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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe arredonda a saia

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.19

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É uma maçada uma rapariga, depois de ter lido artigos inteligentíssimos relativos à saia de Rafael Esteves Martins, ser obrigada a pensar.

A verdade é que seria muito mais fácil deixar que o vento deslizasse por entre as faldas e as fraldas da montanha que um ratito conheceu biblicamente, mas o certo é que uma menina cuidadosa não pode permitir que a estação passe sem que a sua brisa se faça sentir ainda que leve, levemente como quem chama por si.

É um aborrecimento fazer de conta que ignorámos que um político, ou um voluntário a tal em nome da plebe, insinua com uma imagem - física, fotografada, visualmente palpável - as suas ambições eleitorais. A representação tem um poder de conversão significativo e cria e recria um elo de ligação, uma espécie de relação pessoal, entre o eleitor e o candidato.

A imagem adquire uma natureza representativa - paternalista? -, que sendo ao mesmo tempo uma supressão da linguagem, se torna consequentemente apta a enformar uma arma capaz de se escapar a um corpo de problemas e de soluções, para dar relevo a um modo de ser, a um estatuto social e mesmo moral.

 

A imagem do candidato é em consequência um provável assalto do irracional ao espaço que em princípio deverá ser o da racionalidade.

 

Desta forma, a saia de Rafael Esteves Martins - enfim, a imagem de qualquer político -, não consubstancia, de todo, o seu projecto, declara apenas o seu móbil, as suas circunstâncias mentais e até mesmo eróticas, o ser que ele é, o produto, o exemplo, o isco.

É mais do que evidente que a esmagadora maioria dos candidatos nos dão a ler na sua imagem apenas as normas - sociais, mentais, morais -, a que obedecem, mas convém acrescentar que essa mesma imagem impõe uma cumplicidade, porque nos permite ler o que nos é familiar, o que nos é conhecido, propondo-nos, em espelho, a nossa própria imagem, enaltecida, sobrevalorizada, transformada em convite para que nos elejamos a nós, através dos que a revelam. Entregamos um mandato a quem nos concebe uma verdadeira transferência física.  

 

É evidente que a saia de Rafael Esteves Martins permitiu uma visualização, uma majoração, de valores que tantos consideram essenciais. É evidente que estabeleceu uma cumplicidade visual com determinado grupo, mas não é suficiente, mas não autoriza a certeza de uma posterior e intransigente defesa desses mesmos valores. Não é um ideal político explanado, não é uma ideologia, não é um projecto, não é um plano, não é um programa. É um homem que vestiu uma saia, contra o aparente bom-senso, que, nestes exactos e precisos casos, funciona como defensor acérrimo de um mundo homogéneo, ao abrigo de perturbações e de fugas. Um mundo replicável.

 

Seria interessante que, ao contrário do usual, os candidatos ao Parlamento nos surgissem como caixinhas por armar. Os eleitores escolheriam as que queriam ver montadas.   

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A Gaffe do Rafael

rabiscado pela Gaffe, em 28.10.19

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Rafael Esteves Martinsassessor da deputada Joacine Katar Moreira, diz ponderadamente à comunicação social que está ali presente para discutir questões políticas e não para divagar sobre o seu outfit. Concorda-se, pois que ninguém divaga sobre os aventais que por lá se movem. 

Uma chapada de capeline branca.

 

Vamos acreditar, meu querido, que o menino é apenas um novato e que por consequência ignora que foi publicada mais vezes a cor do verniz das unhas da deputada - ou mesmo a cor da pele do nosso Primeiro -, do que legislação no Diário da República. A alternativa - o menino é useiro e vezeiro nestas marotices e sabe-a toda -, não faz justiça ao seu ar arejado.

 

Devo dizer-lhe, meu caro, que odiei alguns pormenores que me trouxeram à memória a catequista da aldeia de outrora.

 

Não é admissível que marche com um saco de pano foleiro a penduricalhar à tiracolo.

Bem sei, meu querido, que é mais ecológico - ou vegan, ou vegetativo, ou essas coisas hemopáticas, homoepáticas, homeopáticas -, e que é preferível a trazer um feito de parte de uma vaca assassinada e curtida para esse fim, mas, convenhamos meu caro, há bichinhos mortos e esfolados e transformados em maravilhosos Louis Vuitton com mais idade do que a Thunberg. Tinha desculpa. Na altura que o comprou não imaginava que iria aparecer uma piquena aos ralhetes e aos ramalhetes ecológicos e a bradar pelos ecossistemas. Toda a gente que se preza tem do pré-Greta e do pré-PAN qualquer coisita em couro e quando não tem leva o próprio. Não pode esquecer que é só agora que não se podem usar os netos desses falecidos como acessórios. Se for vintage é distinto. 

 

As meias!

Meu querido Rafael, as meias tricotadas pela avó, verde-bicho morto, são também elemento francamente provocatório. Para além de parecerem quentes enfiadas naqueles Dr. Martens - não convém começar a cheirar mal logo no primeiro dia -, aludem à tonalidade do que já se finou há pelo menos uma semana - provavelmente a semana que levou a decidir a melhor forma de espantar os pardais parlamentares e provocar o chinfrim habitual nas redes sociais.     

 

Vou entregar-lhe um conselho. Sei que é o menino que assessoria, mas uma pitada de malícia colorida em jeito de miminho conjuga lindamente com o seu pullover absolutamente oxfordiano que minguou na máquina de pretos que a senhora lá de casa fez na véspera, mas, meu querido, quando quiser que aquilo a que chamam comunicação social não lhe rompa e roa a bainha do outfit - em vez de o ver coser os ideais - escolha vir definitivamente deslumbrante e faça rodar sobre todas as bancadas parlamentares todas as pregas de um kilt bem moldado e, como é da praxe, usado sem cuecas.

 

Talvez assim se veja definitivamente que o menino tem tomates.

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A Gaffe aflautada

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.19

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Se a Gaffe avançar pela banalidade e repensar o modo como queremos que uma verdade, ou uma mentira que desejamos que passe por verdade, seja ouvida, verifica que depois de se arregalar os olhos, se esganiça.

É que esganiçamos!

 
A Gaffe propõe que pensem nos momentos em que disseram a alguém no meio duma discussão, mesmo das pequeninas e com um travozito a mentira: 
Juro-te que é verdade. Mas é tudo verdade!

Esganiçaram. Aflautaram. Podem ter sido apenas um bocadinho, mas esganiçaram, mas aflautaram.

A Gaffe aposta que disseram a frase a caminho do falsete ou então aproximaram-se do esganiço. Foi ou não foi?

 
Este modo de dizer uma frase que pode ser dita na voz que deus nos deu, parece que fica mais credível se aflautarmos, mesmo se o sopro na flauta for discreto. Acontece apenas nestes casos. Como se a verdade, ou a mentira que queremos que passe por verdade, se tornasse de pedra e cal se tentássemos imitar o Nuno Guerreiro - esta linha de pensamento acaba por levar a Gaffe a pensar que o Nuno Guerreiro é uma verdadeira santa genuína quando desata a chiar. É de notar que esta é uma conclusão precipitada, consequência do mau discernimento e confusão mental que o homem provoca quando aparece desatado aos guinchos.

 

A Gaffe perdoa o bater pestanas num arregalado olhar azul. Descobriu que a maioria das pessoas portadoras de olhos claros, os esbugalha quando discute, provavelmente porque em criança de tanto ouvir clamar pela beleza dos ditos, considerou que os podia tornar argumento convincente, tentando ofuscar o contraditório, mas esta rapariga não entenderá jamais como Marta Temido foi reconduzida no cargo onde esganiçou uma quantidade tão elevada de vezes que só não perdeu pio porque se agasalhou com as listas de espera que conseguiu tricotar.

 

- Juro que é verdade! - aflauta esta rapariga muito convencida.    

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A Gaffe dos novos parlamentos

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.19

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Não me penso capaz de análises políticas susceptíveis de se escapulirem por estas pobres e cansadas Avenidas. Não sou proficiente, como agora se diz.

É-me indiferente saber se foi o esfumar de determinado partido - que gotejando névoas mais suspeitas, permitiu a liquidificação de uma extrema-direita, populista e grandiloquente, patrioqueira e balofa, oportunista e alegadamente unipessoal, xenófoba, homofóbica, racista, misógina, onde também podem agora chapinhar ufanos os que não dizem, mas pensam -, o impulsionador, o obreiro, o que elegeu como parceiras, como idênticas às suas, propostas como, entre outras, as de eliminar o Ministério da Educação, castrar quimicamente agressores sexuais, defender a pena de morte ou proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, interditando-lhes a possibilidade de adoptar.  

Reconheço apenas que a Democracia portuguesa durante quarenta e cinco anos recusou admitir que nela eclodisse o ovo da serpente - embora chocado por um Coelho - e que a festa da Páscoa nunca tivesse a antecedê-la uma Quaresma de ofídios.

Provavelmente a Europa - e os outros mundos liderados por escroques -, entrou numa espécie de pós-democracia e eu, provinciana, não o percebi, nem a consigo enunciar.  

Dizem os entendidos que não pode deixar de ser saudável a chegada dos populistas de extrema-direita à ribalta política, ao palco dos parlamentos. Ali podem ser desmascarados, trucidados com argumentos eivados de liberdade e de razão, desmascarados, revelada e denunciada a sua vacuidade e anulado o perigo que inevitavelmente encarnam, gota de ácido a alastrar e a corroer as fibras do tecido a que os Velhos chamaram Liberdade.

Seria certo.

O errado é que nas areias dos discursos dos que se dizem e querem heróis e paladinos das alvoradas e dos dias que os poetas esperaram, há palavras empapadas, curvilíneas serpentinas, circos, malabaristas, contorcionistas, confusões de lantejoulas, nadas movediços e avalanches de ocas frases feitas em que o tempo se esgota de modo aflitivo e irado, porque os outros palram demasiado impedindo que se exibam outras oratórias igualmente vácuas.

Os eleitos a temer podem agora ter palanque, mas será que as nossas democracias estão preparadas para os ouvir?

 

É neste tempo acelerado pelas elocuções ensopadas pelos egos, no tempo sem tempos ou compassos, que a gaguez de Joacine Katar Moreira obriga, obriga-a, a uma escolha rigorosíssima da palavra, a uma selecção implacável da frase, a uma precisão inusual do discurso, a um tempo de espera que tem sido asfixiado ou atropelado sucessivamente, a uma cirúrgica forma de comunicar o que se defende. A gaguez de Joacine faz perceber que já não se ouvia ninguém há muito tempo e constrangidos esperamos que a ideia surja inevitavelmente concisa, paradoxalmente clara, sem os adornos cintilantes do costume.

A gaguez de Joacine obriga-nos a ter tempo e sobretudo a ter tempo de pensar. A gaguez de Joacine dá-nos tempo. 

Talvez, por ironia, venha a ser uma gaguez negra e feminina a esvaecer os que de tão fluentes arremessam, com a urgência de quem quer calar o outro, todas as palavras atoladas.       

 

Imagem - Remy Cogghe

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A Gaffe escreve a Greta Thundberg

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.19

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Queridíssima Thundberg,

Deixe que a trate assim, pois que temo não conseguir travar a minha vontade de contratar meia dúzia de rufias para desflorestar – ou desflorar, tanto faz - os imbecis que continuam a achar piada aos trocadilhos tugas que continuam a fazer com o seu primeiro nome. Nem toda a gente se pode chamar Vanessa Raquel, ou Maria Benedita, credo!

Depois, minha cara, permita que lhe diga das boas.

A menina devia evitar perturbar as famílias que se preocupam com a educação dos miúdos. Faltar às aulas por causa das couves é meio caminho andado para o colapso das civilizações e as couves vão morrer na mesma, acredite. É uma indecência ver pais desesperados a tentar que os seus petizes cumpram as suas obrigações e tirem as notas exigidas por Medicina e ver todo um trabalho ir por água abaixo por causa das suas birras - espero que tenha reparado no detalhe ecológico que tive a amabilidade de usar. Observe os nossos adolescentes, minha amiga! Se querem seguir os youtubers, jogar o Mortal Kombat ou fumar qualquer coisita num conserto da banda dos rufias anteriores, ou do Valete, não precisam, de todo, de abandonar os TPC. Avisam aos pais por SMS que bazam a Português porque valores mais altos se alevantam, 'tá-se bué. Vai ver que os senhores até agradecem que os deixem em paz e com tempo para a achincalharem. Depois chamam os pequenos para jantar.

É também evidente que não pode ser malcriada nas Assembleias! A ONU ou o Parlamento Europeu estão pejados de pessoas de boas famílias, apoiadas por outras Famílias que, não estando presentes - pois que escolhem lugares de maiores sombrinhas -, se fazem representar discretamente e com uma eficácia que a menina dizem não ter.

Merecia duas chapadonas do Guterres, mas infelizmente o homem está em tratamento nas Termas, enfiado naquelas pocinhas onde há peixes que comem a porcaria que as pessoas que se afundam num pântano têm nos pés. Um nojo. Não compreendo como há quem defenda estes animais.

Há depois aquele seu problema de saúde e com a saúde não se brinca. Com ela e com o penteado. O allure urbano-Heidi que teima em manter é prova de alguma debilidade e instabilidade mental. Os adolescentes saudáveis, minha menina, usam slim jeans rasgados nos joelhos, risca no cabelo feita com navalha, T-shirts com slogans revolucionários, do tipo fuck, shit is my live ou it’s not me, it’s you  - daí o belíssimo inglês que falam - e acho que levantam o mindinho e o polegar, abanando o resto para cima e para baixo, quando querem comunicar com os amigos ... ou, pelo menos, um ar de Nuno Melo.

Devo dizer-lhe que não é necessário que ataquem as suas causas com argumentos entendíveis e atendíveis. Basta a menina não aparecer em público nas condições que são exigidas pelas boas famílias que parte do trabalhinho fica feito. Não interessa nada que só esse ataque - o ataque que a visa, a si, apenas a si, e não às causas que defende -, prove que a menina tem uma razão inabalavel. 

Previno-a, no entanto, que basta que seja chicoteado um prevaricador em público para que as multidões se acanhem apavoradas com a possibilidade de serem também batidas em seguida. Este medo, agora, às vezes dobra se o silvo do chicote se fizer ouvir no facebook.

Penso ter dito tudo o que me ocorreu. 

Não fico para o chá, pois que tenho o veleiro pronto a zarpar, movido pelo vento e suponho que por aquelas coisas fálicas com pás na ponta, que parecem moinhos magrinhos e receio que iguais aos que a menina defende - uma pena não conhecer Cervantes. Parto pois de pandas velas de algodão egípcio fabricadas pelos miúdos lá longe, ainda mais novos que a menina, que por acaso também não vão à escola e a quem nem sequer nascem os sonhos, não sabemos porquê, pois que deixamos de ter causas. Anote que vou de vela! Não sou como a bastonária da Ordem dos Enfermeiros que apresentou uma conta de dez mil euros em combustível no mês de Setembro. É evidente que a senhora - é só fazer as contas, não é preciso ser Secretário-Geral da ONU! - percorreu cerca de 400 Km todos os dias do mês - não apenas nos difíceis, em que só nos apetece desatar a guiar até à Cochinchina -, provavelmente para visitar cada um dos enfermeiros precários da região que lhe fica mais à mão. Uma poluente, como se vê, e ainda por cima com penas de aves esfoladas nas orelhas.

Está a ver?!

Desviar toda a nossa atenção para casos destes, ainda mais relacionados com a saúde do muito próximo, mais assim caseiro, muito bastonária, sai muito mais em conta e nem aquece, nem arrefece, quem a elegeu.

É isso e a carne de vaca nas cantinas, ou a testosterona do giraço. Também serve - e parece tudo o mesmo hamburguer. 

Vá por mim! Faça como eu, gaste tudo em álcool  e deixe tudo arder.

 

Ilustração - Afarin Sajedi       

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A Gaffe universitária

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.19

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Amílcar Falcão, excelso reitor da Universidade de Coimbra, proibiu os pratos com carne de vaca em catorze cantinas estudantis.

Dizem que António Costa anunciou a retirada da carne de porco nas acções de campanha do seu partido e de qualquer tipo de carne nas ementas da presidência do Conselho de Ministros.

 

É um ruminante descalabro!

 

Anulando-se da ementa o steak tartare, o bife Wellington, o lombo com molho teriyaki, o contrafilé no forno com chimichurri, as tirinhas de carne com molho shoyu e o filé mignon com molho de gengibre que, entre tantas outras iguarias, construíram o nome destes santuários groumet ao longo do cursar do tempo, perdem-se, de forma absolutamente tonta e à toa, as estrelas Michelin que ostentavam as messes coimbrãs.

Os políticos sempre comeram brioches et ils mangeront les pauvres, comme d´'habitude.  

 

Mas a Gaffe recusa-se a falar de comida - e de rebentos de soja ministerial -, não vá parecer uma empregada populista e mal informada. 

 

Ilustração - Denis Zilber 

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A Gaffe estupefacta

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.19

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As plataformas onde se alojam blogues não comunicam entre si, ou seja, uma determinada acção com origem no Blogspot, por exemplo, que se reporte a uma situação específica na Wordpress ou Sapo, não tem eco nas plataformas visadas e o caso é ignorado pelos destinos ou destinatários.

Foi o que aconteceu.

Apenas agora - e porque só agora o soube -,  dou comigo com uma gigantesca estrela pousada em mim que patinava, que esquiava, que me tentava equilibrar no piso escorregadio destas Avenidas.

Sinto-me absolutamente deslumbrada, orgulhosa, vaidosa e um bocadinho atarantada, porque mereci a simpatia de um dos raríssimos cavalheiros, de um dos grandes cavaleiros, da Literatura Portuguesa de todo o sempre.

Rentes de Carvalho teve a imensa generosidade de me considerar uma excelente surpresa.

E bastava-me um sorriso.

Valham-me todos os deuses! Eu tenho mesmo aqui ao lado as extraordinárias obras deste sábio e tanta vergonha de descobrir que estou nestes preparos!

Sinto-me tão recompensada!   

Muito obrigada.

 

Ilustração - Denis Zilber

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Queridíssimo António,

Permita que o trate desta forma. Sei que não se ofenderá, ou sequer ficará melindrado, considerando o seu carinho por um allure francês - que arrasto numa costela - que sempre foi bem-vindo em Santo António da Barra.

Autorize que o congratule. O menino vai fazendo caminho, caminhando quase impercetível pelas brisas marítimas deste seu país tão pequenino.

É amoroso observar o seu Portugal a florir agora, com a lentidão exigida, no exacto canteiro onde o deixou um dia e o seu povo, o seu humilde povo, a regressar devagar e sem atrito àquele pedaço de terra que ia morrendo consigo à cabeceira.

Ouso pedir-lhe, meu querido António, que - pese embora o mal que lhe fizeram conspurcando-lhe a memória e a bonomia com que sempre olha o estado da Nação, sobretudo agora sentado lá no alto, na cadeira de Pedro, em princípio a mais segura -, tome consciência dos erros que em vida pia cometeu.

 

O menino, meu dulcíssimo António, entendeu mal o seu povo, ou seja, entendeu mal os pobres. É evidente que uma pessoa de bem por muito que queira colaborar com a Jonet, não pode saber de que se alimenta o populacho, mas o seu cargo exigia - peço-lhe perdão, mas tenho de o dizer -, que entendesse a inutilidade da repressão que alegam ter exercido sobre os supostamente esfomeados.

 

O menino deixou escapar por completo esta democracia!

 

O meu querido, imperdoavelmente, não percebeu que a polícia política, o aljube, a beatice, a tortura, a censura, a perseguição, o exílio, o assassínio, o peculato, a extorsão, o nepotismo e todas essas tontices desagradáveis que maldosamente afirmam ter permitido, apoiado e mesmo e praticado no aconchego do lar, não são coisas que se façam ao abrigo de um pretenso poder sem escrutínio popular.

