urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidasA Gaffe e as avenidasUm blog ruivo.LiveJournal / SAPO BlogsGaffe2020-06-03T10:38:06Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:9001132020-05-29T10:55:00A Gaffe aqui e acolá2020-05-29T09:54:00Z2020-06-03T10:38:06Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a title="nova morada" href="https://agaffe-easavenidas.blogspot.com/" target="_blank" rel="noopener"><img class="" style="width: 650px;padding: 5px 5px;" title="nova morada" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G7d18c14a/21820425_mHCtf.jpeg" alt="nova morada" width="650" height="842" /></a></p>
<p>Quase um mês depois - mais dia, menos dia -, a Gaffe já é capaz de colocar frente a frente as duas plataformas que a apoiam. A primeira há imensos anos, a segunda muito mais imberbe.</p>
<p>É bem verdade que esta menina irrequieta não descansava enquanto não experimentasse passear nos domínios do vizinho e, com a urgência de descontrair um bocadinho mais que o habitual, tentar fazer dançar os malabarismos dos códigos nas entranhas do desconhecido.</p>
<p>É evidente que esta rapariga esperta não consegue dispensar a antiga, <strong>aqui</strong>, e a nova, <strong><a href="https://agaffe-easavenidas.blogspot.com/" target="_blank" rel="noopener">acolá</a></strong>. Pensou manter rabiscos nas duas, colocando numa as suas <em>cuesias</em>, o azeite das suas receitinhas de bolinhos e da playlist, e na outra uns desabafos mais intimistas, uns olhares desconsolados para o mundo que a rodeia, as tragédias caseirinhas que a vão apoquentando, mas admite que baloiça, não se decidindo qual a mais adequada às suas andanças de etiquetas. </p>
<p>São manifestas as pequenas diferenças entre estes seus dois amores.</p>
<p>Certa é a facilidade com que, <strong>acolá</strong>, se manipulam as características do blogue, como se altera o seu aspecto, como se manuseiam os segredos dos códigos e os mistérios do CSS. Por estranho que possa parecer, as reviravoltas codificadas são mais fáceis de dar <strong>acolá</strong> do que <strong>aqui</strong>. É muito importante este dado para uma rapariga volátil, inconstante e incapaz de deixar sossegadas as entranhas dos templates. A Gaffe arrancou os dentes às <em>nuances</em> originais do tema escolhido <strong>acolá</strong> e cravou a dentadura que entendeu, sem ter de usar o berbequim ou a broca do esgotamento mental. Um ponto a favor para <strong>acolá</strong>.</p>
<p>Jogando a favor do <strong>aqui</strong>, encontra-se a facilidade de interacção disponibilizada. No <strong>acolá</strong> é miserável, distorcida e incompleta, repleta de falhas que dificultam ou impossibilitam mesmo os comentários de quem quer que seja. Um horror que a plataforma tem tentado suprir, apoiando o utilizador com algum distanciamento que não convence - por ser demasiado gelado e demorado - e que contrasta com a atenção, a disponibilidade quase imediata, o carinho, o respeito e o profissionalismo da equipa <strong><a href="https://blogs.blogs.sapo.pt/?utm_source=bsu&utm_medium=web&utm_campaign=bsu_footer&utm_content=blogs.sapo.pt" target="_blank" rel="noopener">SAPO</a></strong>.</p>
<p>Convém referir, no entanto, que as tão elogiadas – e verdadeiras - comunidades que se foram fomentando ao longo dos avanços do tempo nesta plataforma, existem comprovadamente na de <strong>acolá</strong>, apesar de mais cerradas e talvez mais imperceptíveis. Encontramos fidelidades, lealdades, fascínios perenes, amizades e cumplicidades, em todo o lado. Na plataforma do <strong>acolá</strong> talvez sejam mais difíceis de construir do que aqueles que se solidificam <strong>aqui</strong>, provavelmente devido às possibilidades que a equipa <strong>SAPO</strong> vai oferecendo, com, por exemplo, as rubricas <em>tags</em>, <em>desafios</em>, <em>mais lidos</em>, <em>últimos posts</em> e <em>destaques</em>.</p>
<p>Seja como for, a constância, a persistência da interacção e a identificação de grupo, são essenciais às duas plataformas como troca de opiniões e de gestos assíduos. Quer numa, quer noutra, a presença das nossas florinhas nos canteiros dos vizinhos, através de carradas de comentários tantas vezes tontinhos, é facilitadora de fidelizações, fomentando a criação de círculos que muitas vezes se tornam difíceis de quebrar. </p>
<p>Uma outra característica que é útil sublinhar tem a ver com os escritos.</p>
<p><strong>Acolá</strong> escreve-se extraordinariamente bem. Talvez se escreva melhor do que <strong>aqui</strong>. A quantidade de blogues que surpreendem pela qualidade literária da escrita - ou pelo maior gosto com que os lemos, dado que não somos críticos literários com pergaminhos firmados para sustentar a primeira afirmação – aparentam estar <strong>acolá</strong> em número superior. Não desmerece, não desvaloriza, não menospreza e não diminui, de forma nenhuma, o que se escreve <strong>aqui</strong>, mas, <em>há que assumi-lo com frontalidade</em>, os textos que a Gaffe tem lido <strong>acolá</strong> parecem-lhe mais <em>trabalhados</em> do que aqueles que se encontram <strong>aqui</strong>. Um pequeno número está na selecção exposta na barra lateral destas Avenidas que reúne alguns dos mais fantásticos autores que se encontram nas esplanadas alheias. Seria muito interessante revelar as faixas etárias que maioritariamente escrevem <strong>aqui</strong> e <strong>acolá</strong>. Suspeita-se que a qualidade literária se alia à maturidade literária e as duas são consequência também da maturidade do autor. Provavelmente <strong>aqui</strong> os jovens são em maior número. Como a juventude é quase sempre um ponto a favor nas futuras andanças do destino, nos empenhos de alegria, nas revoltas e mudanças, talvez <strong>aqui</strong> se encontre uma promessa de vitória. </p>
<p> </p>
<p>Posto isto, meus amores, a Gaffe vai para dentro que está demasiado calor para se ficar <strong>aqui</strong> à toa esperando que Godot surja <strong>acolá</strong>, numa rajada de vento inconstante. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8999942020-05-01T12:16:00A Gaffe muda de casa2020-05-01T11:21:54Z2020-05-19T08:50:37Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a class="blog-img-link" title="Gaffe" href="https://agaffe-easavenidas.blogspot.com/" rel="noopener"><img class="" style="width: 540px; padding: 1px 1px;" title="Gaffe" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G81186717/21792762_ttwT5.jpeg" alt="Gaffe" width="540" height="675" /></a></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><span style="color: #993300;"><strong><span style="font-size: 24pt;"><a style="color: #993300;" href="https://agaffe-easavenidas.blogspot.com/" target="_blank" rel="noopener">Nova morada</a></span></strong></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8997542020-04-30T12:20:00A Gaffe procura casa2020-04-30T11:44:57Z2020-04-30T11:44:57Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a title="agaffe-easavenidas" href="https://agaffe-easavenidas.blogspot.com/" target="_blank" rel="noopener"><img style="width: 1280px; padding: 1px 1px;" title="ladybug.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gd717a5cb/21791386_qaTSc.jpeg" alt="ladybug.jpg" width="1280" height="815" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Provavelmente a Gaffe pandémica amadureceu, envelheceu, senilizou e passou a acreditar que uma planície menos verdejante, mais seca, mais despojada, saudavelmente mais pirosa, <strong>absolutamente Barbie</strong>, repleta de detalhes inúteis, fúteis, superficiais e soltos das subtis amarras que se iam apertando à medida que as interacções surgiam e as rotinas se estabeleciam, seria uma forma de respirar o que os entendidos reportam como <em>nova normalidade</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Mais fria e é seguro que muito mais longínqua, a plataforma que surge como <strong>hipotético</strong> novo albergue desta rapariga que sempre se quis superficial, poderá refrescar e iluminar os sombrios passeios que por aqui ultimamente se vão palmilhando. </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">É uma decisão estranha - sobretudo tendo em consideração que esta rapariga foi outrora lindamente mimada nesta plataforma -, mas que foi crescendo até se tornar uma inevitabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Não é de todo certo que seja um abandono batráquio</strong>. É apenas uma outra hipótese, uma nova experiência já tacteada - mas que ficou por cuidar -, algures no tempo passado e em momento de <em>spleen</em>. </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">A Gaffe deixa de contar com a habitual amabilidade das suas visitas e torna-se mais solitária. Tendo em conta que a solidão é também um dos refúgios dos tímidos, é seguro que a Gaffe espera encontrar ali pelo menos um exército.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Basta que se acrescente um hífen, um ligeiríssimo <em>afastamento social</em>, entre a <a href="https://agaffe-easavenidas.blogspot.com/" target="_blank" rel="noopener"><span style="color: #800000;"><strong>Gaffe e as suas Avenidas</strong></span></a>, para encontrar a possível nova morada desta rapariga inconstante. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8994042020-04-29T10:32:00A Gaffe contabilista2020-04-29T09:39:54Z2020-04-29T09:39:54Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 800px; padding: 1px 1px;" title="Gaffe" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ged1718ed/21789898_FSl3U.jpeg" alt="Gaffe" width="800" height="600" /></p>
<p>A senhora de lábios tombados e sobrancelha erguida dispara o fruto seco:</p>
<p><strong>- Com esse feitiozinho gostava bem de saber o número de namorados que já teve ...</strong></p>
<p>A minha irmã, mimando o ar atenuado das estrelas:</p>
<p><strong>- Meus ou das outras?</strong></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-size: 10pt;"><em>Mana</em></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8992152020-04-28T15:44:00A Gaffe já nas bancas2020-04-28T14:46:09Z2020-05-14T08:50:43Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 595px; padding: 1px 1px;" title="G. Mag." src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G9c1785c3/21788960_ukqYL.jpeg" alt="G. Mag." width="595" height="734" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8988372020-04-27T13:37:00A Gaffe encoberta2020-04-27T12:43:37Z2020-04-27T20:23:23Z<div class="posttext">
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 700px; padding: 4px 4px;" title="René Magritte -1958" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gdd1859ff/21787474_QdPOP.jpeg" alt="René Magritte -1958" width="700" height="521" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: right;"><span style="font-size: 8pt; color: #808080;"><em><strong>(A Abril)</strong></em></span></p>
<p style="text-align: justify;">A casa encoberta enche-se de navalhas de luz por esta altura.</p>
<br />
<p style="text-align: justify;">Lanhos luminosos que se estilhaçam nos ladrilhos, que surpreendem as esquinas dos móveis e se estiram devagar prolongando o brilho dos tampos das mesas e dos corrimãos.</p>
<br />
<p style="text-align: justify;">No Douro há esta casa oculta que permite a luz, que deixa que os clarões do sol invadam o sossego e que consente a enganosa sensação de ser habitada pela claridade mais límpida, pela imaculada cor do sol que se mistura nela.</p>
<br />
<p style="text-align: justify;">No Douro, esta casa medonha enclausurou a melancolia dos distúrbios do sol no chão e nas paredes e as infantilidades luminosas que trepam os degraus e se dependuram nos umbrais das portas e janelas.</p>
<br />
<p style="text-align: justify;">A casa trespassada pela luz, como se a luz não fosse mais do que um punhal.</p>
<br />
<p style="text-align: justify;">Gosto da luz desta casa encoberta que me redime e deixa extenuada, porque se derrama e propaga como nenhuma outra claridade o faz dentro de nós que a autorizamos a entrar, porque me lava e limpa e me deixa dentro dissipada, por ser a única, a última, que dentro das paredes da clausura me permite, dentro da cegueira, olhar e ver a escuridão passada.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-size: 8pt; color: #999999;">Imagem - <strong>René Magritte</strong></span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8983982020-04-15T16:15:00A Gaffe sem regressos2020-04-15T15:22:58Z2020-04-15T16:28:56Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 540px; padding: 1px 1px;" title="molesK.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ge01886bd/21769655_GiFot.jpeg" alt="molesK.jpg" width="540" height="810" /></p>
<p> </p>
<p>Deitava-me no chão de madeira encerada e permanecia horas inteiras a aflorar as tábuas do soalho com a polpa dos dedos.</p>
<p>Com a cabeça tombada num dos braços que me servia de almofada, pousava o insecto de uma das minhas mãos na pele do chão e traçava labirintos de jardins inventados.</p>
<p>Tudo era simples, como o silêncio que me apaziguava. Ficava pousada no chão como um inevitável facto e entre o soalho e o meu corpo havia um lençol de plumas estendido que impedia a mácula, atenuando o encontro agressivo com o chão.</p>
<p> </p>
<p>Estas minhas ausências despertaram a indignação da minha avó que me proibiu aquelas imobilidades suspeitas, evocando vestidos que se sujam - o meu vestido de linho azul com miosótis bordados a cheio pela Jacinta -, ou entraves à contradança das empregadas.</p>
<p> </p>
<p>As tardes de mapas no soalho tornaram-se mais espaçadas e de certo modo diferentes. Deixou de existir um manso toque para passar a haver um risco rígido, um raspar nas frinchas deixadas pelas uniões das tábuas ou nos lanhos que a madeira antiga deixava irremediavelmente por curar. Tentava escavacar o chão, procurando lancetar ou aprofundar as feridas da madeira. A cera quinzenal colocava compressas nestes rasgos, mas nas tardes distraídas da minha avó voltava a abrir aquela solidão de madeira. Quando o sol deixava as sombras soltas pelo chão, acabava pertença do soalho. Os reflexos de luz toldavam-me os olhos, sentia a pele misturada com brilhos dourados e os fios do meu cabelo enganavam os veios da madeira.</p>
<p> </p>
<p>A memória dessas tardes chega hoje como lenços a acenar, isenta de som, com se a mudez daqueles momentos contaminasse as recordações que deles tenho. Talvez a responsabilidade desta ausência de ruído não seja minha. Talvez o silêncio fosse um erro exterior a mim.</p>
<p> </p>
<p>Agora o soalho não é encerado de quinze em quinze dias e mesmo o ranger das tábuas parece diluído.</p>
<p> </p>
<p>Pesa de perfume o ar que não respiro agora, mas que me entra baço nas narinas e há escuro desperto nas rajadas de luz que entram pelas janelas. Não há vento e sinto as folhas esbaforidas a rodopiar lá fora. Estou aqui e sinto frio, como se tivessem aberto as portas todas e as correntes do ar enfurecidas viessem galopar o meu espaço.</p>
<p> </p>
<p>Onde fiquei? É mesmo aqui que existo ou estou perdida nas folhas do meu álbum? Vou pairar, tenho a certeza, voar ou levitar e chegar ali, à minha infância, e, contudo, calco o chão agora como se dele nunca tivesse erguido os pés.</p>
<p> </p>
<p>Atravesso a sala. Desvio-me dos móveis. Sei-os de cor. Os meus dedos esbarram nas esquinas e escorregam depois na pele de vidro da jarra onde matavam as mimosas. Não tenho medo. Agora não há perigo. Posso quebrar tudo o que quiser sem temer que escondam o meu erro. Já não fico com segredos repartidos e com o medonho medo dos meus cúmplices que ganhavam o poder de me moldar ou arrastar para culpas divididas.</p>
<p>Como se soubesse agora do que tenho a culpa.</p>
<p> </p>
<p>Toco nas paredes, encosto-me de manso, de modo que os meus ombros se misturem com a surpresa de me ver aqui, com esta espécie de ondular que sinto e que é memória ainda do berço que baloiçava nos braços da minha avó.</p>
<p>Caminho devagar.</p>
<p>É grande, a sala, mas tudo é tão pequeno. O modo de eu a olhar é tão diferente! Mesmo a poeira batida pela luz não tem doirados e não fica presa nas patas do tempo. Tomba como uma sonâmbula no soalho e nada resta para esvoaçar depois. A minha escala é outra. Já cresci. Os meus olhos antigos não os uso agora e não consigo inventar estradas para deixar passar as tribos que inventava, entre a porta grande - grande, grande, imensa, enorme, que se abria para a minha avó entrar em contraluz - e o esconderijo do meu peito.</p>
<p> </p>
<p>Nada tem a dimensão da infância.</p>
<p> </p>
<p>Nada fica igual, quando da porta ao quarto se cavam pesadelos e as distâncias se traçam no interior da vida. Nada permanece, a não ser o ido.</p>
<p>Não há regressos. Não há <em>normalidade</em>.</p>
<p> </p>
<p>Deito-me no chão. Ergo os braços, estendo as mãos para o tecto. Deixo-as tombar depois vazias e adormeço.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8980912020-04-12T21:20:00A Gaffe numa páscoa possível2020-04-12T20:20:44Z2020-04-12T21:42:56Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img class="" style="width: 684px; padding: 1px 1px;" title="Páscoa Feliz" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G62172784/21765405_pr4S1.jpeg" alt="Páscoa Feliz" width="684" height="960" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8978532020-04-10T17:07:00A Gaffe cativa2020-04-10T16:14:26Z2020-05-14T08:50:06Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 595px; padding: 1px 1px;" title="Covid.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gfa18e89b/21761204_YQRrR.jpeg" alt="Covid.jpg" width="595" height="734" /></p>
<p style="text-align: justify;">O que se repete de forma constante, pode nunca deixar de ser verdade, mas é atenuada, com a insistência que banaliza, a percepção da importância do dito. A verdade às vezes torna-se apenas um <em>slogan </em>e quase todos os <em>slogans </em>são, numa análise primária, actos de publicidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Pese embora a <strong>repetição </strong>seja uma manobra de eficácia publicitária comprovada, usada e abusada por quem sabe, a consciência aguda de determinado facto - nos casos em que o <em>slogan </em>cumpre a sua função, apresentando-nos um imaginário que afasta o real -, é acordada apenas quando é o indivíduo a sofrer no corpo a veracidade do cartaz. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8975072020-04-06T14:10:00A Gaffe sem Primavera2020-04-06T13:15:13Z2020-04-07T17:50:10Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img class="" style="width: 540px; padding: 1px 1px;" title="c.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gfe179c1f/21755150_14e6v.jpeg" alt="c.jpg" width="540" height="735" /></p>
<p style="text-align: justify;">Esta casa foi adquirindo uma entidade própria e uma determinação indómita. Foi, enquanto o tempo envelhecia, sobrepondo o desejo das pedras à vontade do dono de modo que se deixou de perceber quem domina quem. Como no poema, o senhor tornou-se servo, por amor.</p>
<p>Esta casa vai construindo as ordens, vai solidificando o poder da pedra sobre a carne, vai erguendo o seu esmagador domínio sobre quem a deixou de ter, porque ela o tem. Decide quem entra, escolhe quem será expulso e responde agressiva àqueles que sem o seu consentimento se atrevem a passar. Não passam se forem ameaça. Não passam se lhe causarem ciúmes. Não são acolhidos se arriscam o amor daqueles que são dela. Não permite a invasão da mais ínfima partícula de almas estranhas. Impede a luminosidade dos pássaros e a cumplicidade dos amantes.</p>
<p>Esta casa contém o interdito e cuida dos fantasmas.</p>
<p> </p>
<p>É a ela a que chego agora. É dentro dela que retorno a mim, que me sinto dentro, por dentro. É dentro dela que fico em mim, a sentir o partir dos outros, dos que ficam a latejar nas pedras presas nas solidões que tombam como gotas grossas das águas das árvores depois de chover, em silêncio. </p>
<p> </p>
<p>É nesta casa que me recolho em mim e que reaprendo os pequenos passos, os mais breves gestos. Pormenores.</p>
<p>É nesta casa que toco nas pequenas, pequenas, pequenas, coisas. Nas toalhas de linho com monogramas bordados. No perfume de hortelã dos aventais da Jacinta agora morta. Na jarra de porcelana com peixes no dorso. Na cigarreira de prata sobre a escrivaninha. No papel de carta opalino pousado perto da imagem de marfim de um deus antigo. No constrangido marcador do livro que ninguém acaba. Nas folhas secas de tília mal florida que esperam por tisanas de abandono e de anoitecer. Na abóbada das mãos erguidas da imagem da Virgem do Amparo secular - <em>que o seu santo manto nos cubra e nos porteja, hoje e para todo o sempre</em>. Na tristeza que entardece este silêncio de gato enroscado no chão quente das cozinhas. No peso dos cortinados que se fecham sobre a luz cinzenta das copas de chuva dos candeeiros de mesa. Nos murmúrios das madeiras nocturnas e sozinhas.</p>
<p>É nesta casa que me deito dentro da sombra onde isolo a minha vida, no toque das pequenas coisas descobertas e neste poder da pedra sobre mim, sobre uma Primavera desgrenhada que emerge espantada e por iluminar.</p>
<p> </p>
<p>É nesta casa que afloro as mais pequenas coisas esquecidas e é dentro delas que pressinto a urgência da memória para nos salvar a vida. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8972372020-04-02T16:17:00A Gaffe confinada2020-04-02T15:19:50Z2020-05-14T08:51:36Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 650px; padding: 5px 5px;" title="Corona.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gbf189a4c/21750944_Zlat2.jpeg" alt="Corona.jpg" width="650" height="857" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8966962020-03-30T17:09:00A Gaffe do Holandês2020-03-30T16:15:18Z2020-05-14T08:52:24Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 540px; padding: 5px 5px;" title="Holanda.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gba18bf1c/21747276_M6aUk.jpeg" alt="Holanda.jpg" width="540" height="597" /></p>
<p> </p>
<p>Existia, para uso dos seus oradores encartados, uma lista de termos insultuosos destinados a classificar o inimigo capitalista, aprovada pela antiga Alemanha de Leste que incluía:</p>
<p><em>Bajuladores, paralíticos, estéries traidores da humanidade, servis imitadores de comedores de cadáveres, covardes e colaboradores, bando de assassinos de mulheres, turba degenerada de parasitas tradicionalistas, soldados boémios e janotas presunçosos</em>. </p>
<p> </p>
<p>Felizmente que o muro de Berlim foi derrubado e a lista se perdeu debaixo das pedras.</p>
<p> </p>
<p>Não há notícia de ali constar qualquer referência maldosa a ministros holandeses das finanças, como por exemplo:</p>
<p><em> Tulipas de sangue frio com complexos de superioridade; afectados e enfatuados com a mania que conquistaram terra ao mar, mas que ainda não perceberam que não devem ferver toda a comida - incluindo o pão; toiros metafóricos, inchados e insinuantes, de ossos gelatinosos, que carregam nos dorsos as suas colecções de porcelanas; chimpanzés pálidos e babões que tossem e espirram preconceitos cheios de egoísmo, de importância própria, de compaixão própria, de interesse próprio, ou seja, invadidos pelos aspectos mais negativos das aves de rapina diplomática que cheiram à distânica os cadáveres de ideais mortos.</em></p>
<p> </p>
<p>Não há disto nota na lista abandonada.</p>
<p>Sentimo-nos tão felizes! </p>
<p> </p>
<p>Ficamos, no entanto, limitados ao que nos é dado observar.</p>
<p>Os holandeses são de dois tipos físicos bem distintos:</p>
<p>- Os pequenos, corpulentos e corados, como o queijo <em>Edams</em>;</p>
<p>- Os mais estreitos, pálidos e maiories como o queijo <em>Goudas</em>.</p>
<p> </p>
<p>Estas características fazem da Holanda a cloaca de uma vacaria com o serviço do Hotel Ritz Carlton e da Europa a velha, gananciosa e senil vaqueira que empurra e afasta com o cajado quem se aproxima para lhe pedir ajuda. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8963082020-03-30T14:50:00A Gaffe de Jacob Jordaens 2020-03-30T13:54:41Z2020-03-30T13:54:41Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 700px; padding: 1px 1px;" title="JACOB JORDAENS.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G6917a2b8/21747008_izmG5.jpeg" alt="JACOB JORDAENS.jpg" width="700" height="555" /></p>
<p><span style="font-size: 14pt;"><strong>- Não adianta, moço. Desta vez já todas sabemos que tens a pila no meio da fruta.</strong></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8961472020-03-26T17:15:00A Gaffe sombria (sfumato)2020-03-26T17:18:56Z2020-03-26T17:18:56Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 540px; padding: 1px 1px;" title="mercado de adjamé, costa do marfim, eddie wrey.jp" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G2117edb2/21741561_nvkfy.jpeg" alt="mercado de adjamé, costa do marfim, eddie wrey.jp" width="540" height="675" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 18pt;"><strong>O destino da luz é provar a existência da sombra.</strong></span></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-size: 8pt; color: #808080;">Adjamé, Costa do Marfim - foto de Eddie Wrey</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8958702020-03-26T13:35:00A Gaffe profilática2020-03-26T13:53:55Z2020-05-14T08:52:45Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 597px; padding: 1px 1px;" title="img.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G661795a2/21741213_RLkA6.jpeg" alt="img.jpg" width="597" height="960" /></p>
<p>- É evidente que estou isolada! Seria aborrecidíssimo ter de olhar agora para as caras dos que me consideram uma cabra elitista por ter sempre defendido que o <strong>distanciamento social </strong>é absolutamente profilático seja em que circunstância for.</p>
<div style="text-align: right;">
<p><em>Mana</em></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8956482020-03-25T16:10:00A Gaffe respeitosa2020-03-25T16:22:59Z2020-03-25T21:35:35Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 605px; padding: 1px 1px;" title="1.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gf018e8b0/21740451_S4KtP.jpeg" alt="1.jpg" width="605" height="800" /></p>
<p style="text-align: justify;">Morreu a Natércia com oitenta e quatro anos, prostituta <em>asseada,</em> <em>que sabia estar</em>, dizem as mulheres que a conheciam, vizinhas respeitadas e respeitadoras de rua esconsa e negra com casas rasas de begónias raquíticas no parapeito da janela.</p>
<p style="text-align: justify;">Tinha a Natércia um cognome quantitativo. Dois dígitos que indicava certeiros o número de clientes que tinha despachado numa só tarde, ou numa só noite, pois que as fatias de tempo ficam misturadas nestas lides.</p>
<p> </p>
<p>Conheci a Natércia reformada.</p>
<p> </p>
<p>Magrinha e pequena, mas muito ágil e muito rija. Olhos pequenos e unidos, símios, boca agigantada por belos dentes brancos, permanente no cabelo curto e já grisalho, ainda <em>bem feitinha</em>, bem vestida e<em> muito combinadinha</em>. Trazia sempre um xaile de lã cruzado no peito. Um xaile bonito. Colorido. Suponho que para disfarçar a cor do coração. </p>
<p>Era altiva, destemida e corajosa, mas havia no olhar e nos gestos contidos um susto indefinido, um medo calado que se imiscuía na consciência da ruptura com a seriedade, honradez, bom comportamento e bons costumes que, como nos dias de enxurro, jorravam como água enlameada nas ruelas das vizinhas. </p>
<p> </p>
<p>Nada a distinguia das outras mulheres que a estimavam porque queriam muito acreditar que os seus homens não eram aceites pela calada das noites das tardes da Natércia que nunca os cumprimentava, olhando-os de lado e com rispidez, em frágil disfarce de indiferença que, como todos os fingimentos que agradam como mimos da verdade, se tornava um facto demasiado à força e, como tal, suspeito.</p>
<p> </p>
<p>Morreu durante o sono, de coração esgotado, a Natércia, depois de ter vivido oitenta e quatro anos respeitados, sós, autónomos, consistentes e conscientes. Nunca se submeteu à clientela. Nunca permitiu a expropriação da sua dignidade. Nunca autorizou o despojamento da sua privacidade ou a degradação da sua intimidade. Sempre foi melhor e maior do que os homens que lhe conseguiram apenas apensar um número ao nome, cavando a falsa sensação de domínio através da alusão aos abusos consentidos numa noite só. Eram as outras mulheres, as mulheres deles, que se encarregavam, em mesureiro trato, de a amarrar, cravar no chão e passar por cima.</p>
<p> </p>
<p>Com todo o respeito, todo o respeitinho.</p>
<p> </p>
<p>Há um rasto de sombras profundamente errado nesta espécie de estima respeitosa, neste cultivar da sensação de pertença comunitária e nesta forma de inclusão colectiva - defensiva, igualitária, ilusória -, que em simultâneo obrigam e amarram a um auto-isolamento capaz de, no fim, fazer reter na memória do outro apenas o número de clientes de uma tarde. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8953262020-03-19T16:45:00A Gaffe virulenta2020-03-19T16:54:00Z2020-05-14T08:53:19Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 471px; padding: 5px 5px;" title="GeishaFernandoVicente.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G6518a696/21731705_yd5gw.jpeg" alt="GeishaFernandoVicente.jpg" width="471" height="650" /></p>
<p><strong>- Tudo o que tivesse vindo da China deveria ter ficado em quarentena!</strong></p>
<p><strong>- Mas, minha cara, se assim fosse, a menina não teria o que vestir no dia seguinte. </strong></p>
<div class="MsoNormal"> </div>
<div style="text-align: right;"><span style="font-size: 8pt;"><em>Mana (e Fernando Vicente a ilustrar)</em></span></div>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8951152020-03-19T11:12:00A Gaffe "heroína"2020-03-19T11:16:51Z2020-05-14T08:53:57Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 645px; padding: 1px 1px;" title="aa1.png" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G8818f06d/21731143_ZDECq.png" alt="aa1.png" width="645" height="414" /></p>
<p style="text-align: justify;">A enfermeira com olheiras permanentes e cantos da boca descaídos, antipática, rabugenta, impaciente e severa, diz-me, enquanto expira o fumo do cigarro mal fumado, que já tem quinze horas seguidas e duas maçãs de trabalho <em>no lombo</em>.</p>
<p>Veio só respirar um bocado, informa-me à laia de desculpa, como se aquele intervalo lhe pesasse na consciência e a tornasse culpada de negligência.</p>
<p> </p>
<p>Das varandas dos apartamentos, do outro lado das ruas, longe, tão longe que adoece, batem palmas.</p>
<p>A enfermeira olha para mim. No meio de uma baforada, os seus olhos piscos de lágrimas. Encolhe os ombros.</p>
<p>-<em> Somos heróis o carago. Borro-me de medo. Ando aqui toda apertadinha e, para ser sincera, só me apetece desandar daqui para fora. Cagões, é o que somos todos. Entende-se porque se esgota o papel higiénico.</em></p>
<p> </p>
<p>O barulho das palmas afugenta o medo. O deles, que o nosso está aqui e não arreda um palmo.</p>
<p>Dizem que batem palmas aos heróis.</p>
<p>Dizem que nos batem palmas.</p>
<p>Falam-nos de guerra.</p>
<p> </p>
<p>As metáforas bélicas ficam sempre bem nas intervenções institucionais em quarentena patética e nas exortações do facebook.</p>
<p> </p>
<p><strong><em>Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!</em></strong></p>
<p> </p>
<p>Alguém me disse um dia que <strong><em>um herói é o cagaço com armas nas mãos</em></strong>. A definição poderia ser forçadamente agustiniana, não fosse o pretenso vernáculo a macular o meio literário. <strong>Não fosse a inexistência das armas</strong>. Não fosse a pandemia do pânico que subverte e decompõe e desmuda e desordena a indiferença que cresce e que se instala ínvia nos habitáculos do tempo em que a paz é tida como certa.</p>
<p> </p>
<p>Um país que precisa de heróis para sobreviver, talvez não mereça ser salvo. </p>
<p> </p>
<p>Das varandas dos apartamentos, do outro lado das ruas, longe, tão longe que adoece, batem palmas. É provável que no som dilatado de todas as palmas juntas se não descubra ainda o propósito da vida, que não se encontre a essencial pergunta e a imprescindível resposta.</p>
<p> </p>
<p>A coroação do tão propagandeado <em>estilo de vida ocidental</em> - que se tenta expandir a Oriente - como inexorável modelo global com capacidade para se impor ao periclitante equilíbrio civilizacional, idolatrando a trepidação que ignora o sentir da terra, e a pesadíssima coacção que é exercida sobre aqueles que não conseguem encontrar a fuga dos paradigmas de consumo, de exigências mundanas, de êxitos financeiros e de todos os soberanos <em>lobbies</em> que esmagam e calcificam a alma, são colocados em causa por medo maior, mais evidente e lógico, ou pelo mais comezinho e patético que seja possível sentir, com origem num dos mais contagiosos vírus existentes no planeta.</p>
<p> </p>
<p>A questão a formular deixa de ser a tradicional e esconsa viela sem retorno ou saída. Já não é possível perguntar quem somos, ou o que queremos, ou para onde vamos. Há que encontrar a resposta a uma das mais perturbadoras das perguntas, que é também aquela a que é possível dar final:</p>
<p><strong>De que fugimos nós? </strong></p>
<p>De que tentamos escapar quando somos confrontados com a nossa intrínseca debilidade, com a nossa implacável fragilidade, com a nossa humilhante condição de caça miúda perante um predador que de tão ínfimo nem sequer se vê?</p>
<p> </p>
<p>De que fugimos quando em desespero desejamos tudo?</p>
<p>Quando soubermos responder, talvez então não se fale de heróis, por apenas haver gente. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8947202019-12-29T09:39:00A Gaffe da Gaffe2020-01-23T09:40:02Z2020-02-07T07:21:16Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img class="" style="width: 538px; padding: 10px 10px; border: 1px solid #e3b9b9;" title="end.png" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G5a17e9e0/21673591_2jOTR.png" alt="end.png" width="538" height="498" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8945562019-12-23T16:43:00A Gaffe com todas as letras2019-12-20T11:21:13Z2019-12-23T16:42:40Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 831px; padding: 1px 1px;" title="natal" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G9b18131c/21651642_8y8cF.jpeg" alt="natal" width="831" height="960" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8941752019-12-04T14:37:00A Gaffe cumprimenta 2019-12-04T14:43:49Z2019-12-27T15:00:22Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 553px; padding: 10px 10px;" title="QE.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G74187bf7/21636219_IlGYG.jpeg" alt="QE.jpg" width="553" height="790" /></p>
<p> </p>
<p>O querido Marcelo, Presidente popular sempre a pular - dir-se-ia se a união dos vocábulos não fosse tão manhosa e mais do que óbvia - não foi cumprimentar Greta Thunberg por recear <em>misturar</em> <em>coisas</em> e parecer que anda <em>a tirar nabos da púcara</em> - ou da Greta, caso a aproximação destes vegetais metafóricos a esta presença não pareça indecente.</p>
<p> </p>
<p>A Gaffe também não foi esperar a Thunberg, porque também gosta de <strong>Boyan Slat</strong>, distinguido pelas Nações Unidas em 2016, pela revista <a href="https://www.forbes.com/pictures/fhej45gihd/boyan-slat-21/#58af7d792f12" rel="noopener">Forbes</a> que o considerou um dos 30 jovens mais influentes do mundo abaixo dos 30 anos, em 2017, que em Maio de 2018 foi galardoado pela Euronews com o prémio <em><a href="https://pt.euronews.com/2018/05/24/as-mensagens-por-um-mundo-melhor-nos-premios-europeus-de-lideranca" rel="noopener">Empreendedor Europeu do ano</a></em>, que a Reader’s Digest nomeou <em><a href="https://www.readersdigest.ca/culture/european-year-boyan-slatan-wants-clean-oceans/" rel="noopener">Europeu do Ano</a></em>, por ter desatado a limpar o plástico dos oceanos e que não deixa de ser um bom rapaz, embora se tenha esquecido que na fórmula que produz ídolos juvenis, existe bem marcada uma dose descomunal de microfones que se digladiam por uma trança irritada e o alarido desmedido das latas de toda a comunicação social, acompanhadas das belas intenções das <em>ecológicas</em> que deixam escapar de repente um desprevenido <span style="font-size: 18pt; color: #008000;"><strong><em>o verde vende</em></strong></span>, coisa que não se diz por ser verdade. </p>
<p><em> </em></p>
<p>Greta vende, mas - feira por feira e nada para pular -, Marcelo escolhe Cristina Ferreira ao telefone, o novo Cardeal que o enche de povo benzido e a alegria dos jovens que o Vaticano reúne em Portugal para combater o Apocalipse, mas o do pecado bíblico e escapa, pela primeira vez, à selfie com uma cachopa.</p>
<p> </p>
<p>A Gaffe pede perdão ao Presidente, mas considera, por exemplo, que chega a ser mais frontal a posição de João Almeida, potentado e imaginado líder do CDS que acha que a chegada de Thunberg a terras lusas é uma pouca vergonha e um <em>triste espectáculo</em>.</p>
<p>A Gaffe não pode deixar de concordar com o Almeida, pois que observa a dignidade, o recato, o pudor e a nobreza com que o CDS se extingue.</p>
<p> </p>
<p>O planeta só tem que aprender com líderes destes.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8935302019-12-04T10:22:00A Gaffe e os rapagões passados 2019-12-04T10:22:44Z2019-12-04T10:22:44Z<div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"> </div>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 592px; padding: 1px 1px;" title="R7zJBA.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G6e18c043/21635937_PWZv6.jpeg" alt="R7zJBA.jpg" width="592" height="960" /></p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Fui de repente convidada pela minha querida amiga para a acompanhar à festa de noivado - <em>coisa simples</em> - do seu ex, rapaz poderoso, escandalosamente rico, snob e detentor de uma personalidade pindérica, mesquinha, irritante e peluda. A minha querida amiga precisava de uma cúmplice para esgadanhar em surdina a futura consorte e nada melhor do que as garras da sua querida amiga para coadjuvar esta deliciosa tarefa.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left"> </p>
<p style="text-align: justify;" align="left">O <em>fui convidada</em> é claramente um eufemismo para <em>anestesiada</em>, <em>arrastada, amordaçada</em> e <em>drogada </em>de forma a aceitar o convite sem espernear. Sou adversa a <em>flutes</em> onde cintilam as delicadas bolinhas de um <em>Champagne </em>daqui. Continuo a preferir, saloiamente, um alentejano maduro - semanticamente, polissemicamente -, com os sons de risos simples e saudáveis que fazem cintilar a alma.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left"> </p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Depois de alvoroçar a vizinhança com o facto de não existir no meu guarda-roupa um Armani a fazer <em>pendant</em> com o evento - <em>coisa simples</em> -, fui enfiada num YSL deslumbrante e emprestado, que eu destes tipos escolho Dior. Não preenchia as copas do vestido - a minha <strong>BOA</strong> amiga tem duas ogivas nucleares em vez de mamas -, mas o desenho flutuante, fluído, amplo e nada comprido do vestido disfarçava a ausência daquelas duas minas redondas que aparecem no fundo mar nos filmes debruçados sobre a II Guerra e no peito das meninas encorpadas. </p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Cabelo preso numa banana ruiva - da Madeira, pois que tenho agora o cabelo mais curto -, suplicando aos deuses a imobilidade forçada e enraivecida dos meus caracóis de fogo furiosos, uma <em>leve entoação na face a elevar os olhos, </em>um<em> reforçar da extensão das pestanas </em>e um <em>bâton prudente de brilho contido, suave e sem textura - </em>nestes momentos a minha excelente amiga soa tão <em>influencer</em>! <em>-</em>, chega-se aos sapatos.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left"> </p>
