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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em Cooper's Hill

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.18

A Gaffe, de forma a tornar mais assertiva e consensual a eleição dos membros das - pelo menos estas -, centenas de comissões de inquéritos fundeadas no Parlamento, recomenda a adopção do método usado pelos queridos de Gloucestershire. É tudo muitíssimo mais democrático quando ficam demonstradas desta forma, e seja em que circunstância for, a perícia e a competência dos representantes do povo, assim com é certo e sabido que os escolhidos resistem a todo o tipo de pressão e força de bloqueio - sobretudo a centrifuga e a da gravidade.

 

De sublinhar que esta proposta acolhe a anuência de figuras de todos os quadrantes sociais e políticos. Temos, à laia de exemplo, ao minuto 0.35, António Costa - que de tão optimista, perde a cabela -, e logo atrás o Batman (1.43), seguido de Salvador Sobral que fazem questão de nos mostrar como são particiativos e, ao minuto 2.07, Rui Rio exibe toda a sua pujança. Reportamos também imensos adeptos, quer do Sporting, quer do Benfica, a Cinha Jardim (2.40) seguida por Sócrates (2.50), por Jerónimo de Sousa - a tentar salvar o gorro russo - ao minuto 2.30, pelo padre Borga (3.22) e por Catarina Martins (logo ali ao minuto 4.55). 

 

A Gaffe não pode deixar de destacar, no entanto, Assunção Cristas que, ao minuto 5.15, nos prova como é possível chegar rapidamente a resultados altamente positivos se as almofadas - económicas ou outras -, estiverem em condições de enfrentar qualquer tipo de embate e se o outfit for apropriado.

 

 

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A Gaffe futebolística

rabiscado pela Gaffe, em 18.05.18

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Seria conveniente alguém ser capaz de explicar a esta rapariga perplexa a habilidade e agilidade mental dos adeptos dos clubes de futebol que continuam de caras pintadas, aos urros, suados, empunhando bandeiras, tochas, isqueiros, camisolas, gorros, cuecas, gritando loas às equipas que em campo revelam que nunca se sabe se foram compradas ou se o árbitro está demasiado inclinado, em conchinha com o senhor presidente que no camarote faz com que dez mil euros bastem para construir um resultado.

 

Não se sentirão imbecis?

 

O grau de idiotice é proporcional à quantia investida. No andebol um jogador custa mil euros e, em consequência, o patamar de patetice do adepto é mais brando do que aquele que é atingido quando estão envolvidos dez mil futebolistas.

 

A Gaffe admite que sabe quais são as cores dos clubes. Verde e branco pertence ao Sporting, azul e branco ao Porto e o vermelho é benfiquista. O Académico – ou Académica? a falta que nos faz aqui o Bloco de Esquerda! -, é preto, ou preta – de cor negra, vá, que convém parecer correcta. O resto é cor a dar com tudo e a receber o que se oferece.

 

A Gaffe gosta apenas das coxas dos jogadores e regiões limítrofes e jamais entrará num estádio sem estar protegida pela sua guarda de honra.

 

Não sabe mais, esta pobre moça, pese embora se ter apercebido que no dia de ontem dez canais televisivos estavam ao mesmo tempo a transmitir declarações de tudo o que mexia - menos as da EDP -, esticando durante horas intermináveis o nauseabundo retrato de uma máfia de subúrbio que joga debaixo da relva a bola subterrânea da vigarice mais grosseira e mais estúpida, tendo em conta que se deixa escutar a torto e a direito, acreditando que encripta a batota com lirismos achocolatados.  

 

É de sublinhar, no entanto, que a Gaffe se sente empolgada com as declarações de Ferro Rodrigues que atestando a sua vetusta indignação perante o descalabro futebolístico consegue encaixar uma notinha de porcina demagogia reportando-se ao trabalho de investigação jornalística relacionada com políticos, e com Marcelo que, por estranho que possa parecer, não compareceu no balneário de Alcochete para beijocar os jogadores agredidos pelos amigalhaços das claques. Uma falha que aquele menino que chora com um dói-dói na testa com certeza jamais esquecerá e que justifica uma debandada geral de atletas que se consolam com os pensos rápidos das ofertas mais chorudas de mafiosos rivais.  

 

Esta burlesca trapalhada não tem a qualidade exigida, pese embora o Bentley de Jorge Jesus. A corrupção não pode andar pelas ruas da amargura. Depois de conhecermos Dias Loureiro, Ricardo Salgado, ou mesmo Sócrates, que - alegadamente - a colocaram no patamar das obras dignas de figurar nos anais da história - e sobretudos nos do povo -, não é de todo agradável assistirmos ao rebaixamento da corrupção levada a cabo por um bando de psicopatas sem educação ou sangue-frio, sem berço e sem finura, sem pose, que não sabem usar fatos Trussardi, mas convictos da importância vital que as molduras humanas dos estádios lhes fornecem.

 

Meus queridos, até para se ser corrupto é necessário berço. Para se ser corrompido, basta, nestes casos, uma chuteira e um ou dois golos fora de época.  

 

A Gaffe sente-se exactamente como o seleccionador nacional que - com um allure de Bond parolo de sobrolho encarquilhado, ou com ar de quem tem urgência de acoplar uma sanita ao rabo -, declara sorumbático que não ter palavras, nem adjetivos, para qualificar a situação.

 

A Gaffe também fica sem substantivos e mesmo os verbos escasseiam. Só se arranjam uns advérbios mixurucas que os adeptos podem usar quando se referirem às vezes em que acreditaram nas balizas.    

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A Gaffe já escrita

rabiscado pela Gaffe, em 15.05.18

MJ

 

O quarto ao lado do meu ficou deserto.  

Sobre a cama foi deixada a colcha tricotada a cores.  
As lâmpadas quebram lentamente os filamentos sem que ninguém as venha substituir.  
Através da porta de ligação chega um frio e um escuro inusuais. O silêncio torna os dias mais desprotegidos.  
O pó avança lento do quarto vazio quando a casa se fecha e adormece.  

 

Tantas vezes ali estive. Tantas vezes fiquei parada perante o brilho, de olhos a arder por não o ter, que acabava por olhar mais atentamente para as rotas de outras vidas que são como derivas nos mapas das estradas que se perdem.

Era nesses desvios que me fixava, nesses pontos de luz que me deitava.  

Entrava nestes trilhos devagar e às vezes saía de mansinho quando a vontade de chorar se começava a fazer ríspida na garganta.

Às vezes sorria.

 

As raízes do riso e do choro pertencem agora ao silêncio. Emaranhadas, acabarão por se tornar impossíveis de destrinçar. Ficarão de tal modo unidas que uma simbiose secreta impedirá o esquecimento mútuo.

É certo que de raízes pouco ou nada há no meu jardim deserto. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido e agora pouco mais.  

A minha casa inteira entardece devagar. 

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A Gaffe mais coisa, menos coisa

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.18

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Li algures uma tirada relacionada com o eurofestival que me deixou perplexa.

É da responsabilidade de Rodrigo Moita de Deus e tem - mais coisa, menos coisa - o título Em defesa das minorias e consiste nesta pérola:

 

- Vi um heterossexual no meio do eurofestival.

 

Mais coisa, menos coisa.

 

O difícil é tentar perceber se Rodrigo Moita de Deus se refere a si próprio, ou se avistou no evento mais um para além dele, pois que a terceira hipótese consubstanciaria a mais enviesada saída do armário que alguma vez existiu.

Não é de todo raro assistirmos aos refinadíssimos trocadilhos e floreados pretensamente humorísticos deste rapaz catapultado para o limbo dos opinion makers por erro de casting. Uma das suas antigas aventuras na área das gracinhas - potencialmente uma fabulosa admissão de culpa -, dá-nos conta da avaliação que faz da atracção sexual exercida pelos homens de direita que Rodrigo Moita de Deus considera muito mais poderosa do que a dos homens de esquerda, revelando desta forma que afinal é extremosamente marxista.

 

É evidente que não nos interessam as sexualidades do eurofestival. São todas divertidas - mais coisa, menos coisa.

O que causa alguma perturbação é termos de admitir que até nas mais tontas manifestações da tolice humana, há sempre um retorcido - e ainda por cima feio - capaz de encontrar forma de se mostrar engraçadinho atirando mijinhas pequeninas ao que não percebe, ou ao que percebe demasiado bem.

 

Mais coisa, menos coisa.  

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A Gaffe ilusionista

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.18

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Há tempos que já lá vão, recebi um recado de uma mulher banal que, numa entrada de mamute, se reportava à alegada homossexualidade do meu irmão. Nada de importante, quer para ele, quer para quem o rodeia, mesmo que a alusão espelhasse uma verdade, o que não é o caso.

 

A mulher era, fazia crer com insistência e bandeiras desfraldadas, uma inflamada defensora dos direitos de tudo o que se mexe - incluindo o sistema neurológico das plantas -, uma abnegada e inabalável paladina das diferenças, uma quixotesca matrona imbecil de utopias parolas, uma cuetisa de pechisbeque capaz de urdir trivialidades usando as rimas que encontrava em saldo.

 

O facto de me ter considerado uma infeliz que até tem um irmão gay, é extraordinário.

 

Habituamo-nos a espreitar pelo buraco das fechaduras precárias das redes sociais. Viciamo-nos nesse nauseabundo encharcar de pretensa vida alheia, acreditamos que detemos o poder medíocre - como todo o poder que é ilusório -, facultado pelo falseado conhecimento do que ao outro pertence, indignamo-nos quando nos falha a mesquinhice filtrada por likes, por twitters, ou por instagrams, e ficamos esfaimados, salivamos e esfregamos o rabo com as patas de trás, quando suspeitamos que de tudo sabemos, posto que é tudo o que ali está. Somos patéticos consumidores de ilusionismos. Somos, em simultâneo, artistas de um circo onde a arena é o vácuo e o próprio piso onde periclitamos. De tal me convenci, muito recentemente. Estou ainda em processo de adaptação.  

 

O desejado insulto da lamentável e iludida mulherzinha, que alia infelicidade a uma eventual ligação familiar com um homossexual, revela não só a sua incapacidade de discernir o que consubstancia as mais evidentes e as mais lógicas premissas que originam as mais simples e as mais comuns das felicidades, mas também nos dá como provado que se tentamos espreitar o que não se pode ver - valha-nos Saint-Exupéry -, acreditando que o intuído no circo é atestado de certezas e portanto passível de ser arremessado como uma pedra, denunciamos demasiadas vezes pedaços alarves da nossa verdadeira índole, deixando que os visados pela nossa torpe espreitadela olhem a descoberto o que queremos a todo o custo filtrar com cor-de-rosa.

 

Nas redes sociais, por mais estranho que possa parecer, revelamo-nos naquilo em que acreditamos, somos o que espreitamos sem ninguém saber e somos sobretudo os ossitos que arremessamos à vida dos outros e que judiciamos ter recolhido durante as incursões que fazemos ao nada que vemos. 

 

Somos como o emplastro. Espreitamo-nos, mas não nos vemos. Espreitamos e somos vistos. 

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A Gaffe iluminada

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.18

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O Gestor Local de Energia e do Carbono (GLEC) é um senhor competente, discreto, de fato preto e camisa branca, de gravata fininha e regimental, baixinho e pio. A primeira impressão que dele temos é a de um senhor que não permite folestrias - decidi recuperar o léxico duriense -, rigoroso, aborrecido e conservador. Dir-se-ia que nos temos de benzer antes de falar. Quando melhor o conhecemos, acabamos repletos de respeito pela sua tarefa e pela sabedoria, eficácia e competência com que a leva a cabo, pese embora as constantes tropelias irresponsáveis de quem o rodeia.

 

Uma das suas iniciativas mais minúsculas - se comparadas com o trabalho colossal que tem em mãos -, foi, não sei se por orientação superior, colocar autocolantes encimando os interruptores advertindo para a necessidade de se desligar as luzes quando saímos das divisões. São bonitos, com um design agradável e não ferem o contexto onde cumprem o seu dever.

 

O extraordinário é verificar que, após esta diligência, aumentou de forma absurda a quantidade de lâmpadas acesas em compartimentos vazios.

 

Não acredito que o objectivo desta contradição seja a de boicotar os resultados que o GLEC tem de apresentar semestralmente às autoridades competentes. Não quero crer que a vontade de vitória da tacanhez siga por caminhos tão ínvios, tão planeados, desenhados para a atingir a médio prazo. Sempre pensei que a pequenez dos mesquinhos se tornava visível por, num curtíssimo período de tempo, se agigantar e tomar forma aos nossos olhos ao ponto de se tornar doentia, obesa, mas contornável. 

 

Não encontro uma explicação satisfatória.

 

Suponho que existe latente em cada criatura a apetência para se tornar um bichinho maldoso, sem qualquer compensação que não seja a de satisfazer a ânsia de ver fracassar as mais pequenas, as mais irrisórias e as mais corriqueiras acções do outro, mesmo que indiretamente este soçobrar alheio o atinja negativamente depois. 

 

Transportamos um Chucky ridículo de subúrbio ranhoso que a cada passo sai do coma. Contentemo-nos com o facto de se satisfazer com beliscões.     

 

Ilustração - Jean-François Segura

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A Gaffe corrupta

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.18

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Assisti ontem a um momento precioso do jornalismo de esgoto, made in Portugal.

Pese a verdade, e porque sou imbecil, considero uma experiência única e extraordinária ver José Sócrates gesticular, esbracejar, mostrar os caninos, salivar e cuspir morcegos. Aconselho - mais uma vez, porque sou imbecil -, toda a gente a assistir ao circo onde a fera é espicaçada tendo, antes de tudo o mais, retirado o som ao televisor.

É uma experiência digna de Attenborough, embora extenuante e claramente anti-democrática.  

 

Durante o aborrecido processo de mudar de canal, raspo com a patacoada já audível de um comentador que - não sei se a propósito -, mais uma vez vomitada para nosso encanto e apaziguamento: paga-se demasiado pouco aos políticos e aos governantes e é este o factor principal da não extinção da possibilidade de serem corrompidos.  

   

É delicioso.

 

O contribuinte não paga o suficiente aos seus representantes para que eles não sejam corruptos.

 

Se os corrompesse, pagando o suficiente para retirar à corrupção a possibilidade de lhes fazer uns mimos, a indigitação ou a nomeação - conclui-se que normal - de corruptos não se faria sentir e não existiria colisão com a lisura, a ética, a honestidade, a honra, a Palavra e todas essas manigâncias mais ou menos delineadas e tidas como louváveis - pese embora algumas não tenham definição esclarecedora -, estariam salvaguardadas e o Estado seria liderado por políticos corruptos, mas tornados honestos, pois que servidos de avultados ganhos.   

 

Há que abrir os cordões às bolsas – mas nunca à Bolsa -, para se ser representado pela hibernação, pela anestesia, pela narcotização, pelo coma induzido, da corrupção. Há que corromper, pagando para os que nos representam não sejam corrompidos, antes que outros o façam.

 

É tudo tão sicilianamente  Ford Coppola!

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A Gaffe detox

rabiscado pela Gaffe, em 16.04.18

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É extraordinária a quantidade de gente que corre sem paisagem; que pedala em bicicletas sem rodas; que cola aos braços aparelhos que contabilizam as batidas do coração, que medem a largura, o comprimento, dos passos que são dados, a quantidade de metros percorridos, a quantidade de braçadas, as vezes que se inspira, que se expira e a qualidade de calorias que se gastam na quantidade de suor que é medido por outros aparelhos que se apensam.

 

É extraordinária a quantidade de músculos que se querem ter tonificados - os nossos, mas também os do vizinho de passadeira de ginásio -, o peso das couves que se espremem para unir o sumo a pitadas de gengibre e bagas doidas diluídas num detox fit que nos dá saudades do velho clister, e mordiscam-se pepitas de aveia, de linhaça, de sementes de papoila, ao som de uma batida que nos comanda os saltos.

 

Vigia-se o fígado, perscrutam-se os pulmões, espia-se o coração, indaga-se o baço, espreita-se o estômago e espiolham-se os intestinos, pois há que ser fit, há que permanecer em excelente forma física e mostrar ao mundo que se é saudável, que se está em condições de esquecer o cérebro.

 

É extraordinário tentar perceber como será difícil a esta nobre gente tão detox, lidar com o envelhecer.

 

É tão quase tão extraordinário como reconhecer a tristeza que se sente quando se percebe que que é incomparavelmente mais feliz e mais vivido ter como banda sonora da vida - um só exemplo - a Slave March de Tchaikovsky, comandada por Pletnev, em substituição da batida ensurdecedora da aula onde se envelhece muito fit.

 

Ilustração - FFO Art

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A Gaffe de rainhas

rabiscado pela Gaffe, em 09.04.18

Letízia

 

Tive o mais embaraçoso dos pesadelos de que há memória.

 

Descontraída e etérea, no aconchego das minhas mais íntimas e prosaicas tarefas, leio a revistinha onde é fotografada a aventura de Letízia de Espanha por terras onde falta o chá e abunda o chinelo e descubro de súbito que estou sentada a fazer xixi numa sanita daquelas casinhas da IKEA.

 

Duas rainhas.

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A Gaffe a concurso

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.18

Roberto Bolle and Francesco Mascia - Teatro alla S

 

A Gaffe sente-se arrasada, estropiada, expropriada e muito maçada, pois que a realidade a obriga a admitir que há ditos populares, muito suados e a cheirar a pobre, que acabam por acrescentar - assim como quem cala o bicho feio que perturba a bela imagem do dono -, dois milhões de euros a uma maquia que seria distribuída por quem provasse ter um projecto cultural digno, rigoroso e sobretudo sério, sujeito a um processo que elege os melhores entre os mais distintos.

 

Quem não chora, não mama.

 

Choraram todos e todos mamaram.

A Gaffe não entende como se consegue uma chupeta sem se mostrar um bebé amoroso num blog, ou num concurso qualquer, tresloucados que sejam - bebé, blog e concurso, ou ambos os três, como se queira.

 

Lamentável é a Gaffe não ter levado a concurso o seu belíssimo projecto experimental que consistia em ser apresentada a Roberto Bolle e realizar uma data de bailados na sua Companhia num cenário de lençóis.

 

Na foto - Roberto BolleFrancesco Mascia - Teatro alla Scala

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A Gaffe da STASI

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.18

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Mais misteriosa e de proporções gigantescas - mas desta feita compreensíveis - do que a tese de mestrado do senhor deputado que se demitiu e que já entrou no túnel negro do esquecimento, é a recorrente situação em que me vejo a perguntar o nome a alguém que está na minha frente.

Tendo em conta que não está acompanhado por vivalma, torna-se extraordinária a resposta dada pelo meu único interlocutor de ocasião que escancara os olhos e parece recear um inquérito conduzido pela STASI.

 

- Como se chama?

 

Esta é a questão dúbia, capaz de acordar suspeitas e tremores.

A resposta é sempre intrigante.

 

- EU?!

 

Chego à conclusão que o meu interlocutor acredita que o que realmente quero saber, desesperada, é o nome do intervalinho pequenino de tempo entre o seu espanto expresso num EU esbugalhado e o balbuciar do seu nome.

Tenho a certeza que existe.

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A Gaffe quibangista

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.18

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Confesso que não sou frequentadora das estatísticas do blog.

Foi uma alegria quando incluídas nas entranhas deste cantito, mas sou uma rapariga inconstante que rapidamente se desinteressa pelo que é igual em cada dia que passa e fui deixando passar os números e os dados que se repetiam.

 

É evidente que é reconfortante saber que somos lidas por quem gostamos e admiramos e é sempre agradável ter a presença assídua de pessoas que nos são queridas e com quem criamos empatias, mas é tolice ficarmos espantadas por nos chegarem visitantes da Ucrânia, da China ou do Cazaquistão. É gente mais proxyma do que pensamos.

 

Um pormenor que ainda me deixa curiosa é aquele que refere os termos de pesquisa.

Jamais obtive resultados menos próprios e, por norma, encontram-me atravessada na palavra Gaffe, no nome que foi atribuído a este pedacinho de nada, substituindo o e as Avenidas por um das Avenidas mais pomposo, e por Maria Guedes - o que me deixa perplexa, pois que não sei quem é a senhora e não creio alguma vez me ter aproximado de nome parecido.

 

Acontece que nas últimas semanas - e diariamente - tenho verificado que sou encontrada através de um termo extraordinário que me deixa preocupadíssima.

Procurei em todo o lado. Abri dicionários, abri enciclopédias, escancarei gavetas, vasculhei glossários, bisbilhotei armários, devassei elucidários, coscuvilhei caixinhas e mexeriquei nos bolsos.

Nada. Tudo era longínquo e tudo absurdo.

 

Humildemente suplico a quem me encontra através do misterioso termo, me elucide de uma vez por todas e me tire desta ansiedade tenebrosa, explicando a esta ruiva ignara a razão de estar ligada a tal enigma e o que raio vem a ser:

 

Quibangismo

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A Gaffe negra

rabiscado pela Gaffe, em 15.03.18

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A Gaffe considera de muitíssimo mau gosto toda a gente passar de repente a idolatrar Stephen Hawking quando só conhece uma ou duas músicas dele.

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A Gaffe doutorada

rabiscado pela Gaffe, em 15.03.18

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A Gaffe leu arrepiada que 90% do dinheiro que circula no planeta pertence a meia dúzias de famílias.

Extraordinário.

A Gaffe não entende como é que os pobres, com os restantes 10%, conseguem comprar tanta porcaria.

 

É um mistério que carece de estudo aprofundado que com certeza o Professor Doutor Passos Coelhos, na sua qualidade de catedrático, não deixará ao abandono, desde que, no intervalo, o Investigador Barreiras Duarte não se adiante e apresente os resultados obtidos pelas pesquisas que leva a cabo em Berkeley sobre o alto patrocínio de Deolinda Adão, uma querida que gosta imenso de visitas e que dá autógrafos em guardanapos, ou em papelinhos que embrulham um ou outro rebuçado, antes de o ter sentido azedo.

 

A Gaffe lamenta ter ficado um bocadinho irritada com Merkel quando a alemã, depois de estacionar o camião, declarou que Portugal tinha demasiado licenciados. Afinal, a senhora apenas confundiu os graus académicos que neste turístico recanto nascem como Relvas.

O país sofre é de excesso de doutorados, embora tal não constitua embaraço ou defeito. Somos naturalmente um povo sábio. Nascemos com um canudo e com ele vemos Braga. É evidente que as meninas, mesmo algumas de Braga, não trazem à nascença o canudo incorporado - pois que nesse caso seriam meninos -, mas basta que uma reze ao Senhor pedindo chuva, que liberte vapores de eucalipto, ou que seja coadjuvada por Hemingway e Picasso na nobre tarefa de equiparar as touradas à literatura, à música ou ao bailado, para se candidatar a Primeira-Ministra.

 

A Gaffe decide, nas próximas eleições, ir tomar chá com a Bobone e mandar votar por ela a criadagem já domesticada que compra coisas com aqueles 10% tão desperdiçados.

Afinal, meus queridos, é só fazer uma cruz num papelucho!  

 

Ilustração - Assaf Horowitz

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A Gaffe das bloggers

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.18

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Encontrei nestas minhas andanças pela blogosfera uma preciosa peça que listava os blogs mais potentes deste vale de posts. Enumerados por ordem alfabética, tornava-se quase apetitoso visitar cada um deles, pela facilidade de acesso e pelo pouco esforço que um clique nos exige.

Não resisti.

Foram sobrevoados, um por um, nas asas abertas de alguns minutos e há que registar que nestes fugazes voos rasantes encontrei matéria para reflectir - e só Deus sabe o pouco que tal movimento vê a luz.

 

Confesso que ignorei os primeiros, pois que sempre fui indiferente aos panfletos do Pingo-Doce ou do Continente, embora tenha o vício de folhear os catálogos fininhos, que encontro mortos na caixa do correio, com fotografias e elogios sucintos aos mais inesperados e surpreendentes produtos - desde esfregonas a pilhas a vibradores para os dentes, passando por detergentes para higiene íntima e acabando em material didáctico destinado a pedófilos frustrados que se excitam a ver macaquinhos de peluche que chiam se apertados. Tudo a preços módicos.

 

Os seguintes vendiam crianças. Provavelmente os filhos das curadoras, porque me pareceu tudo muito maternal.

Admito que já esgotei a pouca capacidade de abrir a boca de espanto e de indignação que destinava ao assunto. Tendo em consideração que agora só abro a boca por motivos maiores e de maior idade, mantive a pose e fui passando indiferente pelas esquinas por onde aquela petizada trabalhava. Não encontrei nenhuma criança que me perturbasse. Todas saudáveis, felizes, fofinhas e rentáveis. Nada a necessitar de intervenção ou de petição para assinar. Confesso o famigerado quero saber.

 

Cheguei ao último e fiquei perplexa.

 

Encontrei uma mulher bonita, com um travo sofisticado que me agradou, com muito bom gosto, revelando que é cúmplice da câmera que a vai fotografando ao lado da filharada - uma adorável prole, comme il faut -, capaz de fazer com que se não perceba de imediato que está a fazer pela vida vendendo o que lhe cabe em parceria, posando de modo quase profissional e afastando-se claramente da imbecilidade do sorriso maroto, olhar marosca, perninha erguida, com o pequenino pé esquerdo logo ali à frente do direito e mãozinha na cinta de verniz por estalar.

Não me cansou e admito que perdi mais tempo do que o previsto a passear nas avenidas limpas, e mesmo agradáveis, da senhora. Vendia o sonho, o idílico, o desejado, o cor-de-rosa brando, incutia o desejo do inútil, incitava o consumidor de forma relativamente discreta e promovia o cliente que a subornava, sem nunca parecer patética, parola e pateta.

 

Gostei da senhora.

 

No entanto, fiquei perplexa ao perceber que, apesar das características que a diferenciavam das outras banais companheiras de folguedos, havia um borrão naquela paisagem quase perfeita.

A ausência da Elegância.

A senhora era desprovida do imperceptível toque da Elegância - mais danoso ainda do que nos casos anteriores em que esta inexistência é já prevista -, que aproxima as mulheres do imaterial, do abstracto, do mistério denso e longo e tantas vezes escuro e impenetrável, capaz de tornar incontornável a presença do silêncio que perto dela, em seu redor, a toda a volta, se vai impondo aos mais banais, até que o fascínio se torne proprietário do desejo.

Faltava a Elegância e essa ausência tornava a senhora bonita, não a vendedeira do costume - pelas razões apensas às parceiras -, mas uma vendedora doutorada.

 

Talvez por isso tenha percebido que não basta, de modo nenhum, parecermos cool.

Há que ser mulher de César.

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