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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num slogan

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.18

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slogans que são manifestos perfeitos e que resumem de forma exemplar a indignação de quem os assume e os transforma em bandeira.

 

Não falo no Yes, we can, tornado pela desilusão em Yes! weekend! ou pela necessidade  de afirmação e resistência, no Yes, we camp, ou ainda pelo ameaçador America First 

 

Falo, por exemplo, daqueles que funcionaram quase como previsão sinistra do que, não sei se apenas metaforicamente, veio a acontecer, como o on mangera les riches, ouvido durante Maio de 1789 e Novembro de 1799, em Paris.

 

Refiro-me aos mais poéticos, inscritos nas ruas de Maio de 68, como o ouvido e inscrito nos muros parisienses je suis comme un oiseau mort quand toi tu dors, que apelava de forma belíssima à consciencialização política dos estudantes que hesitavam.

 

Nunca gostei de ouvir slogans que não fossem susceptíveis de se transformar em lança espetada num determinado tempo ou acção específica, resumindo e revelando um sentir determinado.

Por isso me apaixonei pelo que li, inscrito num cartaz que vi passar nas mãos de um velho, na brevíssima e contida reportagem sobre a desilusão portuguesa que cavalga ainda, mintam o que quiserem.

 

  DE CRAVOS A ESCRAVOS

 

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A Gaffe de Abril

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.17

 

Às vezes, de tão cegos com o pó que se levanta pelo caminho, ficamos presos ao lugar de onde pensamos ter saído há muito tempo.

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A Gaffe num instante

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.16

Rafael Ochoa.jpgContaram-me  depois de tantos anos:

 

Abril de 1975

A empregada veio de mansinho para provocar menos estragos no tempo de descanso da minha avó. Entrou, almofadada, embrulhando as mãos no avental florido.

A minha avó olhou-a e levantou-se.

Agarrou-lhe a blusa e afastou-a. Murmuraram na sombra, junto da janela, escondidas por portadas de madeira. As duas cinzentas. As duas vibrantes. Subitamente em redor delas o estremecer do ar, a subtil presença do alerta, o espasmo das presas que detectam o odor do predador de focinho a vibrar.

A rapariga desatou a chorar. De mãos erguidas, como um lenço sujo. A minha avó prendeu-lhe os braços, sacudiu-a e deu-lhe as ordens secas, pesadas como chumbo ou perfumes tombados da janela. A ameaça erguia-se. Escorria pelo soalho a pressa suada da partida. Por isso havia a urgência. Por isso seguravam nas adolescentes. Encaixavam-nas no fundo do carro.

A minha avó fechava as mãos da mulher mais velha sobre as chaves, no meio do barulho de malas atiradas.

Depois as portas e as janelas encerradas. O carro a trabalhar. A minha avó a descer o vidro e a assinar as ordens derradeiras.

Ninguém entra. Que tudo se mantenha como está.

Defende-me esta casa com a vida. Lembra-te sempre do que é bem mais forte do que qualquer tiro: a menina volta. Se não for esta, será a depois desta. Custe o que custar, uma menina volta.


Abril 2016

Abres-me as portas agora?

 

Imagem - Rafael Ochoa

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A Gaffe em Abril

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.15

"Desconfia sempre de um orador que traz a fúria escrita num papel."

Avô

 

A taça escorrendo os riscos de Abril e as flores roubadas de fragilidade e doçura quebradiças.

São do povo, as flores. Um chão que não tenho aqui, mas que existe nas mãos de vidro fosco que pousou na macia madeira antiga do meu quarto.

O dia rola inútil próximo da luz que entra pela janela e a mansa inocência das hastes do florido oscila subtilmente.

Tudo é simples:

O dia vai passar sem o peso de um longínquo Abril sobre os seus ombros.

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