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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem argumentos

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.19

Our Lady of Good Counsel, Bartolomé Pérez, c. 16

Uma das maiores inutilidades que entopem as nossas vidas é despejarmos tempo nas sarjetas a argumentar com quem nos detesta seja como for.

É apenas importante verificar se pronunciam bem o nosso sobrenome.

Mana

Imagem - Nossa Senhora do Bom Conselho - Bartolomé Pérez, c. 1680

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A Gaffe com a carta do Manelinho

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.19

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"Ai, Nando, qu'é agora qu'ele vai ler a carta do Manelinho ao meu país!"

 

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Gavetas:

A Gaffe com uma vénia

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.19

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"E as meninas conhesse o meu Carlitos daonde?"

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Gavetas:

A Gaffe vê uma história

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.19

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Do fundo dos séculos, a ordem estava escrita na memória dos povos.

 

Na ala abandonada do castelo, onde cresciam desgrenhadas silvas, despenteados troncos, furiosos ramos de árvores que enlouqueciam devagar; onde os lagos secos recolhiam folhas calcinadas; onde os pássaros tinham desistido de fazer os ninhos nos beirais destruídos das janelas fechadas e as estátuas de mármore branco e de alabastro tinham sido invadidas por líquenes e musgo; ali, no torreão mais alto, erguido na terra ressequida que se esvaía nos dedos das gentes cinzentas e queimadas, onde a desolação e a sombra matavam a luz estendendo os dedos por todas as estradas, armadas com punhais de medo e de ameaça, onde a morte espreitava em cada esquina, em cada passo, em cada choro de criança, a Princesa tinha sido encarcerada.

 

A ama vigiava.

 

Avançava lenta. Os veludos e véus pesados do vestido levantavam a poeira de prata que pousava nas folhas e nos anjos dos lagos de mármore mortos. Velha como o tempo dos segredos, vigiava.

 

Ao menor som, ao menor gesto, à mais pequena lágrima, a ama surgia, mordia e lancetava. Vinha e ceifava, quem ousasse tentar imaginar um fio de cabelo da Princesa.

Os corpos encontrados nas ruelas eram incendiados para que a peste não encontrasse modo de avançar. O fumo e as cinzas erguiam-se e aliavam-se à penumbra que se adensava sobre a terra. Tinha deixado de haver amanhecer. Havia apenas uma claridade amortecida, porque a luz não surgia no corpo das nuvens de poeira e cinza. O reino gemia de dor e desespero.

Os pássaros haviam desistido de cantar. Abriam as asas sem voar, pousados mudos nos braços das laranjeiras secas e os sussurros das ruas não chegavam a tocar as paredes do quarto de Sua Alteza. As horas desfiavam os seus fios invisíveis enredando o tempo. A Princesa mantinha-se quieta e muda. Tentava não pensar, escoar o que se sentia a sentir e que lhe apertava o peito sem se conhecer tenaz. Os dedos frágeis apertavam a ausência de memórias. Inventava os contornos, os desenhos herméticos, os símbolos e as insígnias da imensa solidão, mas não a sentia nunca por nunca a chegar a conhecer.

 

Ao canto do quarto, de dentro das sombras, erguia-se o corpo velho da ama que havia servido e protegido desde o começo dos tempos todas as Princesas.

Tinha sido a escolhida. Morreria a defendê-la. Nenhuma seta, nenhum punhal, nenhum veneno, nenhuma espécie de morte tocaria a bainha do vestido da menina sem antes tocar o seu coração gigante de animal protector.

 

De cem em cem anos, a Princesa assomava a uma das janelas do torreão.

A velha ao lado. Amaldiçoando os ganidos da multidão. Ganidos como ferros intermináveis, afiados pelo som de uma dor eterna.

Se os olhos da Princesa tocassem nos que choram, tudo seria perdoado. A terra abriria. A floração da Esperança. A luz inteira jorraria pelas ruas. O olhar da menina era o Milagre.  

 Mas Sua Alteza sorria, não olhava. Não os via. De cem em cem anos.

 

Apesar da desolação, do medo, da ameaça de condenação eterna, o povo daquele dia, cem anos passados deste um outro dia, arriscou a morte, que vida não era. Forçou o portão de ferro enferrujado. O que iam fazer era um sacrilégio.

Havia chegado o tempo que a ama temia.

 

Os gonzos rangeram e as portas abriram. Uma corrente de ar gelada rompeu pelo quarto e tocou nas mãos de Sua Alteza. A luz tocou-lhe a barra do vestido. Uma luz cansada e ferrugenta. O sol era diferente nesse dia? Os aromas que vinham dos jardins de longe tinham mais peso, sufocavam. A menina sentiu uma dor pairar naquele instante. Uma dor que não era a dela, mas que vinha devagar e se apoderava de tudo. Chispas de fúria e de ruído anunciavam o caminhar do povo. Ergueu-se e esperou. O ar tornava-se gelado. O denso azul da tarde tinha submetido o aposento, e a Princesa entendeu que da penumbra e da sombra, do escuro e da bruma, a ama não voltava. O frio era uma faca e a luminosidade era agora azul.

 

As portas abriram-se.

 

A luz ténue e dourada do exterior invadiu de manso o quarto e o povo entrou.

Partículas de poeira volteavam em redor de Sua Alteza e um perfume de sândalo começava a sentir-se, enrolando o ar, escondendo-se nas fendas das pedras das paredes. A menina aproximou-se estendendo as mãos. Sedas e veludos, rendas e brocados, arrastavam-se no chão de pedra polida. O barulho do vestido era diferente. Como se houvesse pressa, como se existisse urgência no caminho, como se houvesse gente à espera.

o povo trazia nos olhos o brilho do medo. Trémulo, de joelhos.

Naquele instante a Princesa entendeu.

Aproximou-se. Estendeu as mãos.

 

A bengala tombou no chão como um animal morto e então aquela gente ajoelhada viu em carne viva que a sua Princesa não via.

Era cega.

 

Ilustração - Olga Esther

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Gavetas:

A Gaffe num sorriso

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.19

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São tão bonitos os homens que sorriem com os olhos!

Ficam iluminados. De olhos grandes, fechados com gargalhadas dentro. Os sons ecoam neles como nas abóbadas de duas catedrais.

Quando os olhos dos homens se riem, as palavras ditas antes parecem balões largados no ar, a perder a forma.

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A Gaffe com Tolstoi

rabiscado pela Gaffe, em 15.10.19

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É claro que hesito.

Se pensar ligeiramente mais alto acabo por descobrir a mais evidente das verdades:

Não interessa absolutamente nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a escoar frases patetas - patéticas, também - que tropeçam e escorregam, acabando esparramadas nos meus braços.

Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:

Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, com a certeza da existência de alguém a ouvir, babado e interessado, a alterar a vida, a repensar o ser, a duvidar do ego, a rastejar só para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.

 

Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto: Não há coincidências.

 

Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de Nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo: 


Narra a tua aldeia e narrarás o mundo.


E bem ou mal, atarantada e trôpega, lá volto eu a abrir os portões da quinta.

Fotografia - Sydney Hirsch

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A Gaffe numa cantiga de Amigo

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.19

Lembro-me das tardes penduradas nos ramos como arrecadas nas orelhas das mulheres.


Chegávamos no Verão e ficávamos sentados nas pedras que nos entardeciam.

Trazias a camisa sempre suja, aberta pelo pássaro da cal do sol e as calças rasgadas no joelho e sangue de cerejas e da manhã de amoras. As tuas botas gemiam no soalho ferido pelos rastos e riscos que lhe abrias e o aroma que chegava rugindo nas tílias era tornado brando pelo teu suor.

Cansávamo-nos e queríamos despir-nos e deixarmos de ser gente. Queríamos ser vento e vinho e sono nos olhos. Queríamos ser velhos como o rosto do anjo de pedra no centro do lago.
Trazias na cara o o cheiro do trigo seco ou da semente inútil na ausência do ninho. Na boca o olhar que vem nas pupilas dos pombos e nos olhos das maçãs que escaldam de cansadas.

 

As minhas mãos sem as tuas eram trapos quebrados, poeira e terra seca.

 

Às vezes uma libélula azul como os profetas pousava-te no braço. Deixavas de respirar para que não fugisse.


Sentava-me longe de ti que escrevias e procurava não te perturbar.

Ficavas vergado sobre os papéis em desordem e conseguia seguir-te o perfil definido e quase agudo.

A luz era quase flamenga. Quase Caravaggio ou talvez Vermeer, que a luz nunca permite ser entregue a alguém.

Via a planura da tua testa larga e ampla, o nariz que de tão recto é já perfeito, os dedos que por vezes tamborilavam no tampo em mogno da mesa onde se espalhava o branco dos papéis que ias riscando.

