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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no buraco

rabiscado pela Gaffe, em 11.04.19

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A Gaffe não entende o alarido que borbulha em redor do buraco negro.

 

Espanta-se com as lágrimas de comoção vertidas perante a fotografia de um donut encontrado num qualquer local perto de si, com telhado de amianto, quando a cada passo nos cruzamos com Maria Leal - ou com Cavaco Silva, pois que no último clip da boneca as duas coisas não se distinguem, uma da outra, com nitidez.

 

O único buraco negro que ainda consegue abismar a Gaffe é o do governo que vai chupando a família socialista, ou o muito meteorológico com saudações à Primavera, visível em milhares de blogs e de páginas do Facebook.

 

Pelo sim, pelo não, a Gaffe decide plantar nas suas avenidas imagens bem mais aprazíveis de outros buracos que nos sorvem a paciência - e a beatitude zen - e aproveita o ensejo para desejar as amigas - e a alguns dos seus mais queridos amigos - aquele Verão exactamente como deve ser absorvido.

 

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Welcome summer!

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A Gaffe dos 95 anos

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.19

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Hoje, 03 de Abril, é o dia de aniversário de um dos mais belos animais do planeta.

Todos os superlativos se adequam a este bicho incrível e absurdamente completo.

Depois dele, nada mais se criou para figurar na capa do catálogo onde os Deuses revelam as suas obras mais perfeitas.     

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A Gaffe com um Reality Show

rabiscado pela Gaffe, em 12.03.19

Reality show

 

A Gaffe ainda não se lambuzou com os dois novíssimos bombons das televisões privadas que estão a fazer com que quem come e quem não come - e sobretudo quem diz que nunca comerá e passa o tempo todo a mastigar -, parta os pratos, rasgue vestes com os garfos e fique careca de tanto arrancar à faca todo o cabelo indignado.

 

A Gaffe ainda não teve tempo para espreitar o que se passa. Sabe apenas que há estrume, pois aquilo tem agricultura, e sabe que há meninas - a palavra adquire neste contexto valores semânticos curiosos.  

 

Esta rapariga esperta, com o objectivo de aumentar as suas audiências, decidiu acompanhar os tempos que correm e criar uma pequena rubrica que contará com a contribuição preciosa de quem também não lê, de todo, estas porcarias:

 

Fazia-o à primeira vista

 

Minhas amigas, a Gaffe está pronta a receber os concorrentes que cada uma está disposta a patrocinar e arranca desde já com o primeiro - um canhoto, convém sublinhar, só porque sim -, que, pertencendo ao animatógrafo, pode perfeitamente inspirar e expirar o vosso voto. Aspirar, arejar, sacudir e dar ao ferro.  

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A Gaffe enfermeira

rabiscado pela Gaffe, em 01.03.19

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Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas o menino, Senhor,
porque lhe dais tanta dor?!…
Porque padece ele assim?!…

 

Uma rapariga fica comovida perante estas imagens lavadas em lágrimas de sofredores inocentes e por muito que reconheça que há muito menino com um instrumento capaz de resistir às agruras do destino, há outros com um utensílio que desperta de imediato o nosso reflexo Madre Teresa.

 

Nada nos impede de tratar do dói-dói destes últimos - os outros que esperem! - e mesmo furando greves, mesmo tendo de largar o cartaz, mesmo desistindo da progressão na carreira, mesmo abdicando doa requalificação, mesmo desobedecendo às ordens do Sindicato ou às do sindicato da Ordem, transformamo-nos nas melhores enfermeiras que qualquer apetrecho mais triste poderá encontrar.

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A Gaffe dos ...ões

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.18

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Caríssimos,

A Gaffe reconhece que se aproxima o Natal.

A Gaffe admite que esta quadra é propícia a desilusões, a frustrações, a aflições, a decepções, a apreensões, a preocupações, a inquietações e a apoquentações, pois que os rapagões nunca acertam nas escolhas que fazem.

 

A Gaffe propõe nesta data que os matulões nos ofereçam livros.

 

Podemos não os ler, por serem Trumpões, mas sempre nos distraímos a imaginar terminações.    

 

 

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A Gaffe violadora

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.18

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Na Irlanda, pedaço de bela terra que - em simultâneo com a Escócia -, apaixonou a Gaffe irremediavelmente, coexiste ao lado das mulheres uma quantidade assustadora de australopitecus.

 

Alguns deles são mulheres.

 

Em cada pub de esquina, urbana ou nem por isso, bolsar misoginia, machismos tacanhos e preconceitos bolorentos eivados de testosterona, não é de todo raro. Os irlandeses são, ao contrário do que se possa acreditar, genuinamente imbecis e raquíticos no que concerne à mais ténue e diáfana manifestação de feminismos, quaisquer que sejam, sérios ou parvos, sóbrios ou ébrios, reais ou escanifrados, respeitáveis ou desvairados.

 

A sentença que iliba um homem do crime de violação, alegando, entre outras barbaridades, que a vítima estava na altura do sucedido a usar cuecas fio-dental – uma coisa horrível que se mete nos dentes de trás e que incentiva ataques de trogloditas -, não é chocante numa Irlanda repleta de charutos mentais fumados nos grosseiros quintais dos preconceitos medievos. Não é de arrancar cabelos saber que o ronco escrito em letra oficial foi emanado por uma Meritíssima. A Irlanda é, neste aspecto, muito amiga da Relação do Porto e das suas sentenças em casos similares.

 

A Gaffe começa a amortecer a indignação relativamente a estes casos. Sabe - porque lhe disseram, que esta rapariga é de boas famílias e não pisa estrume - que uma pocilga só  medra - ou merda - se os porcos forem alimentados com detritos alimentares, restos, coisas velhas quase podres, tudo mesmo fora do prazo de validade. Parece que depois, isto tudo digerido, dá toucinho, presuntos, rojões e coisas imensamente salgadas que provocam hipertensão e matam imenso.

 

A Gaffe propõe a todas as meninas um desafio.

 

Cada uma de nós vai poder escolher aqui o menino que vai violar, tendo em conta o pacote - de roupa, ou outro qualquer - com que tenta esconder o que nos deixa dementes.

 

A Gaffe exclui da lista o educadinho, pois que já o marcou como seu.

 

Não se preocupem, minhas queridas, estamos a salvo, desde que arguamos que o rapaz, na altura do alegado acontecimento, estava a usar arames nos dentes, que é coisa para nos levar a uma loucura sadomasoquista.

 

 

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A Gaffe barbuda

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.18

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Para a Pequeno Caso Sério

 

Quando Chanel responde a uma rapariga pouco esperta, que indaga onde deve aplicar o seu perfume, com a ardente frase onde quiser ser beijada, está notoriamente irritada.

 

Na composição de todos os perfumes existem elementos que são adversos a determinados locais onde queremos ser beijadas. Não é conveniente perfumar os nossos segredos e jamais se poderá aromatizar os nossos desejos mais marotos sem correr o risco de os sentir a arder.

 

Deparamo-nos com situação idêntica quando falamos da barba.

Onde a podemos aplicar?

Responderíamos, como Chanel, onde gostaríamos de ser beijadas?

 

A resposta depende imenso da envergadura da pilosidade.

 

Uma barba pouco densa e curta é sempre bem acolhida em todos os lugares que perfumamos. Apesar do atrito, não corremos o risco de a ver abrasar as nossas geografias dos aromas e, mesmo arranhando, há sempre panaceias apensas ao culpado. Basta que saibamos encontrar o antídoto nas margens que ficam isentas de pregos e estiletes.

 

A barba densa, poderosa e vasta, coloca alguns problemas de locomoção. Podendo ser crispada, não desliza suave nos perfumes e implica o uso de uma bússola, controlando o Norte e Sul das viagens encetadas onde queremos. Se aflora apenas o desejo, pode obrigar a um controlo mais firme do riso que provoca o seu tocar nas planuras mais dadas a divertidas cócegas.

 

Como um perfume, a barba pode não ser fácil de aplicar em todos os lugares que queremos sentir beijados, mas podemos sempre escolher o lugar onde um beijo nos chega com o atrito de um perfume.

 

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A Gaffe com um dói-dói

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.18

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Desconheço a origem da sábia expressão, tida actualizada no Douro, os homens são uns paridos, mas confesso que neste caso o empirismo é convincente, dispensando em consequência comprovação científica.

 

Os homens são o que na gíria se chama mimelos e que na realidade é apenas uma característica da espécie e do género.

Esta particularidade adquirida pelos rapagões há tempos imemoriais, é vastas vezes usada como ardil de sedução. Nos confins do inconsciente mais oculto, os homens perceberam que um queixume, um ai, um arquear infeliz de sobrancelhas, um chorito, uma lágrima furtiva, um tombar sem forças, ou um golpezito de sorte, faz eclodir a enfermeira que todas temos cá dentro.

 

É evidente que nem todas obedecem de forma literal a este impulso. Perante um gemido masculino não é certo que uma mulher envergue de imediato a bata branca e o chapelinho com a cruz vermelha, despidas outras formas de se ser tarada, e se desatilhe em manobras de reanimação seja do que for.

Não!

Apesar de tudo, resta-nos o senso e a vontade de enfiar o termómetro nos sítios e com os fins a ele originalmente destinados. No entanto, a descoberta desta nossa debilidade, o reconhecimento da nossa propensão maldita, entrega aos meninos choramingões a possibilidade de se servirem da extraordinária disponibilidade feminina, da nossa abnegação, da nossa compaixão, da Madre Teresa que em nós lateja, para fins muito poucos lícitos.

 

Não adianta muito afirmarmos, empoladas pela soberba, com o nariz arrebitado de estoicismos, orgulhosas da nossa capacidade de sofrer em silêncio e com a vertigem da superioridade de quem aguenta - de pé, hirta e fixa -, os tacões agulha na presidência do conselho de administração da nossa vida, que os homens são uns paridos. É inútil, como toda a verdade encanecida e ultrapassada. Ao primeiro choro do nosso menino, espetamo-nos na net a ver se dói, doridas de pesar.

 

Somos compassivas, somos caridosas, somos empáticas, somos caritativas, somos misericordiosas e bondosas. Está dentro de nós estes destinos - embora todos muito selectivos.

Sabemos que os homens são uns paridos, mas, se valerem a pena, corremos a tratar-lhes do dói-dói.

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A Gaffe de bicicleta

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.18

Mladen Blagojevic

 

A Gaffe acha um exagero a vozearia, a algazarra, o alarido e todos os outros sinónimos que quisermos, em relação à bicicleta de Ronaldo. É expectável, é admissível, é compreensível - tendo em conta que a maioria dos homens normalmente chuta de triciclo -, mas há que reconhecer que outros bem melhores pontapés de bicicleta ficam sem história, entalados nas paredes, à espera que uma de nós lhes investigue o estado das rodinhas.

 

Foto de Mladen Blagojevic

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A Gaffe nevada

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.18

 

 

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A Gaffe sabe que se o Natal é quando um homem quiser, a Páscoa acontece sempre que uma rapariga encontra um coelhinho - embora adequada, é de evitar, dadas as circunstâncias, a palavra coelhão -, capaz de alterar o modo como cantarolamos Bing Crosby.

 

I'm dreaming of a white Easter

Just like the ones I used to know

May your days be merry and bright

And may all you Easter be white

 

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A Gaffe das duas moedas

rabiscado pela Gaffe, em 22.02.18

 

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Deparamo-nos por vezes com imagens que nos surpreendem, porque acabam por ilustrar uma das partículas de que somos feitas.

Esta é sem dúvida uma delas.

O homem do carro estacionado provavelmente procura desbravar os mistérios femininos com cuidados quase florais e tenta, inútil e sem qualquer sucesso, domar os bichos que somos, enquanto que - sem esforço desmesurado -, o garanhão bruto e tatuado, sem pouso certo e sem nada que se possa rentabilizar, fica fora de nós, aguado e a desejar o objecto que acredita ser o que nos convence.

 

Ouço dizer as más-línguas que o carro que um homem escolhe é o reflexo invertido da sua piloca, que um bólide gigantesco significará, portanto, uma pilita frouxa, quase impotente e humilhantemente pequena.

A não existir um completo erro nesta afirmação. Os homens que se deslocam em carros inimagináveis e quase absurdos de tão poderosos, com preços descomunais, são todos ineptos sexualmente. O carro compensará, desta forma, os exíguos apêndices que trazem entre as pernas.

 

Penso, no entanto, que esta espécie de compensação não se prende com tamanhos ou desempenhos de índole sexual.

A questão é mais oblíqua, mais insidiosa.

Suspeito que a potência do carro se liga normalmente à insegurança do dono, na cama em que é deitado. Quanto maior for a cilindrada e o aparato do popó, mais frágil, inseguro, hesitante, manobrável e irresoluto é quem o compra.

 

Não gosto de carros, mas reconheço que é proveitoso uma rapariga não seleccionar os rapagões sem primeiro conhecer os volantes que controlam. Alguns dos melhores, andam a pé.

 

É tudo uma questão de deslocações financeiras e de mecânica do prazer.  

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A Gaffe na parada

rabiscado pela Gaffe, em 06.02.18

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Segundo Barbara Bush, War is not nice.

É difícil ajustar esta brilhante oração a guerreiros que passam desarmados pelos campos minados dos nossos mais armados sonhos militares.

 

Todos os uniformes trazem dentro uma promessa de conflito.

 

Encontro-os sobrecarregados de erotismo, saturados, envoltos numa espessa camada de fascínio autoritário que quase sempre nos impele à obediência, mesmo quando obedecer se torna apenas um método enviesado de submeter o outro à nossa vontade, um eufemismo para Poder, um subtil reduto da governação.

 

No entanto, nem todos conseguem a sujeição dos que com eles se cruzam e quando o tentam fazer, descobrimos que numa longínqua existência de que não há memória certa, porque não convém, muitos foram os guerreiros que soçobraram, escravizados, apenas porque no momento certo não usaram capacete.

 

 

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A Gaffe trabalhadora

rabiscado pela Gaffe, em 01.02.18

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É sempre excitante quando, perfeitas e intocáveis, quase virginais sacerdotisas, geladas, impenetráveis e inalcançáveis, mulheres topo de gama, nos portamos como stalkers foleiras e nos enfiamos, com a discrição de deusas passeando na brisa da tarde, nos cantos mais improváveis das nossas paragens, apenas para nos deleitarmos com um qualquer desprevenido brutamontes. 

 

É como esconder estampas pornográficas no Livro de Horas Preces e Orações. 

 

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A Gaffe do Pai Natal

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.17

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A chaminé da lareira principal, a da sala grande, onde por decisão superior - e ao contrário do habitual -, se realizará a ceia de Natal, começou a tossir.

Uma tosse seca, mas muito discreta, quase imperceptível se não fosse o fumo que, coitada, não consegue expelir e que assombra a sala como um fantasminha cinzento e suave.

O rapaz foi chamado – por insistência minha -, que a do quarto desta frágil menina é secundária e o funil - o filtro, a chaminé, o tubo, a canalização... Oh! Mas quem se interessa?! - está ligado a esta e como se acende pouco, quando se acende faz tossir a velha.

 

Como são previsíveis os braseiros jovens!

 

Vergou o tronco para trás e de pilha acesa mergulhou a cabeça no escuro. Virado para mim ficou um corpo arqueado, sem cabeça, de braços erguidos e um dos umbigos mais perfeitos da minha vida inteira.

- A menina quer ver como está tudo bem por aqui?

Estava tudo tão bem por ali!

 

Há instantes para tudo. Se deixamos escapar um, seja ele qual for, alteramos o rumo às histórias que vivemos e apesar de ser opção do momento espreitar o abismo confirmando que estava tudo tão bem, escolhi debruçar-me sobre o espírito, deixando a carne de lado e concluí, após meditação em larga escala, que todas as raparigas espertas deviam ter a possibilidade de ver descer pelos tubos um Pai Natal que preenchesse os requisitos exigidos pelas suas quadras mais privadas.

 

É aborrecidíssimo ter sempre um velhote obeso e bonacheirão, pontilhado por suspeitas de pedofilia, a tentar oferecer-nos coisinhas embrulhadas com papéis fofos, com laçarotes e velinhas. Não é empolgante ter a descer pelos tubos um enregelado ancião gorducho, de sorriso largo e barba longa e crespa, agarrado a caixinhas coloridas que trazem tantas vezes dentro a desilusão encharcada de espírito natalício.

 

Todas as raparigas espertas - as outras ficam felizes com a oferta de uns gorros, de uns arranjos, de uns pechisbeques, de umas peúgas, de uns cachecóis cheios de carinho e amor, compreensão e ternura, dedicação e simbolismo, doçura e simplicidade e todas essas coisas lindas, muito lindas, muito lindas -, deviam ter o direito de seleccionar o Pai Natal que as visitaria nesta quadra repleta de paz e de gente da família.

O rapaz da chaminé de justo macacão vermelho e golinha de zibelina, de botifarras lenhadoras, músculos santificados, um dos melhores umbigos que vi em todos os meus parcos natais e carradas de testosterona no saco das prendinhas, estando já enfiado no lugar devido, podia facilmente alegrar a consoada, mesmo descendo de mãos a abanar.

 

Nós, raparigas espertas, sabemos que o que conta sempre são as intenções.

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A Gaffe pede desculpa

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.17

 

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Pedir desculpa é, há muitíssimo tempo, considerado um acto nobre.

A ponte cai matando uma quantidade de gente absurda, o ministro demite-se pedindo desculpa. Um acto de grande nobreza. O país incendeia-se e queima gente, a ministra não se demite e o governo não pede desculpa. Uma falta de nobreza. O Presidente da República apresenta condolências e pede desculpa. Tão nobre. Uma bactéria mata nos hospitais, o ministro pede desculpa. Nobremente.

 

O acto de se pedir desculpa chega com gola de arminho e manto de veludo escarlate. Traz o ceptro da grandeza de carácter numa das mãos e os brasões da elevação de alma na outra. Exige-se o desfilar compassado e grandiloquente do corpo da desculpa pelos corredores das nossas vidinhas. Deslumbrados pela nobreza exibida, aclamamos e reverenciamos o brasonado como capaz deste acto que parece exclusivo do gentil-homem e que lhe revela o cume de um carácter de Evereste e uma alma fidalga.

 

Pedir desculpa é sempre a revelação de uma falha. O reconhecimento de um erro e a assunção da vergonha de ter sido cometido e de sermos responsáveis pelo facto. Nada há de aristocrata - nem de plebeu -, numa atitude que deve ser comum a todas as gentes - a todas as classes, mesmo as definidas pela Idade Média e que, digam o que disserem, perduram ainda.

A atribuição de um carácter nobre a um pedido de desculpa é tão imbecil como o apaziguar da indignação popular quando os grandes infractores assomam à varanda do palácio e confrangidos acenam com os lenços choramingas das desculpas. Se os grandes vigaristas deste mundo abanarem na frente dos olhos dos lesados a alegada nobreza de um pedido de perdão, serão por norma julgados com uma condescendência bem maior do que aquela que é concedida aos inocentes apanhados pelo ladrilhar da trafulhice.

 

Pedir desculpa não engrandece, nem diminui. É um acto inseparável da condição humana. Existe, porque existimos e porque existimos, pensamos - e porque pensamos logo somos, diria o velho sábio se pudesse.

 

Após a admissão do erro, logo se verá.

 

Posto isto, a Gaffe apresenta-vos o maravilhoso atleta checo Jan Kudlička e avisa-vos, meninas, que apesar de não ter grande talento para as línguas, a primeira desavergonhada que se meter à sua frente, apanha com um dicionário na nuca.

A Gaffe pede depois desculpa.

É uma aristocrata.

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