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Ilustração - Fernando Vicente


"Notre Drame"

rabiscado pela Gaffe, em 16.04.19

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O lema de Paris - Fluctuat nec mergitur - sobrepõe-se ao grito la flèche est tombée que arrepia e torna a imagem da queda do archote numa das mais significativas da tragédia. Uma imagem icónica. Uma tocha cai com a dignidade devastadora esperada na queda dos signos.

 

O objecto Notre-Dame é uma construção e reconstrução dos homens.

 

2/3 do telhado desapareceram. Pertenciam ao século XIX.

O arco de pedra sob o telhado não sofreu grandes danos.

As torres e a fachada da Catedral estão a salvo, embora a estrutura necessite de avaliação cuidada.

A esmagadora maioria dos vitrais resistiu. Estão ilesos. Apenas uma das rosáceas se estilhaçou.

A flecha da Catedral datava do século XIX. Não provinha do século XIII. As suas dezasseis estátuas tinham sido retiradas dias antes.

As relíquias foram salvas.

O orgão da Catedral não sofreu danos. 

O Grupe Artemis vai doar 100 milhões de euros para a reconstrução.

O Grupo Kering vai doar 100 milhões de euros para a recosntrução.  

O Grupo LVMH vai doar 200 milhões de euros para a reconstrução. 

 

O signo Notre-Dame há séculos que se havia tornado arquétipo e a raiz da Árvore é de pedra, em cruz como as catedrais, e mantém nas garras a memória colectiva, tornando-a única, mas transmissível, pertença absoluta de cada um que passa, subjectiva, como é de seu paradoxal destino.

Talvez por isso os sinos das mais icásticas Igrejas de Paris tenham tocado juntos a rebate, carpindo o incêndio, avisando os homens como não o faziam há já mais de cem anos. Pranteando a tragédia do signo ameaçado, prevenindo os homens da irremediável fugacidade da existência que acolhe o esquecimento e a indiferença como motor civilizacional, como objecto do progresso, como exclusiva ferramenta do real.

 

Nada é tão vazio, tão terrivelmente oco, tão desoladoramente triste, como ilustrar a ardência de Notre-Dame com o quasimodinho da Disney agarrado as lágrimas com que banha as torres. Nada é tão revelador da distância que separa o homem do signo, da desvinculação do homem ao símbolo.

 

O nosso drama é que choramos demasiadas vezes através da Disney.

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Gavetas:


18 rabiscos

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De Quarentona a 16.04.2019 às 11:29

As gárgulas iluminadas pelo fogo têm, de facto, um impacto muito mais dramático. Choro sempre quando se perdem páginas da História da Humanidade.
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De Gaffe a 16.04.2019 às 11:42

A Catedral será reerguida.
Mas não voltaremos a pisar o mesmo solo. Perderam-se signos e símbolos.
Não chorei. Ouvi relatos - quase em directo - de amigos e não chorei a não ser quando respondi a um e-mail de uma querida amiga que se lembrou de me abraçar.
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De naomedeemouvidos a 16.04.2019 às 15:16

Também se chora em silêncio. Choro em silêncio muitas vezes. Outras vezes, precisamos de tempo para absorver a imensa dimensão da perda.

Um beijo grande.
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De Gaffe a 16.04.2019 às 15:27

Nós as duas sabemos que sim. Desde o primeiro momento em que foram partilhadas mensagens.
Creio que apenas agora é que me vou deixando olhar o que se perdeu.

Um beijo.
(Obrigada)
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De Quarentona a 16.04.2019 às 18:00

Compreendo, Querida Gaffe, que te doa de sobremaneira a destruição de um símbolo de uma cidade e cultura que te dizem tanto, mas quando eu digo que choro a perda de páginas da História da Humanidade, choro em silêncio como afirmou a "Ouvidos", chorei agora, chorei quando ardeu o Museu Nacional do Brasil, chorei quando os Talibãs destruíram estátuas milenares esculpidas nas escarpas do Afeganistão, chorei quando o Estado Islâmico destruiu museus no Iraque, chorei quando os mesmos destruíram os vestígios romanos na cidade de Palmira, enfim, choro sempre de cada vez que me devolvem para o arquivo um documento rasgado, rasurado ou amachucado. Choro sempre que se apaga um bocadinho da memória que nos pertence a todos.

Je t'embrasse fort :))))
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De Gaffe a 16.04.2019 às 19:49

Eu sei.
Tu, entre os maiores, choras estas perdas como só quem as entende nossas, só como quem as cuida, consegue entender.
É brutal a tua perda. A indignação, a tristeza, a desolação e a saudade, chegam com o primeiro e mais ínfimo indício de destruição.
Lamento contigo.
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De Pequeno caso sério a 16.04.2019 às 13:55

Podes não acreditar mas foi de "ti" que me lembrei instantaneamente quando vi as imagens...
Fez - me de alguma forma lembrar o 11 de setembro...em que da mesma forma incrédula, assisti a tudo através da televisão.
Curioso que falámos há apenas alguns dias sobre esta tua "dualidade" de pátria...
Acredito que este tipo de desgraças sirvam para (estranhamente ) revelar o melhor do ser humano. Chegam donativos avultados dos "filhos" mais abastados de França. Chegarão para reconstruir o edifício.
Quanto ao património "afetivo", não há dinheiro nenhum no mundo que o consiga recuperar.

Recebe o meu sentido abraço.
: * [ ]
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De Gaffe a 16.04.2019 às 14:28

É medonha a quantidade de gente que minimiza a tragédia.

