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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com dois dias

rabiscado pela Gaffe, em 14.09.19

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A Gaffe por aí

rabiscado pela Gaffe, em 13.09.19

- Ai, qu´aquelas bolinhas pretas sabe-me a sardinha crua.

- Ai, que se me saísse o euromilhões abria um canil e aquela coisa p’rós gatos.

- Ai, qu’ela é uma mulher que não sabe estar.

- Ai, que vou meter um plástico em cima do tapete, qu’assim não suja.

- Ai, qu'isto é assim, qu'isto é assado e ninguém sabe de nada.

- Ai, coitado! e eu que se soubesse fazia-lhe uma canja. 

- Ai ,qu'aquilo foi um ar que se te deu.  

- Ai, qu’ele com aquela barba marca a diferença.

- Ai, qu’eu estive mesmo para lhe dizer das boas.

- Ai, que está um calor de ananases.

- Ai, qu’está mas é um calor do crl, filha.

- Ai, qu’ela é como um pai p´ra mim.

- Ai, qu’eu até já to tinha dito.

- Ai, qu'isto dos incêndios é da mãe criminosa. 

- Ai, qu'ele entrou ali apertado que raspou-me aqui no meio.

- Ai, qu'ela não é certa. 

- Ai, que não vale a pena, qu'a gente não leva nada p'rá cova. 

- Ai, que na minha opinião pessoal, tu já foste c'os porcos. 

- Ai, qu’a gente não deixa cá ficar nada.

- Ai, qu’eu nem te digo, nem te conto.

- Ai, eu por mim punha-a mais curta. 

- Ai, que s’eu quisesse era só apitar.

- Ai, vais linda, vais, nesses preparos.

- Ai, mas olha que bem disse o outro.

- Ai, qu’ele é um merdas, não desfazendo.

- Ai, que não tarda, corre mal.

- Ai, não corras, não, e depois o bacalhau tem pinhas. 

- Ai, és tu qu'arranjas o cabelo em casa!

- Ai, olha, só te digo. 

- Ai, leva uma malhinha, qu’isto de noite arrefece.

- Ai, qu’aquilo foi meu dito, meu feito.

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- Ai, p’ró que te deu!

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A Gaffe alcoólica

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.19

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- Se a menina acha o que o seu copo está meio vazio, verta o que tem num copo mais pequeno e deixe de ser cabra.

Mana

 

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A Gaffe em português

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.19

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Limpa o suor das mamas com um lenço de algodão. São mamas grandes, fartas, brancas, rijas. Seduzem os homens.

Há duas luas, em quarto crescente de suor, na blusa justa da mulher que sorri matreira nos olhos dos homens. Enfia a mão no decote e limpa com o lenço branco as mamas que bamboleiam fartas na manobra.

Levanta depois os braços. Arruma o cabelo negro. Prede-o com um gancho de plástico, de mola. Empina as mamas e os mamilos empurram a malha de algodão fino da blusa.

Arrasta as palmas das mãos pelo pescoço e limpa o suor ao tecido da saia. Às ancas largas, às nádegas, à cinta que quebra e requebra ao som do olhar dos machos.

 

Os homens param, presos pelo poderoso cio da mulher dona do medo que agora lhes ronda o desejo desperto de a amarfanhar na cama, de lhe romper o corpo e de lhe matar aquela força que lhe vem do útero como labareda.

É amante do mais novo do grupo que lhe fareja o cio. O homem que tem uma cicatriz no sobrolho. Feia, larga, rude e descuidada. O golpe quase o cegou, mas quem lhe abriu a ferida não ficou melhor.

Foi culpa dela.

A ferida que a mulher lhe abre no peito, não cicatriza nunca.

A  mulher roda no rodopio da vontade dos homens.

Parece ser de terra. Parece ter raízes e ter frutos. Parece cheirar a vinho, a mosto, a uvas, a suor e a rosas. A vindimas.

 

"No interior do recinto do Wine & Music Valley, em Lamego, teremos o Douro Stage e também o Chef’s Stage e o Wine Stage."


A mulher tem mamas poderosas e suadas como esta paisagem que se pode amar em português.

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A Gaffe mensurável

rabiscado pela Gaffe, em 06.09.19

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A Gaffe podia ser simpática e citar o dito que nos informa que interessa a magia, não o tamanho da varinha de condão, ou que os homens não se medem aos palmos.

Seria consolador e tranquilizante para os nossos queridos que se medem apenas com palmas.

 

No entanto, a Gaffe lamenta dizer que quanto maior é a prometida magia que um homem supostamente consegue criar, maior a expectativa que se acrescenta a tanto esperado malabarismo. Uma rapariga anseia sempre que salte um valentão bravio, potente e imponente da cartola - que se remexeu com uma perícia de fazer corar Madame Bovary -, e não o branco e delicado coelhinho das delícias do Natal de propaganda infantilóide.

 

Segundo estudos recentíssimos - e com o rigor costumeiro -, existem uns limites confortáveis e espaçosos que registam a elasticidade da dita, não humilhando - quase - ninguém. Concluiu-se que a varinha de condão dobra sensivelmente o seu tamanho quando quer fazer magia - embora também possua flexibilidade suficiente para dobrar outras características.

Ficamos esclarecidas. 

 

Se o mágico possui uma varinha dentro dos valores indicados quando outros mais altos se levantam, pode - não se dirá ficar descansado, porque seria um desperdício de talento bruto -, procurar a cartolinha que lhe sirva.

 

 Se fica aquém, o menino tem sempre a hipótese de comprar um Maserati 

 

Para desconforto da Gaffe - que gosta de se deslocar em grande estilo -, o seu rapagão, em consequência do dito, só tem direito a um Smart fortwo!    

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A Gaffe de Ângelo Rodrigues

rabiscado pela Gaffe, em 03.09.19

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Just don’t tell me what to do.

 

A nudez foi durante séculos - sobretudo os amarfanhados pelo judaico-cristão - o último reduto da privacidade e talvez por isso, exactamente como o seu contrário, um latente factor de domínio sobre os outros.

A perturbação no equilíbrio entre o privado e o público, desencadeia anomalias que podem dar origem a eras, a épocas, a períodos e, numa escala mais caseirinha, a alterações comportamentais, a conceitos, a preconceitos e a distúrbios aparentemente incompreensíveis.

 

Dizem que um dos sustentáculos da Idade Média, um dos que escorou a sua origem, foi a usurpação do que era público pela esfera do privado. Os feudos são disso prova. O retalhar da terra e a inclusão das porções resultantes no círculo adstrito à propriedade privada, tornou possível o exacerbar do domínio sobre o Outro que foi engolido, como parte do usurpado, pelo poder de quem detinha a capacidade de chamar seu ao até ali de muitos.

 

A anulação do privado em favor do público, abala e destrói as monarquias e os impérios anteriores e sustenta ideologias que acabam por não produzir o equilíbrio frágil e absolutamente necessário entre meu e nosso.   

    

Esta mecânica, aqui referida de forma insipiente e torpe - incapacidade minha -, é observável nos jogos e nas guerras travados nas redes sociais, na publicidade, na comunicação social mais fútil – eventualmente quase toda -, e que reverberam nos modos de se olhar o Outro.

 

O corpo torna-se público. A nudez deixa de possuir o seu carácter reservado, de índole privada, pertença exclusiva do indivíduo, e é exigida com voracidade pela multidão que a torna sua e que nela se reflecte escolhendo os indícios que ali cumprem o sabor do gosto que se impõe. Ignora-se, apaga-se ou subvaloriza-se o restante com a velocidade do relâmpado de um olhar. A visão da nudez do Outro é toldada e contaminada por conceitos estéticos mutáveis que exigem um imediatismo destruidor na resposta e no estímulo. Somos nus públicos, dependendo das multidões que se tornam ferozes quando o que lhes é fornecido não obedece ao almejado pela quimera da perfeição. A multidão que se une sem ter consciência racional do elemento que a aglutina é quase sempre um anseio de superação de cada indivíduo que a enforma.

 

O domínio descontrolado exercido pelo público é tão devastador como aquele que é exercido pelo privado quando desarvorado.

 

O corpo público obedece então a todas as exigências daqueles que o devoram, acabando única moeda de troca. Fornece a ilusão de todas as quimeras, de todas as perfeições, recebendo das multidões a ilusão de uma espécie de existir dentro de uma espécie de verdade que é consequência da tremenda ilusão de reconhecimento, de aceitação e do aplauso.

É nessa variante, nesse desvio da nudez que de súbito é exigida despudoradamente pública, que o corpo é imolado.

Tornamo-nos implacáveis. Clamamos contra a perpetuação desta anomalia, carpimos a nossa vítima, depois de lhe termos exigido a pele e os músculos, e dentro de uma preguiça soberba e quase patológica, doentia, maníaca, subversiva, disforme e coberta com os lençóis da nossa conspurcada e mentirosa inocência, continuamos a insinuar o que o Outro tem de fazer para que o possamos aplaudir.

 

Somos agora, paradoxalmente, uma multidão medonha e animalesca quando em privado, numa espantosa normalidade, lambemos a ilusão da perfeição do corpo e da nudez dos bonecos que injectamos com o reflexo da imagem que nunca será a nossa, como se tivéssemos um espelho capaz de nos mentir, omitindo a queda inexorável que é a vida.  

 

Somos todos - carrascos e vítimas -, de cartão e todos temos pés de argila. Debruçados na margem do rio, procuramos na água uma jangada que nos faça chegar ao outro lado, mesmo que no outro lado não se encontre nada.    

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A Gaffe macaca

rabiscado pela Gaffe, em 02.09.19

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Tanto enchi o peito de paisagens que receio ter rasgado o macacão, no rabo.

 

Não sou de todo uma acérrima fã das maravilhas que fazem com que fiquemos embasbacados durante imenso tempo, mirando a queda de água, o precipício, as vaquinhas pastando idílicos verdes, os castelos apodrecidos de cinzentos fantasmas e todas as outras maravilhas com que abastecemos os olhos da alma de sossego e retificamos o stock de deslumbre.

Consigo, com algum esforço, pasmar durante cinco minutos, mas exigir a uma rapariga hiperactiva um maior período zen, um mais alargado tempo de recolhimento paisagístico, é tarefa inglória que apenas provoca irritações desnecessárias e uma visão menos calma do horizonte.

 

Depois, na Irlanda, a paisagem rural, o muito longe possível das grandes metrópoles - o que penei para ter a possibilidade de escrever grandes metrópoles, dava todo um romance de viagens! -, está repleta de cocó dos bichos. Caminhamos rumo ao horizonte verdejante e chegamos a um pub qualquer a meio do caminho, a cheirar a podre e com os sapatos forrados a estrume.

 

Em consequência, quietinha observo as pessoas.

 

Os irlandeses são casmurros e muito ciosos da sua identidade. É gente que edificou em redor da sua mundovisão uma fortaleza intransponível que abrange, por exemplo, o modo como encara a suspensão da Democracia decretada por Boris Johnson - inspirado em Manuela Ferreira Leite -, ou o aparente reacender, nos seus territórios, de velhos conflitos armados, pouco tempo após o referendo que deu o sim ao Brexit. Não é assunto nosso. Dir-se-ia não ser também assunto europeu. Indignam-se, insurgem-se e insultam  Boris Johnson - que não é de todo comparável a Trump, pois que reconhece a diferença entre Reino Unido e Inglaterra -, mas não permitem que o nosso narizito se introduza nestes solavancos inesperados e, secretamente, vão mitigando a dor de ter de reconhecer Sua Majestade como um jarrão periclitante e inútil no centro do jardim, que se sustenta e enche por hábito, admitindo em segredo que seria mais bonito Sua Alteza ter virado costas e anunciado que se encontrava de diarreia, fechado no real WC de férias, evitando ter de proclamar o tradicional I agree ao que, pelo menos em teoria, poderia ter sido negado.

 

Até mesmo a empatada May teria torcido melhor o nariz a esta badana cretina.

   

Este antes quebrar que mostrar rachado, está contido, contudo, num invólucro que sempre me agradou, pecaminosamente.

Os irlandeses que escaparam à uniformização das grandes cidades - que os deslavam, esbranquiçam e amolecem -, são homens absolutamente poderosos.

São gigantescos!

 

Lembro-me de ter ido a um multibanco perdido no espaço. Atravessei a rua de macacão de linho largo e imbecil, de alcinhas parvas e bolsinho de chapa no peitilho, com um rasgão no rabo e chinelinhos tenebrosos que tinha encontrado Deus saberá onde.

Ai, que não faz mal que ninguém vai ver.   

Descurei de forma macaca uma das mais sábias recomendações da minha avó - nunca venha como está. Chegue melhor -, e paguei este descuido quando, na minha frente, apanho com os ombros de embondeiro de um irlandês de rabiosque escultural que se virou para mim a sorrir. Um sorriso dentro de uma barba loira que lhe emoldurava a boca carnuda que desafiava os olhos azulados a desenhar um sorriso idêntico.

Corei, com a consciência aguda do esfiapado torpe no rabo do overall - estamos muito ambientadas - e dos malditos chinelos com uma estúpida tira solta e a dar-a-dar e tentei a manobra dar de frosques quanto o homem voltava a sua atenção para a maquineta. Viro-me e enfio o nariz nos peitorais de outro irlandês barbudo e de se morrer logo ali de tão lindo, que sorria da mesma forma devastadora, suspeito que para a memória do rasgão no rabo do macacão que tinha estado sob o seu escrutínio.

 

Não é fácil ou banal uma rapariga ficar presa no meio de dois potentados lidíssimos num tão curto espaço e num tão diminuto tempo! Não acontece com frequência - a não ser se formos óptimas taradas muito curiosas, mas nesse caso, cada um é como é e ninguém tem nada com isso, benzam-nos a todos os deuses irlandeses.    

 

Este percalço - que acabou comigo numa corrida humilhante com uma mão no rabo – provou que a minha aversão à famigerada treta do Se eu não gostar de mim, quem gostará? é sem sombra de dúvida acertada e a manter asséptica e acesa. Há que a substituir com urgência por Se eu não gostar de mim, haja quem goste.

Evitaremos desta forma simples muitas necroses.  

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A Gaffe acabada de chegar

rabiscado pela Gaffe, em 31.08.19

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A Gaffe do combustível

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.19

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Perante a ameaça de falta de combustível, seria absolutamente genial que alguns portugueses descobrissem que podiam, para além de jerricans, de jerricãs, de bidons e de bidões, encher também a caixa craniana.

Afinal, para que é que servem as narinas?

 

Fotografia - Abid Mian Lal Mian Syed

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A Gaffe no último tango

rabiscado pela Gaffe, em 09.08.19

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Quando se abrirem os currais do tango, espera pelo ganir da concertina. Não deixes de prender os olhos no brilho desta sombra. Se o fizeres e se fechares o olhar, apunhalo-te e mancharás de sangue o teu peitilho branco.

Fica-te bem o smoking deste tango.

 

Homem agora preso a mim, a começar.

Crava-me os dedos nos rins e aperta a palma da minha mão estendida. A tua boca a roçar a minha. O teu arfar enclausurado nos meus lábios. Escaldam os meus lábios. A minha perna abrasa por entre as tuas, abertas, a suportar doridas o inclinar do tronco que o teu curva. Podes lamber a gota de suor que desce no meu queixo e esperar a agonia do sussurro que perto de ti, no pavilhão da orelha, no pavilhão da casa, vou espetando no corpo dos violinos.

 

Este tango tem a história de um homem e de uma espera. Amou a amante morta num tempo que é já morto, marcado nas paredes com navalhas e no espaço que durava o amor, não respirou. Dançou sozinho um tango desgraçado.

 

Afasta a tua perna. Empurra os flancos contra a minha carne de modo a que eu te sinta. Rodopia seguro pelas garras que cravo nos teus ombros até sentires a dor que vem de mim, como o gemer do tango, a doer, por entre as tábuas.

 

Queria ser amado, o homem desse tango. Amado como amou num tempo morto em que sem respirar amou amando a amante que morreu e que não vinha dançar nas concertinas das paredes.

 

Faz-me gemer erguendo-me nos braços. Faz-me rodar presa na boca. Escolhe uma palavra que traga o escarlate do obsceno e prende-ma nos olhos e sorri de dor quando esmagar o peito contra o teu nas voltas que tu sabes controlar.

 

Quando beijou outra mulher tinha passado o tempo do homem desse tango que não danço.

 

Não morras já. Há mais suor em mim para te encharcar os braços e tenho mais saliva a arder e dentes para cerrar. Abre a boca, respira compassado. Há mais para dançar dentro de mim.

 

Quando beijou outra mulher, o homem que não dança, quis que ela fosse o amor que tinha à espera. Marcou-lhe o mesmo tempo. O tempo em que ela tinha de gravar um tempo nas paredes com navalhas impolutas como as dele. O mesmo tempo em que ele amou a morta até beijar aquele novo tango.

Se ela dançasse da mesma forma o mesmo tango mudo!

Se ela na espera erguesse esse silêncio entre o latir dos tacões nas tábuas do soalho e o chiar das cordas do violino!

 

Aperta-me. Faz-me doer. Esmaga-me no espaço em que o contrabaixo morde a minha saia e a minha perna que serpenteia a tua. Não morras já. Espera só que eu vire a minha cabeça para dentro do teu corpo. Há mais na tua mão colada à minha palma e nos meus rins vergados pelo teu braço.

 

A outra não o amou como ele queria e no tempo que ele tinha para lhe dar de espera, tangos diferentes cortaram-lhe o espaço e dentro desses tangos ela dançou com outros.

 

O prazo terminou. O tempo acaba. Podes morrer agora nos meus braços.

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A Gaffe num esquiço

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.19

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Pedi-lhe uma só vez:

- Um dia, descreves-me?

- Às vezes sento-me nas margens do rio, no lugar onde ele estreita como um pesponto de prata numa túnica verde. Sirvo-te vinho doirado. Tu és o reflexo d’oiro que morde os meus dedos.

 

(... e depois - e ainda por cima - usa barba! ...)

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A Gaffe longínqua

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.19

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Talvez os lugares não mudem. Talvez mude apenas a forma como os esquecemos. 

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Sei que me alterei.

Já não é Saudade o que Paris me entrega. É outro som parecido. Uma outra voz que chega das ruas e vielas, das pontes, das esquinas e das casas, dos muros, dos cantos e ruelas, das arcadas.

Uma outra voz a percorrer-me a alma a dizer que me alterei, que não sou mais a rapariguinha que noutra voz ouvia a alma toda de Paris e que a desfez de encontro à luz que vinha nas tardes em que o som era só seu.
Paris já não terá a voz que vinha e eu não terei a mesma luz que ouvia.

 

Olho agora Paris como a mulher que descobre que o lugar imenso nos olhos da criança não passa de uma pequena esfera de poeira.

 

A memória é agora um lamento prolongado e manso, um suave entardecer inócuo, a manta na cadeira do café, uma tristeza que passa como se tivesse um corpo esmaecido e atravessasse a rua devagar, para o outro lado.

Paris, a que perdi, guardada no meu peito, esmoreceu na perda. Não distingo os traços dessa dor, já não a reconheço e trago um alfinete a picotar-me a alma por ter abandonado o espanto que foi sentir-me longe.

 

Sei que Paris é mais pequena agora do que dantes e que eu cresci no espaço desta míngua.

E no entanto, Paris paciente espera por mim, para me mostrar, mal chegada, a melancólica procissão de outra saudade composta só por mim, porque é de mim que a tenho, que a dor maior não se partilha e o andor que levo não tem peso ou tem o peso que os meus ombros dizem.

Sou menina despida que passa nua pelas avenidas sem ter o rapazinho que anuncia a ausência das capas de veludo.

 

Paris? Paris envelheceu à espera das vadias.

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A Gaffe da infusão matinal

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.19

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- Hoje o chá sabe a xixi de hamster.

- Como é que sabe?! Seja como for, chá não quero.

- A sôtora não olhe para mim que eu só agora é que entrei ó serviço.

 

 A manhã promete.

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A Gaffe com a face app

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.19

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No meio de algazarra muito pouco BCBG, a Gaffe é colhida pela mais recente coqueluche: a face app.

Ao som de gritinhos, gargalhadinhas, saltinhos e pequenas exclamações de divertida surpresa, as meninas vão apanhando o futuro dos seus rostos fresquinhos.

A Gaffe não compreende tamanho alarido saltador. Sempre imaginou o grupo tresloucado bem pior do que o previsto, passado o tempo que se indica.

Recusa, portanto, ser vítima de benevolências informáticas.

Insistem, sugerindo a submissão de um rosto alheio ao seu. A Gaffe aquiesce, num revirar de olhos.

 

Não funciona!

A aplicação não funciona!

 

Espreitam espantadas e um bocadinho irritadas descobrem que a Gaffe tinha escolhido a Cher.

 

Não querem brincar mais.

 

A Gaffe acaba, depois de muito matutar - coisa que faz rugas - por concluir que a face app é útil apenas como forma de tornar mais próxima a relação do povo com os seus eleitos.

A Gaffe pode, deleitada, engraçada e bem-disposta, escolher, por exemplo, o penteado dos políticos. Dar palpites, sugestões, votar nas madeixas que melhor assentam nos sentados seus representantes que mimosos submetem as suas poses marotas ao escrutínio do povo.

Aproxima-nos! Adquirimos uma cumplicidade fofa que nos dá a hipótese de escolher o cor-de-rosa mavioso do tailleur da política, ou o tom exacto da grisalha melena ao vento trauliteiro do deputado europeu.

A face app pode ser inquestionavelmente o método mais sólido de aproximação dos eleitores dos seus representantes. A Gaffe supõe mesmo que não existe outro qualquer, pois que a aplicação não permite, caso existissem, a submissão de ideias e ideias.      

 

Imagem - Joseph Wright of Derby - auto-retrato (detalhe)

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A Gaffe artesanal

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.19

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Na mão dele havia o traço negro das gôndolas e um abandono, ao frio, de estandartes.

Na mão dela ficava o mapa do corpo que era o dele, reencontrado, e o lento arrasto da euforia dos trajectos.

Na mão dele havia um peregrino. Outrora as mãos peregrinavam e no encontro com as mãos dela ouviam-se rezas pagãs nas catedrais.

As mãos dele, divinas.

As mãos dela comédias, saltimbancos súbitos que assustavam prendendo pássaros aos dedos.

 

A mão dele agora no flanco dela, como o esboço morto de um poeta, deixou de ser tudo.

São mortas as baladas que ecoavam por entre os dedos brandos da mão dele.

Talvez a noite aquática das praças tenha desfeito o que ele entrançava na varanda dos seus dedos, ou talvez seja ela a ir-se embora.

 

Porque o fim do amor é artesanal.

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