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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe muito atenta

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.19

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Insistem macios que a vida acontece. Cabeça a acenar um sim quase pio, olhos comovidos e coração despido, repetem que a vida acontece. A todo o momento, a vida acontece.

 

Acredita-se.

A vida acontece.

Seja.

 

Corremos demasiado depressa pela vida e a vida exige paciência.

A tragédia não é desacreditarmos que a vida possa acontecer a qualquer momento.

Trágico é perdermos demasiadas vezes o milésimo de instante em que a vida surge.

E esta banalidade são as outras letras. 

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Gavetas:

A Gaffe do papá

rabiscado pela Gaffe, em 19.03.19

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Sendo hoje Dia do Pai, a Gaffe decide homenagear todos os homens dedicando alguns conselhos às mulheres que vão atravessando as camas onde por descuido, acaso, ou premeditação, os marotos adquirem o estatuto que lhes permite chamar filho a alguém e onde se espera justifiquem cabalmente a existência das pilas.

A Gaffe implora que as suas companheiras de folguedos a leiam com redobrada atenção, pois que é neste pequeno repositório de alertas que pode residir a chave para a harmonia do casal.

Há regras de oiro que não podem ser quebradas quando a piloca está em jogo. Uma rapariga tem de as conhecer se não quer um divórcio complicado ou a responsabilidade de ter de encontrar um psiquiatra para o parceiro mentalmente destroçado.

 

Enumeremos as quatro magníficas. Haverá mais a seu tempo, que Roma não se fez num dia e algumas pilas levam anos a edificar.  

 

I - Não pasmar quando surge uma pila pela frente

 

Sobretudo quando já a conhecemos d’outros carnavais.  

Uma rapariga que esbugalha os olhos, deixa cair o queixo, e durante um tempo que vai parecer interminável, se imobiliza, estaca, estanca, petrifica, com um allure aterrorizado, pode ser interpretada erradamente e fazer com que pareça que a pila não é de todo a Passagem de Ano em Nova York. A pila acaba inevitavelmente por sentir que mirrou, que se delapidou por completo durante as actividades anteriores à observação, que lhe fugiram componentes que impediam que aparecesse como uma personagem amiga da Branca de Neve, que tem um rato morto preso nos tintins ou, o que é arrasador, acreditar que este maior orgulho do seu dono mais lindo, não é mais do que o Gollum do Senhor dos Anéis.

    

II - Não brincar com pilas sérias

 

Uma pila, minhas amigas, não é de todo uma Barbie.

Não é com uma pila que podemos experimentar bater naquelas coisas muito americanas que largam confettis, serpentinas e papelinhos, quando rebentam. Uma pila não é um helicóptero! Uma pila não é de plástico - embora sabendo, minhas queridas, que as há bem jeitosas nas lojas da especialidade, não é a mesma coisa, diz quem sabe. Uma pila não é capaz de tomar chá por chávena com o Mickey estampado, na baby party da prima grávida que obviamente já a experimentou. Uma pila não joga à macaca, nem salta à corda - salvo algumas excepções, que não se referem aqui por pudor e decência e sobretudo porque há tesouros que devemos guardar só para nós. Uma pila não é um cavalinho de pau - embora neste caso exista, muito aplaudida, opinião contrária – e não pode ser incluída nos nossos carrosséis. Um pila tem de ser respeitada e tratada de modo adulto. Brincar com pilas, minhas caras, é brincar com fogo. Só o devemos fazer se pertencer a um bombeiro de calendário.      

 

III - Não baptizar uma pila

 

Nenhuma pila gosta de diminutivos.

Chamar Zézinho, Manelinho ou Francisquinha a uma pila - ou nomeá-la como se fosse um bichinho -, é matá-la. É menosprezar, achincalhar e humilhar uma pila desatar aos gritos nominais - Ai, bichaninha! Ai, meu Luizinho! Se páras dou-te um soco nos alforges! - durante aquele minúsculo período de tempo em que funciona capazmente. Berrar pelo Quim Zé, ou pelo Pedrinho, ou pelo Martim, ou Bernardinho – as boas famílias - pode perfeitamente fazer surgir à porta uma pila diferente da envolvida no caso e toda muito contente.

 

IV - Não permitir que uma pila apareça como quiser 

 

Uma pila não nos pode aparecer desnuda!

Se quiséssemos uma pila depilada matávamos a Barbie e ficávamos com o Ken – que para todos os efeitos, é de plástico … -, mas não é necessário que pareça ter-se aliado ao Estado Islâmico. Há pilas que impedem que lhes vejamos os olhos! Há pilas que são terroristas barbudos, sem poder de encaixe e sobretudo sem qualquer célula activa. Há pilas que se julgam Tarzan e que desaparecem no meio da selva sem sabermos sequer se de liana em liana. Há pilas gorilas na bruma. É evidente que uma rapariga não aceita, nem quer aceitar, retirar uma pila do seu habitat natural, mas urge que tenhamos em conta a campanha governamental Portugal Chama e limpar o mato. Uma pessoa nunca sabe por onde pode começar um incêndio …      

    

 

Estas, minhas amigas, são as recomendações que podem fazer a diferença entre uma pila na mão e duas a voar.

 

Há, meus amores, que as ter sempre presentes nas nossas camas.  

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A Gaffe picuinhas

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.19

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O exercício teve origem na Dinamarca, mas foi repetido na Suécia e na Noruega.

 

Crianças entre os cinco e os dez anos foram incumbidas de colocar num recipiente de vidro todas as bolas azuis e cor-de-rosa espalhadas num compartimento. No final receberiam uma recompensa.

Os rapazinhos e as rapariguinhas levaram muito a sério a tarefa proposta e em breves instantes todas as bolas estavam recolhidas.
Não se verificou em nenhum momento preferências de cor. Quer as meninas, quer os meninos, escolhiam as bolas que mais próximas se encontravam para depois se dirigirem às restantes.

No final do jogo foi entregue a recompensa. Um recipiente em vidro, transparente, com guloseimas.

Os rapazes receberam-no cheio, as meninas receberam um com metade das gomas e dos rebuçados que tinham sido entregues aos companheiros.

 

O espanto que despertou esta discrepância foi igual nos dois sexos.

Perguntaram a razão desta diferença. Disseram-lhes que as meninas recebiam menos exactamente porque eram meninas.

 

As crianças reagiram perplexas e indignadas. Os rapazinhos desataram a retirar guloseimas dos seus recipientes, depositando-as nos deficitários. Um menino recusou mesmo receber a recompensa, entregando-a revoltado ao adulto e o mesmo aconteceu com uma rapariga de seis anos que se levantou, pousou o vidro no chão e tentou sair da sala. Um outro virou o recipiente que continha as bolas que ambos tinham recolhido, espalhando-as de novo no chão. Os rapazes recusaram falar com o adulto, olhando-o desconfiados e mesmo assustados. As raparigas mantinham-se calmas, mas era notória a indignação e a repulsa que sentiam pelo acontecido e sobretudo pelo responsável do que consideraram absurdo e incompreensível.

 

Na Dinamarca, na Suécia e na Noruega os resultados do jogo foram idênticos.

 

É capaz de não ser possível obter os mesmos resultados nos outros cantos do mundo.

 

Os nórdicos são muito picuinhas, não são?

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A Gaffe em nome próprio

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.19

Infanta Luisa Carlota de Borbón por Vicente Lópe

 

A Gaffe foi visitar uma amiga que deu à luz uma menina semanas antes do previsto.

 

A criança pesa cerca de três quilos e a mãe deve pesar menos, porque toda a vida se preocupou muitíssimo com as calorias que ingeria, apagando assíduas vezes algumas refeições e substituindo por uma ou duas maçãs o brutal cozido à portuguesa com que eram, ela e a amiga, brindadas pela Jacinta, algures no Douro. A Gaffe acabava sempre a comer, também, o lote da comparsa.

 

Uma lombriga lindíssima e loira e platinada e alta e elegante e Grace Kelly e tudo.

 

A Gaffe entrou no apartamento que o Hospital privadíssimo disponibilizou, pois que a amiga é chique e claustrofóbica, agarrada a um peluche gigantesco em forma de carro de bombeiros - existe, procurem. Bamboleando o dito, foi espreitar o rebento e ficou arrepiada.

 

A criança é belíssima. Um anjo, um querubim, uma fada, um unicórnio e todas essas melodias de encantar, juntas, aliadas, cúmplices, ligadas.

 

A Gaffe adorou.

A amiga nem tanto.

Choramingava, porque a menina não tinha a cara do nome que tinham escolhido.

 

A Gaffe olhou para todos os lados desconfiada. Provavelmente a amiga ainda estava toldada, ou a epidural tinha invadido o cérebro, ou estavam a tentar assassiná-la com alucinogénios contaminados, ou alguém tinha deixado a mão dentro do lugar por onde a petiza saiu e estava agora a ventriolocar, ou a Gaffe tinha albergado algures um vírus que agora se manifestava obrigando-a a ouvir vozes. Se aconteceu a Joana d’Arc, porque não a uma rapariga de melhores famílias?!

 

A Gaffe procurou aprofundar a causa da choraminguice.

A criança não tem cara de Maria Luísa.

- Já me sentia feliz se tivesse cara de Carlota!

Mas não. A criança tem cara de Micaela Andreia, ou de Patrícia Vanessa.

 

A Gaffe fica durante largos instantes em silêncio, daquele muito próximo do chamado silêncio aparvalhado. Abana os pequenos brilhantes que traz nas orelhas para que a amiga se escandalize com coisas mais sérias - sabendo-se que uma menina de boas famílias jamais usa brilhantes fora das capitais, é possível que a chorona foque a sua imbecilidade no brilho que se espalha na província - e balbucia depois:

- Não dês importância. Chama-lhe Maria Luísa. Ninguém vai reparar que a criança também tem cara de quem tem a mãe estúpida.

A amiga faz com que os olhos saltem das órbitas e mais apaziguada sorri um achas?! absolutamente delicioso e explica com detalhe a sua aflição.

 

Nas elites, nas elites altamente privilegiadas, a selecção é feita também através do nome próprio - não bastando o sobrenome - das criaturas candidatas ao poder. Jamais se aceitará nesses círculos herméticos e protegidíssimos, alguém com um nome capaz – alegadamente - de pingar sebo, azeite ou outras matérias ainda mais viscosas. É impossível os papás consentirem e abrirem os portões a uma candidata a nora, ou a quem pretendente ser o genro, chamada Yara Tatiana, ou àquele que dá pelo nome de Rúben Leandro.

 

Como não chorar baba e ranho se a criança não vem com cara de nome aceitável por gente que vale a pena?!    

 

Imagem - Infanta Luísa Carlota de Bourbon por Vicente López, 1819

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A Gaffe náufraga

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.19

Michel e Edmond Navratil, 1912.jpg

 

As mulheres gritavam os gritos das tragédias. Vestidas de negro, aos gritos, secas, sem lágrimas. Uma esgadanhava a cara com as unhas, esgadanhando a praia com os gritos. Vermelhos e azuis e pretos, os gritos.

Espetavam-se na carne, os gritos.

Espoliavam-se na areia, os gritos.

Gritos como o mar, a desfazer o barco.

Eu ali, parada, mordida pelo vento, de dentes cerrados, a pedir a Deus para fazer com que fosse um grito delas só, a bater nos rochedos e a naufragar.

 

Na fotografia - os irmãos Michel e Edmond Navratil, 1912.

As únicas crianças resgatadas do Titanic sem pais ou guardiões. Estavam sozinhas. 

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A Gaffe assassina

rabiscado pela Gaffe, em 01.03.19

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Tive ontem o dia todo inteiro só para mim. Fiz dele o que quis, depois de o estrangular com uma fita de veludo, vermelha, amarfanhada.

Gosto de dias mortos, que não esperam por ninguém, deitados no chão, nus, ao abandono, com uma tira vermelha no pescoço como se tivessem as gargantas lancetadas.

 

Na foto - Lillian Marcuson por Erwin Blumenfeld, 1951

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A Gaffe com uma trilogia

rabiscado pela Gaffe, em 03.02.19

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Recebi um dispositivo que contém a playlist de um amigo que teima em fornecer à minha existência surda um travo de embalo capaz de fazer com que os meus espaços respirem com os sons mais harmoniosos que encontrou.

 

A lista inclui variadíssimas formas de me encantar. Blues, R&B, Motown, clássicos dos anos 40/50, Jazz, smooth jazz e outros cambiantes, na sua esmagadora maioria entregues a vozes femininas, algumas inesperadas, como a de Marlene Dietrich.

São cerca de uma centena de canções.

Aparentemente, não existe qualquer linha que as una, a não ser a da preferência do curador. São escolhas aglomeradas sem visível nexo, se lhe retirarmos este factor.

No entanto, conheço as armadinhas subtis que este homem generoso é capaz de montar e percebo que nada se encontra ali de forma aleatória e que um trecho não se encontra isolado do conjunto. Une-se, complementa, contradiz, completa, finaliza ou dá continuidade ao seguinte, narrando uma espécie de história, de histórias, que podem ser descobertas por quem as ouve com redobrada atenção.     

 

Abre o dispositivo com as três melodias que reproduzo aqui. Apenas hoje percebi que, se unidas, constroem uma narrativa de desolação, de desilusão e de tristeza.   

Creio que é a história mais fácil de encontrar. As outras, ainda as estou a ler.  

 

 

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A Gaffe a desenhar

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.19

Princesa

Às vezes, sinto nas mãos a rispidez e a rugosidade que fica quando tocamos líquidos corrosivos.

 

Esta impressão existe desde muito cedo. Desde os dias em que me foram retirados os lápis coloridos com que pintava tudo.

Eram lápis de madeira morna.



Tocava-os. Cheirava-os. Mordia-os, às vezes.



As minhas horas deixaram de ser horas de ficar parada a ver surgir na cabeça universos paralelos e surreais porque com as cores e com os meus dedos - e já quase sem as nuvens que toldam as visões do que nunca foi a não ser em nós -, ficava suspensa nos mundos que surgiam já mais visíveis, já mais memorizáveis, nos papéis planetários, nos papéis galácticos que ia encontrando, guardando e defendendo da avidez de limpeza e arrumação da Jacinta.

 

Nunca desenhei bem.

 

Lembro-me do retrato da Bórgia, a cadela assassina, que tinha rabiscado entufada de orgulho. Todos diziam parecer um porco esquizofrénico. Gostava muito dele, mas reconhecia-lhe os defeitos.

 

Nunca desenhei uma princesa!

 

Nunca me foi importante desenhar bem, assim como nunca me foi importante escrever. São-me indiferentes os riscos que vou deixando soltos. É o silêncio em redor das palavras e dos traços que me deslumbra. Uma ausência de som, parecida com a impotência da morte, como se envolvendo o bater do coração de cada grafismo existisse o vácuo, o nulo, o nada, impossibilitados de parar o batimento.    

 

Lentamente, tornava-me de alabastro.

Sem sol, sem jogos, sem risos, sem ruído.    



Foram estes silêncios de desenho que ia construindo cada vez com mais frequência, os responsáveis pela desertificação dos meus planetas.

Com a ameaça de uma mudez e imobilidade incompreendidas, ficou decidido que me seriam arrancadas as naves de madeira com que viajava.

Tornava-se necessária a minha voz depois de detectado o meu silêncio.

 

Sempre desejei ser o que sou. O que faço hoje, o meu trabalho, a minha profissão, é de certa forma prolongar os meus pobres desenhos infantis. O silêncio é o mesmo. Só as telas são diferentes e o traço de um bisturi é sempre mais perfeito por não ter retrocesso.

Às vezes, volto ao retrato da Bórgia, mas retoco-o de modo a ficar mais realista.  



Nunca mais os vi. Os meus lápis. Acordei e já lá não estavam. Nunca perguntei por eles. Nunca soube quem os tinha retirado.

Creio que fiquei muda.

O que escrevo é a minha mudez sem lápis de cor. O que desenho, é uma memória dos meus silêncios pacificos da infância.


Às vezes, sinto as palmas das mãos a ficar secas.

Hoje queria muito desenhar uma princesa.

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A Gaffe cardinal

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.19

Cardeais

As próximas Jornadas Mundiais da Juventude Católica realizar-se-ão em Portugal, segundo informação que a Gaffe não se importa que não seja fidedigna, porque é cristã.

 

A Gaffe está radiante, pese embora reconheça que esta será a razão usada para disparar a recandidatura de Marcelo à Presidência. Ninguém como ele consegue beijocar a mão do Papa e toda a gente de bem sabe que uma genuflexão é o horror quando mal executada.   

 

A Gaffe adora excentricidades e o Vaticano é uma galáxia no que diz respeito a estes pequenos desvios à rotina sensaborona.

Lamenta, ontem como hoje, que o chefe de Estado amarelo e branco seja uma espécie de pároco bonacheirão, que não se cansa de dizer coisas óptimas de bondosas que a Gaffe diria com facilidade, desde que lhe cedessem o palácio a título vitalício, lhe entregassem uma honra qualquer vagamente renascentista e lhe chamassem Sumo - magríssimo, não aquele japonês de penteado giríssimo, que anda de fio dental todo decorado a empurrar o parceiro de modo um bocadinho teimoso e inútil -, mas admite que as extravagâncias que brotam dos mármores de Carrara - e sabe Deus mais donde - que forram as assoalhadas do Vaticano, são maravilhosas.

 

A Gaffe considera, por exemplo, uma ternura ser uma dúzia e meia de velhinhos a eleger outro velhinho para se alapar no trono de Pedro e usar a tiara papal que - dizem as más línguas -, não faz pendant com o colar e os brincos. A Gaffe julga divinal o velhinho eleito ter competência para repensar as figuras do presépio, escrever encíclicas imensas numa língua defunta, visitar os pobrezinhos sem galochas, emanar coisas em latim dirigidas a milhões de súbditos que as não sabem ler e conseguir ir a casamentos vestido de branco sem afrontar a noiva e quebrar o protocolo.

 

A Gaffe pensa que é um mimo de chic ir de vez em quando à varanda acenar às multidões embevecidas e lamentar tristonho e muito circunspecto aquelas coisas desagradáveis que os mortais sofrem de quando em vez.

 

A Gaffe acha um milagre conseguir fazer desaparecer numa paróquia mais esconsa um companheiro de aventura cardinal que se empolgou em excesso na sacristia, catequisando, com punho hirto e duro como barra de ferro, aquelas coisas mais pequenas que não querem rezar condignamente.     

 

A Gaffe considera obra do Espírito Santo ser-se capaz de governar um banco apenas com esmolas dos tão crentes e transformá-lo sacramente num dos mais poderosos e influentes manipuladores das finanças mundiais – com inclusão das finanças dos mafiosos, dos tios das offshores e de outras ainda mais armadas.   

 

A Gaffe considera um must andar empoleirado numa cabine telefónica com rodas, transparente e à prova de bala, com dezenas de matulões a correr ao lado, para não deixar cair a chamada. 

 

Seja como for, a quantidade de mocetões acalorados - mais este e aquele, o outro e toda a gente … - que vão estar juntinhos nas Jornadas Mundiais da Juventude Católica, augura rezas muito proveitosas, névoas de sacrifícios, despidas penitências e uma ou outra aparição em qualquer gruta mais recôndita.

 

Convém, no entanto, afastar os cardeais das orações, pois que se por perto, uma rapariga corre o risco de ter de fazer jejum.

Há sempre um certo cardinal que só se abstém quando os ventos sopram nas batinas, opas, báculos e mitras, revelando a quantidade de hóstias que foi compilando e papando nas mais escuras capelinhas.

 

Mas em Portugal há sol e quando há sol, há Jornadas, e se há uma Jornada em cada vida, é preciso cantá-la assim despida, pois se Deus nos deu hóstias, foi p’ra as papar, e se um dia se há-de ser pó, cinza e nada, que seja o paraíso uma noitada que se deixa perder para pecar.

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A Gaffe muito básica

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.19

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Sejamos práticas, às vezes ter uma pila ajuda imenso.

 

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A Gaffe do galifão

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.19

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A Gaffe tinha assumido o compromisso de não voltar a estar atenta aos burburinhos que à sua volta irrompem como cogumelos em bosque mais húmido e sombrio.

Admite que se está arrasada, tonta, desequilibrada, enjoada depois de ter confirmado - o comando da box da Gaffe tem uma verruga que lhe permite andar para trás na programação, tal qual o botão dos boxers do rapaz - que a Assunção Cristas foi mesmo a casa da Cristina Ferreira cozinhar arroz de atum e não estava a usar galochas! Nem jeans! - como se esperaria, pois que confecionava um prato de pobrezinhos.

 

Esta decepção, este lapso, esta incorrecção, esta falta de maneiras, esta inadequação da Cristas foi a gota de Moët & Chandon que fez entornar o copo.

 

A Gaffe não volta a beberricar fait-divers sem pedigree e se por acaso tropeçar outra vez na versão para gente de bem da Ode Triunfal de Álvaro de Campos, nos medicamentos da psicóloga normalizadora do universo, no ralhete de sala de visita do Goucha a um nazi, ou nas mamas da Rita Pereira a rebolar por todo o espaço, esta rapariga sai da sua zona de conforto e passa a insultar toda a gente no facebook, depois de assumir que não ficou chocada, nem um niquinho para amostra, com as declarações de Yann Moix que ninguém que valha a pena conhecia antes do homem ter dito o que não é de todo um escândalo de arrancar cabelo ou de depilar o cérebro.

 

Minhas caras, o rapaz não se sente atraído por mulheres de cinquenta anos.

Meus amores, todas as campanhas publicitárias, desde a da batata frita no pacote à dos coentros e rabalhetes, pensam e mostram o mesmo.

Não precisávamos era de conhecer as formas que o homem encontrou para se tornar um ridículo galifão a tentar erguer a crista, mas a preferência de um homem entradote por corpos de mulheres mais novas, não traz mal ao mundo. Pode eventualmente originar a compra de um Porsche descapotável vermelho para estacionar junto aos portões das escolas secundárias e inflacionar a venda de cola para dentadura, mas não afecta as cinquentonas que, divertidas, olham a coisa mais linda, que vem e que passa em doce balanço a caminho do mar, o Menino do Rio, o calor que provoca arrepio, o dragão tatuado no braço, o calção, o corpo aberto no espaço e por ali fora até ao refrescar da onda. 

 

Não sejamos más.

 

Todas as mulheres de mais de quarenta e muitos anos que a Gaffe conhece se divertem a congeminar perversidades maravilhosas protagonizadas por rapagões saídos há dois, ou três, ou quatro anos, de uma adolescência de ginásio, ainda com os olhinhos brilhantes de inocência fit, slim e menos coisas e mais coisa.

São mulheres estupendas, poderosas, bem-humoradas, belíssimas, que também gostam de publicidade a espumas de barbear, que já concretizaram sonhos, que já floriram, que já dão sombra, que já caminham seguras e perfeitas pelos trilhos que desenharam e que limaram - muitas vezes usando homens de cinquenta anos que preferem mulheres de vinte e cinco. Todas reconhecem que alguns - muitos - destes jovens equilibristas musculados não vão entrar no circo dos seus amantes, porque sabem que a idade dos meninos não se coaduna com a perícia de uma mulher que aprendeu a voar sem rede.

 

Não sejamos implacáveis. Todas temos de reconhecer que um atleta olímpico em idade tenra, ou um menino muito grande que ainda mama no dedo, é bem mais atraente que Yann Moix. Nós apenas não estacionamos o Prosche descapotável à entrada da Secundária e não nos babamos ao dar entrevistas.

 

A Gaffe sente-se esgotada com estas manigâncias, sobretudo porque são tolices destas que lhe aniquilam a atracção que sempre sentiu por homens mais velhos.

 

Decide, em consequência, deixar de estar atenta a burburinhos.

Vai dedicar-se ao arroz de atum, a servir chá a psicopatas e a curar os senhores dos tais vãos de escada.  

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A Gaffe em manutenção

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.19

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Depois de ter decidido pagar apenas o que consumia, a Gaffe optou por um tarifário livre, com carregamentos soltos e de valores opcionais, para poder sentir que não estava a ser descaradamente roubada pela Altice, operadora que tinha escolhido por razão nenhuma e porque a enche de tédio ter de ouvir as assistentes da concorrência a impingir-lhe os mesmos serviços pelo mesmo preço, mais cêntimo, menos cêntimo.

 

Ufana, desandou por ali fora, com a certeza do dever cumprido e a murmurar o consagrado a mim ninguém me engana, com um ar de Manuel Alegre na tourada.

 

Dias depois, recebeu uma mensagem reportando que lhe tinha sido retirado um euro do saldo, para manutenção do cartão.

Dias depois destes, recebe nova mensagem a informar que se tinha eclipsado mais um euro e mais pico, para manutenção do cartão.

A Gaffe ficou pasmada. Não imaginava que um retângulo tão pequenino acumulasse tanto pó e fosse de tão rápida degradação.

Dias depois destes dias, foi amavelmente brindada com uma frase lapidar que lhe comunicava que o cartão ficaria activo até um dia determinado e que, passada a fatídica data, esta rapariga deixaria de poder efectuar chamadas, mesmo que não tivesse esgotado o saldo que, descobriu de repente, não era cumulativo.

 

Ficou decidido deixar que a implacabilidade do tempo realizasse o dano que a ameaçava.

A Gaffe ficou com um cartão de telemóvel amputado e a felicidade raiou como naquelas fotografias lindíssimas que aparecem no facebook a abençoar frases desgarradas, mas sempre de utilidade extrema.

 

Segundo informação não fidedigna, o cartão será desactivado definitivamente ao fim de três meses de inactividade. A Gaffe tem de agendar a ida ao funeral, que isto de se ser de boas famílias exige sacrifícios.

 

É curioso verificar, por exemplo, que este procedimento é muito similar ao aumento das reformas anunciado em forma de slogan. As pobres olham os foguetes que se lançam e estrelejam e pasmam seduzidas, dispostas a aclamar a benevolência e o altruísmo de quem olha as folhas de Excel com um desprezo humanista e se curva perante a miséria alheia, retirando-a do lodo onde a enfiou. Passados dias - provavelmente o mesmo tempo que leva a chegar a mensagem da Altice ao telemóvel -, o IRS sorve o saldo para manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É interessante apurar, por exemplo, que a Altice se comporta como as Câmaras cravadas nas zonas em agonia, destruídas por incêndios, que distribuem a grupos de jovens voluntários - que se revezam mês após mês, chegados de várias zonas do país às terras assoladas -, carvalhos, pinheiros e sobreiros, cuja aquisição foi subsidiada, e que não as regam, que não as cuidam, que não as protegem, depois de plantadas, tornando imbecil e patético o voluntariado que se depara, mês após mês, com a morte das árvores pequeninas. Voltam para recolher outras. A Câmara - logo que recuperada a casa de férias do amigo - fornece-as subsidiadas, porque há que fazer a manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É simpático atestar, por exemplo, que a Altice se comporta como aqueles que vão provando que o jornalismo desapareceu do quotidiano das gentes. Restam resíduos avulsos que cospem fast-food servidos em embalagens de plástico descartável que referem a grande reportagem, ou a investigação jornalística, antes de segurar o guardanapo que limpa aberturas de noticiários com telefonemas populistas de presidentes narcísicos, pois que é necessário fazer a manutenção do cartão.  

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É estimulante confirmar, por estes poucos - e por outros mais exemplos que se calam, pois que iriam deprimir esta chamada -, que o país é apenas e cada vez mais uma rede de comunicações - privadas ou públicas - com uma razoável equipa de marketing e que, no fundo, tudo se resume à manutenção do cartão e a uma pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

Por isso a Gaffe decidiu - enquanto pode -, mal recebe uma chamada de uma operadora que lhe quer anunciar a Boa-Nova, sussurrar num tom arrastado e rouco, mesmo antes de ouvir o que quer que seja:

 

- Já está, mas há sangue por todo o lado.

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A Gaffe sem calças

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.19

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A Gaffe acaba de saber que se vai dar continuidade ao dia sem calças, abraçando-se mais uma vez um evento com raízes fora deste jardim.

 

É divertidíssimo, embora por cá se tenha perdido o objectivo que guinou o acontecimento e que nos reportava a uma disrupção, uma ruptura, uma propositada e consciente negação do normalizado e do normativo.

 

Estas pequenas tontices são maravilhosas como forma de afirmação pacífica, e provavelmente inofensiva, de independência em relação ao estipulado como regra burocrática ou acinzentada. Fazem com que nos encontremos com imagens que gostaríamos de banir para todo o sempre e, compensando a onda polar, outras que aquecem os nossos sonhos menos próprios e menos públicos.

 

Nada mais do que tal.

 

A repercussão do ocorrido não adquire dimensões significativas e é aceite como divertido modo de um adulto apanhar frio e aparentar um ar um bocadinho totó, laró, ligeiramente parvo, de pasta séria, carranca fechada, sapatos bicudinhos, gravata esticada e cuecas limpas e pacatamente exibicionistas.

 

O que causa dano nas hostes mais conservadoras, mais uma vez imbuídas de pudores suados, mais uma vez saturando o ar com uma dose engarrafada de bons costumes, é a possibilidade de ofensivamente se notar muito a pila - traumatizando as criancinhas pobres que não vão à praia -, ou a eventualidade da moçoila se estar a colocar a jeito.

 

Estas preocupações recorrentes - sobretudo quando a Maria José Vilaça não opina, fomentando a cura para estas disfunções -, atinge uma gama significativa de tolices sem importância.

É enternecedora a indignação destes escandalizados defensores do lógico intransigente, que muito possivelmente faz companhia à que rasga as vestes quando um rapazola se lembra de vender engarrafado o ar de Fátima, com planos para fazer o mesmo ao ar de Lisboa - há décadas que existe enlatado o ar de Paris, o ar de Veneza, o ar de NY e o ar de quem viaja por todo o lado. As latinhas são uma delícia! 

 

Este tipo de indignação, de choque, de revolta, de escândalo, desconhece que a apetência para transformar a tolice inofensiva em fait-diver turístico - logo ali ao lado dos porta-chaves, dos pins, dos ímanes para espetar na porta do frigorífico ou de outras centenas de recuerdos inimagináveis que abundam nas mais variadas esquinas de todas as cidades visitáveis do planeta -, não provoca o colapso do universo.

 

Parece, no entanto, evidente que esta capacidade para inventar razões para sorrir, é causa de muitos abalos ou mesmo do soçobrar dos universos dos que usam, pela vida fora, apenas as calças onde só há bolsos para enfiar o que há muito engarrafado lhes avinagrou o cérebro.      

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Gavetas:

A Gaffe a lamber envelopes

rabiscado pela Gaffe, em 10.01.19

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A repartição dos correios está praticamente a explodir de gente.

Uma fila medonha de criaturas resignadas de retângulo de papelinho amarelo na mão olhando de quando em vez o número que lhes saiu em sorte. Tentam passar o peso do corpo de uma perna para a outra, mascando o tédio ou a impaciência enquanto vão erguendo a sobrancelha quando um olhar se cruza com o do vizinho.

 

À medida que o tempo se arrasta, manobrado com a lentidão dos vermes pela única funcionária, senhora oxigenada de lábios sumidos e sombra azul celeste nas pálpebras cansadas, as conversas baixas vão erguendo um burburinho morno e sonolento.

 

Ao meu lado, uma jovem mãe, moçoila robusta e de boas cores, de avantajadas e roliças curvas e mamocas redondas a asfixiar dentro da blusa justa, é puxada pela criança que tenta atingir a pequena estante onde estão pousadas bugigangas e alguns livros coloridos.

 

A menina é irritante, inquieta, irrequieta, impaciente. Não tem mais do que seis anos e é minúscula. Parece um rato desgrenhado e feio. É provável que se pareça com o pai, pois que a mãe tem a beleza alourada e florida das minhotas e uma sensualidade contida pela força das mansidões aprendidas ou impostas.

Não consegue estar sossegada. Procura tocar nos livros e nos tarecos de plástico em forma de bichinhos, com uma pequenina corrente para pendurar. A mãe agarra-a. Exige que pare, que esteja quieta.

 

A miúda desobedece.

 

Puxa-lhe a saia, agarra-lhe nas mãos, torce-lhe os dedos, cola-se-lhe às pernas. A mãe começa a desesperar, empurrando-lhe a insistência com um solavanco e um beliscão no braço. A criança continua mesmo assim. Quer desesperadamente um livro com dois ursinhos na capa. A mãe recusa. A menina ataca. A mãe nega. A menina teima. A mãe rejeita-a. O ratinho morde.

 

Creio ser só eu a observar a cena. Os meus restantes companheiros de infortúnio encetaram entretanto as conversas de ocasião com que esperam iludir a espera.

 

Dura há já algum tempo a embirração.

A criança dispara com um berro de repente a derradeira bala.

 

- Não dás? Não dás? Então vou dizer a toda a gente que lambes a pila ao pai.

 

Faz-se silêncio. Aquele que é o melhor. O absoluto.

Sinto que algures ocupando o espaço paira um búfalo morto e que toda a gente está ali para apresentar condolências à família.   

 

Ficou no chão um papelinho amarelo com o número que antecede o meu.

 

Já não tenho ninguém à minha frente.

 

Fotografia - Hong Jang Hyun

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A Gaffe com comentários anónimos

rabiscado pela Gaffe, em 09.01.19

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Portanto, meus amores, tenham maneiras.

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