Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe voadora

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.17

McClelland Barclay.JPG

 

Em tempo que já lá vão, era eu menina e moça, levada de casa de meus pais, introduziu-se-me na cabeça a ideia peregrina de abandonar tudo o que tinha iniciado e planeado levar a cabo e a bom porto e me transformar em comissária de bordo.

 

Com altura suficiente para esmagar rivais prováveis, magríssima, porque o choque alimentar e o jat lag gastronómico, me tinham arrancado o apetite voraz que sempre me caracterizou, e ruiva até à mais ínfima sarda, acreditei ter hipóteses de ser seleccionada pela Emirates Airlines num processo que decorria num dos hotéis mais famosos do Porto.

 

Do alto dos meus vinte e poucos anos, entrei sozinha e segura, de calças e de caracóis soltos na sensação de futilidade do acto, que se vinha tornando a cada passo que dava na alcatifa fofa uma tolice monumental a que não era indiferente um piquinho de desafio em relação à opinião – desfavorável, como se esperava - que não se tinham cansado de me ceder sem gastos.

 

Fui seleccionada.

Não foi grande vitória. Num rio de Barbies bastava nadar até à margem e não chocar com os Kens.

 

Deveria estar presente dois dias depois, manhã cedo, no mesmo hotel, mas desta vez com o cabelo apanhado, saia travada e tacões dispostos a humilhar o Evereste.  Esta pose estereotipada que assumi com prazer, prova que muitas vezes a submissão ao imaginário provavelmente machista não significa um abdicar da dignidade feminina, desde que cumpra os objectivos a que uma mulher se propõe.

                                                                                                         

A noção de vanidade e de vacuidade da minha candidatura foi crescendo ao lado da minha vontade de vencer o que se tinha tornado apenas um desafio sem consequências práticas.

 

Na manhã aprazada, a minha irmã aceitou adereçar-me. Condescendente, elaborou o uniforme, cumprindo as exigências descritas, e prendeu no meu pescoço o colar que me permitiria comprar o avião.   

 

- Usa-o - refilou, quando protestei. - Tens de os convencer que ser … aquilo é a tua verdadeira vocação e não um emprego mal pago que te permite andar de cabeça no ar.

 

Muito Grace Kelly, anui à vontade da minha irmã.

Seria transportada por ela que não queria perder uma pitada da minha provável humilhação.

 

Lembro-me que o trânsito - naquela manhã como em todas as outras -, nos obrigou a sair com uma antecedência significativa, que foi perdendo vantagem à medida que nos aproximávamos do destino que nos fez parar à porta do hotel sem qualquer respeito pelo fado.

Foi nesse instantinho que acordaram em mim a pirosa, a ranhosa, a pateta e a totó, sem que fossem travadas pela sobranceria da mana que olhava de soslaio pelo retrovisor o condutor que se tinha atrevido a buzinar e a barafustar contra o impedimento loiro e altivo que se tinha assestado no caminho e que agora empunhava o rímel pronto a perfurar os olhos ao condutor irritado.

 

O casaquinho?! Levo ou não levo? Ai, que levo. Ai, deixa-mo vestir. Ai, que me fica mal. Ai, que tenho de o tirar. Ai, que não me parece bem. Ai, que levo? Ai, que não levo? Ai, que dizes? Ai, que pareço uma catequista! Ai, e se não o levasse? Ai, que pareço uma ninfomaníaca sem ele! Ai, que vou mesmo assim. Ai, tu não achas que o devia levar vestido? Ai, levá-lo no braço é suburbano!

 

- Não vás. Estás com um atraso de um minuto. Manda o casaco.

 

Mas fui.

Desatei a correr esgaivotada, de tacões a tentar escapar dos interstícios das pedras e a tropeçar depois no pelinho do soalho, de saia a apertar-me a correria, de colar a dar-a-dar e com o soutien a saltar-me pela boca.

 

Cheguei três miseráveis minutos depois da hora estabelecida e a minha fulgurante carreira de comissária de bordo terminou ali, porque - disseram eles - tinha atrasado a partida do avião.

 

Passados anos sobre esta minha leviandade aeronáutica, se não continuo a atrasar os aviões, é porque vou de barco.

