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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da Marvel

rabiscado pela Gaffe, em 09.09.19

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O Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, proibiu a venda do livro de BD que apresenta dois heróis da Marvel, Wiccano e Hulkling, jovens rapazes potentes e muito pouco recatados, num abraço fechado num beijo onde é provável que a língua de um esteja a pesquisar o palato do outro.

 

A Gaffe não é a Folha de S. Paulo e não vai apresentar a ilustração proibida, até porque não satisfaz a sua refinadíssima exigência estética, mas, após apurada pesquisa, está apta a revelar que a BD é de 2012 e que os envolvidos no escandaloso e nojento beijo são ambos filhos de mães solteiras. Um é filho da Feiticeira Escarlate, que perdeu o Visão -  pai do seu filho e não um problema oftalmológico -, e o outro é filho da Capitã Marvel, uma senhora que já foi um senhor. Nada de bom se poderia esperar, como se conclui pelos antecedentes.  

 

A imagem proibida é suscetível de atentar contra a #deixemascriançasempaz, muito popular por estas paragens e originar mesmo um belíssimo artigo da autoria de Laurinda Alves, insurgindo-se mais uma vez - e possivelmente torcendo e retorcendo mais Decretos de forma a que pinguem atentados civilizacionais -, contra a degradação humana que permite que dois homens se beijem em público, provavelmente nos WC comuns e sobretudo nos desenhos.  

 

A Gaffe leu, algures no tempo, uma entrevista em que Laurinda Alves declara que quando se dirige a Deus, fá-lo - e não falo, é de bom-tom sublinhar -, sempre em inglês, pois que sente que Deus a ouve e a entende melhor nessa língua.

 

A Gaffe considera que esta afirmação é suicidária. Laurinda Alves deixou de ser credível, pois que toda a gente sabe que Deus é francês - Il n’aime rien, iI est parisien. Não vale a pena ler a senhora se não se nos dirigir na língua de Molière.

 

#deixemascriançasempaz merece a nossa particular atenção, pois que prima pela defesa da moral e dos bons costumes infanto-juvenis que a escumalha demoníaca tenta violentar - qual cardeal a um acólito -, pese embora Crivella, Fátima Bonifácio e Portocarrera - trio maravilha unido nas lutas, em frentes diversas, pelos valores tradicionalíssimos que sempre comandaram o mundo, graças a Deus e à Santa Virgem cosmonauta.

 

A Gaffe não entende como não é visível ao comum dos mortais as consequências, malefícas e devastadoras, destas e de semelhantes imagens de despudorado, ínvio, depravado e desnaturado cariz sexual evidentemente anómalo - que esgotam no momento em são proibidas, mesmo sabendo-se que podem causar desmandos nas orientações sexuais das criancinhas!

É evidente que uma criança que vê um desenho onde dois rapazes se beijam em preparos homossexuais, por muito contrariado que seja pelo senhor pároco ou pela psicóloga, detentora da cura, vai a médio prazo dar na veia - não necessariamente a poética -, ou, - pior! -, desatar a engatar matulões nos WC da Basílica de Fátima.     

 

A Gaffe já deu início a uma petição pública para que seja esfregado e raspado o relevo depositado no Museu ao ar livre de Karnak que representa o rei Senusret I - nos idos 1971/1926 AC - abraçado a Min-Amun - que anda bastante armado ou que ficou muitíssimo contente por ver o faraó.

 

Haja respeito pelas Instituições Sexuais.

Valha-nos Deus.

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A Gaffe do combustível

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.19

by Abid Mian Lal Mian Syed.jpg

Perante a ameaça de falta de combustível, seria absolutamente genial que alguns portugueses descobrissem que podiam, para além de jerricans, de jerricãs, de bidons e de bidões, encher também a caixa craniana.

Afinal, para que é que servem as narinas?

 

Fotografia - Abid Mian Lal Mian Syed

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A Gaffe cosmonauta

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.19

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Portugal, diz Luís de Freitas Branco, é um país de miniaturistas.

Reportava-se o compositor à proliferação de pequeníssimos acontecimentos culturais que grassavam por todo o lado, mas que não se aglutinavam, nem se agigantavam, servindo desta forma os interesses daqueles que considerava limitados e incapazes de projectar um país a longo prazo.

Ao mesmo tempo, o compositor lamentava a miserável falta de reconhecimento dos homens e dos factos que poderiam, se elevados, alterar esta raquítica forma de arquitectar um país usando-se apenas as folhas de um bloco de apontamentos muito pouco definido e demasiado parco em espaço.

 

A verdade é que Luís de Freitas Branco não nos fornece pistas, não nos indica nomes, nem nos entrega acontecimentos capazes de edificar no país uma ambição de gigante.

Maroto.

 

Há, contudo, pelo menos um facto, relativamente recente, que contraria este dito acutilante, não urgindo recorrer a ilustres navegadores de antanho.

 

Fomos capazes de projectar na História a visita do primeiro cosmonauta a Ourém.

 

O sapientíssimo padre Gonçalo Portocarrero de Almada, num extraordinário artigo, para além de lamentar não ser possível considerarmos a ascenção de Cristo - acontecimento, que os apóstolos observaram atentamente, o que dá a este facto consistência científica e sendo comprovada a evidência do ocorrido por uma quantidade significativa de anjos – a primeira viagem espacial, dado que Cristo é o próprio Criador, com o Pai e o Espírito Santo, informa-nos que, mesmo sem foguetão, a primeira criatura humana a viajar pelo espaço foi, nada menos, nada mais, que Nossa Senhora.

 

Pese embora o esforço de Pio XII que decidiu o que aconteceu – e que ninguém pie -, nem o magistério pontifício, nem as visões dos místicos, nem os ensinamentos dos teólogos lograram explicar como ocorreu o transporte de Nossa Senhora, na sua assunção ao Céu, que também ninguém observou. No entanto, esta questão parece ter sido esclarecida nas aparições em Fátima.

Como se reconhece, Fátima é o Altar do Mundo e uma das pistas de aterragem da nave da ilustríssima cosmonauta.

 

Foram portugueses os que forneceram estes dados ao planeta e deles deram notícia global.

 

Após interessantíssimas considerações, o Padre Gonçalo Portocarrera de Almada termina a sua admirável tese, comprovando que, pelo dito, Maria não foi uma mera espectadora da História, mas uma protagonista e precursora de uma das maiores proezas da humanidade.

E finalmente:

Os santos não são os que, por amor a Deus, se desinteressam do mundo, mas os que, com a sua bem-aventurada vida, mais e melhor contribuem, também em termos científicos e tecnológicos, para a evolução do género humano: os principais obreiros das verdadeiras revoluções civilizacionais.

 

Foram os portugueses que acolheram esta verdadeira revolução civilizacional e dela deram notícia, espalhando ciência pura pelo mundo.

 

Luís de Freitas Branco, pega e embrulha. Vais precisar de muito papel que isto não é, de todo, coisa pequena.  

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A Gaffe repetitiva

rabiscado pela Gaffe, em 09.08.19

.I.

A Gaffe, a propósito desta cirúrgica Carta Aberta, recorda, com o distanciamento que sempre foi necessário neste caso, o extraordinário registo com que a destinatária da Sarin a mimoseou outrora.

 

A mais sinistra das águas é aquela onde sob a superfície parada e cristalina, se esconde a insalubridade.       

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A Gaffe repórter

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.19

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Pouco tempo depois de Abril de 74 – contava o meu avô, que se divertia sempre que o fazia -, uma jornalista toldada pelas renovadas atmosferas, trepava às montanhas e aos penhascos para mostrar ao país a miséria em que o povo se encontrava. Entusiasmada, eufórica, nervosa, revelava o estado de total analfabetismo que se instalara, durante o tempo das trevas, nos montes e nas serras dos degredos. Uma torrente de escandaloso choque. Na breve entrevista que fez a uma velhíssima senhora de lenço preto a amarrar-lhe as rugas, repetiu afoita as sacramentais perguntas.

Sabe o que é o fascismo? Sabe o que é a Assembleia da República? Sabe o que é um deputado da Nação?    

A senhora não sabia.

Sorria mateira e a meio do difícil questionário, decidiu que era altura de calar a trepidante repórter.

- E a menina, sabe o que é um almude?

 

Cerca de quarenta anos depois - mais coisa, menos coisa, que não sou rigorosa -, a notícia chega nos solavancos fonéticos, nos disparos silábicos de uma histriónica jornalista que ameaça saltar dali e nos pregar dois estalos se não lhe prestamos a devida atenção:

Cerca de vinte crianças foram atendidas nas urgências da Unidade de Saúde com sintomas suspeitos de intoxicação.
A peça corre mostrando a nauseabunda porta da Urgência carcomida onde se amontoam uma dúzia de senhoras desgrenhadas e outros tantos cavalheiros de sorriso alarve e telemóvel em punho.


- As raparigas sentiro uma comichice e depois ficaro com impalas no corpo. (Aluno da Escola atingida).
- Eu tenho três piquenos e ambos os três ficaro comichosos e com falta de ar. (Encarregado de educação).
- Não é nada grave! As crianças chegaram aqui mortas por se ir embora. (Chefe dos serviços de urgência).
- Eu acho que foi porque metem muito alho no comer da cantina. (Encarregada de educação).


Na estação concorrente dá-se novas do incêndio numa fábrica de produtos químicos, que, à semelhança de todos os outros, é dramático e desolador.

O repórter, de microfone em punho e olhar de fanático possuído pelos demónios da adrenalina ou já toldado pelos vapores tóxicos libertados, teima em recolher os depoimentos da população:
- Só se ouvia pum, pum, pum, pum, pum, pum... ... – insiste um senhor de olhar distante e dentes podres.
O jornalista esperava um pum maior ou então que se esgotasse a cadeia dos pequenos.
- Como é que ficou a saber do incêndio? – resolve perguntar à senhora de óculos bifocais e gengivas sem dentes.
- A minha filha telefonou a dizer-me – esclareceu a mulher de olhos fixos na câmara.
- E o que foi que lhe disse a sua filha? - Insiste o repórter, nervoso e expectante.

- MÃE, ANDA CÁ DEPRESSA QU’A FÁBRICA ESTÁ A ARDER!  – brada, monocórdica, a senhora de gengivas rosa e óculos bifocais.

 

O manquejar jornalístico tem, como se lê, tradições que vão perdurando.

O analfabetismo - em todos os seus versículos - também, mas tal se tornará uma outra história.

 

Lembrei-me destes pícaros episódios quando, há cerca de dois dias, cinco canais de televisão acompanhavam em directo um autocarro que transportava jogadores de futebol do hotel para o estádio - e com recurso a drones, não se vá perder o topo do veículo.

Sendo que, agudizando a gravidade do ocorrido, me dizem todos – sobretudo os que o perderam -, o jogo não era significativo, valendo um pechisbeque nas agendas apopléticas dos campeonatos, a transmissão torna-se então a indigência bacoca do jornalismo televiso em todo o seu esplendor.

 

Dir-se-ia de interesse público acompanhar o Sporting no seu trajecto rumo a uma humilhante derrota – Deuses! Os rapagões foram cilindrados por cindo golos! Mesmo para uma leiga como eu, digam o que quiserem, esta quantidade de desastres sofridos num só joguito é sinal evidente e confrangedor de mediocridade. Numa inversão da clássica arena romana, os leões são trucidados e comidos pelos gladiadores.

Dir-se-ia que tem repercussões nacionais observar a saída dos jogadores do Benfica do autocarro do amor, pé ante pé, olhares de soslaio à conta das divas, sobrancelhas cuidadas e depiladas as pernas, não vá o país perder as gravatas timbradas e os passarinhos de raminhos de louro nos biquinhos, ou o chispar charmoso das primeiras entrevistas do Sporting que nos informam que este vai ser um jogo difícil, a equipa adversária é boa, mas vamos lutar pela vitória.    

 

Podemos dizer o que quer que seja, que tudo se consegue mergulhar na plácida superfície da penúria analfabeta - e desonesta - que perdura há várias décadas no jornalismo - português em particular, pois que é dele que se fala.  

 

É evidente que se pode recusar este pindérico - e perigoso - modo de se mostrar o mundo. É evidente que existem abertos outros canais de informação absolutamente dignos.

 

Mas sejamos honestas, minhas queridas, sem esta espécie de estupro televisivo e telegénico, não conseguiríamos avaliar condignamente a envergadura e a potência anímica de atletas como o da imagem – não interessa nada saber quem é, a quem pertence, ou se equipa é unida e vai lutar pela vitória, pois que já sabemos de antemão que sim -, nem seríamos capazes de prometer uma sacrificada ida a Fátima, de rastos, se os rapazes cumprirem dentro do campo o que repetem até à eternidade aos microfones, mesmo não sabendo o que é um almude, ou desconhecendo se o comer quer alho.

 

Curioso! Nunca mais ouvi Mariza! O que será feito do fado?    

 

Na fotografia - Ruben Loftus-Cheek do Chelsea

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A Gaffe do "numerus clausus"

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.19

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A meia dúzia de pessoas que são contra as touradas, também são contra a família, são contra a cultura portuguesa, são contra o facto de haver uma tradição em Portugal - declara D. Duarte Pio de Bragança.

 

Esta gentelha de bigode parvo - pergunta a Gaffe -, não estuda, não viaja, não vê coisas, não lê livros, não se ouve a mascar merda?!

 (Pardon my french)

No Douro, nestes casos, pergunta-se também:

- Estes morcões não se mancam?!

O que é absolutamente deselegante, não deixando contudo de ser uma formulação repleta de tradição e muito própria de quem não entrou no curso preferido devido - ou derivado - ao numerus clausus, não tendo aberta a hipótese de o pagar a custos de mercado.

Gente do Douro, sem maneiras e sem curso, de maneiras que nada nobre, nada familiar e nada cristalina, derivado à falta de berço.  

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A Gaffe para totós descontrolados

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.19

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A Gaffe pouco provável

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.19

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Há alguns dias alguém fez uma ligação para estas Avenidas. Como a curiosidade afagou o gato, esta rapariga foi espreitar a razão, pois que tem sete vidas e pode perder uma ou duas.

O post em causa surgia com uma daquelas frases faceboquianas, emolduradas e pregadas na parede. Nada mais existia, a não ser aquela colada alusão ao modo como me dedico a filosofar, ou em busca de provérbios bíblicos, durante os dias úteis, enquanto que ao fim-de-semana me entrego aos prazeres da carne. Tal constatação, assustava a responsável pela ligação.

 

Achei extraordinário.

 

As probabilidades de se acertar na forma de viver dos outros, através daquilo que intuímos pelo que deles lemos, são iguais às que nos cabem no cabaz do euromilhões.  

 

Estamos sempre invariavelmente longe da vida dos outros, se conhecemos deles apenas as migalhas, e é muito pouco acertado considerar que é legítimo o que se intui, tendo apenas como termos de comparação e únicas referências as nossas próprias vivências.


É interessante, mesmo para a banalidade da frase iluminada e sem dono, o uso do prazeres da carne como exemplificativo da minha actividade lúdica de final de semana, porque ilustra o erro e a enorme distância que separa a minha cama supostamente em desalinho carnal daquilo que realmente me ocupa.

 

Há quase seis anos que os meus fins-de-semana são entregues a um projecto que me consome horas a fio e que me ocupa desde a alvorada ao anoitecer. Foi construído de raiz. Paguei cada pedra, cada telha, cada pedaço de cal, cada trave de madeira, cada lata de tinta, cada vidro, cada porta, cada objecto, cada instrumento, cada peça de mobiliário, cada maquineta, cada detalhe, cada uma das necessidades e urgências que foram surgindo. Continuo a pagar a manutenção, a limpeza, a água, a luz e a segurança. Continuo a pagar às pessoas que comigo trabalham, excluindo a Margarida e a Luísa que se tornaram essenciais nos turnos e nas escalas que não se importam de cumprir sem qualquer remuneração.

Se fosse de Direito, falava em pro bono. Sou de Ciências e, como tal, deixo de ter fácil acesso expressões latinas para nomear o facto de me sentir obrigada a olhar para a minha gente que não tem, que nunca teve, capacidade de pagar o direito de ser assistida condignamente.

Tenho, é evidente, a sorte e a possibilidade de, fora deste projecto, escolher o que quero fazer, quando e onde quero trabalhar, mas aqui, cá dentro do que fui erguendo sozinha, o meu horário é nobre e para lhe obedecer tenho por obrigação os meus fins-de-semana saturados.

É evidente que tropeço - cada vez menos, felizmente - com os chamados ditos e contos de pares e de ímpares, mas sempre mantive a minha privacidade murada e os petardos foram sempre inúteis e inconsequentes.

 

Escapa-se agora um pedacinho de luz sobre os prazeres carnais dos meus fins-de-semana. Deixo que a menina da ligação entre nos meus muito secretos dias inúteis. Foram privados até ao momento, exactamente como mantenho privado, ao contrário do que se supõe, o resto da minha vida ladeada pela vida dos outros.

 

É tontice concluir que nestas Avenidas foram expostas as vidas de quem amo. Jamais incorri no terrível erro de narrar o que não quer ser narrado, ou expor o que não deve e não quer ser exposto. Entre centenas de imagens que aparecem nestas Avenidas, raríssimas são as que revelam o meu mais íntimo universo. Entre as narrativas que se desenrolam por estas paragens, foram evitadas as que se relacionam com aqueles que as iriam abominar se descobertos nelas retratados. O meu irmão, os meus pais os meus avós paternos, o homem que amo e que biblicamente conheço, por exemplo, foram apenas - e raramente - tocados de raspão. Foram sempre preservados. Nunca mostrados.

 

Conheço os meus. Sei exactamente os que posso revelar sem dolo ou dano e os que devo calar e sentir apenas dentro da minha alma.

 

Sou, ao contrário do que se imagina, uma rapariga muitíssimo sensata.  

  

Por tudo o que é dito e mais que não se diz por ser privado, acabo por perceber que, debicando as migalhas que encontramos no caminho, nunca chegaremos à casa de quem queremos. Chegamos sempre à nossa.

 

Imagem -Jon Whitcomb

 

NOTA - O que foi escrito, deve-se a um erro grosseiro de interpretação da minha inteira irresponsabilidade. Não quero - nem posso, nem devo - deixar de pedir publicamente desculpa ao blog envolvido, que se limitou a ser gentil com esta idiota que agora se penaliza, assim como a todos os que leram e tiveram a amabilidade de me comentar.

O erro, contudo, não será apagado. Ficará exposto para me envergonhar. 

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A Gaffe de JMT

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.19

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Há homens que tagarelam. Ouvem-se a palrar e ficam fascinados com os sons que produzem.

Por norma, deixamos fluir o discurso, mostramos um olhar atento, um silêncio respeitoso e uma quietude social de bom-tom, mas distraímo-nos com o tom das peúgas que o palrador está a usar, com a cor da sua camisa, com o formato dos sapatos ou com a madeixa ao vento que teima em voar. Passamos o tempo a divagar sem que nada perturbe o bom correr da pena das palavras do homenzinho.

Não tem importância.

A distância que sentimos entre o que se diz, o que nos soa, e a nossa indiferença, é caminho duro de rasgar, mas o tempo que é gasto a ouvir o palrador está claramente ao nosso dispor e dele e do seu bom uso se faz treino.

 

Aconteceu com João Miguel Tavares (JMT).

Referi, no tempo em que o ouvia, alguns tropeções deste rapaz que podem ser reerguidos aqui, aqui e aqui. Haja paciência.

Depois decidi olhar para outro lado.

Não tinha importância. JMT falava e escrevia sobre o que não conhecia.

 

Aconteceu então o 10 de Junho e JMT ouviu-se a discursar.

Aconteceu então Maria de Fátima Bonifácio e JMT fez-se ouvir a discordar levemente de uma amiga, mas que há culturas superiores a outras, lá isso há.   

 

Outros - e disso é o exemplo colhido no imediato e imediatamente ao dispor -, incomparavelmente melhores do que eu, já rebateram e rebentaram os ditos e escritos destruindo os conceitos de superioridade cultural e civilizacional implícitos ou explícitos no artigo do jornalista. Não é pertinente a pobre opinião de uma ruiva revoltada que em nada acrescenta ao já argumentado.

 

No entanto, JMT adquiriu uma visibilidade inusual. O Governo Sombra forneceu-lhe grande parte do palanque e do púlpito mediático e foi entregando à sua opinião um peso e uma difusão que até agora não tinha.

Pesando este facto, aconteceu o discurso do 10 de Junho. Aconteceu JMT a renovar a elegia e a ode à família numerosa, harmoniosa e como manda a regra, a delimitar o terreno do nós e do eles, sublinhado que eles não pertencem ao círculo onde os portugueses e as portuguesas - pindérica tolice esta de se enunciar desta forma um povo todo! - sofrem as agruras dos abusos e das injustiças, das diabruras e dos crimes, e de mais que não se diz por ser tão mau, do poder, da governação, dos governantes, do grupelho do eles.  

 

Acontece agora JMT a palrar sobre a superioridade de determinadas culturas em relação a outras, atribuindo, entre outras alarvidades, e à laia de gracinha, a prova de inferioridade cultural destas últimas - das outras -, ao facto não ter sido por acaso um zulu a escrever Romeu e Julieta.

Se continuarmos aqui, só pelos escritos, assumimos que JMT escureceu – por ser inferior, suponho – a produção literária de inúmeros recantos do planeta onde se é culturalmente tosco e onde o Iphone provavelmente ainda não adquiriu a importância que o jornalista lhe entrega.

Despreza um acervo cultural de extraordinária importância vindo de locais que JMT considera pouco dados aos encantos do que é liberalmente endeusado pelo superior opinion maker.

Na enxurrada da inferioridade anda aos tombos - entre tantos, tantos outros! -  a poesia Nabati, Seydina Laye, Al-Mu'tamid, Ibn Kuzmān, ibn Ibrǎhim ibn˙Abd al-Ghani, ou Omar Khaiyat e Rubaiyat, a sua monumental obra. Na avalanche da sua superioridade são soterrados a poesia negrista de N. Guillén, enterrados Frantz Fanon, Aimé Césaire ou René Depestre e a negritude é apenas um percalço. Um pedacinho mais de nevoeiro britânico e as Mil e Uma Noites são as de Portalegre e o Kamasutra foi escrito em Lisboa.

 

Preocupante é reconhecer que JMT sendo um homem inteligente, com uma sólida cultura livresca, informado, influente, bem-falante, agradável, de convívio são, com acesso a poderosos meios de comunicação, capaz de articular belos raciocínios lógicos, argumentando de modo convincente se nos aproximarmos com leviandade dos ditos, é capaz de elevar o populismo a um patamar de excelência, contornando e aniquilando os grotescos venturas deste piso.

 

Quando homens assim se conseguem unir com subtileza a bonifácias, tornamo-nos - distraídos com bastante facilidade -, a muito curto prazo, bonifrates movidos por chavões.   

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A Gaffe 007

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.19

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A notícia, se verdadeira, deixa-nos, a nós raparigas espertas, prostradas, doridas, frustradas e empapadas em desilusão.

Lashana Lynch será 007

Uma das maiores tolices da história do cinema que já conta com 20 anos de masculino espião.

Uma mulher jamais poderá encarnar 007!

A classe e o charme desta espionagem ao serviço de Sua Majestade serão sempre masculinos.

 

007 foi criado para ser um homem, apenas um homem, só um homem e nada mais do que um homem. Ian Fleming foi peremptório e Daniel Craig cumpriu de forma extraordinária esse destino, recriando um fleumático, musculado, sofredor, carnal, brutamontes e sovado James Bond. O melhor de sempre, o mais atraente, o mais másculo, o mais ensanguentado, o mais sujo, o mais suado, o mais chorão, o mais sensual, o mais bonito, o mais esmurrado, o mais animal e, sem sombra de dúvida, o que faz com que nos faleça o tino mal o avistamos de tronco nu, ou de speedo a surgir no oceano do nosso contentamento.

 

É preciso acompanhar os tempos – dizem alguns com olhos doces, estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse, enquanto se afirmam dispostos a calcorrear os mesmos trilhos do tempo que passa.

 

É evidente que as duas décadas de Bond não foram grandemente simpáticas com as mulheres, embora, diga-se em abono da verdade, nunca tenha ficado claro se era o espião que as usava e descartava, ou se era o contrário que se verificava. Não há registo de nenhuma rapariga tombada deprimida depois do alegado abandono do rapagão maroto e não está determinado com exactidão se é 007 a levar as girls para a cama – ou para qualquer outro sítio, que o rapaz sempre foi muito despachado e inventivo -, ou se são elas que aproveitavam a onda dos lençóis para matar o tempo disponível entre o tiroteio.

 

Certo que, sendo 007 uma mulher, a tortura a que a espionagem fica sujeita se torna mais limitada, o que não deixa de ser confortável. Ninguém dá pancadaria nos testículos de Lashana Lynch, à semelhança do acontecido aos de Daniel Craig – um despedaçar dos nossos corações, sobressaltados com tal cena e desfeitos em cada paulada -, mas acreditar que transformar uma mulher em 007 equivale a terraplanar as eventuais ofensas ao feminino, ou a vingar décadas de alegados machismos patentes na saga, tornará homogéneo, justo e muito #metoo, o tratamento dado aos dois sexos nas fitas do espião, é uma tolice desmesurada digna de ser sujeita a ordem para matar.

 

São as mulheres que devem ensinar, educar, James Bond, sem que nessa árdua tarefa careçam de assumir o papel de protagonistas. São divinais, sedutoras, inteligentes, poderosas, belíssimas, potentes e mais que não se diz por ser verdade e cansativo repeti-la.

Bond deve ser confrontado por mulheres da sua craveira, tratado, manipulado, ofuscado, usado, esfolado, despido, suado, largado, protegido e todo o resto que habitualmente é da responsabilidade do espião e de seu uso frequente quando se depara com um maravilhoso par de mamocas. As mulheres sabem que Craig tem um par de outras coisas, que podem inclusivamente ser sovadas, igualmente atraentes.  

 

É uma tolice.

 

Não é de todo necessário entrar em cena Lashana Lynch. Só entope as nossas maravilhosas noites de icónicos machos espiões que tantos arrepios nos causam quando emergem do oceano molhados e feridos, mas prontos a atirar uma rapariga para a areia e a provar insistentemente que os têm de aço. Os braços.

Vá, não sejam ingenuamente condescendentes e paternais. Evitem ser possidónios e sobretudo tentem escapar à pinderiquice feminista.

 

As mulheres, acreditem, sabem educar o James Bond.      

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A Gaffe na Lei dos Básicos

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.19

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O medicamento custa cerca de dois milhões de euros – a margem de erro é para desprezar.

Há um bebé português que dele necessita para não morrer.

Uma onde de solidariedade arrecadou a quantia necessária para o comprar - dois milhões de euros em tão poucos dias!

Crowdfunding em todos o seu esplendor.

 

O facto de ter sido o bom samaritano a patrocinar quase de imediato a totalidade do tratamento, implica reconhecer que, também neste caso, o Estado é um inútil?

 

Não!

 

O medicamento não está vistoriado pelo INFARMED, não sendo comercializado em Portugal.

A médica da criança chega de férias e verificará se a petiza é elegível. Absolutamente necessário. A Matilde tem de estar apta, tem de ser capaz de resistir a esta tentativa de a curar. 

 

Sendo elegível, o hospital deverá oficializar o pedido, depois do impresso ter atravessado algumas dezenas de corredores e Comissões. Carimbado e aprovado, o papelucho deve seguir para o INFARMED, que analisará a viabilidade da encomenda e a eficácia do produto. Se estiver de acordo, o papelinho será enviado ao Ministério das Finanças, para que Centeno aprove a aquisição - encontrando em simultâneo maneira de não abrir precedentes -, iniciando-se então as negociações com o laboratório americano.

 

Entretanto, o dinheiro doado pelos portugueses não poderá ser usado para liquidar a conta que vier, pois que é o Estado português o responsável pela encomenda - se, nos entretantos, ainda valer a pena efectuar a dita.

 

A Gaffe considera genial propor à Assembleia da República que inclua na nova Lei de Bases do SNS a possibilidade de ser o cidadão a financiar o tratamento do seu semelhante.

 

Criavam-se escalões, sendo que o mais privilegiado abrangeria gente fofinha – crianças e velhinhos amorosos, por exemplo -, até ao menos merecedor - gente da oposição, velhos e velhas já com um pé na cova, que foram enquanto saudáveis - diz quem conhece -, pessoas horripilantes e sem uma educação que possibilite discursar no 10 de Junho.

O facebook poderia então provar ser ferramenta preciosa, permitindo contagem de likes e leitura dos comentários que ali correriam a favor, ou contra, o paciente candidato e seu consequente tratamento, ou morte.

 

O país encher-se-ia de gente boa, educada, civilizada, culta, sorridente e pronta a colaborar com o próximo - e com o distante -, pois toda a gente cedo ou tarde teria de se medir e de contar com likes.

Nunca sabemos quando temos de agarrar um. 

 

Os impostos seriam então para cativar, ou para criar laços, diz a raposa ao parvo.     

 

Ilustração - Toxandreev

 

Num registo sério, agarro - esperando ser perdoada pela ousadia - no comentário da Sarin que, como é evidente, urge reter.

(...) confesso as minhas crença e descrença no INFARMED - crença porque os medicamentos devem ser controlados, descrença porque a indústria farmacêutica funciona por objectivos distintos da Saúde.


Tenho a certeza de que uma vida vale mais do que um banco.
Mas também sei que há vidas que valem tanto quanto o barulho que as redes ecoem - Maddie é exemplo suficiente.
Quantos casos há de crianças adolescentes adultos com doenças raras? Poderemos importar assim medicamentos porque alguém aparentemente precisa? E como ficamos com a comercialização de fármacos na UE - um dos poucos produtos cuja circulação não é livre? Por outro lado, como fica a questão da responsabilização pela administração de um não autorizado?


Os procedimentos devem ser céleres, mas não podem ser ignorados. Custa, a emoção é pesada, mas quem gere não pode gerir por afectos - embora tenha que manter a sensibilidade pois gere por e para as pessoas. (...)

 

Roam-se! TAMBÉM Tenho Amigas deste calibre.

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A Gaffe de Graça

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.19

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A Gaffe gosta de Graça.

Não fosse a aliteração demasiado desengraçada, a Gaffe gabaria Graça pela graça que guarda.

A Gaffe gosta do seu cabelo estrouvinhado que permite divagar acerca do modo como Graça saltou da cama, ou de outra qualquer peça de mobiliário, directamente para o Governo.

A Gaffe gosta do desdém absolutamente divinal com que enfrenta os jornalistas e que nos faz esperar que mande uma cuspidela no microfone no fim das suas cirúrgicas e sobranceiras respostas - na presença da superior secura de Graça, qualquer rapariga de boas famílias se sente uma ordinarona do piorio.  

A Gaffe gosta do desprezo enojado com que Graça olha os piquenos tolos que se atrevem a dirigir palavra ao seu vetusto acervo de excelsas e inalcançáveis competências que, pese embora tenham permitido o afastamento pecaminoso e desavergonhadamente imbecil do responsável pelo Museu de Arte Antiga, lhe entregam um ar de mistério insondável, que fica sempre bem quando acompanhado de um sorriso condescendente e paternal.

A Gaffe gosta do ar denso e eivado de partículas de Absoluto que se respira quando Graça nos abençoa com a brisa da sua dada como certa inteligência - pois que é impossível dar prova da existência da dita sendo-se responsável pelo Ministério da Cultura em Portugal.

A Gaffe gosta da estratosfera semântica onde Graça colhe o que Azeredo Lopes nem sequer sonhou poder existir.

 

A Gaffe gosta da tranquilidade incomparável que enleva o povo quando Graça afirma que cerca de duzentas obras de arte que nos pertencem - mais tela, menos tela -, não estão desaparecidas, pois que apenas delas não se conhece o paradeiro.

Abençoado povo que engraça com estas graçolas, porque é dos nus e dos rotos o reino de Tancos.

... Dos tansos. Perdão.                

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A Gaffe do comendador

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.19

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É um tipo pretensioso, um fanfarrão, intoxicado com a sua própria vaidade, pavoneando-se mesmo sentado, confiante, de má índole, descarado, ignorante, teimoso e intratável. Pousa como uma vareja no que quer que haja para jantar. Não o podemos dignificar chamando-lhe vigarista presunçoso, porque é apenas um buraco no ar. Acaba por ser apenas um parolo simples, falho de qualquer noção de honra. Um horrível grosseirãozinho. Vê-lo enredar-se na língua portuguesa é como ver um vaso de Sèvres nas mãos de um chimpanzé, mas se o mandássemos para a escola, provavelmente acabava a roubar os livros escolares. Não merece crédito.

 

Não merecia crédito.

 

No entanto, as mesmas velhas salsichas, crepitando e estalando nas próprias gorduras, decidiram entregar-lho e fazer da CGD, não um banco, mas um bordel, uma casa de passe e um casino de esquina clandestina.

Um negócio de mentes a retalho que se vendem por atacado.

 

Para que os medíocres possam navegar, é necessário inundar terrenos férteis. Basta depois fazer flutuar as âncoras de uma ou duas anedotas - que deixam de ser más por terem sido bem contadas.

 

Chocante não é ouvir a risota quase certa dos trafulhas. É mais do que esperada, embora inesperada neste caso seja a aparente e desamparada senilidade do que ri, apoiado por laterais hienas. O que deveria chocar é o avistar da vela panda e solta ao vento dos que viram e reviraram entre os dedos as conchinhas e os seixinhos coloridos que boiavam e que apanharam durante a maré alta dos seus cargos.

 

Chocante é o choque deles.  

 

Ilustração - Dima Rebus

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A Gaffe no carrinho de História

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.19

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A Gaffe considera despropositado o choque dos vetustos professores da Universidade de Coimbra que abominaram o tema do carro alegórico que no desfile da Queima das Fitas tentou cumprir a sua missão pelas avenidas da cidade, carregando cerveja.

 

Uns queridos exagerados.

 

Afinal, meus amorosos e escandalizados velhotes, os meninos e as meninas que tiveram a glamorosa ideia de baptizar o veículo de carga com a referência encapotada a um genocídio, pertencem ao curso de História.

Não há nada a recear.

O futuro dos petizes passa por umas calças pelos tornozelos, muitíssimo slim, de modo a esmagar os tintins sem muito alarde, por uns sapatos bicudos e por uma camisa coleante aliada a um casaquinho dois números abaixo do normal, para realçar a musculatura e atestar que se não se está interessado em arqueologias, pois que a empresa do pai é mais bolos e pasteis de bacalhau com queijo da Serra. Às meninas está destinado um bom casamento e unhas de gel. A ambos, caso não se concretizem estes desideratos, está assegurada a caixa de supermercado que não estiver ainda ocupada por licenciados em Filosofia. A Assembleia da República está fora de alcance, pois que já tem os advogados a preencher cadeiras.

 

Não é grave.

 

A Gaffe também não compreende muito bem a reacção dos piquenos.

Colar um papelão no carrinho com o que parece ser um irónico protesto contido no Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre, não é muito eficaz, porque é verdade.

 

Os meninos não podem fazer o que querem, exactamente porque vivem em liberdade, meus queridos. Não é?

 

Faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo, se pisassem com a miséria dos sapatos de plástico do traje académico as avenidas de um qualquer lugarejo onde a liberdade fosse mais um pedaço de porcaria incluída nas toneladas de lixo que deixaram para trás durante o desfile.

Assim, não.

A liberdade de que usufruem, embora vos deixe usar poliéster preto e não vos obrigue a lavar o cabelo, impede que forneçam asas a estropícios mentais com intuitos humorísticos.

 

Meus queridos, o nome que decidiram entregar ao vosso carrinho alegórico, não tem piada, não é sequer inteligente, não é bonito, não tem bom-gosto, não é palestiniano, não é anti-semita. É só parvo.

Se já é péssimo que desfilem vestidos com aquilo que torna impossível que não se cheire a suor - para além de vos realçar os cabelos maltratados, mal lavados, mal cortados -, permitir que aliem esta desgraça a uma demonstração de imbecilidade, seria catastrófico para a Academia em geral e para os futuros desempregados inscritos no curso de História em particular.

 

Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre não é, de todo, sarcasmo ou ironia, reveladores de repressão, ou de esmagamento dos vossos anseios, meus amores, e não o é por causa da treta irritante do A minha liberdade acaba, onde começa a do outro, porque tal não passa de uma tolice creditada pelos coleccionadores de frases do facebook que ignoram que a liberdade não acaba em lado nenhum e que jamais terá limites na vida do Outro, porque se multiplica, aumenta, se une a outras, se reproduz, adicionando-se às liberdades alheias que se cruzam com a nossa.   

 

É só mesmo por causa do mau gosto. Se tem de haver desfile, sejam elegantes. Já basta o traje académico e o resto da praxe.

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A Gaffe com matérias perigosas

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.19

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A Gaffe está feliz com o anunciado fim da greve dos motoristas de matérias perigosas, pois andava com imenso receio do ultimato de Assunção Cristas, que deu ao governo um prazo apertado para terminar com a brincadeira.

Até Quarta-feira de manhã.

O horror.

Se o imbróglio não estivesse resolvido pelo governo na data estabelecida, Assunção Cristas imolava-se pelo fogo, não era?

 

Imagem - Ewa Cwikla    

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