<p align="left">O drama é shakespeariano.</p>
<p align="left"> </p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Recuso-me a usar as tenebrosas plataformas - <em>plantaformas</em>, para as mais dadas -, que equilibram a altura dos tacões, porque me fazem sentir, ou que tenho graves problemas ortopédicos, ou que estou em cima de dois garrafões de água do Luso, que são pesados, difíceis de transportar e, como sugere o nome, metem água.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left">A alternativa foi calçada.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Uns belíssimos Jimmy Choo com uma cor exacta - <em>azul petróleo anoitecido</em> - a minha querida amiga é muito meticulosa e específica nestas alturas -, sem plataformas - <em>plantaformas</em> ou <em>tamparueres</em> -, de betão, mas com muito mais do que os sinistros 10 cm de agulhas e <strong>um número acima daquele que calço</strong>, que não há outros que <em>acompanhem e respeitem a atmosfera - </em>apesar destas duas condições, estava fora da lista o calçado da Thundberg. </p>
<p style="text-align: justify;" align="left"> </p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Pensei que só me conseguiria equilibrar com eles calçados se me projectasse para a frente, embora correndo o risco de, com esta inclinação, bater com os queixos na braguilha do noivo, ou para trás, numa manobra circense, fazendo pensar que tinham contratado para animar a festa a contorcionista do Cirque du Soleil.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left">- Aguenta! - aconselha a minha querida amiga como se fosse prima do Ulrich.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Aguento e periclitante, oscilante, com tremuras, procuro o apoio da maçaneta da porta que se abre traiçoeira. Troco os pés, tropeço, caracóis vulcânicos já soltos, um azul <em>petróleo anoitecido</em> espapaçado no chão, um Jimmy Choo, um número maior que o imprescindível, com um tacão cravado nos estuques, um <em>bâton</em> <em>de brilho contido</em> todo <em>esbardalhado</em> na minha <em>leve entoação na face</em>.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left"> </p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Sem qualquer réstia de dignidade que suportasse a queda, ergui, desfraldei e fiz ondular a minha decisão como bandeira revolucionária e só não cantei <em>Grândola Vila Morena</em> porque me perguntam, sempre que trauteio um <em>lá-lá-lá</em> ainda que menos conotado com Abril, se me estou a sentir bem e nunca me sinto bem com um par de sapatos um número acima daquele que calço e mais de 10 cm de perigo calçado. Sou uma menina de boas famílias, caraças! Mais de 10, só se encaixarem no brasão. </p>
<p style="text-align: justify;" align="left"> </p>
<p style="text-align: justify;" align="left">Acabamos as duas de pijama esparramadas no sofá, a rever aquela porcaria do <em>Sangue Fresco</em>, a comer <em>Mon Chéri </em>até ao tutano e aos confins da javardice, a comentar a leve entoação das faces dos actores, sem reter nada da série pateta, nem evitar tropeçar no fundo da segunda garrafa de vinho maduro alentejano.</p>
<p style="text-align: justify;" align="left"> </p>
<p style="text-align: justify;">Os homens que se foram, já são ex e que se casem ou que façam coisas. Sei lá. </p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém quer saber. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:2458902019-12-03T13:07:00A Gaffe em crise2019-12-03T13:14:08Z2019-12-04T20:24:03Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 540px; padding: 10px 10px;" title="1.4.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ge81830f9/21635314_Dsf5a.jpeg" alt="1.4.jpg" width="540" height="809" /></p>
<p style="text-align: justify;">Aquilo a que os especialistas chamam <strong><em>Crise </em></strong>é um fenómeno avassalador que não faz esforço algum para nos avisar que nos vai tocar no bolso, sobretudo quando acreditamos estar já longe do alcance das suas manápulas.</p>
<p style="text-align: justify;">Há no entanto pequenos sintomas, ligeiros alertas, que nos vão dando conta da extensão dos danos. Conheçamos alguns antes de entrar em depressão sem entendermos porque entramos tão depressa nessa noite escura:<br /><br /><span style="color: #800000;"><strong>1.</strong></span> Humedecer a ponta do marcador para ver se ele volta a funcionar; <br /><span style="color: #800000;"><strong>2. </strong></span>Lamber a tampa metálica do iogurte;<br /><span style="color: #800000;"><strong>3.</strong></span> Andar de loja em loja olhar os preços e dizer ao vendedor: <em>Só estou a dar uma vista de olhos</em><em>;</em><br /><strong><span style="color: #800000;">4.</span> </strong>Ir a um conserto, entrar na plateia e saltar para os camarotes desocupados;<br /><span style="color: #800000;"><strong>5.</strong><strong> </strong></span>Fazer um jogo de futebol com equipas <em>com</em> e <em>sem</em> camisola;<br /><span style="color: #800000;"><strong>6.</strong><strong> </strong></span>Baloiçar a lâmpada queimada para ver se ela volta a funcionar;<br /><span style="color: #800000;"><strong>7.</strong></span><strong> </strong>Aproveitar garrafas plásticas de refrigerante e colocar água no frigorífico;<br /><span style="color: #800000;"><strong>8.</strong></span><strong> </strong>Receber visitas e mostrar a casa toda;<br /><span style="color: #800000;"><strong>9.</strong></span> Decorar vasos com flores de plástico;<br /><span style="color: #800000;"><strong>10.</strong></span> Comprar carro novo e não tirar o plástico do banco só para dizer que é novo; <br /><span style="color: #800000;"><strong>11.</strong></span><strong> </strong>Lamber a ponta da borracha para apagar o erro;<br /><span style="color: #800000;"><strong>12.</strong></span> Usar molas de roupa para fechar sacos de arroz, açúcar, massa, etc.;<br /><span style="color: #800000;"><strong>13.</strong></span> Pôr algodão na árvore de natal para dar <em>efeito de neve</em>;<br /><span style="color: #800000;"><strong>14.</strong></span> Passar saliva no cotovelo para <em>amaciar</em>;<br /><span style="color: #800000;"><strong>15.</strong></span><strong> </strong>Guardar sobras de sabonete para fazer uma bola só;<br /><span style="color: #800000;"><strong>16.</strong></span><strong> </strong>Convidar amigos para jantar no seu aniversário e pedir para cada um levar uma coisa;<br /><span style="color: #800000;"><strong>17.</strong></span><strong> </strong>Consertar a tira da sandália com agrafador; <br /><span style="color: #800000;"><strong>18.</strong></span><strong> </strong>Enfeitar a estante da sala com lembranças de casamento; <br /><span style="color: #800000;"><strong>19.</strong></span><strong> </strong>Usar o fio dentário e depois cheirar para ver se o dente está cariado; <br /><span style="color: #800000;"><strong>20.</strong></span> Tirar cera do ouvido com a chave do carro ou com a tampa da caneta; <br /><span style="color: #800000;"><strong>21.</strong></span> Guardar panos de cozinha velhos para as limpezas; <br /><span style="color: #800000;"><strong>22.</strong></span> Ir ao restaurante e antes de fazer o pedido perguntar se aceita cartões ou <em>tickets.</em></p>
<p> </p>
<p>Se cumprimos dez - e bastam dez - destes tenebrosos indicadores, podemos começar a pensar em retirar o cavalinho da chuva, porque bem mais cedo do que mais tarde vamos ter de o vender para comprar forragem para o pequeno-almoço. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8930362019-12-03T12:03:00A Gaffe gasolineira2019-12-03T12:18:39Z2019-12-03T12:26:04Z<p class="sapomedia images" style="text-align: right;"><em><span style="font-size: 8pt;">Para o <span style="color: #800000;"><strong><a style="color: #800000;" href="https://bikeazores.blogs.sapo.pt/" target="_blank" rel="noopener">Rui</a></strong></span></span></em></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 500px; padding: 10px 10px;" title="198.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gc018e806/21635259_h71hq.jpeg" alt="198.jpg" width="500" height="500" /></p>
<p style="text-align: justify;">É irritante e provoca-me taquicardia ver, nas filas de abastecimento de gasolina, um homem que antes de pegar na mangueira e enfiar o manípulo no depósito, vai meticulosamente retirar um toalhete para protecção da <em>mão que embala o berço</em>.</p>
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<p style="text-align: justify;">Na esmagadora maioria dos casos, não é necessário e faz-me pensar naqueles que depois do chichi - ou do xixi, conforme os casos, que <em>há gente para tudo</em> - esfregam meticulosa e quase compulsivamente todo o que vai das unhas até ao cotovelo, como se o que acabaram de segurar fosse o repositório de toda a gama de bactérias e de outros bichos maiores, visíveis a olho nu – em 80% dos casos não se vislumbram bichos grandes e horríveis e nos restantes é fácil perceber o padecimento do rapaz pela cor anil ou esverdeada do sorriso confrangido. </p>
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<p style="text-align: justify;">Não sou, de todo, contra esta social, higiénica e polidíssima regra - muitíssimo pelo contrário -, mas um homem que se preza agarra na mangueira com a mão nua - e não a cheira depois de colocar o manípulo no lugar - e esquece, <strong>de vez em quando</strong>, de lavar as mãos antes de sair do WC sem que notemos diferenças palpáveis e sem que disso venha mal ao mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Há minúsculos gestos masculinos que são tão maçadores, tão obsessivos, tão obcecados e tão enervantes como aquele, feminino, que consiste em arrastar, puxar, repuxar, esticar, retesar e tentar alongar, como se não houvesse amanhã e o Senhor estivesse a chegar para chicotear os pecadores, a exígua mini-saia que tenta estrangular a dona sempre que a rapariga se levanta.</p>
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<p style="text-align: justify;">O ideal é a bicicleta. Não é poluente, não implica a mangueira e, quando o faz, o ar gelado do Inverno encarrega-se de aniquilar qualquer sinal de vida mais matreiro.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agaffeeasavenidas:8926862019-12-02T16:12:00A Gaffe dos silêncios2019-12-02T16:13:24Z2019-12-02T16:39:09Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 467px; padding: 2px 2px;" title="735.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gd7178e67/21634487_klYe9.jpeg" alt="735.jpg" width="467" height="700" /></p>
<p style="text-align: justify;">A tarde disposta ao silêncio, espalhada no chão.</p>
<p>O meu corpo na penumbra, de vigia. Os meus olhos na sombra, os meus sentidos no escuro.</p>
<p>Escondida na obscuridade de um murmúrio, há na minha boca o sabor da transgressão. Um sabor rugoso de madeira ressequida. Tenho o direito de tentar compreender a minha ausência nos universos velhos femininos desta casa. Quero saber do ritual benéfico e do feitiço maldito, da prática secreta, da velha e encoberta fórmula de encantar.</p>
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<p>Nesta tarde que se deita sobre a cama. Tarde de menina morta de olhos fechados, de caracóis pousados na almofada e colar de pérolas tombado, vestido azul escuro, enfolado, com pequenas flores, raminhos bordados.</p>
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<p>Um fio de voz imperceptível, o fio de uma aranha, um fio de navalha. O fio ténuo e fino e perdido da voz da tarde a desfiar as feridas, a traçar os mapas e as marcas da dor, a descrever as mágoas. No corpo da tarde pousam as palavras, os dedos e os medos sussurrados das mulheres. Em cada palavra que não quer ser dita tudo parece consumado e o silêncio é maior que o resto.</p>
<p>O entardecer é colocado no lugar habitual empurrado com um gesto dócil.</p>
<p>É o momento dos desertos em que a solidão ondula e a dor prevalece como um cardo.</p>
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<p>A casa inteira anoitece devagar.</p>
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<p>No Douro há sempre tempo para tudo e dentro deste tempo compreendo o ritual diário destas mulheres, aquela quase dança de ternura e de deslumbre, aquele quase crime, aquela quase entrega de desmesurado amor. São estas mulheres que trazem encarcerado o corpo da casa. Ficam à espera que o silêncio chegue, ainda que fugaz, e nos conte, contando no corpo da casa, das marcas sofridas nos corpos de carne.</p>
<p>Depois de novo o silêncio.</p>
<p>As mulheres do Douro são silêncios.</p>
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<p>Aqui é bom o silêncio. É bom estar calado. É bom não dizer. É bom não ter corpo. É bom não pensar.</p>
<p>É bom ser só casa.</p>