Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe envernizada

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.18

hADERER.jpg

Meus caros,

Ficamos a saber que Isabel Moreira não usa unhas de gel quando - nem sempre envernizada -, se esgadanha no Parlamento pelos direitos das mulheres. 

Agora seria engraçado que as redes sociais, dessem, pelo menos, uma pincelada de olhos no Orçamento - diz a Gaffe a retocar o batôn.

Cartoon - Haderer

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe balbucia

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.18

P2.jpg

A Gaffe é rapariga bem capaz de se espalhar redonda no lamaçal imenso em que se tornam as polémicas surgidas por declarações minorcas de figuras mais ou menos públicas.

 

Sabe, é evidente, que é uma gigantesca perda de tempo e talvez por isso fique por vezes - infelizmente menos do que o aconselhável - a aguardar a pacificação das vozes, sossegada no seu pequeno e enfezado canto, e, quando tudo parece menos exaltado, acaba timidamente a balbuciar que a cansativa Câncio soa sempre como o hino do Livro das Revelações lido através do sistema sonoro de uma estação de caminhos-de-ferro, por uma reitora já de certa idade usando ceroulas de chita.

 

Maria Leal faz suspeitar que vive como se tivesse sido um rato numa encarnação passada ou espere vir a sê-lo numa futura.

 

Nada de importante.

 

Dois catrogas - que saudades deste ministro tão fofo! - numa praia de nudistas peludos. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe beijoqueira

rabiscado pela Gaffe, em 18.10.18

Tony Armstrong Jones - 1957.jpg

A Gaffe está exaurida.

Por todo o lado, em cada esquina, ou nos degraus das catacumbas de todas as redes sociais, brotam psicólogos, estudiosos, cientistas, investigadores, sociólogos, peritos em BDSM, taxistas, pais em pânico, professores que deixam mesmo de contar os tempos de serviço, educadores de vestes rasgadas, enfermeiros de cartaz, marias leais poliamorosas, manequins de pau para toda a obra, comentadores e comendadeiras e toda a fauna que reside em blogs, a opinar sobre se é violência, ou não, aquelas coisas pequenas beijarem os avós.

 

Meus caros, só os papás e as mamás, os nossos queridos idosos e os pedófilos gostam de beijocar a porcaria das bochechas dos miúdos. O resto da população está completamente de férias naquelas ocasiões em que se coloca a hipótese de ter um beijinho dos mais minúsculos daquela gente pequena. Se o recebem, sorriem e limpam discretamente o ranho que ficou preso na base Dior ou na barba bem cuidada, se se deparam com a recusa do pirralho, acabam a pensar que uma chapada seria bem merecida, o grande malcriado, birrento e mimado do cachopo.

Reservemo-nos para receber beijinhos cordiais de quem mais nos convém.

 

Convinha não violentar as criancinhas que são o melhor do mundo. As crianças e os pespontos perfeitos que elas conseguem fazer nas nossas carteiras Louis Vuitton.

  

Beijinhos aos pespontos.

 

Foto - Tony Armstrong Jones - 1957

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe Leal

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.18

mosca.gif

Uma das grandes e irremediáveis tragédias deste país é esta de ter de ser uma vigarice foleira e obscena de uma varejeira qualquer a fazer com nos apercebamos do monumental talento e da obra extraordinária de Paulo-Guilherme d'Eça Leal.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe no "Prós e Contras"

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.18

BOOK (1).png

A Gaffe assistiu de rajada ao Prós e Contras que versava o #metoo e estranhou quando ouviu um senhor muito circunspecto e com um ar muito Woodstock - limpinho - a declarar que obrigar uma criança a dar dois beijinhos ao avô e à avó era caminho para a liberalização do assédio sexual.

 

A Gaffe não sabe se é. A liberalização de qualquer assédio - disseram-lhe -, é da responsabilidade daquela coisa dos nervos dos mercados, mas tem de concordar que dar dois beijinhos aos avós é altamente parolo, provinciano e de classe média/baixa.

Toda a gente bem-nascida sabe que se dá apenas um.

 

A Gaffe julga ter vislumbrado Raquel Varela, mas ficou a pensar que talvez tenha sido impressão. Aparentemente a rapariga chegou ao programa de táxi e quando abriram a porta não saiu vivalma.    

