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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe inquisitorial

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.16

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Este é o calor de Espanha Inquisitorial.

 

Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo das paredes, para sulcar no curvar do espaço a mais pequena folha do loureiro. 

A poeira extenuada quieta abrasa. A cal escalda branca só de sede e aos degraus das horas trepam cães perdidos.

O lacrau na cal. A carne em carne-viva dos morangos. O lanho das laranjas labaredas.

As agulhas do sol picam os pássaros parados na água extenuada, quente, com peixes apunhalados pela luz de ferro que se espetou no corpo em cicatriz de espera.

O sol de Espanha dos inquisidores uiva à meia-noite.

 

Calor que arrasta mulheres antigas por pátios de laranja quente. Mulheres de Espanha e de veludos negros, veladas por mantilhas, tapadas pelo ouro dos massacres. Mulheres de rendas pretas e pesadas de olhos atados a incêndios. Cegas, lume a lume, lança a lança, atravessadas pela adaga das cruzes de marfim. Mulheres de sevilhana nas asas do cabelo a arder de seda contra a sombra, a entrançar nos dedos orações. Dedos fechados nas crinas do erotismo do sol erguido a prumo.

Mulheres deitadas na pele do Cristo nu. De punhos cerrados e almas sem penumbra a espiar a sombra dos sussurros.  

.
Voy a cerrar los ojos y tapear los oidos
Y verter outro mar sobre mis redes
Y enderezar un pino imaginário
Y desatar un viento que me arrastre 

 

O Calor é sempre inquisitorial.

 

Imagem - Carlo DolciMadonna (detalhe)

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