Dá sempre para o torto.

É evidente que é sempre feio andar a matar pessoas ou até a algemar e encarcerar contos e ditos ou a torturar gente que não sabe estar, mas, meu querido António, as restantes podem perfeitamente coexistir com outros modos de se governar que não o pesadíssimo ditatorial.

 

O menino devia ter viajado mais.

 

O menino devia, de modo muito mais saudável e sem quedas aparatosas, ter transitado para um regime democrático como aquele que alastrar agora na sua tão amada Nação.

Desempoeirava a mente, desopilava, descontraía, pulava nos comícios, dançava ao som dos bombos, não tinha de se preocupar com niquices caseiras - como descobrir mais um buraco na cave onde enfiar a oposição -, espairecia, ficava mais seguro da perenidade da sua obra e garantia o museu.

 

Não sei como foi capaz de perder a noção das vantagens de uma democracia portuguesa posta ao seu serviço, pese embora a sua tão certa preocupação com o acerto de contas e com as contas certas.   

 

Não percebo como foi capaz de ignorar que se pode legalmente blindar os seus e os nossos privilégios, permitindo, ao mesmo tempo, que os pobres se manifestem numa gritaria desalmada de ruela impotente. Não é de todo necessária a polícia de choque! Basta andar às voltas de gabinete atarefado, com um je ne sais quoi preocupado, indignado, solidário e decidido a alterar a legislação na próxima legislatura. Depois se verá como se esquece, depois se verá como o povo se esquece.

 

Não faz sentido que não tenha dado conta que se podem vedar os tribunais aos cretinos que ousam - por dá cá aquele imposto ou roubalheira sem monta e sem montra -, exigir ver com olhos de ver aquela miragem tola com olhos vendados e balança nas patas que se vai entretendo com os nossos recursos usando os recursos do povo que, dada a quantidade e a qualidade, se esgotam depressa, não provocando quezílias de grande montante.

 

Não me compadeço com o facto de não ter compreendido que basta um há que clarificar tudo doa a quem doer e até ao fim, para que se esqueçam as ajudas de custo e desta forma não nos custe nada a reconstrução das casas de férias.

 

Não consigo aceitar que não tenha visto que é facílimo não pintar a coisa com lápis azul! Basta lançar mais nenúfares na água estagnada desta imprensa livre de forma a que se saltite de um lado para o outro, de lá para cá, de cá para lá, sem ressecar os números das audiências e sem sequer estar implícito o clarificar tudo doa a quem doer, porque tudo ficou bastante bem tratado e resolvido com o penso rápido colado com a saliva dos sentados nos estúdios dos comentários e nas fitas dos comendadores. O menino não fazia compras nos hipermercados, pois não? Se as tivesse feito, saberia que tantos rótulos juntos, distraem imenso e fazem esquecer que os iogurtes têm prazo. O povo, quando tudo se mistura, compra sempre o que está à mão, sem ler as cores e sem compostura.

 

Não me resigno com a sua indiferença perante o facto de bastar apagar - apagar, mas apenas informaticamente, não se precipite! -, uma quantidade substancial de pobres das listas de espera seja do que for que os trate, que enfuscam os hospitais, para que sopre ar puro e sem porcarias doentias nos gabinetes ministeriais permitindo descansar e acamar em metáforas o populacho que, quando nos transporta aos hospitais de iniciativa privada, não se consegue aturar, com queixas saloias de hemodiálises por fazer. Se os rins não funcionam que comam brioches que absorvem o vinho.

       

Não consigo entender como não foi mais assíduo nos constantes solavancos pedagógicos das Escolas, no abarrotar de burocracia digital ora tão moderna, tão em voga, que se não mata, embrutece, fomentando também desta forma arrevesada e atolada em linhas programáticas que vão bailando ao sabor dos lectivos burocratas, fornadas de pobres incapazes de pensar, ou então prolongando a magnífica diáspora portuguesa que sempre forneceu mundos ao mundo e ao mesmo tempo promovendo a alegria na velhice, na satisfação no trabalho na terceira idade, dos que incumbidos de educar os pobres, de lhes entregar novas oportunidades, cursos de formação de formadores, estágios profissionais não remunerados e contratos de emprego-inserção - baixam imenso o número de desempregados e fazem um brilharete na Europa! -, exalam alegria unindo o Portugal ao Brasil e ao Ultramar através da maravilhosa uniformização da língua de Camões - que finalmente já tem marcada a consulta de oftalmologia, no SNS que o homem nunca teve posses.

A glória da Nação Portuguesa no mundo passa, meu querido, por convencer com subtileza as pessoas cultíssimas a desandar daqui para fora, nunca a ir para fora cá dentro onde já não há, de todo, transportes que as levem. Há que provar no estrangeiro que continuamos a ter imenso valor e enorme capacidade de exportação. Nós fazemos. Nós exportamos. Uma economia em ascensão, e em assunção, tal como a Nossa Senhora que o Presidente da nossa e da sua República vai beijar, ajoelhado ao lado do novo Cardeal num 05 de Outubro de português laico e sem o glamour das saias vaticanas.