 

(A barba agora invade tudo, como trepadeira ou de grade ou pedaços de setas mortas nas batalhas dos desertos. Já não tens olhos. Tens barba e dentro da barba duas luzes vivas, rasas, que estremecem quando as aves escaldam o silêncio com o bico aberto e grito estilhaçado.)

 

Sorrias ao ver-me a ver-te.

Depois retornavas à ausência, quase um corpo.

Parecias um gigante. Ainda mais gigante que na véspera.

Erguias o olhar. Desviavas e inclinavas a cabeça. Esquivavas-te na penumbra.

Então eu via na fuga lenta desse olhar que me espantava, a forma das pestanas. A alargada tristeza presa nelas. Compactas e negras, demoradas, longas, adensavam as sombras e quase escureciam tudo o que em redor tinha uma luz.

Quase um abismo. Quase corvos. Quase infâmia. Afrontavam a luz, a quase luz, e nos papéis dispersos deixavam as sombras que eram já palavras.

 

Às vezes quase lia. Quase entendia.  

 

Pousava a minha cabeça no teu colo e deixava-me a chorar sem ter motivo, que o teu coração tinha-o no peito trocado pelo meu, na tua mão, e não havia perigo. A tua mão sossegava o meu cabelo. A tua mão aquietava a luz que vinha nervosa por entre as rendas das cortinas. A tua mão sossegava a minha vida inteira.

Inclinavas-te para mim. Dizias-me em murmúrio que na vida apenas valem os instantes e que Morte e Amor são coisas bem pequenas.

 

Crescemos sem o tempo passar no trilho das formigas e na fuga das rolas.

A tua proximidade faz-me falta. Sou melhor do que eu quando estás por perto.  

 

Procuro na memória o som daquelas tardes e de repente sei que não há nada, porque dizer um fado é como não ter braços.

 

Os homens incontornáveis são os que lembram paisagens. Ouvimos o indizível.

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Gavetas:

A Gaffe com desodorizante

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.19

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A Gaffe debicava o seu iogurte, como a linda Inês posta em sossego, saltitando ao mesmo tempo de canal em canal, comando em riste e em equilíbrio, quando foi surpreendida pela publicidade a um desodorizante masculino.

 

Pensou perplexa que o que vislumbrou talvez tivesse sido impressão dela.

 

Voltou ao iogurte.

O anúncio regressou passados instantes.

O rapaz em excelente forma física tinha sido substituído por um da mesma espécie - como não podia deixar de ser, tendo em conta que fazer surgir Marques Mendes em todo o seu esplendor, de tronco nu, seria contraproducente - e o cenário divergia.

O rapazola borrifa o desodorizante nas axilas. Esquerda, direita. Esquerda, direita. Tudo muito aventureiro.

O que aconteceu em seguida é que fez o iogurte estancar de pasmo.

O rapaz, ZÁS!, borrifa desodorizante a sul do umbigo. O anterior tinha feito o mesmo.

 

A Gaffe esbugalhou os olhos.

 

Rapazes! NÃO borrifem desodorizante em locais onde apenas deve ser usado, com muita insistência, o gel do vosso banhinho diário. As axilas estão perfeitamente adaptadas ao uso de produtos desta gama. O resto, não!

O que pode pensar uma rapariga esperta quando lhe chega ao nariz o ainda que apagado aroma, assim deslocalizado, das vossas axilas a não ser que distraída confundiu geografias ou que deve estar muito mal posicionada?!

 

Credo! Aquilo não vos arde ali espargido?! 

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A Gaffe radical

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.19

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Após pesquisa, com carácter científico, como não podia deixar de ser, conclui que os blogues dedicados a rapazinhos nus ou quase nus, todos em excelente forma física, proliferam como moscas no Verão ou pulgões na praia. 
Aquilo é só clicar que nos aparecem biliões deles com fotos para todos os gostos e feitios.

 

Também os há com meninas - não sei como, mas neste contexto a palavra meninas não soa muito bem - que nos fazem desejar ser todas lésbicas, mas confesso que sou muito mais exigente em relação aos dos rapazes.  


A verdade é que se começa a ter uma certa dificuldade em eleger as melhores fotos. Isto porque os meninos e as meninas aparecem em poses que deixam muito a desejar ou arranjam cara de se me apanhares, levas-me para onde quiseres que eu deixo ou posições de eu sou bom como milho – ou boa, dependendo do cereal - e tu não vales uma baga de gogi ao meu lado ou ainda, e estes são mais vulgares, ai que acordei e tenho o rabinho ao léu. Depois há os títulos que são do melhor: Vermelhas em carne-viva; Marinheiros escaldantesDuas estrelas e um sonhoOs bravos do "pilotão" ou ainda Para acordar no paraíso.


Confesso que ainda procurei uma imagem que me agradasse para a colocar aqui e dar um ar gaiato a esta depravação, mas depressa desisti.

 

Ninguém tem paciência para aquilo!

Aquela gente não anda na rua. Nunca me passou pela frente um homem a puxar as calças de modo a que se lhe veja a indumentária mais íntima ou o tridente de Neptuno e nunca encontrei no metro uma rapariga com a barriga para dentro, colada à coluna, maminhas e rabo para fora, agarrada ao varão, embora no metro já tenho visto de tudo.

 

É desolador.

 

O mais próximo que estive dum modelo daqueles foi na semana de moda em Paris, quando um matulão, com um ar de italiano que quase me fez tinir o cérebro, se abeirou de mim todo sorridente para me perguntar se sabia onde se podiam comprar maçãs. Eu saber, até sabia, mas aquilo era fruta a mais para os meus dentes. Engasguei-me toda e encolhi os ombros como quem não faz ideia do que o bonitão queria.

Tão idiota que eu fui!

Se não me tivesse apanhado de surpresa, com dois sacos de plástico cheios de pacotes de arroz, massa, farinha e uma garrafa de azeite, dizia-lhe facilmente onde estava a fruta.  

 

Voltando ao assunto, que tristezas não nos pagam o gás.

Da minha investigação resulta um facto: estes mocetões e estas mocetonas estão ali, de rabo ao léu e cara de carneiro que vai ser imolado e já está bêbado para não sentir, só para nos humilhar. Não pode ser outra coisa. Então aqueles frascos existem e nós temos apenas as amostras, ainda por cima sem aquelas tampinhas?! Então aquela gente anda por aí e nós só temos direito a um algodão sem graça nenhuma e que nem sequer é egípcio - exótico, vá?! 

Mas acima de tudo: então eles e elas estão ali, lindos de morrer e sãos como pêros, e nós passamos olheirentas, com a borbulha a cintilar e o pêlo encravado, sem hipótese nenhuma de nos sentirmos sensuais mesmo de peluche enfiado no decote ou tacões agulha cravados nos paralelos?! 


Que se danem todos.

Decidi hoje não publicar uma foto de gente que até de cuecas ronhosas é humilhante para o populacho.

 

Nestas coisas sou uma rapariga de esquerda radical: ou come tudo ou ficamos por aqui.

 

Actualização - Especialmente para a Sarin. Depois de nos digladiarmos com os floretes dos comentários, uma espada antiga e rara – já com 56 anos! – que todas gostaríamos de empunhar.... 

 

 

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A Gaffe manual

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.19

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Tenho as mãos feias.

Sempre tive consciência do tamanho das minhas mãos. Dos ossos demasiado longos, finos, dos dedos com nós salientes, da fealdade dos seus movimentos deselegantes, da impossibilidade de as adornar.

Escondia as minhas mãos, era criança. Matava-as nos bolsos dos bibes e das batas e dos casacos ou mantinha-as muito fechadas de forma a que aqueles bichos não ocupassem o espaço dos outros.

As minhas mãos envergonhavam-me.

Comparava-as com a lisura, com a harmonia, com os diáfanos voos e com a perfeita forma das mãos da minha irmã e sentia-me bruta e torpe e grosseira.

Permitiram, os dois bichos, entregar alternativas aos meninos da escolinha. Era o fósforo ou a mãos-de-tesoura. Nunca entendi qual o que cortava primeiro, nunca soube se era o aço a cortar o fogo ou se era o contrário. Nunca gostei do jogo.

O meu avô gostava das minhas mãos.

 

-  São como as grades do portão. Fecham o que quiseres dentro de ti.

 

As minhas mãos tornaram-se ágeis de tão feias. Aprenderam a escapar, a desaparecer, a espreitar, a surripiar silêncios e a mover com uma perícia e rapidez inusitada minúsculos objectos, detalhes, pormenores e nadas que, em mãos diferentes e perfeitas, se partiam no tempo da tarefa.

Guardava dentro delas os meus mundos. 

Assim aconteceu.

 

Tenho as mãos feias, mas é Outono.

Os dedos das árvores são medonhos, mas são meus.  

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A Gaffe telegráfica

rabiscado pela Gaffe, em 17.09.19

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- Não, meu caro, do sítio onde estou não lhe posso mandar um fax.

- Ah! ... ... mas está onde?

- No século XXI.

Mana

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A Gaffe com dois dias

rabiscado pela Gaffe, em 14.09.19

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Gavetas:

A Gaffe por aí

rabiscado pela Gaffe, em 13.09.19

- Ai, qu´aquelas bolinhas pretas sabe-me a sardinha crua.

- Ai, que se me saísse o euromilhões abria um canil e aquela coisa p’rós gatos.

- Ai, qu’ela é uma mulher que não sabe estar.

- Ai, que vou meter um plástico em cima do tapete, qu’assim não suja.

- Ai, qu'isto é assim, qu'isto é assado e ninguém sabe de nada.

- Ai, coitado! e eu que se soubesse fazia-lhe uma canja. 

- Ai ,qu'aquilo foi um ar que se te deu.  

- Ai, qu’ele com aquela barba marca a diferença.

- Ai, qu’eu estive mesmo para lhe dizer das boas.

- Ai, que está um calor de ananases.

- Ai, qu’está mas é um calor do crl, filha.

- Ai, qu’ela é como um pai p´ra mim.

- Ai, qu’eu até já to tinha dito.

- Ai, qu'isto dos incêndios é da mãe criminosa. 

- Ai, qu'ele entrou ali apertado que raspou-me aqui no meio.

- Ai, qu'ela não é certa. 

- Ai, que não vale a pena, qu'a gente não leva nada p'rá cova. 

- Ai, que na minha opinião pessoal, tu já foste c'os porcos. 

- Ai, qu’a gente não deixa cá ficar nada.

- Ai, qu’eu nem te digo, nem te conto.

- Ai, eu por mim punha-a mais curta. 

- Ai, que s’eu quisesse era só apitar.

- Ai, vais linda, vais, nesses preparos.

- Ai, mas olha que bem disse o outro.

- Ai, qu’ele é um merdas, não desfazendo.

- Ai, que não tarda, corre mal.

- Ai, não corras, não, e depois o bacalhau tem pinhas. 

- Ai, és tu qu'arranjas o cabelo em casa!

- Ai, olha, só te digo. 

- Ai, leva uma malhinha, qu’isto de noite arrefece.

- Ai, qu’aquilo foi meu dito, meu feito.

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- Ai, p’ró que te deu!

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Gavetas:

A Gaffe alcoólica

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.19

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- Se a menina acha o que o seu copo está meio vazio, verta o que tem num copo mais pequeno e deixe de ser cabra.

Mana

 

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A Gaffe em português

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.19

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Limpa o suor das mamas com um lenço de algodão. São mamas grandes, fartas, brancas, rijas. Seduzem os homens.

Há duas luas, em quarto crescente de suor, na blusa justa da mulher que sorri matreira nos olhos dos homens. Enfia a mão no decote e limpa com o lenço branco as mamas que bamboleiam fartas na manobra.

Levanta depois os braços. Arruma o cabelo negro. Prede-o com um gancho de plástico, de mola. Empina as mamas e os mamilos empurram a malha de algodão fino da blusa.

Arrasta as palmas das mãos pelo pescoço e limpa o suor ao tecido da saia. Às ancas largas, às nádegas, à cinta que quebra e requebra ao som do olhar dos machos.

 

Os homens param, presos pelo poderoso cio da mulher dona do medo que agora lhes ronda o desejo desperto de a amarfanhar na cama, de lhe romper o corpo e de lhe matar aquela força que lhe vem do útero como labareda.

É amante do mais novo do grupo que lhe fareja o cio. O homem que tem uma cicatriz no sobrolho. Feia, larga, rude e descuidada. O golpe quase o cegou, mas quem lhe abriu a ferida não ficou melhor.

Foi culpa dela.

A ferida que a mulher lhe abre no peito, não cicatriza nunca.

A  mulher roda no rodopio da vontade dos homens.

Parece ser de terra. Parece ter raízes e ter frutos. Parece cheirar a vinho, a mosto, a uvas, a suor e a rosas. A vindimas.

 

"No interior do recinto do Wine & Music Valley, em Lamego, teremos o Douro Stage e também o Chef’s Stage e o Wine Stage."


A mulher tem mamas poderosas e suadas como esta paisagem que se pode amar em português.

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Gavetas: