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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe über alles

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.18

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A primeira e última vez que a Gaffe andou num táxi, concluiu que deveria ter fretado um helicóptero. Ficava mais em conta, em linha recta, apanhava ar fresco e chegava a tempo e horas ao destino, sem pensar a todo o instante que ia sofre um AVC.

 

Esta rapariga sai de um aeroporto, vinda já não se recorda de onde, e fica a saber que ninguém a consegue ir retirar de um calor imenso de ananases, comprovando-se mais uma vez o quanto a humanidade é capaz das maiores atrocidades sem que as boas pessoas se indignem.  

 

A Gaffe sente-se no dever de avisar que as malas Prada não são as indicadas para arrastar nos pavimentos de granito. As rodinhas são minúsculas, metem-se nos dentes dos rochedos e fazem com uma criatura sinta que foi ao dentista e que o homem lhe enfiou o berbequim no cérebro. Não se adiantam outras hipóteses, pois que Serralves espreita.

Convém referir ao mesmo tempo que é de evitar pedir ajuda àquela espécie de militar que cruza as mãos em frente da pila, abre muito as pernas e se perde em meditação, focado num ponto que fica sempre uns malditos centímetros acima das nossas cabeças. Aponta sempre um dedo silencioso para um lado qualquer como se o estivesse a enfiar no rabo do papa, ou seja, muito lentamente e com pouca convicção e, com um esforço visível, ronca:

- Circule, faxávor.    

É gente pouco recomendável.

 

A Gaffe, absolutamente esgrouviada, de lenço Hermès – não há outros, pois não?! - a ensopar-lhe os caracóis, vestido sedoso e frágil colado ao corpo -  em insinuações que não agradariam de todo ao Conselho de Administração de um qualquer Museu -, e sabrinas Chanel - as pretas e brancas com picotados e lacinho de morrer de lindo -, tenta abrir a porta da carripana mais próxima.

Não. Aquilo estava em fila. Tinha de fretar o da frente.

Lá vai formosa e não segura – será que Camões já foi liricamente retirado do cardápio dos Iphones daquelas coisas adolescentes que vivem no instagram? -, tentar socorrer-se do primeiro da fila, senhor abastado de carnes e anafado de pêlo, que se tinha colado ao banco, apenas com a capacidade de mover a cabeça e esticar a manápula para forçar o manípulo da porta.   

A Gaffe entra na cápsula do tempo perdido em busca de sombra, pois que é uma rapariga em flor.

 

- É p’rá d’onde?      

  

No Douro, um dos petiscos mais populares é constituído por uma cebola crua, embutida em sal e vinagre, que se morde e mastiga misturada com broa. Depois os homens vão aniquilar os fungos das videiras, com o hálito.

O senhor taxista tinha decidido erradicar o míldio, logo ali, de vez.

A Gaffe balbuciou o endereço e o homem arrancou de cotovelos erguidos.

O albatroz que ronca.

A Gaffe vislumbrou o massacrado Iraque invadido injustamente por chusmas americanas, pois que as armas químicas se concentravam, isso sim, nas axilas do condutor do tanque onde esta rapariga amaldiçoava Blair, Aznar e Barroso, para se abstrair do drama que vivia em carne viva. A outra versão rondava defuntos em campos de batalha medieval, mas era alternativa inaceitável tendo em consideração que a idade Média era mais limpinha e não havia plástico para espalhar pelo chão dos viículos montorizados.   

   

A Gaffe olhava para os lados, tentando não mexer a cabeça com receio de a perder.

A Gaffe sentia que um movimento seu podia desencadear uma conversa ou um homicídio.

A Gaffe temia que uma prosa desacorrentada incluísse a luta de classes. Embora pronta e apta a imitar um comunista russo, um herói da Alemanha de Leste, um guerrilheiro cubano ou até Frida Khalo a cuspir para o chão - uma rapariga esperta sabe sempre como sobreviver nos desertos, mesmo nos ideológicos -, a Gaffe temia que o homem fosse o Franco expulso finalmente do Escorial, tendo em conta o cheiro.

    

O senhor cantava pelo caminho.

 

A meio do percurso, esta rapariga petrificada apercebeu-se que havia naquele receptáculo de missa negra uma voz feminina, ao fundo, que acompanhava o vozeirão tonitruante do cantor:

 

Tá turbinada
Tá toda turbinada
Tá turbinada
E não lhe falta nada

 

A Gaffe aceitou o suplício com a abnegação daquelas raparigas muito desprendidas de bens materiais que depois ouvem vozes e morrem assadas. Uma Joana d’Arc.

Cerrou os olhos. Acariciou a sua única amiga, a maldita mala Prada pesada que o senhor tinha ignorado quando percebeu que a tinha de enfiar na carripana e esperou a morte que poderia sobrevir a qualquer momento, por afogamento – a Gaffe diluía-se sem ar condicionado -, ou carbonizada. Que viesse o taxista e escolhesse.

 

Chegou ao destino depois de ter feito um percurso turístico pelo Porto inteiro afogueado. Um pouco mais de sol e era brasa.

Pagou, sem piar, fugiu sem asas e chegou apenas com penas.

 

O único consolo que lhe resta reporta-se ao karma. A Gaffe sabe que no algures perdido do século XX, os confrontos entre os antigos e velhos cocheiros de Lisboa e a Companhia Nacional de Auto-Transportes que inaugurou o serviço de carros de praça, deu no que deu. Já nessa altura se ouvia gritar:

Tàxis über alles!

 

Über alles, meus queridos.

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49 rabiscos

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De Maria Araújo a 26.09.2018 às 12:35

Ai, Gaffe, visualizei, como se fosse a sua sombra cada palavra que aqui registou!
Há momentos que sinto que esta classe é o pior retrato do nosso país.
Enfim.
Sabe o que penso?
Que perante as circunstâncias deste "belo" momento, a Gaffe é que estava:


Tá turbinada
Tá toda turbinada
Tá turbinada
E não lhe falta nada
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De Gaffe a 26.09.2018 às 13:32

Exactamente!!!!
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De amarquesademarvila a 26.09.2018 às 13:17

Ahahahahaha!!!! 😂😂😂😂😂 que descrição tão boa e tão real!!!!
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De Gaffe a 26.09.2018 às 13:30

Bem.
Não quero generalizar.
A minha experiência é curtíssima. Acredito que existam cavalheiros a guiar jaguares de "praça".
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De amarquesademarvila a 26.09.2018 às 15:29

Uma optimista, portanto! 😁😁😁
Claro que, como todas as regras, haverá excepções! 😉
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De Gaffe a 26.09.2018 às 15:49

Digamos que sou uma optimista de luto.
;)
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De Maria Araújo a 26.09.2018 às 15:36

E há, Gaffe, mas não em jaguares.
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De Gaffe a 26.09.2018 às 15:47

Sabe que suspeito que os cavalheiros não usam jaguares?
Sempre me pareceu que um jaguar é um carro muito feminino.
:)
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De Maria Araújo a 26.09.2018 às 15:54

Na verdade, pode ser um carro feminino.
Que me lembre, cá no burgo, conheço uma mulher que tem um, e os que vi são conduzidos por homens...alguns com aspecto de taxistas.
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De Gaffe a 26.09.2018 às 16:03

Exactamente.
São carros que devem apenas ser conduzidos por mulheres.
Os homens que se atrevem, são "garrafões" convencidos que são esculpidos em cristal. Acaba sempre por se perceber a anomalia do vidro de que são feitos. .
:)
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De Maria Araújo a 26.09.2018 às 16:11

A minha admiração é enorme, e sorrio, se de um fiat panda sai um rapagão com charme e distinto. Pelo contrário, se de um Mercedes, ou o tal Jaguar, vejo sair um bronco, nojento.
"Ó Deus, mi perdoa, tá?"
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De Gaffe a 26.09.2018 às 16:36

Minha querida,
Sou mais exigente. De um Fiat Panda só conseguem sair homens baixinhos e encolhidos. É difícil ter charme dentro de um Fiat Panda. Aquilo parece de corda.
Aliás é difícil ter charme ao volante de um Fiat. Ponto. Ou Punto.
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De Maria Araújo a 26.09.2018 às 17:43

Ahahah!
Eu exagerei propositadamente,Gaffe.
Mas também sabe que eu gosto de ver bons e lindos carros, só que sou modesta, prefiro um carro que não dê nas vistas.
Beijinhos
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De Gaffe a 26.09.2018 às 18:03

Eu entendi.
Mas repare que por muito modesto que seja o carro, NÓS, raparigas espertas, damos sempre nas vistas.
;)
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De Maria Araújo a 26.09.2018 às 20:22

Ui, eu não dou nada nas vistas.
Óbvio que se tivesse um carrão daria nas vistas e quem me visse sair dele pensaria o que algumas vezes penso das mulheres e homens que saem do carro e nada neles tem a ver com a máquina que conduzem.
E as aparências iludem, como sabemos.
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De Gaffe a 26.09.2018 às 20:34

Há formas desmesuradamente mais inteligentes de "se dar nas vistas".
Não creio que um carro cumpra essa função.
:)*
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De Maria Araújo a 26.09.2018 às 22:03

Claro que não, para muitos e muitas é o carro.
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:25

Mecânicos. O que se lhes há-de fazer?
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De Pequeno caso sério a 26.09.2018 às 22:20

Sobretudo ao volante de um FIAT 500 !
Eu tive um e adorei!
;)
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:24

A sério?
Eu tive um Citroen daqueles qualquer coisa minúscula! Era tão feio! Cor de café com leite.

Fiquei agora com saudades dele.
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De Pequeno caso sério a 26.09.2018 às 23:36

A sério.
Comprei-o em 2010 (tinha outro carro supostamente melhor e ninguém compreendeu a troca). O ano passado, deixei-o ir pela minha "paixão automobilística" de sempre .
Custou-me tanto que nem sequer fui capaz de o deixar no stand. Tive de pedir ao meu marido para fazer o "dirty job" por mim. Já tive alguns carros (nenhum deles Jaguar) e posso dizer-te que o Fiat 500 foi o carro que mais gostei de conduzir até hoje. A sensação de conduzir um carro da Barbie é impagável. Devias experimentar.

Dias depois de o ter deixado, enquanto esperava que a minha filha saísse da escola , vejo-o passar. Arranco a toda a velocidade e segui o carro para ver quem o conduzia. Uma miúda nova e gira que se farta.
Ficou bem entregue o meu menino...e o legado continua.
;)
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:44

Tão bonito!
Confesso que não crio ligações emocionais tão fortes com os carros, mas também me custou ter de abandonar o meu velhinho.

Agora quero lá saber.
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De Pequeno caso sério a 27.09.2018 às 00:14

Fazes bem. As ligações afetivas só se devem desenvolver por pessoas e/ou animais. Nunca por coisas. Mas eu, caguinchas confessa, acho que até por aquele par de óculos de mil nove e troca o passo, me custo a desapegar. Uma merda isto, mas não sei ser de outra forma.
:/
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De Gaffe a 27.09.2018 às 07:22

Raros são os objectos a que me ligo dessa forma. Sou consumista. Se me dedicasse a tudo, facilmente me transformava numa acumuladora.
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:51

A minha irmã tem um Jaguar brutal de tão bonito. Podes não acreditar, mas é muito discreto ... ou então é ela que lhe rouba o protagonismo. Guiei-o duas ou três vezes. Não gostei muito. Uma besta toda apetrechada nunca nos faz sentir criativas. Mas ficava-me bem. É verde garrafa, muito escuro. "Liga" a cor do meu cabelo.

(Somos tão, mas tão, mulheres!)
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De Pequeno caso sério a 26.09.2018 às 23:55

Aposto que darias muito mais nas vistas a conduzir um Fiat 500. O desafio é só caberes lá dentro.
;)
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:59

Infelizmente só se conduzir do banco traseiro.

... Não parece má ideia ... depende muito do pendura.
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De Pequeno caso sério a 27.09.2018 às 00:17

Posso garantir - te que os carros pequenos nos levam a ser muito...criativas.
;)
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De Gaffe a 27.09.2018 às 07:12

Já os carros grandes permitem mais convidados ...
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:53

Agora falta o "com"!
Faz-me o favor de usar o que estava amais num comentário anterior.
;)
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De Pedro Wasari a 26.09.2018 às 14:31

Soberbo!

A falta que os seus escritos fazem, bem "re-vinda"

Vi no seu perfil que nasceu num dia 27 de Abril, eu que nasci num 28 do mesmo mês, deveria ter pelo menos 1/8 da capacidade que tem para contar histórias com muito "sumo". Mas não tenho.
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De Gaffe a 26.09.2018 às 15:48

Oh!
Se o menino não escreve, não nos deixa avaliar essa sua tão severa avaliação.

(Obrigada, meu querido.)
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De Magda L Pais a 26.09.2018 às 14:41

até m'engasgei com a gargalhada que dei. Oh senhores, que coisa mais bem discrita ahahahahah
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De Gaffe a 26.09.2018 às 15:49

:))))
Fez-se o que se podia, dadas as circunstâncias.
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De JLynce a 26.09.2018 às 15:00

hehehe...
Uma péssima experiência, de facto
:)))
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De Gaffe a 26.09.2018 às 15:50

As péssimas experiências, são pedagogas e pedagógicas...
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De Pequeno caso sério a 26.09.2018 às 22:23

Pensa que podia ser pior.
Podia ser num autocarro/metro. Em hora de ponta. Bhlécc!

;)
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:28

Não podia, minha amiga. Essas são duas coisa que me recuso a fazer. Ainda tenho perninhas ... dizem que "bem boas" ...

(Estás zangada comigo? Não respondes aos meus emails!)
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De Pequeno caso sério a 26.09.2018 às 23:53

Boas e (aposto) que longas. Quase do meu tamanho.
:)))))))))))))

(eu????? zangada contigo??????? jamais! então se te sinto a falta todos os dias ia lá agora zangar-me contigo. Sucede que , como já te expliquei, aquela não é a minha conta de mail "normal" , maneiras que nem sempre a abro.
Agora já fui ver e abri os links que me deste. Sobre o primeiro tenho a dizer-te que também eu fotografei hoje uma coisa ao género do Mapplethorpe , que originou o post de amanhã. Envolve sexo e moscas.Acho que vais gostar de ler.
Quanto ao segundo link , creio que a senhora (?) é um belo "personagem". Ia dar-se bem com o diácono Remédios.)
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:57

Sexo e moscas é o meu cardápio favorito.
:)
As moscas normalmente aparecem anónimas.

(Enfim, o sexo às vezes também)
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De Pequeno caso sério a 27.09.2018 às 00:15

AHAHAHAH
(as saudades que tinha disto...)
:)*
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De Pequeno caso sério a 26.09.2018 às 22:26

Sôdona Gaffe a citar Ana Malhoa...
Pronto.
Já assisti a TUDO nesta vida.
:))))))))
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:37

Insinuei Proust, um cheirinho a Camões e mais uma ou outra coisinha com presunçosa, mas não referi Ana Malhoa (de quem aliás sou fã!)
Tu não me digas que é ela a turbinada!
Não fazia ideia!
Já a viste numa reportagem fotográfica, não sei de quem, em que AM aparece absolutamente vamp dos anos 40/50? Irreconhecível. Francamente bem. Quase maravilhosa de tão fatal e boazona-chic.
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De Pequeno caso sério a 26.09.2018 às 23:59

Ahahahahahahhahahah...
Ai tu não sabias que a turbinada era a Malhoa?! Maravilhoso!
:))))))))))))))))))

A Malhoa é um canhão. Não havia necessidade de se estragar a cantar(?) aquelas coisas...
Não conheço a reportagem mas vou pesquisar.
;)

('tás a ver porque é que me fazes tanta falta?)


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De Gaffe a 27.09.2018 às 00:03

É uma reportagem óptima e a Malhoa encarna lindamente a vamp dos anos 50, a mulher fatal, sofisticada e misteriosa. Ficou muito bonita. Absolutamente nada turbinada. Não consigo lembrar-me do fotógrafo!
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De Pequeno caso sério a 27.09.2018 às 00:23

Acho que descobri... Revista "Cristina" .
Só me ocorre uma expressão:

Hollywoodescamente Divinal.

;)
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De Gaffe a 27.09.2018 às 07:11

Não sei se foi nessa revista que encontrei. Creio que foi na net.
Seja como for, a mulher arrasou.
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De Gaffe a 26.09.2018 às 23:39

Há um "com" ali wm cima a mais. Faz de conta que ladra à moda do Porto.
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De Pequeno caso sério a 27.09.2018 às 00:47

AHAHAHAHAHAHAHAHAH
Ladrar à moda do Porto é muito bom!
Só tu.
;)

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