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe remodelada

rabiscado pela Gaffe, em 15.10.18

SHIT.jpg

Atenta a tempestades, a Gaffe estatela-se de espanto quando ouve um reputado órgão de comunicação social enumerar os ilustres novos ministros:

 

Ministra da Saúde - Marta Temido - exercia os cargos de subdiretora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e era Presidente não Executiva do Conselho de Administração do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa;

 

Ministro da Economia - Pedro Siza Vieira - desempenhava as funções de Ministro Adjunto;

 

Ministro da Defesa Nacional - João Gomes Cravinho - desempenhava as funções de Secretário de Estado da Cooperação;

 

Ministra da Cultura - Graça Fonseca - era secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa e assumiu que era homossexual.

 

A Gaffe aconselha que se apense à informação referente à actual Ministra da Justiça o facto de ser preta e que se inquira o restante elenco governativo acerca das suas orientações sexuais, gostos gastronómicos, doenças várias e outras manigâncias capazes tornar tudo um bocadinho mais picante.

Asmático, obeso, tarado sexual, distraído, com uma sogra foleira, ninfomaníaca, sempre constipado, mestiço, imbecil crónico, assume que é baixinho, sofre de obstipação, ou tem casa de férias na Afurada, são exemplos de valiosa informação que deveria constar no rol de competências e cargos exercidos.

 

A Gaffe acredita que o povoreco ficaria muito mais agradado e confiante.

Dá um ar caseiro. Fica-se com a sensação de que se é imenso íntimo de quem nos governa, não é?

Então vá. Convém que a comunicação social pense nisso.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe sócio-demográfica

rabiscado pela Gaffe, em 11.10.18

1955 - by Bill Perlmutter.jpg

A Gaffe ficou siderada quando deu conta da existência de um papeluncho que pedia que aquelas pessoas pequenas e maçadoras respondessem se gostavam de homens, de mulheres ou de ambos.

 

A Gaffe desconhecia a existência do ambos e fica aborrecidíssima por não ter tido a oportunidade, em criança, de o experimentar.

 

Em relação ao resto, a Gaffe só consegue responder que, aos nove anos, dependia imenso do que tinha fumado primeiro.

 

Foto - Bill Perlmutter, 1955 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe brasileira

rabiscado pela Gaffe, em 11.10.18

Asunción Marian Ruiz (1).jpg

Era uma vez uma cigarra que por não gostar da formiga, votou no insecticida.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe do Céu Santo

rabiscado pela Gaffe, em 04.10.18

MCS.jpg

E eis que perante a seráfica e impávida Judite de Sousa, a co-autora do seu livro Não Me Olhes Com Esse Tom de Voz, Maria do Céu Santo - benza-a Deus -, esbardalha:

 

Há muito assédio sobre os homens e eles têm picos de testosterona. Se uma mulher tem um decote até ao umbigo e uma racha até cá cima, o que é que ela está a fazer senão assédio ao homem que tem à frente?

 

Uma versão giríssima do estavas mesmo a pedi-las.

 

A Gaffe começa a sentir-se ligeiramente embrutecida.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de chuteiras

rabiscado pela Gaffe, em 04.10.18

CRG.jpg

A Gaffe debica o episódio - incluindo os detalhes mais escabrosos -, vivido pela americana Kathryn Mayorga, rapariga que devia entrar de imediato para o Guniness como protagonista da noite de sexo mais cara da história da humanidade, se, como parece evidente, tivesse existido sexo.

A Gaffe suspeita que apenas se cometeu um crime. Coisa de nada, pois que a menina subiu para o quarto da vedeta, logo sabia para o que ia, logo PIMBA - quer se queira, quer não se queira, quer se mude ou não de intenções, ali ou acolá, onde aprouver ao macho -, e, dizem as fontes, andava a arrastar o corpo curvilíneo pelas ruas de aflitinhos cios de magnatas.

 

A Gaffe supõe que as #metoo são capazes de estar a usar neste caso umas chuteiras e que são raros os que perdem tempo com  a leitura do severo, rigoroso e insuspeito artigo do Der Spiegel

 

A menina recebeu uma quantidade razoável de dólares para manter a boca fechada, depois de a ter aberto para fazer queixinhas à polícia - uma hora após o ocorrido, omitindo o nome do agressor -, depois de se ter enfiado num hospital onde é - como se exige -, preservado o kit de violação. A doida! Calou-se - saberá porquê, ela e a equipa pesada de advogados asfixiantes da acusada e coitada da vedeta -, assinou um contrato de confidencialidade - então porquê? - que a impedia de narrar o acontecido, mesmo a um terapeuta, e onde brilha a assinatura do homenzinho que, como seria de esperar, não a violou, mas que lhe pagou o silêncio para não incomodar a mãe com bagatelas.