 

Não entendo, meu queridíssimo António, imensas outras coisas que ignorou sem atender ao quanto lhe seriam úteis, mas admito que vai longo este meu rabisco e não o quero maçar mais, sobretudo agora que, em nome do fascismo nunca mais, não o deixam ter museu.

 

Permita apenas que lamente mais uma vez que não tenha percebido o quão inúteis foram as esconsas e sombrias ruelas de opressão, de repressão, de tortura, de traição, de tráfico de influências, de extorsão, de censura, de morte, de exílio, de prisões e de tantas outras pequenas maldades que foi cometendo no escuro, quando para castrar um povo, torná-lo impotente, espoliado, incapaz, inculto, desdentado, roubado, sem esperança, miserável, subserviente, acomodado, iludido e sem justiça, bastava, mesmo em pleno dia, uma democracia entregue a canalhas.  

 

Fotografia - Henrik Spranz  

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A Gaffe da Marvel

rabiscado pela Gaffe, em 09.09.19

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O Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, proibiu a venda do livro de BD que apresenta dois heróis da Marvel, Wiccano e Hulkling, jovens rapazes potentes e muito pouco recatados, num abraço fechado num beijo onde é provável que a língua de um esteja a pesquisar o palato do outro.

 

A Gaffe não é a Folha de S. Paulo e não vai apresentar a ilustração proibida, até porque não satisfaz a sua refinadíssima exigência estética, mas, após apurada pesquisa, está apta a revelar que a BD é de 2012 e que os envolvidos no escandaloso e nojento beijo são ambos filhos de mães solteiras. Um é filho da Feiticeira Escarlate, que perdeu o Visão -  pai do seu filho e não um problema oftalmológico -, e o outro é filho da Capitã Marvel, uma senhora que já foi um senhor. Nada de bom se poderia esperar, como se conclui pelos antecedentes.  

 

A imagem proibida é suscetível de atentar contra a #deixemascriançasempaz, muito popular por estas paragens e originar mesmo um belíssimo artigo da autoria de Laurinda Alves, insurgindo-se mais uma vez - e possivelmente torcendo e retorcendo mais Decretos de forma a que pinguem atentados civilizacionais -, contra a degradação humana que permite que dois homens se beijem em público, provavelmente nos WC comuns e sobretudo nos desenhos.  

 

A Gaffe leu, algures no tempo, uma entrevista em que Laurinda Alves declara que quando se dirige a Deus, fá-lo - e não falo, é de bom-tom sublinhar -, sempre em inglês, pois que sente que Deus a ouve e a entende melhor nessa língua.

 

A Gaffe considera que esta afirmação é suicidária. Laurinda Alves deixou de ser credível, pois que toda a gente sabe que Deus é francês - Il n’aime rien, iI est parisien. Não vale a pena ler a senhora se não se nos dirigir na língua de Molière.

 

#deixemascriançasempaz merece a nossa particular atenção, pois que prima pela defesa da moral e dos bons costumes infanto-juvenis que a escumalha demoníaca tenta violentar - qual cardeal a um acólito -, pese embora Crivella, Fátima Bonifácio e Portocarrera - trio maravilha unido nas lutas, em frentes diversas, pelos valores tradicionalíssimos que sempre comandaram o mundo, graças a Deus e à Santa Virgem cosmonauta.

 

A Gaffe não entende como não é visível ao comum dos mortais as consequências, malefícas e devastadoras, destas e de semelhantes imagens de despudorado, ínvio, depravado e desnaturado cariz sexual evidentemente anómalo - que esgotam no momento em são proibidas, mesmo sabendo-se que podem causar desmandos nas orientações sexuais das criancinhas!

É evidente que uma criança que vê um desenho onde dois rapazes se beijam em preparos homossexuais, por muito contrariado que seja pelo senhor pároco ou pela psicóloga, detentora da cura, vai a médio prazo dar na veia - não necessariamente a poética -, ou, - pior! -, desatar a engatar matulões nos WC da Basílica de Fátima.     

 

A Gaffe já deu início a uma petição pública para que seja esfregado e raspado o relevo depositado no Museu ao ar livre de Karnak que representa o rei Senusret I - nos idos 1971/1926 AC - abraçado a Min-Amun - que anda bastante armado ou que ficou muitíssimo contente por ver o faraó.

 

Haja respeito pelas Instituições Sexuais.

Valha-nos Deus.

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A Gaffe do combustível

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.19

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Perante a ameaça de falta de combustível, seria absolutamente genial que alguns portugueses descobrissem que podiam, para além de jerricans, de jerricãs, de bidons e de bidões, encher também a caixa craniana.

Afinal, para que é que servem as narinas?

 

Fotografia - Abid Mian Lal Mian Syed

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A Gaffe cosmonauta

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.19

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Portugal, diz Luís de Freitas Branco, é um país de miniaturistas.

