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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ambientalista

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

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É peculiar a frequência com que esquecemos que o desfecho da frase se não podes vencê-los pode não ser aquele a que por norma estamos habituados a unir. Há uma resposta à condição expressa no arranque da batalha que é muito mais frequente do que aquilo que pensamos.

 

Se não podes vencê-los, absorve-os.

 

A diluição de conceitos, princípios, ideais contrários às realidades instituídas - ou mesmo reacções a factos que nos são adversos, porque desumanos e mesmo fatais -, na atmosfera que os vai produzindo e alimentando, não é de desprezar. A manobra do instituído que produz a capacidade de absorver o que lhe é contrário, torna inócua, neutraliza e banaliza, a acção que visa combater precisamente aquilo que a vai normalizando, atenuando, ou eliminando os efeitos que eventualmente produziria.

 

A facilidade com que se produzem mitos e símbolos - que são em última instância a resposta a uma falha, a uma ausência, a um vácuo - tornou-se equivalente à capacidade que os responsáveis por essa mesma omissão têm de os absorver e neutralizar.

 

O exemplo mais fácil e mais capaz de ilustrar o dito é Malala Yousafzai que depois de publicitada, elevada ao estatuto de heroína, incensada, medalhada e galardoada, perdeu força significativa, atenuando-se o impacto mediático da sua luta e impedindo-se desta forma que a multidão de espoliadas de que era bandeira, não se chegasse a unir e a seguir. A força que parecia invulgar do seu discurso e da sua atitude, restringe-se agora a palestras, a conferências e a elocuções mais ou menos esperadas. Malala passou a ser apenas mais um rosto simbólico - o símbolo que não povoa o vácuo - numa galeria de cabeças que o poder instituído consegue absorver e que reserva para, numa hipocrisia letal, aplaudir de quando em vez.

 

Surge, entretanto, Greta Thunberh.

 

É clara e inequívoca a tentativa de aplacar o discurso, a atitude, o conceito, e a ameaça que a ambientalista consegue encarnar, por parte dos que são acusados pelo seu inesperado aparecimento. As manobras de dissuasão parecem idênticas às usadas no caso anterior. Estatuto de heroína, reconhecimento, aplauso internacional e nomeação para o Nobel da Paz. A absorção do que parece não se conseguir vencer, teve já o seu início. Tornar Greta Thunberh num sucedâneo mais jovem de Al Gore, arrastando-a e exibindo-a de palestra em palestra, de entrevista em entrevista, de conferência em conferência - pagando-lhe principescamente por cada uma -, seria a diluição perfeita e almejada do grão de areia que, depois de parecer uma ameaça, vai sendo incorporado na máquina que adapta e recicla o elemento que absorve.

 

No entanto, Greta Thunberh sofre de Asperger.

 

As características deste distúrbio – facilita uma classificação deste teor -, prometem impedir que a jovem amorteça a sua identidade. A obsessão, a tenebrosa tenacidade, a capacidade de focar toda uma vida num único ponto de luz, a indiferença à bajulação que tolda o objectivo, o desinteresse pelo que é considerado acessório - por tudo o que se afasta, ainda que levemente, do que a motiva e interessa -, e a força invulgar que a apoia e a move, tornam-se dados inesperados e passíveis de complicar, ou mesmo impedir, a sua absorção e diluição posterior.

 

É esta estranheza que une multidões.

 

Talvez Greta Thunberh seja a anomalia esperada pelo planeta.

Talvez seja desta vez que deixemos de olhar estas vozes como quem olha a última fotografia da sonda Cassini, antes de ser absorvida pela atmosfera de Saturno que acabava de captar.              

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A Gaffe em nome próprio

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.19

Infanta Luisa Carlota de Borbón por Vicente Lópe

 

A Gaffe foi visitar uma amiga que deu à luz uma menina semanas antes do previsto.

 

A criança pesa cerca de três quilos e a mãe deve pesar menos, porque toda a vida se preocupou muitíssimo com as calorias que ingeria, apagando assíduas vezes algumas refeições e substituindo por uma ou duas maçãs o brutal cozido à portuguesa com que eram, ela e a amiga, brindadas pela Jacinta, algures no Douro. A Gaffe acabava sempre a comer, também, o lote da comparsa.

 

Uma lombriga lindíssima e loira e platinada e alta e elegante e Grace Kelly e tudo.

 

A Gaffe entrou no apartamento que o Hospital privadíssimo disponibilizou, pois que a amiga é chique e claustrofóbica, agarrada a um peluche gigantesco em forma de carro de bombeiros - existe, procurem. Bamboleando o dito, foi espreitar o rebento e ficou arrepiada.

 

A criança é belíssima. Um anjo, um querubim, uma fada, um unicórnio e todas essas melodias de encantar, juntas, aliadas, cúmplices, ligadas.

 

A Gaffe adorou.

A amiga nem tanto.

Choramingava, porque a menina não tinha a cara do nome que tinham escolhido.

 

A Gaffe olhou para todos os lados desconfiada. Provavelmente a amiga ainda estava toldada, ou a epidural tinha invadido o cérebro, ou estavam a tentar assassiná-la com alucinogénios contaminados, ou alguém tinha deixado a mão dentro do lugar por onde a petiza saiu e estava agora a ventriolocar, ou a Gaffe tinha albergado algures um vírus que agora se manifestava obrigando-a a ouvir vozes. Se aconteceu a Joana d’Arc, porque não a uma rapariga de melhores famílias?!

 

A Gaffe procurou aprofundar a causa da choraminguice.

A criança não tem cara de Maria Luísa.

- Já me sentia feliz se tivesse cara de Carlota!

Mas não. A criança tem cara de Micaela Andreia, ou de Patrícia Vanessa.

 

A Gaffe fica durante largos instantes em silêncio, daquele muito próximo do chamado silêncio aparvalhado. Abana os pequenos brilhantes que traz nas orelhas para que a amiga se escandalize com coisas mais sérias - sabendo-se que uma menina de boas famílias jamais usa brilhantes fora das capitais, é possível que a chorona foque a sua imbecilidade no brilho que se espalha na província - e balbucia depois:

- Não dês importância. Chama-lhe Maria Luísa. Ninguém vai reparar que a criança também tem cara de quem tem a mãe estúpida.

A amiga faz com que os olhos saltem das órbitas e mais apaziguada sorri um achas?! absolutamente delicioso e explica com detalhe a sua aflição.

 

Nas elites, nas elites altamente privilegiadas, a selecção é feita também através do nome próprio - não bastando o sobrenome - das criaturas candidatas ao poder. Jamais se aceitará nesses círculos herméticos e protegidíssimos, alguém com um nome capaz – alegadamente - de pingar sebo, azeite ou outras matérias ainda mais viscosas. É impossível os papás consentirem e abrirem os portões a uma candidata a nora, ou a quem pretendente ser o genro, chamada Yara Tatiana, ou àquele que dá pelo nome de Rúben Leandro.

 

Como não chorar baba e ranho se a criança não vem com cara de nome aceitável por gente que vale a pena?!    

 

Imagem - Infanta Luísa Carlota de Bourbon por Vicente López, 1819

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A Gaffe arejada

rabiscado pela Gaffe, em 12.03.19

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A Polícia Judiciária de Coimbra deteve uma funcionária da Segurança Social que inventou cerca de 100 grávidas para se apropriar do abono de família pré-natal. Com o esquema, a senhora ludibriou a maioria dos centros distritais da Segurança Social do país e, entre 2014 e 2018, deu um desfalque ao Estado de mais de meio milhão de euros.

 

A Gaffe acaba de saber que os cerca de 600.000 euros desviados são irrecuperáveis pois que foi tudo estourado em roupa.

 

A Gaffe considera absolutamente divinal ir atender pobres e desempregados, coisas incapazes que usufruem daquele estranhíssimo rendimento social de inserção e outras gentes que arrepiam só de pensar, de capeline Chanel, vestido Dior e sapatos Prada a fazer pendant com a carteira Louis Vuitton.   

 

A Gaffe acha maravilhoso ter de enrolar a manga do vison YSL quando há que carregar no botão do intercomunicador para numa voz Moschino murmurar:

 

- Número 599.999 ao único chic que existe na pocilga.

 

A Gaffe pensa ser deslumbrante desfilar pelos corredores pejados de gente miserável ofuscada pelo Valentino, Armani, Gucci, Micaela de Guimarães - uma pequena burla que vitimiza toda a gente, mas que se disfarça com um Cerruti em cima -, alternando o outfit como quem muda de Givenchy.    

 

A Gaffe considera admirável que num país onde os desfalques pindéricos de meio milhão de euros são utilizados para comprar chalets, Porsches, Macintoshes para os piquenos, toneladas de Bijou Brigitte, resmas de Parfois, milhões de Onofre, centenas de Bimba e Lola, T1 para as amantes, com piscina - os apartamentos e as amantes -, férias em Albufeira, fatos da H&M e saia-e-casaco da Massimo Dutti, haja alguém sensato, glamoroso e com um sentido de humor absolutamente ímpar, que esturrica tudo em altíssima costura e vai laurear a pevide para dentro de um guichet.

 

Uma autêntica lufada de ar fresco.

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Uma diva, meus senhores! 

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A Gaffe no zoo

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.19

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No Arizona uma rapariga foi atacada por um jaguar.

Sofreu terríveis golpes num braço e sangrou imenso deixando o chão do espaço gradeado - por onde passeava o belíssimo animal -, bastante conspurcado.

 

A vítima tinha decidido tirar uma selfie ao lado da fera e transpôs a grade de segurança que a separava do ataque mais que evidente.

O jaguar, não sendo presidente do zoo, recusou aparecer nas redes sociais ao lado de imbecis que se ferram todos por uma selfie assanhada e que desconhecem por completo que só nos devemos aproximar de bichos muito, muito maus quando estão mortos e os podemos vestir, ou calçar, ou guiar.

 

Felizmente o jaguar não vai ser abatido.

Infelizmente a Gaffe não sabe se o Marcelo irá condecorar o animal, com selfie apensa.

 

Ilustração - Ricardo Martinez

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A Gaffe médica

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.19

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Brandindo a Montblanc, sublinhando palavras com oscilações no timbre da voz, insinuando intimidades com os trejeitos das pálpebras, José Rodrigues dos Santos cita-nos uma espécie de estudo publicado no Expresso e da responsabilidade do cirurgião José Fragata e do engenheiro de sistemas Luís Martins que concluiu que o número de doentes que morrem nos hospitais portugueses devido a erros cometidos pelas equipas de profissionais de saúde é superior ao dos acidentes de viação ou sida, atingindo por ano cerca de três mil pessoas num milhão.

 

De acordo com autores do trabalho, Erro em Medicina, cujos dados resultam de uma extrapolação feita a partir de estatísticas internacionais, cerca de 45% dos erros médicos ocorrem durante cirurgias, embora apenas 17% possam ser atribuídos a actos negligentes.

O Expresso vai amontoando dados, desta feita provenientes de um outro estudo, que incidiu, diz-se, sobre 100 mil consultas e que anota terem existido erros em 3,7% dos actos praticados, provocando danos permanentes em 14% dos doentes.

Por outro lado, 20/30% dos erros têm a ver com falhas na prescrição de medicamentos.

Quando o erro envolve anestesistas, os estudos indicam que pelo menos 50% dos casos ocorre por falha humana.

Finalmente é deixado tombar o pedregulho que traz gravado que cerca de 4% dos doentes internados em hospitais podem vir a ser vítimas de um qualquer erro na medicação.

 

José Rodrigues dos Santos termina a notícia esganiçando uma reprovação mal contida quando sublinha que mais de metade dos erros avaliados em vários estudos - tantos que nem sequer se conseguem enunciar - por si consultados, podiam ter sido evitados.

 

Esta espécie de alerta público, esta variante de denúncia explosiva de alegada incompetência dos profissionais médicos, a merecer condenação e levantamento popular, surge dias depois de se saber que a Irlanda e a Galiza pretendem afincadamente recrutar médicos portugueses, pagando-lhes, no primeiro caso, cerca de 11.500 euros/mês, com horário definido pelo profissional - dobrando-se este valor se a escolha for o trabalho nocturno - e, no segundo caso, 4.000 euros/mês, com cama, mesa e roupa lavada.  

 

Não é de forma alguma correcto fazer a ligação entre estes dois espaços noticiosos, que parecem colidir numa análise abusivamente rebuscada e mais ou menos imediata, mas é interessante espreitar os intervalos.

 

Os médicos portugueses têm uma preparação científica e técnica excelentes, referem os profissionais responsáveis pela recolha dos números, atribuindo as falhas detectadas à falta uma verdadeira cultura de risco e segurança a que se junta a organização, o desenho dos sistemas em que funcionamos.

 

É impossível não pasmar.

 

A excelência dos profissionais portugueses em geral, e dos profissionais de saúde em particular, é reconhecida internacionalmente. Há neste momento gente que foi obrigada a imigrar a ser premiada nos países que usufruem da competência, da eficácia, do profissionalismo, da capacidade de inovação, do poder inventivo, da criatividade, da qualidade e do saber que saiu das Faculdades lusas.

Parte significativa da Europa espera que formemos profissionais em variadíssimas áreas para quase de imediato os recolher, os respeitar, os honrar e pagar condignamente. Deixou de se tornar necessário investir na educação e na formação qualificada naquela Europa que sabe que tem a produção e o depósito de profissionais de excelência em Portugal. Sai muitíssimo mais barato aparecer para os recolher já formados.

 

Não é claro o que se entende por uma verdadeira cultura de risco e segurança, mas é de um correcto nauseabundo atribuir responsabilidades ainda que secundárias - e passíveis de serem incluídas no tradicional pronto, está bem -, à organização e ao desenho dos sistemas em que funcionamos, pois que o desenho do sistema e o da organização é um rabisco imbecil que nem sequer tem em conta, por exemplo, que no Alentejo e no Algarve existe apenas um dermatologista a exercer funções integrado no SNS e que continua a deixar que haja uma concentração absurda de profissionais, desta área e das outras, numa pequena faixa litoral, ou a Norte, ou nos grandes centros urbanos onde há, embora não garantida, a possibilidade de acesso a equipamentos e a meios técnicos que melhor coadjuvam o trabalho que se quer sem erros.

É ofensivo citar estudos ronhosos que vomitam números de erros médicos extrapolados a partir de estatísticas internacionais, ao mesmo tempo que se ignora, ou se esconde, a ameaçadora fuga portuguesa de profissionais altamente competentes, altamente qualificados, que são absorvidos - e premiados - com elevadíssimo afã por países que se limitam a ficar sentados à espera que Portugal faça o esforço monumental de os parir.

 

Não é de todo inútil - muito pelo contrário - que se publicite uma espécie de estudo, mais ou menos rigoroso, que nos dá conta da quantidade das falhas - é evidente que existem - dos nossos profissionais de saúde, rodeando, por exemplo, o facto de haver um, apenas um, imagiologista colocado num dos hospitais do centro do país, que lê os exames se, pois que é o desenho do sistema, não estiver de férias ou não tiver ido passar o fim-de-semana à Serra. É, isso sim, profundamente lamentável que esse estudo chegue baseado em estatísticas recolhidas no exterior, que são amassadas para caracterizar a realidade portuguesa - com uma notinha de rodapé que entrega uma responsabilidadezinha ainda que parcial ao desenho e ao funcionamento do sistema -, e que apareça logo ali à esquina de convites magníficos daqueles que produziram os números que permitiram estas estatísticas, e que as emprestam para que José Rodrigues dos Santos agite com força a sua escandalizada MontBlanc.   

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A Gaffe DeVito

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.19

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Dá-se hoje conta de mais duas mulheres, vítimas de violência doméstica, assassinadas ontem pelos respectivos cavalheiros e da cabeça de uma outra que apareceu em Leça da Palmeira, pois que provavelmente a dona a perdia demasiada vezes e, como sabemos, tantas vezes o cântaro vai à fonte que algum dia deixa qualquer coisa a jeito, por esquecimento.

 

Felizmente que hoje é dia de luto em homenagem a estas senhoras. Não é bom? Fica tudo tão bonito e tão bem resolvido! Seria uma maçada ter de empatar mais tempo numa data de velórios e, como se torna evidente, ninguém - a não ser a Mortágua - tem um guarda-roupa capaz e com tantos e diferentes tons de preto para não parecer que se repete o outfit.

 

A Gaffe acha mimoso, nestas ocasiões tristíssimas, em que imensa gente discursa, em que imensa gente se insurge, em que imensa gente opina, em que imensa gente vai lutar no futuro, em que imensa gente vai à merda sem saber que foi por conselho desta rapariga absolutamente inconveniente e grosseira, divulgar uma outra forma engraçadíssima de se lutar contra coisas aborrecidas.

 

A Gaffe considera que estes contratempos unidos áquele desfile de Carnaval em Matosinhos, onde petizes e professores saracotearam na avenida com as caras borradas e esfregadas com carvão ou com graxa – não se conseguiu apurar! – e de trapos coloridíssimos que segundo pensam aludiam a África -,  estavam - nada racistas, disseram -, mascarados de pretos, porque o tema era as raçasum tema absolutamente pertinente, nada ultrapassado, nada caquético e nada desinformado - fazem um ramalhete absolutamente simbólico e com ligações inesperadas. O luto é preto e em Matosinhos o preto desfila no Carnaval.

 

Voilà!

 

O trabalho de Peter DeVito pode ser incluído nestas lutas tão modernas.

A Gaffe crava-o nestas Avenidas. Acha-o giríssimo, comovente e mesmo o retrato de outras pancadas igualmente desagradáveis. Infelizmente não se consegue incluir no desfile de Matosinhos, porque toda a violência é transversal e mesmo sem a cara borrada de preto ninguém se livra de uns açoites no corso.

 

 

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A Gaffe dos labirintos

rabiscado pela Gaffe, em 04.03.19

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Voltemos a ler, pois que é imprescindível que tomemos consciência dos labirintos que de tão primários se tornam apenas sucessivos becos sem saída.   


 (…)

O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.

(…)

 Uma mulher adúltera é uma pessoa dissimulada, falsa, hipócrita, desleal, que mente, engana, finge. Enfim, carece de probidade moral.

(…)

Não surpreende que recorra ao embuste, à farsa, à mentira para esconder a sua deslealdade e isso pode passar pela imputação ao marido ou ao companheiro de maus tratos.

(…)

 

Ricardo Serrano Vieira, advogado de Neto de Moura - que se acaba de citar - e seu eventual defensor nos casos em que as opiniões surgidas de quase todos os cantos e esquinas relativas aos acórdãos do juiz, foram consideradas ofensas e atentados à dignidade e ao bom nome do seu produtor, comenta, no dia 01 de Abril de 2018 - no século XXI, portanto - uma crítica faceboquiana da esposa a uma iniciativa - mais ou menos totó - das Capazes, com uma opinião absolutamente imaculada:

 

- Lambedoras de cri… dá nisto.

 

A senhora sua mulher considerou o comentário do senhor seu marido merecedor de um emoji sorridente.

 

Há labirintos que são becos sem saída. Às vezes aquilo que se encontra nos caminhos é apenas a forma de os fechar e de acompanhar os que por lá se perdem. 

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A Gaffe nos festivais

rabiscado pela Gaffe, em 04.03.19

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Admito que me passou despercebida a edição deste ano do Festival da Canção. Tive mesmo de recorrer à memória dos aparelhos para ouvir e ver o vencedor. Concentro-me neste, por não ter conhecimento dos restantes.  

 

Diz-me um entendido bastante irritado que os instrumentos tocam num tom diferente daquele que Conan Osiris usa para cantar e que essa discrepância arranha e arrepia ouvidos mais conservadores e mais clássicos. Em seguida sublinha - num discurso que não me cativa - o desencontro ente a melodia e a harmonia na canção do intérprete levemente steampunk. Salvaguarda a consciente intenção destes factos, mas rejeita o resultado, reservando, no entanto, a clara possibilidade de vitória dos telemóveis no Eurofestival, exactamente pela estranheza destes desencontros inabituais e pela amálgama de timbres que correm pelo fado, pelo Magrebe, pela Andaluzia, pelo tecno e por onde o demo perdeu as botas ao fugir da canção das meninas do ano ultrapassado.

A letra da canção é igualmente inesperada - não tão parva como uma primeira leitura faz parecer -, mas esse factor não conta quando temos a coragem de traduzir os representantes dos outros países eurovisíveis.

 

Contrariando a opinião muitíssimo favorável que formei quando das primeiras vezes ouvi a voz fascinante de Conan Osiris, desta vez o homem, que alguns afirmam ser um cruzamento entre Amália e Variações, não me arrancou grande aplauso.

 

Aborreceu-me. Senti-me uma criaturinha ameaçada pelos bichos da estranheza.

 

É evidente que achei mimosa a inclusão mal engendrada de elementos steampunk nos visuais dos rapazes, mas assumo que senti um ligeiro desconforto - preconceituoso, como é evidente -, ao assistir à dança do muito bonito rapazinho que acompanha o correr da canção com alguns passos autodidactas.

 

Desliguei-me em definitivo da ocorrência logo após o discurso um bocadinho apatetado do intérprete. Já não há paciência para novas versões de Salvador Sobral.

 

A possibilidade de vitória - ou pelo menos de uma bela classificação -, de Portugal no certame deste ano em Tel Aviv - não sejam parolos, escreve-se desta forma, não unindo Tel, Monte, a Aviv! -, não é de descartar. Conan Osiris surge como aquele elemento anómalo que desperta sempre a atenção do público quando encontrado numa cadência repetitiva de componentes iguais.

 

O acontecimento Telemóveis permite forçar a ousadia de se fazer a ligação a alguns acórdãos judiciais actuais que brotam da Bíblia - às duas ocorrências é dado igual destaque e igual importância nas redes sociais, logo a minha desfaçatez não gera anomalia.

A melodia não está em consonância com a harmonia, o tom da orquestra não é concordante com o tom do intérprete e o resultado - sejamos brandos - não é consensual. Temos indícios dos velhos tempos de Amália nas duas situações, temos Variações que causam algum dó e sobretudo encontramos alguns artefactos em comum - que num caso cobrem as bochechas e no outro os olhos; que num caso seguram o queixo, no outro deixam que o queixo nos caia; que num caso são performance de falanges artísticas e que no outro fazem com que as falanges, as falanginhas e as falangetas de facínoras continuem a ser armas e crimes cobertos por colarinhos jurídico-legais.

Evidentemente que se num caso damos graças e exultamos por termos a vantagem de Conan Osíris andar a trair com outras Evas musicais as clássicas normas orfeicas instituídas no templo e no tempo de Adão, no outro devemos dar graças pelo facto dos acórdãos se basearem na Bíblia - que apedreja - e não no Código de Hamurabi, só um bocadinho mais atrás, que condena as adúlteras à morte por afogamento. Uma morte bem mais limpa.

 

É evidente - apesar de não o ter ainda referido -, que existe mais um elo útil entre estes dois casos. Se não conseguirmos ouvir Conan Osiris, temos sempre à solta a possibilidade de nos romperem os tímpanos à chapada.  

 

Ilustração - Anton Semenov

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A Gaffe no Japão

rabiscado pela Gaffe, em 28.02.19

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O fotógrafo RK, sediado em Tóquio, revela-nos de modo avassalador e intemporal os rostos do Japão onde a paisagem urbana, densa e tantas vezes claustrofóbica, é rasgada por pequenos detalhes de humanidade.

 

Às vezes, um pescador paciente colide lentamente, vagamente, com a impaciência vibrante da ponte que o encima.

Às vezes, um skatista distraído cruza o asfalto com Hokkaido aparecendo ao longe.

Às vezes da massa compactada da vida que se ergue em bloco de asfixia, em stocks gigantes e ordenados, desponta um guarda-chuva, um velho, a flor da cerejeira.

 

Olhamos esta espécie de desumanização consentida do mesmo modo com que olhamos a própria vida. Nos interstícios da luz e na ausência dela, na ordem que nos traz o caos, no urdo et caos, há algures a esplendorosa minúcia da floração das árvores.

 

Ver mais )

 

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A Gaffe na casa da mãe Joana

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.19

Joana Rodrigues

A Gaffe está emocionada, perturbada, comovida. Sabe que estes estados de alma se aproximam uns dos outros, mas quer, mesmo assim, sublinhar a frequência, a reiteração, a assiduidade, daquilo que a abala sempre que relê este resplandecente manifesto da Sr.ª Dr.ª Joana Bento Rodrigues.

 

Receia que a transcrição do artigo de opinião que acabou de ler, lhe provoque um derrame de lágrimas solidárias que afectaria o teclado e sugere, em alternativa, que toquem leve, levemente, na imagem - que a Gaffe considerou muito apropriada - que encima esta declaração de profunda ligação e concordância com o que ali se afirma.

 

Há demasiado tempo que uma voz não encarna o saber estar das boas famílias e da gente de bem.

Há demasiado tempo que uma voz não se encontra sentada na cadeira do bom senso e das boas maneiras, que parece ter quebrado há décadas.

Há demasiado tempo que não se encontrava escrita em letra firme, sensível, inteligente, sensata, a apologia do verdadeiro lugar da mulher no mundo, da sua verdadeira função e destino, do seu elevado serviço em prol do aconchego familiar, da sua abnegada vocação e motivação e disposição para cuidar da luminosa auréola do lar.

Há demasiado tempo que a mulher se esqueceu da verdadeira essência do seu ser, esmagado pela trepidante ilusão de liberdade, igualdade, fraternidade e paridade.

Há demasiado tempo que a mulher deixou de o ser, para se tornar o inverso do descrito no artigo da Dr.ª Joana Bento Rodrigues.

 

O HORROR.

 

No meio deste turbilhão de emoções sentidas pela Gaffe, solta-se a saudade dos femininos tempos idílicos e unicórnicos que agora emergem pela pena da Dr.ª Joana Bento Rodrigues.

 

Sobretudo saudades dos tempos em que não se deixava que uma mulher escrevesse nos jornais.   

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A Gaffe de Bordalo

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.19

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Sempre me causou algum desconforto a imagem que Bordalo criou para representar o povo. Ao contrário de toda a restante obra do artista, que me encanta ao ponto de a procurar como uma desalmada, o Zé Povinho - tantas vezes grosseiro, finório, saloiamente esperto, crítico mordaz, bebedolas, bobo ácido e disforme, injustiçado e consciente da lama que sabe escondida nos que seguram o poder -, sempre me causou alguma repulsa. Estou longe de simpatizar com a personagem, embora reconheça que acabou, não apenas uma criação de Bordalo, mas propriedade e símbolo de toda uma colectividade.      

 

Ensina-me um amigo que Bordalo foi buscar Mayeux, o francês corcunda, lúbrico, disforme, de aspecto amacacado, criado em 1829 - outros dirão 1832, por Traviés -, que, também ele, encarnou como criação e encarnação de um povo.

 

Reporta-me este mesmo amigo que Mayeux é um bobo acidental, melancólico, bêbado e chorão que gesticula, grita e perora. É um anão atrevido que Musset descreve na perfeição. Um enfant du siècle cuja fisionomia não pode ser alterada, porque defraudaria o público. Serve de exutório colectivo e assume um papel de projecção a todo o imaginário da Monarquia de Julho. É a caricatura do sublime louco, do palhaço grave, do bobo sério que joga com um aspecto simiesco, relacionando o homem com o animal. É próximo de Quasimodo ou da marioneta de Polichinelo. É a caricatura e é o caricaturista. É ridículo e tem o privilégio de dizer a verdade. É a primeira tomada de palavra colectiva que comenta a actualidade tornando-se polissémico, encarnando a figura do rei ou do povo de Paris. É o herói da palavra popular, o único que exprime a inquietação e a perturbação. É aquele que faz troça e de quem se troça, inaugurando a utilização do clown inglês na cultura francesa.

 

Robert Macaire apaga-o do imaginário francês criando Pera, o seu sucessor. Outros provocarão o seu desaparecimento definitivo, até o vermos transformado em Zé Povinho, já adaptado à paisagem portuguesa.

 

Segreda-me ainda este rapaz amigo que quando no pó remexemos, encontramos desilusões que nos reduzem ao pouco que somos e que compramos numa barraquita de praia que traz areia colada, e mesmo alguma da simbologia que acreditamos que nos identifica é apenas um produto do que já foi de outros.

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A Gaffe jamaicana

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.19

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A Gaffe está irritadíssima com os acontecimentos no Bairro da Jamaica que foram ousadamente classificados como ocorrências de índole racista.

 

A Gaffe já passou férias nesse país encantador e embora não tivesse visitado o bairro, pois que o Hotel distava horrores desse lugar e não se encontraram guias com bom aspecto, está em condições de confirmar que os jamaicanos são uma gentinha amorosa e absolutamente nada dada a dar prova dessa doença.

 

A Gaffe ficou estarrecida quando viu aqueles jamaicanos portugueses acusar a bosta da bófia de violência gratuita com laivos de racismo. Não sabendo muito bem o que é a bófia - embora reconheça a primeira componente da expressão como matéria-prima das televisões -, supõe tratar-se daqueles homenzarrões lindíssimos, musculados e fardados e armados, que a Mortágua condena veementemente, com só ela consegue veementemente condenar.

Meninos, não se bate naquela gente.

 

A Gaffe está decidida.

 

Vai imediatamente convidar uma das manas Mortágua - uma qualquer, porque tanto faz que são iguais e ninguém nota a diferença - e a Cristas a equilibrar, para, ladeada por estes extremos extremosos - para além de evitar levar uma bordoada lateral, vai parecer harmoniosa - visitar o Bairro da polémica.

 

Já enverga - para fazer pendant com a deputada - o seu black outfit e já calçou galochas - para fazer pendant com a grande líder.

As três, unidas como Abril mandou, provaremos que Portugal não é racista e que aqueles pobres jamaicanos pretos também não.

Foi tudo bordoada merecida.

 

É um sacrifício que nos fica bem.

 

É evidente que esta rapariga não é o Marcelo. Não vai desatar a beijocar as nódoas negras daquela gente, nem vai tirar selfies, porque o cenário não tem uma luz em condições de figurar no Instagram - não havendo filtros, fica tudo imenso escuro -, mas vai valer a pena ser escoltada por aqueles mauzões gigantescos e repletos de escudos de acrílico que intervêm para apoiar as pessoas de boas famílias na caminhada a favor da diferença.

 

A Gaffe tem de provar que este país não é racista.

 

Já o declarou no facebook e já escolheu também por isso uma fotografia de um mocito com quem não se importava nada de estabelecer diálogo esclarecedor, mas reconhece que ao vivo, bem vestida, com o cabelo bem tratado, acompanhada por fotógrafos e com algum carinho no rosto, a natureza desta mensagem renovadora, apaziguante e cristã, se torna poderosa e faz mesmo com que se distingam de vez em quando os jamaicanos uns dos outros.  

 

A Gaffe admite a existência de um pormenor que exalta as pessoas pouco instruídas e que as leva a desatar aos gritos desagradáveis, acusando um país inteiro de conter raízes racistas.

 

A igualdade.

 

São todos iguais!

 

As pessoas brancas não conseguem distinguir um chinês de outro chinês, mesmo que estes dois piquenos estejam lado a lado.

As pessoas brancas não conseguem pronunciar os nomes dos pretos que - diga-se em abono da verdade -, também não se diferenciam uns dos outros. É impossível chamar pelo Matambukalé Tanrambureré sem termos de nos socorrer depois de um terapeuta da fala. Como pronunciar Pi-Chin ou Pi-Cho-Ti, ou mesmo Pi-La, sem pensar que vamos ser violadas? Como encontrar modo de articular Lakshmi Mahara Surya sem pensar que nos vão despejar açafrão no cabelo, nos vão tatuar uma porcaria em hena nas mãos - desidrata imenso -, ou nos vão tentar impingir uma rosa de plástico quando formos ao Saldanha?!

 

A Gaffe tem conversado imenso com a  senhora Årud Haakonssonhagebak, uma senhora norueguesa lá de casa - sem ser, c’est évident, a colaboradora doméstica, uma romena que nos maça horrores ao tentar fazer com que a percebamos -, que sempre diz que o racismo português é uma fake new, pois que não é viável acusar um povo tecido de heróis camonianos, que nunca levantou um dedo contra a senhora D. Isabel dos Santos e que no passado ofereceu novos mundos a um mundo de gentalha que nem sequer soube agradecer e que agora está convencida que temos obrigação de os acolher nos nossos lares e privacidades, de ser um povo pouco dado à diversidade.

 

Somos um povo que marca a diferença.

É tudo.

Então vá. 

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A Gaffe de Maria João Avillez

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.19

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Usar um batôn exige uma compenetrada dedicação. Uma rapariga não pode estar atenta a rigorosamente mais nada. O mundo deve tornar-se apenas um som indefinido de uma sinfonia longínqua ouvida em surdina. A operação obriga a um recolhimento imenso e ao rigor imprescindível de um traçado de rota de avião.

 

Estando a Gaffe pronta a esmagar o lábio superior contra o inferior, diluindo dessa forma o vermelho sangue que escolheu vampira, quando sobreveio de forma insidiosa a voz de uma distinta jornalista que possivelmente na infância jogou à macaca com D. Maria II.

 

A Gaffe não sabe como, não sabe quando, não sabe porquê, não conhece a razão do ouvido, não sabe onde ocorreu o acidente, mas estancou de boca aberta com o batôn ainda por homologar.    

 

Maria João Avillez faz uma chalaça com o provincianismo de Rui Rio.

 

A Gaffe não simpatiza com o senhor. Irrita-a a secura e o ar azedado com que o grande líder arranja constantemente a gravata, normalmente tenebrosa e sem qualquer sombra carismática. Em consequência é-lhe indiferente que alguém o considere um pacóvio. Não se amofina com referencias lúdicas às eventuais origens nortenhas do grande estadista.

 

Maria João Avillez, no entanto, desenha de uma penada um belíssimo retrato do que considera necessário um político saber para poder vingar.

 

A jornalista - que de tão bem-humorada despertou a gargalhada no público, ou no publicuzinho, como vos aprouver -, considera que Rio não pode vingar porque nem sequer sabe onde é o Saldanha.

 

O importante, a Gaffe está completamente de acordo com Maria João Avillez, é saber onde fica o Saldanha, Cascais e a Expo do lado onde reside gente de bem. Não é relevante conhecer os apeadeiros da linha do Douro até porque foram quase todos desactivados. O Marcelo já encontrou Pedrogão e parece que não vale a pena a deslocação, pois que não há paisagem que a justifique e aquela maçada de mármore que ruiu já não adianta conhecer, porque se tornou difícil lá passar.

 

Agora, não saber onde fica o Saldanha?!

Parolo!

 

A Gaffe vai introduzir no GPS a referência geográfica de Maria João Avillez.

Disseram-lhe que no Saldanha se ergueram imensos hotéis cobertos de espelhos. Cosmopolitíssimo! A Gaffe vai com certeza encontrar um que a ajude a corrigir o batôn.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe do galifão

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.19

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A Gaffe tinha assumido o compromisso de não voltar a estar atenta aos burburinhos que à sua volta irrompem como cogumelos em bosque mais húmido e sombrio.

Admite que se está arrasada, tonta, desequilibrada, enjoada depois de ter confirmado - o comando da box da Gaffe tem uma verruga que lhe permite andar para trás na programação, tal qual o botão dos boxers do rapaz - que a Assunção Cristas foi mesmo a casa da Cristina Ferreira cozinhar arroz de atum e não estava a usar galochas! Nem jeans! - como se esperaria, pois que confecionava um prato de pobrezinhos.

 

Esta decepção, este lapso, esta incorrecção, esta falta de maneiras, esta inadequação da Cristas foi a gota de Moët & Chandon que fez entornar o copo.

 

A Gaffe não volta a beberricar fait-divers sem pedigree e se por acaso tropeçar outra vez na versão para gente de bem da Ode Triunfal de Álvaro de Campos, nos medicamentos da psicóloga normalizadora do universo, no ralhete de sala de visita do Goucha a um nazi, ou nas mamas da Rita Pereira a rebolar por todo o espaço, esta rapariga sai da sua zona de conforto e passa a insultar toda a gente no facebook, depois de assumir que não ficou chocada, nem um niquinho para amostra, com as declarações de Yann Moix que ninguém que valha a pena conhecia antes do homem ter dito o que não é de todo um escândalo de arrancar cabelo ou de depilar o cérebro.

 

Minhas caras, o rapaz não se sente atraído por mulheres de cinquenta anos.

Meus amores, todas as campanhas publicitárias, desde a da batata frita no pacote à dos coentros e rabalhetes, pensam e mostram o mesmo.

Não precisávamos era de conhecer as formas que o homem encontrou para se tornar um ridículo galifão a tentar erguer a crista, mas a preferência de um homem entradote por corpos de mulheres mais novas, não traz mal ao mundo. Pode eventualmente originar a compra de um Porsche descapotável vermelho para estacionar junto aos portões das escolas secundárias e inflacionar a venda de cola para dentadura, mas não afecta as cinquentonas que, divertidas, olham a coisa mais linda, que vem e que passa em doce balanço a caminho do mar, o Menino do Rio, o calor que provoca arrepio, o dragão tatuado no braço, o calção, o corpo aberto no espaço e por ali fora até ao refrescar da onda. 

 

Não sejamos más.

 

Todas as mulheres de mais de quarenta e muitos anos que a Gaffe conhece se divertem a congeminar perversidades maravilhosas protagonizadas por rapagões saídos há dois, ou três, ou quatro anos, de uma adolescência de ginásio, ainda com os olhinhos brilhantes de inocência fit, slim e menos coisas e mais coisa.

São mulheres estupendas, poderosas, bem-humoradas, belíssimas, que também gostam de publicidade a espumas de barbear, que já concretizaram sonhos, que já floriram, que já dão sombra, que já caminham seguras e perfeitas pelos trilhos que desenharam e que limaram - muitas vezes usando homens de cinquenta anos que preferem mulheres de vinte e cinco. Todas reconhecem que alguns - muitos - destes jovens equilibristas musculados não vão entrar no circo dos seus amantes, porque sabem que a idade dos meninos não se coaduna com a perícia de uma mulher que aprendeu a voar sem rede.

 

Não sejamos implacáveis. Todas temos de reconhecer que um atleta olímpico em idade tenra, ou um menino muito grande que ainda mama no dedo, é bem mais atraente que Yann Moix. Nós apenas não estacionamos o Prosche descapotável à entrada da Secundária e não nos babamos ao dar entrevistas.

 

A Gaffe sente-se esgotada com estas manigâncias, sobretudo porque são tolices destas que lhe aniquilam a atracção que sempre sentiu por homens mais velhos.

 

Decide, em consequência, deixar de estar atenta a burburinhos.

Vai dedicar-se ao arroz de atum, a servir chá a psicopatas e a curar os senhores dos tais vãos de escada.  

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A Gaffe da Porto Editora

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.19

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Vá, sejam educadas, pessoas nervosas do facebook.

Já bastou o alarido que fizeram, bradando pela exclusão e queima da obra, quando deram conta que estava à solta uma frase mais marota de valter hugo mãe que podia ser injectada nos vossos rebentos conspurcando-lhes a inocência.

Agradeçam à censura por vos ter revelado que existe a Ode Triunfal de Álvaro de Campos que por acaso contém os versos:

 

(…) Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas (…)

 

(…) E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! –

 Masturbam homens de aspeto decente nos vãos de escada. (…)

 

 

Convém ler o resto. Há o resto. Não se fiquem por aqui, por muito que o desejem.

 

A Porto Editora é tão imaginativa quando decide divulgar a obra de um poeta!

 

Imagem - Teresa Oaxaca

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