 

A Gaffe lê que Kathryn Mayorga não passa de uma prostituta oportunista, que se calou durante quase uma década, decidindo agora recolher mais fundos.

 

Vamos assumir que sim? Então vá.

 

É evidente, meus amores, que a prostituição é sempre uma violação consentida.

No entanto, meus amores, não é de somenos importância a palavra consentida, sobretudo neste caso específico. A violação, meus amores, não é uma monstruosidade que derrama ácido apenas sobre os corpos e as mentes das outras meninas. A violação é, como a morte, irrepreensivelmente democrata.

Uma prostituta pode ser violada, meus amores?

 

A Gaffe lê siderada o argumento que ergue a bandeira do poder divinizado do agressor. O sou-quem-sabes-logo-abre-me-as-pernas. O rapaz - dizem sem se aperceberem do quão redutor, ofensivo, medíocre e patético é  o que dizem - pode possuir quem quiser, mas, meus amores, não pode violar quem não o quer, mesmo que a recusa saia da boca de uma mulher que parece ser tida por ele como um depósito de pilas.

 

A Gaffe ouviu o agressor clamar inocência num processo de comprovada fuga ao fisco, não saber de nada, ter a consciência tranquila, que era apenas bonito, famoso, talentoso, trabalhador, rico, jovem e que com estas inflaccionadas características todas as acusações consubstanciavam actos de desmedido bullyng. A Gaffe ouve agora o mesmo, mas agora na boca de gente - demasiadas mulheres mais uma vez -, que iliba com uma facilidade assustadora um acto que a ser provado - e parece haver matéria para tal - é um dos crimes mais asquerosos que se conseguem cometer.  

 

- Ai, que lhe vão destruir a vida.

 

Se for o que parece, meus amores, esperemos que sim. 

 

P.S. - O terceiro lado lunar encontram-no aqui, no post  no, no, no. O que, até agora, de mais lúcido foi lido pela Gaffe sobre o assunto.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe do Ano

rabiscado pela Gaffe, em 02.10.18

U.gif

 

A Gaffe alarga a sua permanência no Douro. Há uns socalcos de tarefas a cumprir e é uma maçada não ter confiança nas empregadas que lhe partem imensas coisas, não as envolvendo nas páginas da Vogue. Toda a pessoa de boas famílias sabe que embrulhar copos da Boémia - ou jarretas Ming -, nas páginas do Correio da Manhã resulta sempre caco.

 

A Gaffe não compreende mesmo a existência de gente que ainda não lê o exclusivamente digital. O resto deixa os dedos tão conspurcados! O digital tem a vantagem de só deixar embrutecido o cérebro e nós sabemos que isso é coisa que não se vê ou se disfarça com alguma facilidade escrevendo cuesia num blog ou, em modo anónimo, na caixa de comentários de um outro. Ninguém fica a par da física rugosidade ressabiada do comentador e os dedinhos que teclam podem perfeitamente distar anos-luz do mais incipiente vestígio de pensamento.

 

A Gaffe tem recebido esporadicamente pequenos mimos de alguém que lê imenso coisas em papel de jornal. Há que admitir que não são brilhantes e pecam pelo refrão. Pertencem à mesma criatura – reconhecível pelos erros de sintaxe recorrentes -, e abordam pequenos recantos e mínimas ruelas por onde esta rapariga vai passeando o olhar.

 

São atentos. São comentários que revelam um estado de alerta permanente ao que, ainda que de forma vaga e incerta, vai tocando a fímbria do vestido Valentino que a Gaffe ousou usar neste degredo com imensas silvas e picos e bichos e fungos repugnantes que trepam às árvores e àquelas plantas que dão vinho.  

O último floreado prende-se com a divertida iniciativa da Magda. Os Sapos de Ano.

 

O comentário é digno de figurar na cartilha da imbecilidade iluminada.  