Reportava-se o compositor à proliferação de pequeníssimos acontecimentos culturais que grassavam por todo o lado, mas que não se aglutinavam, nem se agigantavam, servindo desta forma os interesses daqueles que considerava limitados e incapazes de projectar um país a longo prazo.

Ao mesmo tempo, o compositor lamentava a miserável falta de reconhecimento dos homens e dos factos que poderiam, se elevados, alterar esta raquítica forma de arquitectar um país usando-se apenas as folhas de um bloco de apontamentos muito pouco definido e demasiado parco em espaço.

 

A verdade é que Luís de Freitas Branco não nos fornece pistas, não nos indica nomes, nem nos entrega acontecimentos capazes de edificar no país uma ambição de gigante.

Maroto.

 

Há, contudo, pelo menos um facto, relativamente recente, que contraria este dito acutilante, não urgindo recorrer a ilustres navegadores de antanho.

 

Fomos capazes de projectar na História a visita do primeiro cosmonauta a Ourém.

 

O sapientíssimo padre Gonçalo Portocarrero de Almada, num extraordinário artigo, para além de lamentar não ser possível considerarmos a ascenção de Cristo - acontecimento, que os apóstolos observaram atentamente, o que dá a este facto consistência científica e sendo comprovada a evidência do ocorrido por uma quantidade significativa de anjos – a primeira viagem espacial, dado que Cristo é o próprio Criador, com o Pai e o Espírito Santo, informa-nos que, mesmo sem foguetão, a primeira criatura humana a viajar pelo espaço foi, nada menos, nada mais, que Nossa Senhora.

 

Pese embora o esforço de Pio XII que decidiu o que aconteceu – e que ninguém pie -, nem o magistério pontifício, nem as visões dos místicos, nem os ensinamentos dos teólogos lograram explicar como ocorreu o transporte de Nossa Senhora, na sua assunção ao Céu, que também ninguém observou. No entanto, esta questão parece ter sido esclarecida nas aparições em Fátima.

Como se reconhece, Fátima é o Altar do Mundo e uma das pistas de aterragem da nave da ilustríssima cosmonauta.

 

Foram portugueses os que forneceram estes dados ao planeta e deles deram notícia global.

 

Após interessantíssimas considerações, o Padre Gonçalo Portocarrera de Almada termina a sua admirável tese, comprovando que, pelo dito, Maria não foi uma mera espectadora da História, mas uma protagonista e precursora de uma das maiores proezas da humanidade.

E finalmente:

Os santos não são os que, por amor a Deus, se desinteressam do mundo, mas os que, com a sua bem-aventurada vida, mais e melhor contribuem, também em termos científicos e tecnológicos, para a evolução do género humano: os principais obreiros das verdadeiras revoluções civilizacionais.

 

Foram os portugueses que acolheram esta verdadeira revolução civilizacional e dela deram notícia, espalhando ciência pura pelo mundo.

 

Luís de Freitas Branco, pega e embrulha. Vais precisar de muito papel que isto não é, de todo, coisa pequena.  

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A Gaffe repetitiva

rabiscado pela Gaffe, em 09.08.19

.I.

A Gaffe, a propósito desta cirúrgica Carta Aberta, recorda, com o distanciamento que sempre foi necessário neste caso, o extraordinário registo com que a destinatária da Sarin a mimoseou outrora.

 

A mais sinistra das águas é aquela onde sob a superfície parada e cristalina, se esconde a insalubridade.       

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A Gaffe repórter

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.19

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Pouco tempo depois de Abril de 74 – contava o meu avô, que se divertia sempre que o fazia -, uma jornalista toldada pelas renovadas atmosferas, trepava às montanhas e aos penhascos para mostrar ao país a miséria em que o povo se encontrava. Entusiasmada, eufórica, nervosa, revelava o estado de total analfabetismo que se instalara, durante o tempo das trevas, nos montes e nas serras dos degredos. Uma torrente de escandaloso choque. Na breve entrevista que fez a uma velhíssima senhora de lenço preto a amarrar-lhe as rugas, repetiu afoita as sacramentais perguntas.

Sabe o que é o fascismo? Sabe o que é a Assembleia da República? Sabe o que é um deputado da Nação?    

A senhora não sabia.

Sorria mateira e a meio do difícil questionário, decidiu que era altura de calar a trepidante repórter.

- E a menina, sabe o que é um almude?

 

Cerca de quarenta anos depois - mais coisa, menos coisa, que não sou rigorosa -, a notícia chega nos solavancos fonéticos, nos disparos silábicos de uma histriónica jornalista que ameaça saltar dali e nos pregar dois estalos se não lhe prestamos a devida atenção:

Cerca de vinte crianças foram atendidas nas urgências da Unidade de Saúde com sintomas suspeitos de intoxicação.
A peça corre mostrando a nauseabunda porta da Urgência carcomida onde se amontoam uma dúzia de senhoras desgrenhadas e outros tantos cavalheiros de sorriso alarve e telemóvel em punho.


- As raparigas sentiro uma comichice e depois ficaro com impalas no corpo. (Aluno da Escola atingida).
- Eu tenho três piquenos e ambos os três ficaro comichosos e com falta de ar. (Encarregado de educação).
- Não é nada grave! As crianças chegaram aqui mortas por se ir embora. (Chefe dos serviços de urgência).
- Eu acho que foi porque metem muito alho no comer da cantina. (Encarregada de educação).


Na estação concorrente dá-se novas do incêndio numa fábrica de produtos químicos, que, à semelhança de todos os outros, é dramático e desolador.

O repórter, de microfone em punho e olhar de fanático possuído pelos demónios da adrenalina ou já toldado pelos vapores tóxicos libertados, teima em recolher os depoimentos da população:
- Só se ouvia pum, pum, pum, pum, pum, pum... ... – insiste um senhor de olhar distante e dentes podres.
O jornalista esperava um pum maior ou então que se esgotasse a cadeia dos pequenos.
- Como é que ficou a saber do incêndio? – resolve perguntar à senhora de óculos bifocais e gengivas sem dentes.
- A minha filha telefonou a dizer-me – esclareceu a mulher de olhos fixos na câmara.
- E o que foi que lhe disse a sua filha? - Insiste o repórter, nervoso e expectante.

- MÃE, ANDA CÁ DEPRESSA QU’A FÁBRICA ESTÁ A ARDER!  – brada, monocórdica, a senhora de gengivas rosa e óculos bifocais.

 

O manquejar jornalístico tem, como se lê, tradições que vão perdurando.

O analfabetismo - em todos os seus versículos - também, mas tal se tornará uma outra história.

 

Lembrei-me destes pícaros episódios quando, há cerca de dois dias, cinco canais de televisão acompanhavam em directo um autocarro que transportava jogadores de futebol do hotel para o estádio - e com recurso a drones, não se vá perder o topo do veículo.

Sendo que, agudizando a gravidade do ocorrido, me dizem todos – sobretudo os que o perderam -, o jogo não era significativo, valendo um pechisbeque nas agendas apopléticas dos campeonatos, a transmissão torna-se então a indigência bacoca do jornalismo televiso em todo o seu esplendor.

 

Dir-se-ia de interesse público acompanhar o Sporting no seu trajecto rumo a uma humilhante derrota – Deuses! Os rapagões foram cilindrados por cindo golos! Mesmo para uma leiga como eu, digam o que quiserem, esta quantidade de desastres sofridos num só joguito é sinal evidente e confrangedor de mediocridade. Numa inversão da clássica arena romana, os leões são trucidados e comidos pelos gladiadores.

Dir-se-ia que tem repercussões nacionais observar a saída dos jogadores do Benfica do autocarro do amor, pé ante pé, olhares de soslaio à conta das divas, sobrancelhas cuidadas e depiladas as pernas, não vá o país perder as gravatas timbradas e os passarinhos de raminhos de louro nos biquinhos, ou o chispar charmoso das primeiras entrevistas do Sporting que nos informam que este vai ser um jogo difícil, a equipa adversária é boa, mas vamos lutar pela vitória.    

 

Podemos dizer o que quer que seja, que tudo se consegue mergulhar na plácida superfície da penúria analfabeta - e desonesta - que perdura há várias décadas no jornalismo - português em particular, pois que é dele que se fala.  

 

É evidente que se pode recusar este pindérico - e perigoso - modo de se mostrar o mundo. É evidente que existem abertos outros canais de informação absolutamente dignos.

 

Mas sejamos honestas, minhas queridas, sem esta espécie de estupro televisivo e telegénico, não conseguiríamos avaliar condignamente a envergadura e a potência anímica de atletas como o da imagem – não interessa nada saber quem é, a quem pertence, ou se equipa é unida e vai lutar pela vitória, pois que já sabemos de antemão que sim -, nem seríamos capazes de prometer uma sacrificada ida a Fátima, de rastos, se os rapazes cumprirem dentro do campo o que repetem até à eternidade aos microfones, mesmo não sabendo o que é um almude, ou desconhecendo se o comer quer alho.

 

Curioso! Nunca mais ouvi Mariza! O que será feito do fado?    

 

Na fotografia - Ruben Loftus-Cheek do Chelsea

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A Gaffe do "numerus clausus"

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.19

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A meia dúzia de pessoas que são contra as touradas, também são contra a família, são contra a cultura portuguesa, são contra o facto de haver uma tradição em Portugal - declara D. Duarte Pio de Bragança.

 

Esta gentelha de bigode parvo - pergunta a Gaffe -, não estuda, não viaja, não vê coisas, não lê livros, não se ouve a mascar merda?!

 (Pardon my french)

No Douro, nestes casos, pergunta-se também:

- Estes morcões não se mancam?!

O que é absolutamente deselegante, não deixando contudo de ser uma formulação repleta de tradição e muito própria de quem não entrou no curso preferido devido - ou derivado - ao numerus clausus, não tendo aberta a hipótese de o pagar a custos de mercado.

Gente do Douro, sem maneiras e sem curso, de maneiras que nada nobre, nada familiar e nada cristalina, derivado à falta de berço.  

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A Gaffe para totós descontrolados

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.19

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