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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Jacob Jordaens

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.20

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- Não adianta, moço. Desta vez já todas sabemos que tens a pila no meio da fruta.

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Gavetas:

A Gaffe sombria (sfumato)

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.20

mercado de adjamé, costa do marfim, eddie wrey.jp

O destino da luz é provar a existência da sombra.

 

Adjamé, Costa do Marfim - foto de Eddie Wrey

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Gavetas:

A Gaffe da Gaffe

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.19

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Gavetas:

A Gaffe e os rapagões passados

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.19
 

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Fui de repente convidada pela minha querida amiga para a acompanhar à festa de noivado - coisa simples - do seu ex, rapaz poderoso, escandalosamente rico, snob e detentor de uma personalidade pindérica, mesquinha, irritante e peluda. A minha querida amiga precisava de uma cúmplice para esgadanhar em surdina a futura consorte e nada melhor do que as garras da sua querida amiga para coadjuvar esta deliciosa tarefa.

 

O fui convidada é claramente um eufemismo para anestesiada, arrastada, amordaçada e drogada de forma a aceitar o convite sem espernear. Sou adversa a flutes onde cintilam as delicadas bolinhas de um Champagne daqui. Continuo a preferir, saloiamente, um alentejano maduro - semanticamente, polissemicamente -, com os sons de risos simples e saudáveis que fazem cintilar a alma.

 

Depois de alvoroçar a vizinhança com o facto de não existir no meu guarda-roupa um Armani a fazer pendant com o evento - coisa simples -, fui enfiada num YSL deslumbrante e emprestado, que eu destes tipos escolho Dior. Não preenchia as copas do vestido - a minha BOA amiga tem duas ogivas nucleares em vez de mamas -, mas o desenho flutuante, fluído, amplo e nada comprido do vestido disfarçava a ausência daquelas duas minas redondas que aparecem no fundo mar nos filmes debruçados sobre a II Guerra e no peito das meninas encorpadas.  

Cabelo preso numa banana ruiva - da Madeira, pois que tenho agora o cabelo mais curto -, suplicando aos deuses a imobilidade forçada e enraivecida dos meus caracóis de fogo furiosos, uma leve entoação na face a elevar os olhos, um reforçar da extensão das pestanas e um bâton prudente de brilho contido, suave e sem textura - nestes momentos a  minha excelente amiga soa tão influencer! -, chega-se aos sapatos.

 

O drama é shakespeariano.

 

Recuso-me a usar as tenebrosas plataformas - plantaformas, para as mais dadas -, que equilibram a altura dos tacões, porque me fazem sentir, ou que tenho graves problemas ortopédicos, ou que estou em cima de dois garrafões de água do Luso, que são pesados, difíceis de transportar e, como sugere o nome, metem água.

A alternativa foi calçada.

Uns belíssimos Jimmy Choo com uma cor exacta - azul petróleo anoitecido - a minha querida amiga é muito meticulosa e específica nestas alturas -, sem plataformas - plantaformas ou tamparueres -, de betão, mas com muito mais do que os sinistros 10 cm de agulhas e um número acima daquele que calço, que não há outros que acompanhem e respeitem a atmosfera - apesar destas duas condições, estava fora da lista o calçado da Thundberg. 

 

Pensei que só me conseguiria equilibrar com eles calçados se me projectasse para a frente, embora correndo o risco de, com esta inclinação, bater com os queixos na braguilha do noivo, ou para trás, numa manobra circense, fazendo pensar que tinham contratado para animar a festa a contorcionista do Cirque du Soleil.

- Aguenta! - aconselha a minha querida amiga como se fosse prima do Ulrich.

Aguento e periclitante, oscilante, com tremuras, procuro o apoio da maçaneta da porta que se abre traiçoeira. Troco os pés, tropeço, caracóis vulcânicos já soltos, um azul petróleo anoitecido espapaçado no chão, um Jimmy Choo, um número maior que o imprescindível, com um tacão cravado nos estuques, um bâton de brilho contido todo esbardalhado na minha leve entoação na face.

 

Sem qualquer réstia de dignidade que suportasse a queda, ergui, desfraldei e fiz ondular a minha decisão como bandeira revolucionária e só não cantei Grândola Vila Morena porque me perguntam, sempre que trauteio um lá-lá-lá ainda que menos conotado com Abril, se me estou a sentir bem e nunca me sinto bem com um par de sapatos um número acima daquele que calço e mais de 10 cm de perigo calçado. Sou uma menina de boas famílias, caraças! Mais de 10, só se encaixarem no brasão.  

 

Acabamos as duas de pijama esparramadas no sofá, a rever aquela porcaria do Sangue Fresco, a comer Mon Chéri até ao tutano e aos confins da javardice, a comentar a leve entoação das faces dos actores, sem reter nada da série pateta, nem evitar tropeçar no fundo da segunda garrafa de vinho maduro alentejano.

 

Os homens que se foram, já são ex e que se casem ou que façam coisas. Sei lá. 

Ninguém quer saber. 

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A Gaffe em crise

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.19

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Aquilo a que os especialistas chamam Crise é um fenómeno avassalador que não faz esforço algum para nos avisar que nos vai tocar no bolso, sobretudo quando acreditamos estar já longe do alcance das suas manápulas.

Há no entanto pequenos sintomas, ligeiros alertas, que nos vão dando conta da extensão dos danos. Conheçamos alguns antes de entrar em depressão sem entendermos porque entramos tão depressa nessa noite escura:

1. Humedecer a ponta do marcador para ver se ele volta a funcionar; 
2. Lamber a tampa metálica do iogurte;
3. Andar de loja em loja olhar os preços e dizer ao vendedor: Só estou a dar uma vista de olhos;
4. Ir a um conserto, entrar na plateia e saltar para os camarotes desocupados;
5. Fazer um jogo de futebol com equipas com e sem camisola;
6. Baloiçar a lâmpada queimada para ver se ela volta a funcionar;
7. Aproveitar garrafas plásticas de refrigerante e colocar água no frigorífico;
8. Receber visitas e mostrar a casa toda;
9. Decorar vasos com flores de plástico;
10. Comprar carro novo e não tirar o plástico do banco só para dizer que é novo; 
11. Lamber a ponta da borracha para apagar o erro;
12. Usar molas de roupa para fechar sacos de arroz, açúcar, massa, etc.;
13. Pôr algodão na árvore de natal para dar efeito de neve;
14. Passar saliva no cotovelo para amaciar;
15. Guardar sobras de sabonete para fazer uma bola só;
16. Convidar amigos para jantar no seu aniversário e pedir para cada um levar uma coisa;
17. Consertar a tira da sandália com agrafador; 
18. Enfeitar a estante da sala com lembranças de casamento; 
19. Usar o fio dentário e depois cheirar para ver se o dente está cariado; 
20. Tirar cera do ouvido com a chave do carro ou com a tampa da caneta; 
21. Guardar panos de cozinha velhos para as limpezas; 
22. Ir ao restaurante e antes de fazer o pedido perguntar se aceita cartões ou tickets.

 

Se cumprimos dez - e bastam dez - destes tenebrosos indicadores, podemos começar a pensar em retirar o cavalinho da chuva, porque bem mais cedo do que mais tarde vamos ter de o vender para comprar forragem para o pequeno-almoço.  

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A Gaffe gasolineira

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.19

Para o Rui

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É irritante e provoca-me taquicardia ver, nas filas de abastecimento de gasolina, um homem que antes de pegar na mangueira e enfiar o manípulo no depósito, vai meticulosamente retirar um toalhete para protecção da mão que embala o berço.

 

Na esmagadora maioria dos casos, não é necessário e faz-me pensar naqueles que depois do chichi - ou do xixi, conforme os casos, que há gente para tudo - esfregam meticulosa e quase compulsivamente todo o que vai das unhas até ao cotovelo, como se o que acabaram de segurar fosse o repositório de toda a gama de bactérias e de outros bichos maiores, visíveis a olho nu – em 80% dos casos não se vislumbram bichos grandes e horríveis e nos restantes é fácil perceber o padecimento do rapaz pela cor anil ou esverdeada do sorriso confrangido.   

 

Não sou, de todo, contra esta social, higiénica e polidíssima regra - muitíssimo pelo contrário -, mas um homem que se preza agarra na mangueira com a mão nua - e não a cheira depois de colocar o manípulo no lugar - e esquece, de vez em quando, de lavar as mãos antes de sair do WC sem que notemos diferenças palpáveis e sem que disso venha mal ao mundo.

 

Há minúsculos gestos masculinos que são tão maçadores, tão obsessivos, tão obcecados e tão enervantes como aquele, feminino, que consiste em arrastar, puxar, repuxar, esticar, retesar e tentar alongar, como se não houvesse amanhã e o Senhor estivesse a chegar para chicotear os pecadores, a exígua mini-saia que tenta estrangular a dona sempre que a rapariga se levanta.

 

O ideal é a bicicleta. Não é poluente, não implica a mangueira e, quando o faz, o ar gelado do Inverno encarrega-se de aniquilar qualquer sinal de vida mais matreiro.

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A Gaffe inútil

rabiscado pela Gaffe, em 27.11.19

Gaffe

A Gaffe começa a considerar maçador que, no aconchego da sua caixa de correio, lhe digam que é fútil, oca, vazia, tonta e superficial, embora sinta que tal colecção de epítetos possa conter alguns que não deixam de ser repetidos.

 

A Gaffe sempre soube que era apenas um balão repleto de ar.

 

Nunca prometeu ser um reflexo da Humanidade trágica, ou a compenetrada tragédia da galáxia por onde parece vaguear sem qualquer dose de pensamento crítico.

A Gaffe jamais se apresentou como ícone do raciocínio analítico ou influenciadora e representante inata de causas quebradiças que borbulham por baixo das saias de assessores de amores, clamores e glamores fracturantes e nunca disponíveis fora de horas.

 

A Gaffe nunca teve nada para dizer.  

 

A Gaffe nunca ambicionou ser mais do que, nas garras da futilidade, um estampido inútil que não perturba em demasia o sono dos que justos vão bufando as brasas dos mais renhidos fogareiros do saber dizer.           

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Gavetas:

A Gaffe por "costumizar"

rabiscado pela Gaffe, em 22.11.19

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O template que uso é absolutamente antiquado. Suspeito que já nem existe no rol da plataforma que me dá abrigo. O SAPO descobriu novos nenúfares.

A verdade é que uma rapariga arejada se sente um bocadinho apertada neste desenho antigo. Deveria actualizar estas Avenidas, abrindo-as à modernidade, qual Napoleão, qual Pombal, qual Maria Leal.

 

Tenho, contudo, de confessar que quase sofri um AVC quando decidi costumizar estes passeios. Acertar com as riscas e com a escolha do fundo e com as medidas do cabeçalho, foi um trabalho descomunal que me fez sair daqui a parecer a protagonista do Exorcista nos seus momentos mais esverdeados. Acabei por me contentar com o aspecto que tem, mas confesso que sinto as portas a bater sempre que respiro.

 

Vivo neste blog como num T0. Levanto uma perna e abro uma janela, espirro e soltam-se as sanefas, afasto as cortinas e desaba o fogareiro - sou uma rapariga campestre -, estico os braços e tomba a caixilharia da marquise, bato as pestanas com mais força e escaco a louça do WC.

 

Uma maçada. Não se apanha sol e fica-se com sardas assanhadas mesmo assim.

 

Não entendo rigorosamente nada de personalização avançada e o mais próximo que estive do CSS foi durante os episódios do CSI Las Vegas que suspeito não terem nada a ver com este assunto, apesar de não me importar nada de ser costumizada por Gary Dourdan.

 

Vou às apalpadelas, embora de órbita mais ou menos prevista.

 

Não sou apologista do tuning, mas às vezes apetece-me muito olha e ver uma macacada infinita pendurada aqui. Receio ter dentro uma rapariga pronta a fazer saltar os faróis, a desatar o colorido do pára-choques, a sobrecarregar os laterais com desordenados slogans, a iluminar o tejadilho e a enfiar apetrechos aerodinâmicos no carburador, tudo ao som de uma batida bem sonora e bem pedrada.

 

Depois controlo-me. Lembro-me que, na única vez que fumei um charro, senti que a todo o momento me iam saltar os olhos e rebentar as maminhas. Não foi uma experiência agradável e dei comigo com a cabeça, enfiada no lavatório, a levar com jactos de água como se fossem meteoritos. Deixo, portanto, charros e costumização avançada para os profissionais.      

 

Eu fico-me por aqui, sentadita no meu calhambeque a ver passar os bólides.

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A Gaffe horrorizada

rabiscado pela Gaffe, em 18.11.19

A Gaffe horrorizada.jpgA Gaffe decidiu torturar os homens da casa. O maninho e o amigo gigantesco que veio passar uns dias junto desta ruiva. Ambos suplicam o comando da TV e a ambos é dada uma condição para o obterem. Devem confessar 10 atrocidades que cometem quando estão sós durante horas a fio, fechados em casa. Devem ser barbaridades que saibam comuns a todos os rapazes.

 

Olham um para o outro e, para espanto desta rapariga nada cautelosa, começam a enumerar sem qualquer pudor aquilo que até às paredes deveria ser poupado.

 

A Gaffe hesitou imenso em revelar o que ouviu, mas considera serviço público anunciar ao mundo o que estes trogloditas que pensamos civilizados no aconchego do nosso lar, são capazes de ousar quando os deixamos sós.

Algumas das revelações, por escabrosas, podem ferir susceptibilidades e convém que sobretudo virgens e beatas se afastem daqui de imediato.

Conheçamos então do que estes mostrengos são capazes:

1

Esbardalham-se no sofá, com os pés pousados na mesa de apoio, a fazer zapping. Pelo caminho enfiam a mão nos boxers, misturam o que dentro há para misturar, e levam depois os dedos ao nariz;

2

Esbardalhados ainda no sofá, com um braço a apoiar a cabeça, parados a avaliar as maminhas aos pinchos das coristas do Portugal em Festa, tentam cheirar o sovaco, porque sentem qualquer coisa a apodrecer;

3

Vão tomar duche e ensaiam em voz alta o discurso que vão usar para romper com a namorada, ou debitar na frente do Grande Chefe, enquanto fazem xixi nos azulejos e no tapete que impede que escorreguem;

4

Experimentam penteados, depois de se exercitarem ao espelho em poses de culturista. Pensam seriamente em fotografar a pilinha. Só não o fazem porque se esqueceram de levar o telemóvel. Insultam-se e praguejam contra o esquecimento;  

5

Mal sentem fome, abrem o frigorífico e retiram, mexem, enrolam, vistoriam o que há dentro. Comem de pé o que lhes agrada, com as mãos e com a porta aberta. Enfiam um pedaço de pão no frasco da maionese, cheiram os pickles e demais miudezas, levam um ou outra à língua só para provar e voltam a enfiar se for azedo o lambido no sítio;

6

Pensam vestir-se e começam por cheirar a roupa. O colarinho das camisas, o tecido debaixo dos braços, o interior da braguilha dos jeans e, pasme-se, as cuecas, são peças que gostam de inspeccionar com o nariz;

7

Pegam nos livros que estamos a ler, depois de uma sessão de Kung-Fu em que venceram Jackie Chan e de um número de vaudeville em que foram o Sinatra com o desodorizante a servir de microfone, e lêem o último capítulo com um único objectivo: contarem-nos o desfecho;

8

Abrem as nossas gavetas e retiram a lingerie que encontram. A única perversidadezinha que cometem consiste em tentar vestir o soutien mais cobiçado e caricaturar ao espelho a rapariga que os recusou, mas que lhes ficou na memória;

9

Dão uma vista de olhos à mais recente pornografia na net para passados uns minutos perderem o interesse e começarem a googlar o mais absurdo que conseguem inventar. Mulheres com pêlos nas orelhas, Constuitução da República Eslovaca ou choques eléctricos nos testículos dos nazis, são hipóteses a considerar;

10

Por não haver rigorosamente mais nada para fazer, fotografam finalmente a pilinha com o telemóvel. Olham a fotografia, acham um nojo, pequeno e tristonho, e desistem de a enviar à boazona que engataram no baptismo do sobrinho e que os presenteou há minutos com uma foto das férias onde toda a paisagem está tapada por duas mamas ampliadas. Reconhecem que já estavam bêbados quando a conheceram. 

 

Horrorizadas?

 

A verdade é que há razões para tal.

Saber que um jovem e conceituado professor de uma das mais distintas Universidades da Europa e um jovem engenheiro físico de importância vital para uma empresa que opera numa área que ultrapassa um mortal mais simples, enumeram tais horrores como comportamentos comuns a todos os homens que ficam sozinhos - e que pelo menos um dos enunciados é recorrente -, é ficar a um passo de admitir que eles, os homens em geral, quando sozinhos, conseguem ser muito mais civilizados do que nós!  

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A Gaffe sem argumentos

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.19

Our Lady of Good Counsel, Bartolomé Pérez, c. 16

Uma das maiores inutilidades que entopem as nossas vidas é despejarmos tempo nas sarjetas a argumentar com quem nos detesta seja como for.

É apenas importante verificar se pronunciam bem o nosso sobrenome.

Mana

Imagem - Nossa Senhora do Bom Conselho - Bartolomé Pérez, c. 1680

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A Gaffe com a carta do Manelinho

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.19

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"Ai, Nando, qu'é agora qu'ele vai ler a carta do Manelinho ao meu país!"

 

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Gavetas:

A Gaffe com uma vénia

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.19

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"E as meninas conhesse o meu Carlitos daonde?"

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Gavetas:

A Gaffe vê uma história

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.19

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Do fundo dos séculos, a ordem estava escrita na memória dos povos.

 

Na ala abandonada do castelo, onde cresciam desgrenhadas silvas, despenteados troncos, furiosos ramos de árvores que enlouqueciam devagar; onde os lagos secos recolhiam folhas calcinadas; onde os pássaros tinham desistido de fazer os ninhos nos beirais destruídos das janelas fechadas e as estátuas de mármore branco e de alabastro tinham sido invadidas por líquenes e musgo; ali, no torreão mais alto, erguido na terra ressequida que se esvaía nos dedos das gentes cinzentas e queimadas, onde a desolação e a sombra matavam a luz estendendo os dedos por todas as estradas, armadas com punhais de medo e de ameaça, onde a morte espreitava em cada esquina, em cada passo, em cada choro de criança, a Princesa tinha sido encarcerada.

 

A ama vigiava.

 

Avançava lenta. Os veludos e véus pesados do vestido levantavam a poeira de prata que pousava nas folhas e nos anjos dos lagos de mármore mortos. Velha como o tempo dos segredos, vigiava.

 

Ao menor som, ao menor gesto, à mais pequena lágrima, a ama surgia, mordia e lancetava. Vinha e ceifava, quem ousasse tentar imaginar um fio de cabelo da Princesa.

Os corpos encontrados nas ruelas eram incendiados para que a peste não encontrasse modo de avançar. O fumo e as cinzas erguiam-se e aliavam-se à penumbra que se adensava sobre a terra. Tinha deixado de haver amanhecer. Havia apenas uma claridade amortecida, porque a luz não surgia no corpo das nuvens de poeira e cinza. O reino gemia de dor e desespero.

Os pássaros haviam desistido de cantar. Abriam as asas sem voar, pousados mudos nos braços das laranjeiras secas e os sussurros das ruas não chegavam a tocar as paredes do quarto de Sua Alteza. As horas desfiavam os seus fios invisíveis enredando o tempo. A Princesa mantinha-se quieta e muda. Tentava não pensar, escoar o que se sentia a sentir e que lhe apertava o peito sem se conhecer tenaz. Os dedos frágeis apertavam a ausência de memórias. Inventava os contornos, os desenhos herméticos, os símbolos e as insígnias da imensa solidão, mas não a sentia nunca por nunca a chegar a conhecer.

 

Ao canto do quarto, de dentro das sombras, erguia-se o corpo velho da ama que havia servido e protegido desde o começo dos tempos todas as Princesas.

Tinha sido a escolhida. Morreria a defendê-la. Nenhuma seta, nenhum punhal, nenhum veneno, nenhuma espécie de morte tocaria a bainha do vestido da menina sem antes tocar o seu coração gigante de animal protector.

 

De cem em cem anos, a Princesa assomava a uma das janelas do torreão.

A velha ao lado. Amaldiçoando os ganidos da multidão. Ganidos como ferros intermináveis, afiados pelo som de uma dor eterna.

Se os olhos da Princesa tocassem nos que choram, tudo seria perdoado. A terra abriria. A floração da Esperança. A luz inteira jorraria pelas ruas. O olhar da menina era o Milagre.  

 Mas Sua Alteza sorria, não olhava. Não os via. De cem em cem anos.

 

Apesar da desolação, do medo, da ameaça de condenação eterna, o povo daquele dia, cem anos passados deste um outro dia, arriscou a morte, que vida não era. Forçou o portão de ferro enferrujado. O que iam fazer era um sacrilégio.

Havia chegado o tempo que a ama temia.

 

Os gonzos rangeram e as portas abriram. Uma corrente de ar gelada rompeu pelo quarto e tocou nas mãos de Sua Alteza. A luz tocou-lhe a barra do vestido. Uma luz cansada e ferrugenta. O sol era diferente nesse dia? Os aromas que vinham dos jardins de longe tinham mais peso, sufocavam. A menina sentiu uma dor pairar naquele instante. Uma dor que não era a dela, mas que vinha devagar e se apoderava de tudo. Chispas de fúria e de ruído anunciavam o caminhar do povo. Ergueu-se e esperou. O ar tornava-se gelado. O denso azul da tarde tinha submetido o aposento, e a Princesa entendeu que da penumbra e da sombra, do escuro e da bruma, a ama não voltava. O frio era uma faca e a luminosidade era agora azul.

 

As portas abriram-se.

 

A luz ténue e dourada do exterior invadiu de manso o quarto e o povo entrou.

Partículas de poeira volteavam em redor de Sua Alteza e um perfume de sândalo começava a sentir-se, enrolando o ar, escondendo-se nas fendas das pedras das paredes. A menina aproximou-se estendendo as mãos. Sedas e veludos, rendas e brocados, arrastavam-se no chão de pedra polida. O barulho do vestido era diferente. Como se houvesse pressa, como se existisse urgência no caminho, como se houvesse gente à espera.

o povo trazia nos olhos o brilho do medo. Trémulo, de joelhos.

Naquele instante a Princesa entendeu.

Aproximou-se. Estendeu as mãos.

 

A bengala tombou no chão como um animal morto e então aquela gente ajoelhada viu em carne viva que a sua Princesa não via.

Era cega.

 

Ilustração - Olga Esther

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Gavetas:

A Gaffe num sorriso

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.19

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São tão bonitos os homens que sorriem com os olhos!

Ficam iluminados. De olhos grandes, fechados com gargalhadas dentro. Os sons ecoam neles como nas abóbadas de duas catedrais.

Quando os olhos dos homens se riem, as palavras ditas antes parecem balões largados no ar, a perder a forma.

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A Gaffe com Tolstoi

rabiscado pela Gaffe, em 15.10.19

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É claro que hesito.

Se pensar ligeiramente mais alto acabo por descobrir a mais evidente das verdades:

Não interessa absolutamente nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a escoar frases patetas - patéticas, também - que tropeçam e escorregam, acabando esparramadas nos meus braços.

Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:

Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, com a certeza da existência de alguém a ouvir, babado e interessado, a alterar a vida, a repensar o ser, a duvidar do ego, a rastejar só para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.

 

Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto: Não há coincidências.

 

Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de Nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo: 


Narra a tua aldeia e narrarás o mundo.


E bem ou mal, atarantada e trôpega, lá volto eu a abrir os portões da quinta.

Fotografia - Sydney Hirsch

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Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


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