesse o que devia fazer - pagam-lhe para isso - e o lesse correctamente.
É o bolor da justiça que invade tudo. Há uma camada de juízes velhíssimos e salazarentos em todas as Comarcas e produzem acórdãos em consonância.
Provavelmente são também os que olham, na fotografia.
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De Maria Araújo a 06.03.2019 às 23:22

Uma fotografia chocante que relacionei de imediato com o caso muito falado daquele senhor que vai deixar de julgar casos de violência doméstica, e que é o nojo da sociedade/ justiça.
O seu último parágrafo diz tudo.
Uma boa noite para si.

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De Gaffe a 07.03.2019 às 08:17

Uma estratégia parecida com a usada pelo Vaticano. O senhor vai pregar para outra freguesia.

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