 

A Gaffe é acusada de manipular as nomeações e de se esperar que mais uma vez chegue à bem-disposta e inócua final, pois que parece que está tudo feito para agradar aos mesmos, não sendo referidos os nomes dos traficantes destas influências torpes que eventualmente serão os tais mesmos.

Após vários protestos, o comentário termina com a crítica severa à ausência de categorias importantíssimas que são ignoradas - talvez quem sabe?! - por concluo de um grupo de conspiradores de palas nos olhos e pernas de paus. A Gaffe chega a admitir que a afastamento da categoria CUESIA é escandalosa, mas há que reportar que seria nessa - e na de CULINÁRIA, vá! -, que esta rapariga não teria hipóteses.

 

Há realmente uma admissível e negra sombra de suspeita.

 

A Gaffe anda ligeiramente ocupada a tentar que a criadagem não parta cristais, mas não poderia jamais deixar de confirmar todas as suspeitas.

 

Os Sapo do Ano são organizados pela Mafia com uma mãozinha yakuzada e esta rapariga tem uma participação obscura e obscena nas duas organizações que, como se sabe, são imensamente paritárias. É unha com soja com a madrinha, a Magda, psicopata obsessiva-compulsiva e cuesiofóbica e muito íntima de David Marinho que chefiou em tempos idos o assalto ao arranha-céus e pertence à Opus Dei.

 

Agora, a personagem atrás dos dichotes já pode ir saltitar pelo charco fora.     

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe boémia (Que c'est triste Paris)

rabiscado pela Gaffe, em 01.10.18

Hans Silvester.jpg 

O Inverno chegou mais cedo a Paris.

 

Morreu Aznavour.

 

Foram tantas as vezes que lhe procurei a voz para me fazer acompanhar nas tristezas mais dolentes. Tantas vezes lhe dancei na alegria. Tantas vezes o identifiquei com Paris, com as suas ruas friorentas de mansarda, com as janelas ternurentas de porteiras, com os amantes quase venezianos a chorar o fim das histórias que riscaram. Tantas vezes achei o meu lugar de memória na memória cantada desta cidade quase sempre entardecida. Tantas vezes o ouvi até saber do amanhecer da melancolia.

 

Chegou o Inverno à mansarda de Paris.

Chega sempre cedo o Inverno - num de repente -, quando o que o que finda nos dizia uma árvore de Outono que nos parecia eterno.

 

Existe algures - e no amanhã também -, numa rua estreita e escurecida, num bar sumiço, sentado a um balcão encanecido, alguém que nas cores do Outono sabe de cor todas as canções de Aznavour.

 

Talvez por isso o Inverno tenha chegado hoje de repente.

 

Foto - Hans Silvester

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e a actriz

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

Sussex por Roland Mouret.jpg

Antes e agora, as mais sofisticadas princesas europeias foram actrizes.

 

A elegância absoluta, sem erro e sem margens para dúvida ou hesitação, parece ter como aliada imprescindível uma lapidada capacidade de fingir.

 

Duquesa de Sussex por Roland Mouret 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe escandalizada

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

O mais recente escândalo britânico:

 

 A duquesa de Sussex fechou a porta do próprio carro!

 

E.Q..jpg

- What is a car door?

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe über alles

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.18

BLOG.gif

A primeira e última vez que a Gaffe andou num táxi, concluiu que deveria ter fretado um helicóptero. Ficava mais em conta, em linha recta, apanhava ar fresco e chegava a tempo e horas ao destino, sem pensar a todo o instante que ia sofre um AVC.

 

Esta rapariga sai de um aeroporto, vinda já não se recorda de onde, e fica a saber que ninguém a consegue ir retirar de um calor imenso de ananases, comprovando-se mais uma vez o quanto a humanidade é capaz das maiores atrocidades sem que as boas pessoas se indignem.  

 

A Gaffe sente-se no dever de avisar que as malas Prada não são as indicadas para arrastar nos pavimentos de granito. As rodinhas são minúsculas, metem-se nos dentes dos rochedos e fazem com uma criatura sinta que foi ao dentista e que o homem lhe enfiou o berbequim no cérebro. Não se adiantam outras hipóteses, pois que Serralves espreita.

Convém referir ao mesmo tempo que é de evitar pedir ajuda àquela espécie de militar que cruza as mãos em frente da pila, abre muito as pernas e se perde em meditação, focado num ponto que fica sempre uns malditos centímetros acima das nossas cabeças. Aponta sempre um dedo silencioso para um lado qualquer como se o estivesse a enfiar no rabo do papa, ou seja, muito lentamente e com pouca convicção e, com um esforço visível, ronca:

- Circule, faxávor.    

É gente pouco recomendável.

 

A Gaffe, absolutamente esgrouviada, de lenço Hermès – não há outros, pois não?! - a ensopar-lhe os caracóis, vestido sedoso e frágil colado ao corpo -  em insinuações que não agradariam de todo ao Conselho de Administração de um qualquer Museu -, e sabrinas Chanel - as pretas e brancas com picotados e lacinho de morrer de lindo -, tenta abrir a porta da carripana mais próxima.

Não. Aquilo estava em fila. Tinha de fretar o da frente.

Lá vai formosa e não segura – será que Camões já foi liricamente retirado do cardápio dos Iphones daquelas coisas adolescentes que vivem no instagram? -, tentar socorrer-se do primeiro da fila, senhor abastado de carnes e anafado de pêlo, que se tinha colado ao banco, apenas com a capacidade de mover a cabeça e esticar a manápula para forçar o manípulo da porta.   

A Gaffe entra na cápsula do tempo perdido em busca de sombra, pois que é uma rapariga em flor.

 

- É p’rá d’onde?      

  

No Douro, um dos petiscos mais populares é constituído por uma cebola crua, embutida em sal e vinagre, que se morde e mastiga misturada com broa. Depois os homens vão aniquilar os fungos das videiras, com o hálito.

O senhor taxista tinha decidido erradicar o míldio, logo ali, de vez.

A Gaffe balbuciou o endereço e o homem arrancou de cotovelos erguidos.

O albatroz que ronca.

A Gaffe vislumbrou o massacrado Iraque invadido injustamente por chusmas americanas, pois que as armas químicas se concentravam, isso sim, nas axilas do condutor do tanque onde esta rapariga amaldiçoava Blair, Aznar e Barroso, para se abstrair do drama que vivia em carne viva. A outra versão rondava defuntos em campos de batalha medieval, mas era alternativa inaceitável tendo em consideração que a idade Média era mais limpinha e não havia plástico para espalhar pelo chão dos viículos montorizados.   

   

A Gaffe olhava para os lados, tentando não mexer a cabeça com receio de a perder.

A Gaffe sentia que um movimento seu podia desencadear uma conversa ou um homicídio.

A Gaffe temia que uma prosa desacorrentada incluísse a luta de classes. Embora pronta e apta a imitar um comunista russo, um herói da Alemanha de Leste, um guerrilheiro cubano ou até Frida Khalo a cuspir para o chão - uma rapariga esperta sabe sempre como sobreviver nos desertos, mesmo nos ideológicos -, a Gaffe temia que o homem fosse o Franco expulso finalmente do Escorial, tendo em conta o cheiro.

    

O senhor cantava pelo caminho.

 

A meio do percurso, esta rapariga petrificada apercebeu-se que havia naquele receptáculo de missa negra uma voz feminina, ao fundo, que acompanhava o vozeirão tonitruante do cantor:

 

Tá turbinada
Tá toda turbinada
Tá turbinada
E não lhe falta nada

 

A Gaffe aceitou o suplício com a abnegação daquelas raparigas muito desprendidas de bens materiais que depois ouvem vozes e morrem assadas. Uma Joana d’Arc.

Cerrou os olhos. Acariciou a sua única amiga, a maldita mala Prada pesada que o senhor tinha ignorado quando percebeu que a tinha de enfiar na carripana e esperou a morte que poderia sobrevir a qualquer momento, por afogamento – a Gaffe diluía-se sem ar condicionado -, ou carbonizada. Que viesse o taxista e escolhesse.

 

Chegou ao destino depois de ter feito um percurso turístico pelo Porto inteiro afogueado. Um pouco mais de sol e era brasa.

Pagou, sem piar, fugiu sem asas e chegou apenas com penas.

 

O único consolo que lhe resta reporta-se ao karma. A Gaffe sabe que no algures perdido do século XX, os confrontos entre os antigos e velhos cocheiros de Lisboa e a Companhia Nacional de Auto-Transportes que inaugurou o serviço de carros de praça, deu no que deu. Já nessa altura se ouvia gritar:

Tàxis über alles!

 

Über alles, meus queridos.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor