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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do galifão

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.19

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A Gaffe tinha assumido o compromisso de não voltar a estar atenta aos burburinhos que à sua volta irrompem como cogumelos em bosque mais húmido e sombrio.

Admite que se está arrasada, tonta, desequilibrada, enjoada depois de ter confirmado - o comando da box da Gaffe tem uma verruga que lhe permite andar para trás na programação, tal qual o botão dos boxers do rapaz - que a Assunção Cristas foi mesmo a casa da Cristina Ferreira cozinhar arroz de atum e não estava a usar galochas! Nem jeans! - como se esperaria, pois que confecionava um prato de pobrezinhos.

 

Esta decepção, este lapso, esta incorrecção, esta falta de maneiras, esta inadequação da Cristas foi a gota de Moët & Chandon que fez entornar o copo.

 

A Gaffe não volta a beberricar fait-divers sem pedigree e se por acaso tropeçar outra vez na versão para gente de bem da Ode Triunfal de Álvaro de Campos, nos medicamentos da psicóloga normalizadora do universo, no ralhete de sala de visita do Goucha a um nazi, ou nas mamas da Rita Pereira a rebolar por todo o espaço, esta rapariga sai da sua zona de conforto e passa a insultar toda a gente no facebook, depois de assumir que não ficou chocada, nem um niquinho para amostra, com as declarações de Yann Moix que ninguém que valha a pena conhecia antes do homem ter dito o que não é de todo um escândalo de arrancar cabelo ou de depilar o cérebro.

 

Minhas caras, o rapaz não se sente atraído por mulheres de cinquenta anos.

Meus amores, todas as campanhas publicitárias, desde a da batata frita no pacote à dos coentros e rabalhetes, pensam e mostram o mesmo.

Não precisávamos era de conhecer as formas que o homem encontrou para se tornar um ridículo galifão a tentar erguer a crista, mas a preferência de um homem entradote por corpos de mulheres mais novas, não traz mal ao mundo. Pode eventualmente originar a compra de um Porsche descapotável vermelho para estacionar junto aos portões das escolas secundárias e inflacionar a venda de cola para dentadura, mas não afecta as cinquentonas que, divertidas, olham a coisa mais linda, que vem e que passa em doce balanço a caminho do mar, o Menino do Rio, o calor que provoca arrepio, o dragão tatuado no braço, o calção, o corpo aberto no espaço e por ali fora até ao refrescar da onda. 

 

Não sejamos más.

 

Todas as mulheres de mais de quarenta e muitos anos que a Gaffe conhece se divertem a congeminar perversidades maravilhosas protagonizadas por rapagões saídos há dois, ou três, ou quatro anos, de uma adolescência de ginásio, ainda com os olhinhos brilhantes de inocência fit, slim e menos coisas e mais coisa.

São mulheres estupendas, poderosas, bem-humoradas, belíssimas, que também gostam de publicidade a espumas de barbear, que já concretizaram sonhos, que já floriram, que já dão sombra, que já caminham seguras e perfeitas pelos trilhos que desenharam e que limaram - muitas vezes usando homens de cinquenta anos que preferem mulheres de vinte e cinco. Todas reconhecem que alguns - muitos - destes jovens equilibristas musculados não vão entrar no circo dos seus amantes, porque sabem que a idade dos meninos não se coaduna com a perícia de uma mulher que aprendeu a voar sem rede.

 

Não sejamos implacáveis. Todas temos de reconhecer que um atleta olímpico em idade tenra, ou um menino muito grande que ainda mama no dedo, é bem mais atraente que Yann Moix. Nós apenas não estacionamos o Prosche descapotável à entrada da Secundária e não nos babamos ao dar entrevistas.

 

A Gaffe sente-se esgotada com estas manigâncias, sobretudo porque são tolices destas que lhe aniquilam a atracção que sempre sentiu por homens mais velhos.

 

Decide, em consequência, deixar de estar atenta a burburinhos.

Vai dedicar-se ao arroz de atum, a servir chá a psicopatas e a curar os senhores dos tais vãos de escada.  

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A Gaffe em manutenção

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.19

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Depois de ter decidido pagar apenas o que consumia, a Gaffe optou por um tarifário livre, com carregamentos soltos e de valores opcionais, para poder sentir que não estava a ser descaradamente roubada pela Altice, operadora que tinha escolhido por razão nenhuma e porque a enche de tédio ter de ouvir as assistentes da concorrência a impingir-lhe os mesmos serviços pelo mesmo preço, mais cêntimo, menos cêntimo.

 

Ufana, desandou por ali fora, com a certeza do dever cumprido e a murmurar o consagrado a mim ninguém me engana, com um ar de Manuel Alegre na tourada.

 

Dias depois, recebeu uma mensagem reportando que lhe tinha sido retirado um euro do saldo, para manutenção do cartão.

Dias depois destes, recebe nova mensagem a informar que se tinha eclipsado mais um euro e mais pico, para manutenção do cartão.

A Gaffe ficou pasmada. Não imaginava que um retângulo tão pequenino acumulasse tanto pó e fosse de tão rápida degradação.

Dias depois destes dias, foi amavelmente brindada com uma frase lapidar que lhe comunicava que o cartão ficaria activo até um dia determinado e que, passada a fatídica data, esta rapariga deixaria de poder efectuar chamadas, mesmo que não tivesse esgotado o saldo que, descobriu de repente, não era cumulativo.

 

Ficou decidido deixar que a implacabilidade do tempo realizasse o dano que a ameaçava.

A Gaffe ficou com um cartão de telemóvel amputado e a felicidade raiou como naquelas fotografias lindíssimas que aparecem no facebook a abençoar frases desgarradas, mas sempre de utilidade extrema.

 

Segundo informação não fidedigna, o cartão será desactivado definitivamente ao fim de três meses de inactividade. A Gaffe tem de agendar a ida ao funeral, que isto de se ser de boas famílias exige sacrifícios.

 

É curioso verificar, por exemplo, que este procedimento é muito similar ao aumento das reformas anunciado em forma de slogan. As pobres olham os foguetes que se lançam e estrelejam e pasmam seduzidas, dispostas a aclamar a benevolência e o altruísmo de quem olha as folhas de Excel com um desprezo humanista e se curva perante a miséria alheia, retirando-a do lodo onde a enfiou. Passados dias - provavelmente o mesmo tempo que leva a chegar a mensagem da Altice ao telemóvel -, o IRS sorve o saldo para manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É interessante apurar, por exemplo, que a Altice se comporta como as Câmaras cravadas nas zonas em agonia, destruídas por incêndios, que distribuem a grupos de jovens voluntários - que se revezam mês após mês, chegados de várias zonas do país às terras assoladas -, carvalhos, pinheiros e sobreiros, cuja aquisição foi subsidiada, e que não as regam, que não as cuidam, que não as protegem, depois de plantadas, tornando imbecil e patético o voluntariado que se depara, mês após mês, com a morte das árvores pequeninas. Voltam para recolher outras. A Câmara - logo que recuperada a casa de férias do amigo - fornece-as subsidiadas, porque há que fazer a manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É simpático atestar, por exemplo, que a Altice se comporta como aqueles que vão provando que o jornalismo desapareceu do quotidiano das gentes. Restam resíduos avulsos que cospem fast-food servidos em embalagens de plástico descartável que referem a grande reportagem, ou a investigação jornalística, antes de segurar o guardanapo que limpa aberturas de noticiários com telefonemas populistas de presidentes narcísicos, pois que é necessário fazer a manutenção do cartão.  

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É estimulante confirmar, por estes poucos - e por outros mais exemplos que se calam, pois que iriam deprimir esta chamada -, que o país é apenas e cada vez mais uma rede de comunicações - privadas ou públicas - com uma razoável equipa de marketing e que, no fundo, tudo se resume à manutenção do cartão e a uma pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

Por isso a Gaffe decidiu - enquanto pode -, mal recebe uma chamada de uma operadora que lhe quer anunciar a Boa-Nova, sussurrar num tom arrastado e rouco, mesmo antes de ouvir o que quer que seja:

 

- Já está, mas há sangue por todo o lado.

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Gavetas:

A Gaffe sem calças

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.19

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A Gaffe acaba de saber que se vai dar continuidade ao dia sem calças, abraçando-se mais uma vez um evento com raízes fora deste jardim.

 

É divertidíssimo, embora por cá se tenha perdido o objectivo que guinou o acontecimento e que nos reportava a uma disrupção, uma ruptura, uma propositada e consciente negação do normalizado e do normativo.

 

Estas pequenas tontices são maravilhosas como forma de afirmação pacífica, e provavelmente inofensiva, de independência em relação ao estipulado como regra burocrática ou acinzentada. Fazem com que nos encontremos com imagens que gostaríamos de banir para todo o sempre e, compensando a onda polar, outras que aquecem os nossos sonhos menos próprios e menos públicos.

 

Nada mais do que tal.

 

A repercussão do ocorrido não adquire dimensões significativas e é aceite como divertido modo de um adulto apanhar frio e aparentar um ar um bocadinho totó, laró, ligeiramente parvo, de pasta séria, carranca fechada, sapatos bicudinhos, gravata esticada e cuecas limpas e pacatamente exibicionistas.

 

O que causa dano nas hostes mais conservadoras, mais uma vez imbuídas de pudores suados, mais uma vez saturando o ar com uma dose engarrafada de bons costumes, é a possibilidade de ofensivamente se notar muito a pila - traumatizando as criancinhas pobres que não vão à praia -, ou a eventualidade da moçoila se estar a colocar a jeito.

 

Estas preocupações recorrentes - sobretudo quando a Maria José Vilaça não opina, fomentando a cura para estas disfunções -, atinge uma gama significativa de tolices sem importância.

É enternecedora a indignação destes escandalizados defensores do lógico intransigente, que muito possivelmente faz companhia à que rasga as vestes quando um rapazola se lembra de vender engarrafado o ar de Fátima, com planos para fazer o mesmo ao ar de Lisboa - há décadas que existe enlatado o ar de Paris, o ar de Veneza, o ar de NY e o ar de quem viaja por todo o lado. As latinhas são uma delícia! 

 

Este tipo de indignação, de choque, de revolta, de escândalo, desconhece que a apetência para transformar a tolice inofensiva em fait-diver turístico - logo ali ao lado dos porta-chaves, dos pins, dos ímanes para espetar na porta do frigorífico ou de outras centenas de recuerdos inimagináveis que abundam nas mais variadas esquinas de todas as cidades visitáveis do planeta -, não provoca o colapso do universo.

 

Parece, no entanto, evidente que esta capacidade para inventar razões para sorrir, é causa de muitos abalos ou mesmo do soçobrar dos universos dos que usam, pela vida fora, apenas as calças onde só há bolsos para enfiar o que há muito engarrafado lhes avinagrou o cérebro.      

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A Gaffe a lamber envelopes

rabiscado pela Gaffe, em 10.01.19

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A repartição dos correios está praticamente a explodir de gente.

Uma fila medonha de criaturas resignadas de retângulo de papelinho amarelo na mão olhando de quando em vez o número que lhes saiu em sorte. Tentam passar o peso do corpo de uma perna para a outra, mascando o tédio ou a impaciência enquanto vão erguendo a sobrancelha quando um olhar se cruza com o do vizinho.

 

À medida que o tempo se arrasta, manobrado com a lentidão dos vermes pela única funcionária, senhora oxigenada de lábios sumidos e sombra azul celeste nas pálpebras cansadas, as conversas baixas vão erguendo um burburinho morno e sonolento.

 

Ao meu lado, uma jovem mãe, moçoila robusta e de boas cores, de avantajadas e roliças curvas e mamocas redondas a asfixiar dentro da blusa justa, é puxada pela criança que tenta atingir a pequena estante onde estão pousadas bugigangas e alguns livros coloridos.

 

A menina é irritante, inquieta, irrequieta, impaciente. Não tem mais do que seis anos e é minúscula. Parece um rato desgrenhado e feio. É provável que se pareça com o pai, pois que a mãe tem a beleza alourada e florida das minhotas e uma sensualidade contida pela força das mansidões aprendidas ou impostas.

Não consegue estar sossegada. Procura tocar nos livros e nos tarecos de plástico em forma de bichinhos, com uma pequenina corrente para pendurar. A mãe agarra-a. Exige que pare, que esteja quieta.

 

A miúda desobedece.

 

Puxa-lhe a saia, agarra-lhe nas mãos, torce-lhe os dedos, cola-se-lhe às pernas. A mãe começa a desesperar, empurrando-lhe a insistência com um solavanco e um beliscão no braço. A criança continua mesmo assim. Quer desesperadamente um livro com dois ursinhos na capa. A mãe recusa. A menina ataca. A mãe nega. A menina teima. A mãe rejeita-a. O ratinho morde.

 

Creio ser só eu a observar a cena. Os meus restantes companheiros de infortúnio encetaram entretanto as conversas de ocasião com que esperam iludir a espera.

 

Dura há já algum tempo a embirração.

A criança dispara com um berro de repente a derradeira bala.

 

- Não dás? Não dás? Então vou dizer a toda a gente que lambes a pila ao pai.

 

Faz-se silêncio. Aquele que é o melhor. O absoluto.

Sinto que algures ocupando o espaço paira um búfalo morto e que toda a gente está ali para apresentar condolências à família.   

 

Ficou no chão um papelinho amarelo com o número que antecede o meu.

 

Já não tenho ninguém à minha frente.

 

Fotografia - Hong Jang Hyun

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A Gaffe com comentários anónimos

rabiscado pela Gaffe, em 09.01.19

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Portanto, meus amores, tenham maneiras.

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A Gaffe em Astoria

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.18

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Apesar do aparato do costume, é sempre reconfortante saber que a minha irmã chegou em segurança a NY.

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A Gaffe amarela

rabiscado pela Gaffe, em 21.12.18

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Ambrósio,

Cale-se! Hoje Apetece-me apanhar pancada da polícia.

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A Gaffe de um algoritmo

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.18

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Tento socorrer um amigo que aflito me fornece as credenciais de acesso ao seu blog que corre perigo de extinção.

 

A exportação impõe-se, mas os obstáculos colocados a este processo são inúmeros, iniciando-se com o ficheiro que é produzido pela plataforma de origem e que, aquando do download, apresenta erros vários e malware propositado que o impede de ser transferido. O processamento é interrompido e retrocede.

 

A plataforma em questão, após vários anos de total permeabilidade e permissividade a todas as formas de expressão, foi pressionada pelos patrocinadores que não querem ver os seus produtos entalados entre umas pilas e uns pipis em franca actividade lúdica. A pornografia pura e dura - sobretudo a segunda - tinha invadido o terraço, asfixiando os gatinhos fofos, as paisagens idílicas, as frases encaixilhadas e os outfits do ano.

 

É evidente que ao passear por aqueles lados se ficava ligeiramente enjoada. Os mais que explícitos Clips, samples, pics – tudo estrangeiro -, não poderiam nunca deixar de figurar na estante do porno mais puxado e ficariam lindamente a decorar qualquer sexshop mais ranhosa. Num vislumbre rápido, qualquer incauto visitante poderia supor que se tinha enfiado num site obscuro onde a mais inocente das imagens expostas, permitiria canonizar a Cicciolina - e os deuses sabem como me merece respeito esta menina.   

 

Parece aceitável que a plataforma, pressionada pelos patrocinadores, tenha decidido impor regras, abolindo publicações de cariz sexual, embora tenham permanecido intocáveis - em nome da liberdade de expressão -, os blogs de propaganda nazi, os racistas e os xenófobos que por lá pululam.

 

Seria usado um algoritmo que varreria todas as publicações, alertando os usurários para o imediato apagar de … mamilos. Depois se vassourariam as restantes ocorrências anatómicas mais desnudas.

 

O meu querido amigo tinha há cerca de quatro anos um blog onde recolhia ilustrações, pintura, desenho, BD, colagens e todas as outras formas de manifestação artística ao seu dispor, executadas em duas dimensões - excluindo-se, portanto, as provenientes da escultura. O leitmotiv era o Homem. Nu ou vestido.

 

O algoritmo varreu, de uma assentada, as representações de guerreiros e de atletas gregos antigos em frisos onde a pilinha de um espreitava por entre as dobras de um vago tecido; as iluminuras medievais onde se insinuavam as ceroulas do camponês com avantajado conteúdo; os mamilos de S. Sebastião ilustrado pelos maiores génios da pintura universal, ao mesmo tempo que apagava, por exemplo, o Homem Vitruviano, de Leonardo, todos os valentões da Capela Sistina e o Cristo de S. João da Cruz, de Dali. Foi destruída a esmagadora maioria de imagens - de séculos idos até ao presente - de um incontável número de artistas reconhecidos universalmente ou em ascensão que, de qualquer forma, representaram o homem nu ou quase nu.

Apanhou na sanha uma imagem do rosto de Jackie O, durante o funeral do marido, provavelmente porque identificou o chapéu da primeira-dama com um preservativo usado.  

  

Este ensandecimento, esta purga, teve, portanto, um algoritmo como responsável zeloso, obrigado a reconhecer como pornográficas as obras de uma quantidade enorme de artistas que ousaram representar ou insinuar a nudez ou a seminudez masculina através do tempo.  

 

O meu pobre amigo ficou tristíssimo. Depois esqueceu. As obras permanecerão na História da Arte, dispersas pelos museus e galerias. Não importa que não estejam visíveis ali.

Se fosse minha a curadoria, o único conteúdo adulto que me apagariam seria a conta da água e da luz. 

 

Suspeito que esta necessidade de eliminar aquilo a que chamaram conteúdos adultos, atingindo nessa classificação artistas e obras de valor universal, reconhecidamente pertença da Humanidade, nada tem a ver com uma pretensa necessidade de evitar a todo o custo feridas em susceptibilidades mais sujeitas e mais frágeis. Compreende-se, apesar de tudo, que a plataforma tenha de gerir os seus recursos e as suas finanças e que se veja obrigada a obedecer a quem a paga, eliminando a pornografia que gesticula e desata aos gritos lúbricos logo ali ao lado dos biscoitos publicitados, pois que há contas que aparecem e a submissão é coisa facilitadora. O algoritmo escolhido é apenas prova da incapacidade técnica dos programadores.  

 

O que me causa perplexidade é este aparente controlo ditatorial que se quer exercer sobre o que cada um de nós pode ver e não pode ver, pode ou não pode ter, pode ou não pode ser, retirando a quase toda a gente a capacidade de decisão e de escrutínio. Aconteceu com Mapplethorpe em Serralves - alegadamente, pois que tudo o imbróglio foi gerido de forma absolutamente patega, parola e a raiar a imbecilidade.

 

A possibilidade de reerguer a Inquisição - não forçadamente neste caso específico, visto que o ultrapassa -, parece partir do princípio que existe um número restrito de eleitos, dotados, encartados e autorizados a reger o que é lícito, ou ilícito, termos ao alcance do nosso próprio discernimento e da nossa livre escolha.

A facilidade com que nos reconfortamos e conformamos com estes decisores poderosíssimos, pois que tantas vezes tornam impotente a reacção adversa às suas prepotências ou injustificadas regras, promove e acicata o controlo de poucos sobre as maiorias, alargando-o a todos os aspectos da vida que achamos que é só nossa e que, à partida, só a nós nos diz respeito.

 

Desenganemo-nos, pois, que eles chegaram e duvidemos se alguma vez partiram.

 

Não me incomodou grandemente a retirada da pornografia da plataforma, mesmo apesar de consubstanciar uma regra introduzida a meio do campeonato. Existem sites destinados exclusivamente ao assunto e não parece legítimo reivindicar-se a obrigatoriedade de determinado sítio, patrocinado por empresas que vendem fraldas, carros e pastilhas, acolher pilas e pipis indiscriminadamente, tudo ao monte e fé sabem os deuses em quem, só porque sim e em nome da liberdade de expressão. No entanto, reconheço que é irritante a purga ter sido levada a cabo por um algoritmo que censurou em simultâneo um acervo considerável de obras de arte.

 

A leviandade e a irresponsabilidade com que foi escolhida e usada a ferramenta informática foi extraordinariamente superior ao uso que ali se fazia das ferramentas apagadas.  

 

Nada se conseguiu fazer.

Quem pode, manda e manda em tudo, que há de tudo como no velho boticário. Pelo que se vê, não manda quem pode com a grafia antiga usada em Farmácia.  

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A Gaffe do caneco

rabiscado pela Gaffe, em 14.12.18

Carinus Est

A Gaffe acaba de perguntar a uma senhora - parecida com Frida Kahlo, mas com bigode maior -, como consegue ela secar a roupa se chove por todo o lado.

 

Das duas, uma:

 

 - Ou o fim do mundo está próximo;

- Ou a Gaffe não devia ter bebido ontem o Carinus Est do Douro's Flavours na caneca de vinho que encontrou na cozinha.

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A Gaffe de automóvel

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.18

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Quando nos abrem a porta de um Mercedes 300D, ficamos com receio que a criatura, por mais clássica que seja, nos obrigue, depois de sentadas, a meter os pés à estrada e a desatar correr para chegar ao destino.

Se o nosso receio vem acompanhado pelo orgulho do dono que nos segreda:

- É um W123!

É conveniente deixar escapar de olhos muito abertos um AHAHAH! prolongado, com um tracinho de grande admiração misturada com uma pitada de deslumbramento e outra de surpresa.

 

É sempre muito eficaz, sobretudo quando não fazemos a mínima ideia de que porcaria se está a falar.     

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A Gaffe conventual

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.18

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No epicentro de uma das discussões actuais, para além de várias inutilidades, surge aquela que parece ter origem nos códigos de vestuário que - diz-me um amigo -, foram dissecados por Barthes.

 

É maçador debruçarmo-nos aqui sobre os ditos do pensador, até porque a Gaffe não está a usar soutien e depressa se distrairia. Vale, no entanto, ser considerada bagatela digna de anotação registarmos a verdade na santa expressão O hábito não faz o monge.

 

A Gaffe, na sua azáfama empacotada, descobre que uma imensa percentagem do seu guarda-roupa provém de Teresa Martins. A Gaffe perde-se com as texturas, com os pesos diversos e cortes assimétricos, endoidece com as sobreposições, enlouquece com os padrões, desvaira com as cores e com os acessórios, perde o juízo com os volumes e treslouca com a capacidade de contrair e descontrai, construir e desconstruir arquitecturas susceptíveis de uso quotidiano, pessoal e único.

 

A Gaffe, dobrando as saias e vestidos e casacos e tudo o mais que não se diz por ser exagerado, vai anotando a descoberta. Teresa Martins desenha personagens absolutamente ímpares no que diz respeito à capacidade de fomentar imagens de descontracção, conforto, liberdade, dinamismo, subtiliza e um respeito irrepreensível pela feminilidade.

 

A Gaffe vai reconhecendo que o facto de a considerarem muito livre, muito dinâmica, muito cool, muito descontraída, muito acessível, muito solta, muito dada, muito urbana, muito familiar, muito portuguesa, muito calorosa, muito emocional e muito emotiva, se deve muitíssimo ao hábito que esta autêntica freira vai usando.

 

Um erro de apreciação.

 

Meus caros, a Gaffe é fã de Teresa Martins, mas convém ter em conta que até nos conventos e mosteiros há gente habitada por Cavaco Silva, às Quintas-feiras e nos outros dias.         

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Gavetas:

A Gaffe a meio do mês

rabiscado pela Gaffe, em 03.10.18

 

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A Gaffe suspeita que este andar de lá para cá e de cá para lá, com coisas pesadíssimas que as empregadas carregam para a mala do carro, a está a cansar imenso e a confundir a visão.

Na autoestrada, a Gaffe sobe o mavioso olhar para um letreio luminoso que a deixa perplexa.

Em letras desenhadas a amarelo, sobre um fundo negro, esta rapariga lê:

 

  Até 15 de Outubro é proibido fazer queixinhas  

 

A Gaffe pensou recuar para reler o espanto, mas um psicopata qualquer que seguia logo atrás decidiu de repente desatar a buzinar como se lhe tivessem rompido as águas. Há gente que não merece que se lhe altere a morada fiscal para Pedrogão. Gente que não sabe relaxar, não deve ter casa de férias. Monstros que podem perfeitamente provocar estragos, assustando as pessoas giras com as cornetas do Apocalipse.   

A Gaffe ficou irritadíssima, desistindo mesmo de confirmar o absurdo que tinha acabado de ler.

 

Foi intrigada o resto do caminho.

 

Será que é uma pitada de humor daquelas pessoas que gerem as ruas em que uma pessoa não paga portagem, porque pode usar a via-verde? Toda a gente sabe que são criaturas com um sentido de graça retorcido e ligeiramente parvo - basta para o provar o facto de a deixarem passar naquelas cabinas estreitíssimas e sem ar condicionado, logo ali nas entradas e saídas, com umas pessoas dentro não se sabe bem a fazer o quê, sem um pau que a impeça, apenas porque tem uma caixinha colado no vidro. Há gente que não merece o aumento do ordenado mínimo. Vadios!

 

Será que é uma indirecta à mulher que acusou Cristiano Ronaldo de abuso sexual, de violação, depois de acordar receber do rapaz uma ligeira fortuna para que não abrisse a boca - deixando-a confusa, pois que tinha recebido ordem contrária, algures no mato da festarola do menino d'oiro? Uma prostituta, uma tipa que sabe para onde vai - a Gaffe já ouviu, mais uma vez, esta referência criminosa, mais outra vez, a ilibar um criminoso -, pode perfeitamente ser violada. O menino é apenas vítima de bullying. Mais uma vez, não é?

 

Será que as pessoas que gerem as ruas onde está o letreiro - pervertidos que espreitam por imensas câmaras que fazem um carro apitar de repente como se fosse uma ambulância fanhosa e deprimida -, sabem que a Gaffe morre de amores por guardas prisionais altos, morenos, barbudos, musculados, suados, fardados e com imenso casse-tête, mas que depois do 15 de Outubro já não pode ser apanhada pelas malhas da Lei, por se encontrar desde a véspera num paraíso que não tem aquela maçuda possibilidade de extradição sabem os deuses para onde. Maldosos!

 

As hipóteses espalham-se pelo lugar do morto, onde morrem de tédio.

 

A Gaffe, chega ao destino pronta a engolir um Vallium, tão nervosa que estava, e, envergonhada pela mana, descobre que existe no cérebro um dispositivo nojento que decide apressar a leitura de uma palavra que se adivinha, não se chegando a acabar de ler.

 

O letreio afinal proibia queimadas. O M foi lido como X - as rodinhas gordinhas e amarelinhas sempre foram rabisqueiras -, e o resto foi suposto de imediato.

 

Afinal, pelo menos até dia 15, a Gaffe está livre do fogo. Depois Santa Joana das fogueiras francesas poderá ser queimada em nome dela.  

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A Gaffe anelada

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.18

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A Gaffe está pronta.

 

O apartamento desnudou-se finalmente. A luz ocupa o soalho espalhada por uma dimensão que se desconhecia. Parece mais pequeno agora aquele espaço. Incongruentes são as percepções das gentes.

 

Na véspera escolheu a blusa azul-petróleo, fresca, laçada no pescoço, larga e sem mangas. As calças são ferrugem de linho e seda, perto do corpo. Afuniladas, dizem os que sabem. Os caracóis presos por um lenço cor de girassol, deixam-lhe o rosto livre, olhos abertos banhados pelo mar. Tem os sapatos sozinhos a um canto. Não os calçou ainda. Ainda é cedo. Ainda há tempo para molhar a água. Ainda há tempo para queimar as cores.

A Gaffe respira fundo o fundo da saudade, aquele donde parte a bebedeira dos vagabundos que deixaram de chorar em todas as partidas - as da vida e as deles, que são coisas diversas.

A Gaffe roda o anel com pérolas. Estranhou-lhe o peso mal lho deram. Pousa-o no chão, como se deitasse uma criança. À espera, adormecido junto dos sapatos. Voltarão a andar em breve, mas ainda há tempo para os pés descalços sem o peso do anel que vão suster.

 

Dizem que é de noiva.

A Gaffe é uma noiva. Dizem que sim e ela não se importa.

 

A Gaffe está pronta.

O carro chega por fim e fica à espera. A Gaffe desce depois de olhar o mar e de o deixar no soalho aberto em luz anil antigo.

Vai dizer adeus ao Douro e pedir que a terra lhe abençoe o coração das pérolas que pesam.

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Gavetas:

A Gaffe adjectivada

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

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É certo e sabido que os rabiscos da Gaffe estão pejados de adjectivos e de advérbios. Uma coisa tremenda que foi desde sempre apontada como desgraça para o bom fluir de um texto. Também é evidente que a Gaffe sempre teve perfeita noção da ocorrência e nunca levantou o dedo da tecla para evitar a desfaçatez. Esta rapariga não gosta de se desgastar com o gosto dos seus críticos, nem tem a intenção de elevar rascunhos tontos ao nível dos escritos dos contidos consagrados. É o que se poderá chamar um vê se te avias de adjectivação.   

 

A Gaffe aproxima-se desta forma das figuras curiosíssimas que de quando em vez trespassam os nossos areais, vendendo bugigangas. Capazes de enfrentar a maior canícula e os mais agressivos raios meridionais, estes senhores pisam brasas carregados de varapaus onde pesam centenas de inutilidades que incluem lenços de coloridos gigantescos, óculos de sol, fios, pulseiras, estatuetas africanas, elixires capilares, berloques, quinquilharia marítima, destroços de automóveis, saídas de praia para matizar gorduras, vestidinhos de alças e de bordado inglês feito na China, mantas da Covilhã, bronzeadores e uma ou outra fotografia de Mapplethorpe apanhada no caixote do lixo de Serralves.

 

A Gaffe não tem qualquer prurido em ser literal e literariamente comparada a estes corajosos vendedores de banhas de praia.

O que a aflige - de forma ligeira e muito precavida, pois que a Gaffe é muito dada a  brunouts repentinos -, é ver-se próxima daqueles senhores que aparentemente não vendem frandulagem, mas que a usam por todo o lado. O importante é que se consiga avistar a olho nu – para contrastar.

 

É evidente que os excessos femininos são condenáveis, mas nós, raparigas, podemos sempre dizer que carregamos a herança cultural de legiões de druidas. Fica bem e ninguém se atreve a passar por inculto. O dente encastrado em ouro que trazemos ao pescoço, que arrancamos à chapada a um passado recente, turbulento e barbudo, é visto como um chamariz da aura ancestral emanada pelos barbeiros, alquimistas ainda imberbes, chegado da escura, densa e esconsa Idade Média.

Com os homens estas preformativas justificações não resultam.

 

Um rapagão que se disfarça de mostruário de farraparia é, por norma, excluído da selecção de rapazes que podem ser despidos por raparigas muitíssimo empáticas, ou demasiado sociáveis nas noites das iguanas.

Os berloques, as medalhas, os anéis nos dedos e os penianos, os botões de punho, os alfinetes, os pins nas lapelas, as pulseiras, as correntes, as fitas nos punhos, as fitas ao espelho, os cintos complexos de fivelas torpedeiro, os picos das botas, os piercings nos mamilos e príncipes nas pilas, as coisas pendentes e as tretas sem dentes, os brincos, os aros, argolas nasais e as depiladas pernas que reluzem de noite, são provas cabais dos crimes que os donos cometem quando desatam a acreditar que é atraente a Feira da Ladra.

 

A Gaffe propõe que toda a fancaria usada por estes rapazes-mostruário, seja neles tatuada. Poupa imenso tempo, não oxida, não sai, nem vai, não foge, não escorrega, não se perde, não se ganha e contribui para que se cumpra o desiderato de toda esta gente à beira mar exposta. Em 2020, os portugueses terão todos uma tatuagem algures e uma selfie com Marcelo.  

 

A Gaffe dá o exemplo e tatua adjectvos e advérbios.                        

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A Gaffe taxista

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.18

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- Mas afinal, minha amiga, o que é um táxi?

 

Fotografia - Nina Leen

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