Já li "É apenas madeira e pedra", já li "e Pedrogão?! Ninguém chora." Já li "foi o início da temporada de Games of Thornes". Vi Disney a ilustrar a tragédia. Um "quasimodoinho" fofo abraçado às Torres, numa miserável ilustração daquilo que é a criação de um fosso cultural e civilizacional, como se fosse óbvio unir um desenho animado a uma quebra de símbolo - de símbolo que inclusivamente serve a obra de Victor Hugo -, esquecendo que é da Humanidade que falamos.

Falei há dias de signos e da sua perda, sim. Falei da separação, da quebra, quase fatal de homem e de símbolo. Nunca imaginei que fosse quase premonitório.

O teu abraço é reconfortante. As Catedrais também se reerguem com abraços.
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De Maria Araújo a 16.04.2019 às 16:40

Peço desculpa pelo que vou escrever, mas ontem, só me lembrei de ligar a televisão para ver e ouvir as noticias, já estas iam avançadas, quando vejo as imagens.
Pode imaginar o que senti, porque qualquer que seja o símbolo da história de um país, e do mundo, que se destrói num incêndio, num sismo, numa guerra, deixa marcas no nossa vida.
Mas o que queria dizer é que associei a imagem do incêndio ao livro, e filme, "Paris já está a arder?", e ao facto de tudo o que é monumento da história e cultura, terem sido poupados dos ataques da guerra.
Depois, pensei em si.
Vim às suas avenidas, não vi nada.
Mas imaginei-a desolada.
Um beijinho.
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De Gaffe a 16.04.2019 às 16:56

É estranho.
Sobreviveu a tantos ataques e a tanta barbárie e é destruída por - parece - negligência e incúria de meia dúzia de empreiteiros.

Estou desolada.
Acredita que todo o dia de ontem, desde o amanhecer, me senti angustiada e oprimida?
Depois ... encontrei esta tragédia.

Obrigada.
Um beijo.
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De P. P. a 16.04.2019 às 17:17

Um aplauso para "Nada é tão vazio, tão terrivelmente oco, tão desoladoramente triste, como ilustrar a ardência de Notre-Dame com o quasimodinho da Disney agarrado as lágrimas com que banha as torres. Nada é tão revelador da distância que separa o homem do signo, da desvinculação do homem ao símbolo.

O nosso drama é que choramos demasiadas vezes através da Disney."

Como escreveria no artigo, um Professor de História do 2.º ano de curso: "Excelente"!
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De Gaffe a 16.04.2019 às 19:57

É tão desumanamente estúpido.
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De Fleuma a 16.04.2019 às 17:30

A mim não me interessa realmente o que ficou. Antes o que desapareceu. Nem sequer a noção de reconstrução me anima. Porque sei que não voltará a existir o que antes vi. Não se consegue reproduzir algo semelhante com a mesma capacidade com que gravei pormenores no pensamento. É bizarro mas a sensação de perda e desolação é quase extrema.

Não me despeço com abraços ou beijos.

Não existe consolo para isto.
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De Gaffe a 16.04.2019 às 19:56

Eu sei. Eu sei. Eu sei.

... E os cheiros? Os ecos? O ruído da madeira a sofrer de tempo? E a luz encanecida? E as sombras velhas dos incensos? E o peso dos passos que a pisaram?

Tenho tantas saudades desta minha Catedral.
Mas não choro. Não posso chorar. São banais todos os choros.

Notre Dame ardeu.
Apetece-me ficar deitada no chão a pedir perdão.
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De Corvo a 17.04.2019 às 12:59

Reerguer-se-á outra vez. A imortalidade é eterna.
Também pensei em si.
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De Gaffe a 17.04.2019 às 14:01

Não será a Catedral que conheci.

A verdade é que ouvi com imensa atenção e curiosidade a opinião de uma arquitecta muito importante para mim, que defende - que sempre defendeu - a recusa daquilo que é chamado "pastiche" arquitectónico.

Notre Dame, afirma ela, deve ser reconstruída poupando apenas o que resistiu sem grande dano. A reprodução ou a reconstituição de pedaços ou peças altamente danificadas é um erro gigantesco e soa a um falso tenebroso. Não faz sentido andar a colar bocadinhos do que não se pode fazer renascer. A Catedral deve e tem de conservar as cicatrizes. É a história enorme do monumento que tem de ser preservada e essa história tem de incluir este incêndio. O símbolo Notre Dame altera-se como corpo vivo.
O uso de tecnologias mais recentes, de materiais e matérias actuais, têm de acompanhar e reerguer Notre Dame, salvaguardando-se sempre a sua identidade, o signo que é, a sua simbologia e os seus "ossos" - mas não necessariamente a sua "carne".

Édouard Philippe anunciou - hoje - o concurso internacional para a reconstrução do pináculo, da flecha, de Notre Dame e sabemos que as propostas devem apresentar a capacidade de renovação e de uso de matéria e materiais do século XXI.
Está liminarmente posto de lado o "pastiche" arquitectónico.

Não será a Catedral do século XII, não será a Catedral do século XIX. Esperemos que nos deixem orgulhosos com a Catedral do século XXI.
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De Corvo a 17.04.2019 às 17:41

Foi o que eu disse. Nunca tive outra opinião.
Reerguer-se-á, mas nunca mais se reconstruirá .
Chora, Pedra bem-amada.
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De Gaffe a 17.04.2019 às 18:21

Creio que parte do capital simbólico que retinha foi abalado e jamais se recuperará. No entanto, acredito na regeneração do signo.
Haverá com certeza outra Notre Dame com um significado e um significante extraordinários.

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