 

Imagem - McClelland Barclay

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


23 rabiscos

Imagem de perfil

De Corvo a 16.03.2017 às 10:56

Ficámos todos a ganhar, porque provavelmente se tivesse fugido à maior característica feminina e cumprisse horário, agora voava por outros céus e perdíamos os seus voos por aqui.
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 10:57

Isso é realmente verdade.
Mas as parvoíces da juventude devem ser sempre recordadas.
Imagem de perfil

De Corvo a 16.03.2017 às 13:08

Toda a juventude física e mentalmente sã comete parvoíces, e a menina lá terá cometido as suas, mas isso não é nem pode ser considerada uma parvoíce.
Qual a rapariga que o não deseja ser? Pelo menos uma ou mais vezes na vida.
Profissão linda, cultura, salário atractivo, amabilidade, elegância e educação, países estrangeiros, hotéis, conhecimentos, enfim...um mundo infindável de deleites.
E a Gaffe conseguiu. Foi escolhida e só o não é porque, tenho para mim que bem lá no fundo nunca o quis ser.
Se verdadeiramente quisesse, os três minutos de atraso ter-se-iam transformado em trinta minutos de avanço.
Quis provar a si mesma de que era capaz...e foi!
Parabéns!

Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 14:24

O salário não é de todo atraente. Um comissário de bordo ganha pouquíssimo.
As vantagens que aponta também não são seguras. São incertas e nem sempre se cumprem. O trabalho não tem o glamour que lhe é atribuído.

Sei de fonte segura.

A verdade é que tem razão. Nunca quis realmente ser o que desejei num momento tonto.
Acredito que estou no lugar certo. talvez porque duvide disso a cada momento que passa.
:)
Imagem de perfil

De Corvo a 16.03.2017 às 14:42

Bem, se o sabe com certeza só tenho de aceitar.
Na verdade não falei por conhecimentos próprios, mas sim pelo que ouvia dizer, pelo que se constava. Não é assim, pois que seja diferente e não pare o mundo de girar.
:)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 16:20

E os aviões de voar.
Imagem de perfil

De Corvo a 16.03.2017 às 16:50

E a Gaffe de postar
e de toda a menina, ao sol se bronzear.
:)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 19:12

Meu querido Corvo, as ruivas não se bronzeiam.
:(
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 16.03.2017 às 18:34

(peço desculpa pela intromissão)

Não duvides.
As "árvores" precisam das "folhas" que lá vais deixando.

;)*
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 19:10

Todos os dias. Todos os dias vejo crescer dentro de mim as raízes dessa árvore.
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 16.03.2017 às 19:12

Eu sei.
Ele também.

:)*
Imagem de perfil

De Kalila a 16.03.2017 às 17:36

Não voa a menina por céus de cafézinho de copo e sandes de morrer de fome mas voamos nós neste avião de sonho em classe acima de primeira ao ler este e outros textos seus. Parabéns!
(não estou a brincar, adorei!)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 19:11

:)
Tenho de aprender a gesticular também.
:)*
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 16.03.2017 às 18:39

Tenho de concordar com o Sr. corvo.
Se tu realmente quisesses ser comissária de bordo terias sido.
Suponho pelo que de ti vou conhecendo que, à excepção de boa cozinheira, podias ser o que quisesses que terias sucesso. Ainda assim, e mesmo não sendo os tachos o teu (nosso) forte , sei que até isso farás bem feito quando realmente a isso te propuseres.
:)

Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 19:09

Tu não és de fiar, porque és talvez a pessoa mais doce, mais gentil, mais amável e mais calorosa que me comenta.
:)*
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 16.03.2017 às 19:11

Sou, sou...
Havias de me apanhar quando acordo.

;)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 19:13

Até nisso temos qualquer coisinha em comum!
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 16.03.2017 às 19:17

p.s- não é só quando acordo...quando me tentam fazer passar por parva ou me mentem também sou um bocadinho bruta dos cornos. (pardon my french)

;)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 19:30

Mas repara que às vezes dá muito prazer fazer de conta que somos parvas, ou que acreditamos!
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 16.03.2017 às 19:38

Verdade. Adoro dar corda para se enforcarem.
;)
Imagem de perfil

De Gaffe a 16.03.2017 às 21:24

E fazem isso tão bem!!!
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 17.03.2017 às 16:36


Se fosse comissária de bordo, não estaria aqui a contar as belíssimas histórias que deleitam os nossos olhos.
Imaginei esta bela cena de um filme real.

Imagem de perfil

De Gaffe a 17.03.2017 às 18:34

Não corremos, ou voamos, esse risco.
:)))

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui