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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe frutada

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.18

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Um septo arrogante. A cor da carne, carmim e luzidia. Uma humidade polida. Uma rigidez que cede, branda, tocada pelos meus dentes. Uma polposa, bojuda, carnuda superfície limpa, deslizante. Um fulgor. Uma meninice erguida em desafio. Um suco, uma rajada, um sumo, um jacto, um ímpeto.

 

Ou nádegas minúsculas por onde roça a língua. 

 

Ah, Como eu gosto de cerejas!

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A Gaffe doseada

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.18

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Uma rapariga esperta sabe que em qualquer situação, a elegância é sempre um dom a manter. Pode eventualmente ser herdado, mas sucumbirá se dele não cuidarmos. Não há nesta área aquilo a que se costuma chamar abébias, embora a Gaffe nunca tenha entendido muito bem o sentido desta expressão.

 

Basta por vezes que uma rapariga se lembre do chinelo que lhe serviu uma vez para enxotar uma barata numa esquina esconsa da vida, para que se esmifre toda uma cultivada sofisticação e apurada elegância, assim como basta que de chinelos calçados tentemos imitar uma prima ballerina numa situação em que bastaria ter cuidado com a coluna.

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A Gaffe a balançar

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.18

 

A minha mão passa despercebida, cambaleando sonâmbula no som que os pássaros soltam de ramo em ramo.

A minha mão é ruiva e nem a ferruginosa cor da minha mão permite a inacabada antítese da paisagem do meu corpo.

A minha mão ruiva não é mais do que o rasto que fica, como a ferida de um fruto que se acaba de morder. Um fruto vermelho, uma romã, uma cereja, ou a mordida feroz no coração da tarde ou no meu, que entardece no som despercebido da minha mão sonâmbula.

 

A minha mão ruiva é desigual a mão que digo amar e é nesse dizer do amor que sinto não sentindo que a minha mão balança na mão que digo amar, porque em mim o amor é sempre o oscilar das cores com que as aves fazem ninho.

Foto - Fernand Fonssagrives - NY, 1945

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A Gaffe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18
 
Tinhas-te enganado no bairro, na rua e inevitavelmente no número da porta, por isso a chuva havia destruído os dois croissants com amendoim e amêndoa, Boulangerie La Môle, Rue de Tourene, empapando o saco retro, pardo, com um cozinheiro balofo e sorridente desenhado a azul. Os braços do homem desfaziam-se, alastrando pelo papel pingado e o traço do sorriso resvalava numa gota azul que escorria rápida, sobrevivendo ao empapado embrulho.
 

Senti o teu perfume muito antes de te sentir os passos, de sentir a tua luva a deslizar no corrimão. O teu perfume altera-se quando a tua pele o toca, por isso, mesmo cega, te reconheço entre milhares.

Trazias o sobretudo bege, aquele que tu gostas e dura há tanto tempo, manchado pela chuva. Nos ombros os desenhos da água do céu escuro de Paris, como se dos olhos tivessem tombado os arabescos tristes. Sorrias quando me mostraste o teu guarda-chuva desdentado pela força do vento e te sentaste no chão mesmo ao meu lado.

 

- Vim esperar contigo. Podemos esperar aqui, os dois, o tempo que quiseres.

 

Abraçaste-me e foi então que comecei a chorar, aninhada em ti. Chorei mais do que a chuva. Encharquei-te o peito de soluços e ganidos.

Ficamos quanto tempo? Quantas horas durou o meu corpo a desfazer-se em água?

Quanto tempo levei a decidir matar o tempo de esperar?

Foi ali que aprendi contigo que a espera só se torna vã no momento exacto em que a nossa alma assim o decide, mesmo sem sabermos porque o fez.

 

Há dois mendigos eternos - tu e eu, ali - que esperam por Godot. Há um povo perdido a aguardar um rei sifiliticamente mágico que perdeu no sol. Há um poeta a sonhar ser amado como um dia amou.

Não há esperas inúteis até ao momento em que as transformamos, mesmo sem saber, em vazio incómodo.

Um povo, dois mendigos e um poeta só podem ter razão.

A espera continua a vida, mistura-se com ela até ser viva. Integra a nossa alma até ser pedaço dela, indivisível, inalienável. Não adia o tempo de viver, porque é já ele.

 

Gostava de me atravessar na porta por onde o tempo passa. Impedir que se escoe, que desapareça. Talvez então eu conseguisse fazer a morte parar, ficar à espera. Talvez então encontrasse um modo de entregar a alguém o tempo que é meu e de que mais me orgulho: as horas empapadas em que eu esperei. Esse tempo exacto. Esse intervalo nítido que finda no instante em que me levantaste porque sentiste a minha espera desistir, abandonar-me a vida.

 

Paris?!

Paris espera sempre, porque nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde partimos.

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A Gaffe ignorante

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.18

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Passei cerca de duas horas no cabeleireiro.

 

Decidi cortar o cabelo. Queria-o curto e fácil de tratar. Só entrego operações deste tipo ao Miguel que conhece o modo como me consigo enfurecer quando há deslizes capilares.

O meu querido amigo estava ocupado com uma rapariguinha que reconheci.

 

Está noiva do J., um rapagão que por sua vez esteve outrora, no antigamente das estrelas, perdido de amor pela minha prima.

 

É mais bonita do que nas fotografias. Mamalhuda e com as ancas potentes e um futuro parideiro. Tem um sobrenome do tamanho da fortuna que herdará. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses. É tradutora/intérprete na empresa da família. Tem ascendência aristocrata e raiz em Ponte de Lima. Católica praticante. Não tem filiação política. É alérgica a morangos. Sofre de enxaquecas. Vai a Londres, aos saldos, e é insolente com tudo o que sente inferior ou subordinado. O J. é o seu primeiro namorado.

Há mais duas ou três informações que não ouvi, fornecidas pelo fastio da mulher que as obteve, sem as desejar, da indiscrição de quem não é capaz de se libertar do domínio patológico de uma antiga amante.

 

Tem uma revista na mão e tagarela com o Miguel.

Não consegue decidir! O penteado!

Folheia nervosa o casamenteiro volume.

- Não faço ideia! - volta-se para mim. - Gosto deste, mas ao mesmo tempo parece-me vulgar, não acha? - crava-me a página no colo.

- O ideal é não ouvir opiniões - sorrio eu, sincera.

- Isso é verdade. Sobretudo quando as pedimos a gente que não sabe do que gosta.

 

Olhei-a pelo espelho. Tem na boquinha um sorrisinho de desdém todo florido. Deve ser aquela a expressão do inocente que desconhece que ao seu lado está sentado um serial killer e resolve mordiscar a pouca sorte.

 

Era fácil fazer-lhe explodir a revisteca nos dedos. Bastava que lhe descrevesse num sussurro grosseiro o anel de noivado - que não está a usar - que mereceu o deferimento da outra mulher quando o desiludido rapazinho lhe confessou hesitante, dias antes, que era o mesmo que tinha usado para a conquistar - o devolvido aquando da recusa; bastava que deselegante a aconselhasse a não usar lubrificantes com sabor - irritam a piloca descoberta do pobre noivo sujeito a cirurgia para resolver uma fimose dolorosa -, mas o Miguel voltou-se para mim, pronto a receber as minhas instruções.

 

Sei do que gosto?

 

Toda a minha vida procurei, esgravatei, cavei, esquadrinhei, remexi e espiolhei tudo o que o que suspeitava não poder ter. O que compensasse este sentir-me ausente do saber.

 

Sei do que gosto. Devia fazer uma lista em Excel. A que surge de repente é caótica e avulsa.

 

Gosto de Brahms, do Sabat Mater de Dvorak. Gosto de Rimsky-Korsakov, de Rachmaninoff, e de Ravel. Gosto das Variações Goldberg nas mãos de Glenn Gould. Gosto de mulheres que cantam jazz. Gosto de Nina em Nina Simone, de Aretha Franklin, de Billie Holiday e de Shirley Horn. Gosto de smooth jazz na voz dos homens. Gosto de Callas em Tosca. Gosto de Anna Netrebko e de Maria Guleghina. Gosto de Puccini. Gosto de Wagner. Gosto de Nabucco de Verdi e de Werther de Massenet. Gosto de Literatura Russa e dos clássicos franceses. Gosto de Proust, de Balzac, de Maupasssant. Gosto de Collete.

Gosto de Pablo Neruda.

Gosto do Faulkner que existe em Lobo Antunes.

Gosto de Nureyev.

Gosto de Giacometti.

Gosto de Caravaggio e de Vermeer. Gosto de Rubens. Gosto de Velásquez. Gosto de Monet e de Manet.

Gosto de Vieira da Silva. Gosto de Miguel Ângelo, de Rodin e de Brancusi.

Gosto de Corbusier, de Siza, de Koolhaas e de Niemeyer.

Gosto de Dior e de Cartier.

 

Gosto de milhões de nadas que não digo e gosto de homens que não sabem disso, assim como não sabem do único perfume que escolhi para mim - o único que sei que é meu, o único que gosto por sentir que se torna de repente a minha pele -, e que ignoram o nome daquele que devem usar para me vencer.

 

Sei do que gosto.Tenho de saber.

 

O Miguel acabou.

Olho a rapariga ainda presa à revista.

 

Não gosto do penteado que escolheu.

 

Ilustração - Bill Mayer

 

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A Gaffe detox

rabiscado pela Gaffe, em 16.04.18

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É extraordinária a quantidade de gente que corre sem paisagem; que pedala em bicicletas sem rodas; que cola aos braços aparelhos que contabilizam as batidas do coração, que medem a largura, o comprimento, dos passos que são dados, a quantidade de metros percorridos, a quantidade de braçadas, as vezes que se inspira, que se expira e a qualidade de calorias que se gastam na quantidade de suor que é medido por outros aparelhos que se apensam.

 

É extraordinária a quantidade de músculos que se querem ter tonificados - os nossos, mas também os do vizinho de passadeira de ginásio -, o peso das couves que se espremem para unir o sumo a pitadas de gengibre e bagas doidas diluídas num detox fit que nos dá saudades do velho clister, e mordiscam-se pepitas de aveia, de linhaça, de sementes de papoila, ao som de uma batida que nos comanda os saltos.

 

Vigia-se o fígado, perscrutam-se os pulmões, espia-se o coração, indaga-se o baço, espreita-se o estômago e espiolham-se os intestinos, pois há que ser fit, há que permanecer em excelente forma física e mostrar ao mundo que se é saudável, que se está em condições de esquecer o cérebro.

 

É extraordinário tentar perceber como será difícil a esta nobre gente tão detox, lidar com o envelhecer.

 

É tão quase tão extraordinário como reconhecer a tristeza que se sente quando se percebe que que é incomparavelmente mais feliz e mais vivido ter como banda sonora da vida - um só exemplo - a Slave March de Tchaikovsky, comandada por Pletnev, em substituição da batida ensurdecedora da aula onde se envelhece muito fit.

 

Ilustração - FFO Art

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A Gaffe dos velhos amantes

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.18

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Vivem como quem pisa uma alameda de vinhas trucidadas, sem esperar o mosto, sem esperar beber, porque o vinho está nas suas bocas. Cresceu como um corpo, ocupando tudo.
As suas terras estão marcadas. Jamais suportarão outros vestígios a não ser os deles.
Só ele sabe dela e só ela sabe que nele as montanhas olham os abismos e espreitam as vertigens sem fazer vibrar o ar que as rodeia.
Têm secretos recantos onde as suas vozes ecoam claramente e os seus olhos volteiam dentro delas.
Sabem ao sabor do pólen espalhado nos lençóis.

 

São velhos como só os amantes sabem ser.

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A Gaffe "décadente"

rabiscado pela Gaffe, em 10.04.18

Caminhar

No dia oito deste mês estas Avenidas fizeram dez anos.

 

É realmente demasiado tempo.

Já não me lembro da rapariga que escolheu a primeira palavra solta, num texto solto de um livro aberto, para encabeçar o blog. É evidente que não vou fazer retrospectivas ou balanços. Acho-os deprimentes.

Caíram países, morreram governos, tombaram ilusões, esqueceram-se tragédias, continuaram os assassínios, ergueram-se pontes para que as armas chegassem aos outros lados, morreram-nos, morrermo-nos. Também fomos felizes. Também esperamos Godot. Também cuidamos das roseiras.

Talvez por isso - e pelo que não se diz por ser moroso - acabe apenas espantada por ter conseguido manter milhares de palavras presas por fios que nunca tive a coragem de cortar e que me deixaram sossegada com alguma facilidade – e antes isso, que andar na droga.

 

Dizer que cresci durante este tempo aqui passado, é uma forma suave de disfarçar a palavra envelhecer. Crescer é sempre um distanciar, um apurar de limites e fronteiras, o desenhar de espaços íntegros e nossa pertença, um aprimorar dos sentidos e uma admissão do que valemos em consciência. Crescer, diz um Amigo, é educar a violência. Crescer é portanto envelhecer. Só envelhecendo nos tornamos pacíficos. A violência é sempre consequência de tenebrosa imaturidade.

Pasmo perante este processo de inversão Kafkiana que molda uma mulher a partir de uma barata.

 

Suponho que ainda não sei para onde vou. Aprendi há pouco tempo a caminhar.

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A Gaffe de rainhas

rabiscado pela Gaffe, em 09.04.18

Letízia

 

Tive o mais embaraçoso dos pesadelos de que há memória.

 

Descontraída e etérea, no aconchego das minhas mais íntimas e prosaicas tarefas, leio a revistinha onde é fotografada a aventura de Letízia de Espanha por terras onde falta o chá e abunda o chinelo e descubro de súbito que estou sentada a fazer xixi numa sanita daquelas casinhas da IKEA.

 

Duas rainhas.

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A Gaffe do Pascoal

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.18

    

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A Gaffe supõe que a escolha de um coelho para encabeçar a simbologia da época que se aproxima, está relacionada com o facto de o animal ter aquilo a que os brasileiros chamam ovos e com aqueles rituais esotéricos que fazem a alegria dos jovens hippies e das senhoras de meia-idade que conseguem andar aos pinchos pelos bosques defumados, todas nuas, sem que ninguém as detenha por atentado à Antiga Grécia toda estética.

O pobre do bicho sempre foi tido como um reprodutor exímio e tendo a Primavera como leitmotiv é compreensível que seja eleito como emblema de fertilidade.

 

Tudo muito pagão.

Um horror, já que sabemos que foi neste período que Jesus se levantou da tumba, três dias depois de ter falecido - não há registo de ter mantido o cheiro, em posteriores aparições.

 

É evidente que uma coelha está fora de questão. Não é todo decente presentear as crianças de coroa de flores na cabeça e vestidos de tule, com uma criatura com orelhas de Hefner - não há registo deste último messias se ter levantado, enquanto morto.

 

Este lamentável facto é factor de indignação.

A Páscoa devia ostentar como ex-líbris uma coelha. Uma bicha, não umas mamocas apensas a duas orelhas de feltro todas torcidas em cima de um móvel estampado nas páginas centrais de uma publicação repleta de doutos artigos que o mano lê de fio a pavio. Uma coelha normal, não depois de lhe ter sido arrancado o pêlo para feitura de casacos foleiros que acabam sempre a cheirar mal - como os messias - depois de uma chuvada no dito.

Não é permitido que se justifique o lapso alegando que as coelhas não sabem posar, pois que é provado aqui que são criaturas muito capazes de fazer frente e costas a qualquer - ou  a quaisqueres, como diz Miguel Sousa Tavares - moçoila hefneriana.

 

A Gaffe, meus caros, decidiu renovar o símbolo desta ocasião de levantamentos e ressurreições, apresentando-se comme il faut a todos os públicos pascais, incluindo o Teixeira, esperando que reconheçam de uma vez por todas que qualquer - ou quaisqueres, diria o mesmo - que seja a coelha, o importante é sempre a pose e o penacho.

 

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A Gaffe muitíssimo inconveniente

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.18

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Não me retires do corpo o que é pecado.

Deixa-o religiosamente ficar.

Deixa-o beato.

 

Quero espoliar-me nua nos veludos cardinal, adivinhar incenso nos brancos das rendas já rasgadas, amarfanhar toalhas com bordados e gargalhar nas roxas faixas da Páscoa do teu corpo.

Quero amarrotar os panos da cinta do teu Cristo. Não ser pagã. Pecar como proscrita. Excomungada, nua, espoliada e bicho.

Quero báculos de prata e jóias raras, cálices de nádegas, hóstias de pele, pontas de dedos, paramentos.

Quero morder o corpo do Senhor, beber-lhe a baba e desfazer altares de missa em sol maior.

Quero pecar, esconjurada, renegada por santos sacrossantos e enredar batinas e ensarilhar os mantos, escaldar as preces dos bem-aventurados e depois nua, desfeita em cânticos, fazer jorrar na mesa a tua ceia.

 

Foto - Katia Chausheva

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A Gaffe de Pessoa

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

 

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

 

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

 

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.

Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

 

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

 

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.

Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

 

- O melhor do mundo são as crianças.

 

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

 

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

 

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.  

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A Gaffe dadora

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Whatever you do

always give

100%

 

A não ser, meus queridos, que estejam a dar sangue.

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A Gaffe em rodopio

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.18

rodopio

 

Fazes da minha cama o amanhecer.

Agora consigo vislumbrar a tua pele.
Agora entendo a migração das águas.
Tenho o teu corpo em sépia e em dourado, a transformar-me em onda nesta manhã de areias esmagadas.

Estás adormecido e o espanto de tu estares assim, nu e quieto, prolonga a luz nas sombras e acidula os objectos.

Não sei mesmo se sonho ou se acordada te vejo a dormir.

Os lugares onde me perco estão toldados e misturo as vozes de tempos diferentes. A minha realidade é um mar aberto. Separadas as metades, deixo de saber em que lugar fico.

Não sei se em ti habito e deixei de ter lugar em mim.

 

E rodopio.

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A Gaffe mal acorda

rabiscado pela Gaffe, em 05.03.18

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É usual ouvir amaldiçoar as Segundas-feiras. Há canções que dedicam acordes e palavras a castigar o primeiro dia da semana.

Confesso que nunca percebi a razão deste ódio ruidoso. Nunca senti a nostalgia a invadir-me no anoitecer de um Domingo, nunca me senti invadida pela depressão que por norma chega apensa a uma despedida dolorosa e nunca adormeci, na véspera de um início, revoltada com a quebra da tranquilidade e do laissez faire laissez passer dos dias de descanso.

Acordo sempre intragável, seja em que dia for.

Sou solidária com criaturas que cegam com a luz matinal. Apoio o não movimento. Dou a mão aos sonolentos caracóis que se arrastam até ao suicídio que é abrir as janelas e deixar o mundo entrar.

Sempre gostei e sempre acreditei nas pessoas que se parecem comigo.

Não é de todo necessário que sejam minhas sósias. Não é preciso que as situações caiam no exagero, pois é bizarro encontrar a Teresa Salgueiro na voz da Susana Travassos, mas é reconfortante perceber que não estamos sós neste planeta muito pouco azul por onde voam as cegonhas.

 

Posto isto - e sublinhando o facto de não ser premente que haja gente com particularidades iguais às minhas -, devo confessar que fiquei abismada, siderada, chocada, arrepiada e todos os superlativos que se consigam encontrar, quando, hoje de manhã, abro o pequeno aparelho que me coloca em contacto com o universo e dou de caras com uma criatura que traz o meu cabelo, caracol por caracol, curvinha por curvinha, corzinha por corzinha, colado à cabeça, tudo juntinho e com o mesmíssimo corte!

Um plágio.

Fiquei em estado comatoso quando reparo que é um homem!

Antes a Jessica Rabbit.

 

Não se faz!

Provocou-me o mesmo efeito que o erguer das persianas.

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