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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da MTV

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.19

MARIUS VAN DOKKUM Animação - JOEL REMY.gif

 

A sala de concertos estava repleta.

O público borbulha nervoso à espera dos finais das sinfonias de Bach.

Na semana anterior ouvira-se Wagner. Era a vez dos finais de Mahler, e de Schumann. Os fins de Debussy ficariam para o mês seguinte, que as duas outras salas existentes estavam ocupadas pelo concurso do mais rápido maestro do momento, aquele que num ápice acaba Beethoven, a nona ou outra que escolherem.    

 

O homem acomodou-se na poltrona. O camarote tinha sido reservado no imediato momento em que foi anunciado o concerto. Podia esgotar e o senhor nunca se perdoaria ter deixado - por descuido, indolência, falta de atenção ou letargia -  de ouvir os finais das sinfonias.

Ainda pensou que talvez fosse melhor assistir ao concurso do maestro mais rápido do mundo, na sala ao lado daquela, mas o mês ainda estava no começo e se se apressasse seria possível assistir à final.

 

Olhou a plateia.

Havia gente por todo o lado e de todas as classes. Pré-primária à frente, logo seguida do primeiro ciclo, segundo ciclo, jovens universitários, licenciados, doutorandos e professores de cátedra, misturados com sucessos de carreira oriundos de outros lados e de percursos distintos destes.

Sentia-se pertença do grupo dos profissionais que, sem trilho académico, tinham atingido todos os objetivos propostos e alcançado o sucesso almejado num curtíssimo espaço de tempo. Aos quarenta era já reconhecido como incontornável perito nas matérias que só os muito mais velhos dominavam. Novo, muito novo – os quarenta o que são?! -, tinha o estatuto que sempre desejara e pelo qual tinha lutado todos os instantes. Depois, foi só correr de sucesso em sucesso, até à reforma - parca, mas segura - que autorizava a compra do camarote para assistir aos finais das sinfonias.

 

A cortina moveu-se nervosa. Tardava alguns segundos.

Neste tardar, o homem foi acometido pela sensação de nunca se ter sentido diferente nos momentos em que alcançava cada um dos seus propósitos.

Nem depois.

Nos finais das suas lutas, das suas pressas, nunca se tinha sentido maior ou menor, pior ou melhor. Finalizado um projecto, corria atrás do fim de um outro, sem nunca se ter apercebido que procurar o fim das coisas e das lutas, buscar o terminal dos objectivos com a ânsia de o atingir com um brilho de um raio, tinha apenas permitido comprar o bilhete para o concerto a que assistia e possibilitado a reserva do lugar para o concurso de maestros.

 

Levantou-se, desta vez muito devagar, e saiu.

Em casa, pegou no comando da televisão e foi de canal em canal à procura das sinfonias inteiras.

Encontrou apenas a MTV.

 

Ilustração - Marius Van Dokkum; Animação - Joel Remy 

 

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A Gaffe de Genghis Khan

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.19

Huang Yang Chih.jpg

 

O almoço tagarela decorre num barulhento restaurante que serve comida caseira e que visito pela primeira vez a convite de duas amigas que se cansaram de manobras groumet.

 

As palavras à deriva não cativam e procuro distracções nas mesas ocupadas.

Na minha frente um homenzarrão de costas gesticula animado e galhofeiro. Um dos interlocutores está tapado pelo corpanzil da discussão que parece estar relacionada com as comendas de um comendador a quem permitiram ser um trapaceiro.  

Ao lado, ainda mais risonho, um homem de pouco menos de quarenta anos torna-se o foco de toda a minha atenção.

É magro, seco, relativamente baixo, sem indícios de ginásios tresloucados, de mão pequenas - um homem não pode ter mãos pequenas! -, com um cabelo desmanchado, castanho, com madeixas soltas claras, quase ondulado, de barba de três ou quatro dias desleixados, sem plano e sem controlo e um sorriso deslumbrante. Traz um pólo azul com um logo branco, de trabalho, desconcertado e bambo, aberto, permitindo breves aparições das clavículas bonitas. Um homem banal, muito bonito, mas aparentemente sem nota capaz de me atrair.

 

No entanto, vejo-me incapaz de não olhar para ele, de me sentir presa, de me sentir cativada, de me sentir seduzida e de considerar que aquele trintão desleixado à minha frente é um dos mais sensuais rapagões da história das minhas histórias.

Espreito-lhe os gestos, masculinos e sinceros. Observo-lhe a atenção divertida com que ouve os companheiros. Vejo-o responder, sorrindo sempre luminoso e franco, sempre atento e irrequieto e nem as mãos pequenas e brandas são capazes de me desviar o olhar.

 

Não entendo.

 

O homem não tem qualquer uma das características que me levam a cometer indiscrições ou que me atraem de forma tão física. Esta constatação obriga - ainda mais - a que o observe, o espie e o deseje. O homem apetece-me e eu não sei porquê.

 

Depois de acabar de beber o copo com vinho, levanta-se. Traz umas miseráveis calças de ganga largas e desbotadas, velhas e coçadas. Vira-se, de repente, e volta a sorrir à laia de despedida.

 

Descubro então.

 

Os olhos, que fazem lembrar mogóis, estepes, tundras e guerreiros - Genghis Khan a cavalgar pelas mesas de um restaurante caseirinho -, quase se fecham quando ele sorri.

Foi esse extraordinário pormenor que me atraiu, que o tornou atraente, que fez com que eu o desejasse, que subitamente o tornou único.

 

A beleza, a mais subtil, imperceptível e tímida beleza, é como um guerreiro escondido nas frestas ou ameias da nossa desatenção. Dispara, mesmo já vencido. Podemos conquistar todos os campos de batalha, que tombamos perdedores se esquecermos que há lâminas que demoram tempo e silêncio a chegar ao coração.  

 

Imagem de Huang Yang Chih

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A Gaffe barrada

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.19

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Conheci, ao longo desta longa passeata, pelo menos três tipos de comentadores anónimos que se distinguem de forma clara uns dos outros.

 

É evidente que o primeiro grupo não pode ser considerado danoso – muito pelo contrário. É constituído por pessoas que não subscrevem qualquer rede social e que não tutelam qualquer blog, mas que consideram interessante fazer o favor de acompanhar esta rapariga desequilibrada e opinar acerca das tolices que vai escrevinhando, usando um petit nom, ou deixando em branco, por defeito, a sua assinatura. São anónimos de uma amabilidade, gentileza, educação e absoluto bom gosto que - concordando, ou discordando -, contribuem para a elevação do espaço - tarefa a todos os níveis hercúlea.  São acolhidos comme il faut, pois que as suas características, como é bom de ver, não são - nem de longe, nem de perto -, aquelas que são apanágio dos grupos que se seguem.

 

A eventual inconveniência dos dois últimos é directamente proporcional à facilidade com que insultam e cospem para o chão esquecendo que o piso conspurcado não é o meu, é o deles.

 

O segundo bouquet tem como expoente máximo os anónimos que passam por estas avenidas deixando invariavelmente um rasto de baba nauseabundo. Não chegam a ser insultuosos, porque não chegam a ser visíveis. Há que lhes atar ao cachaço um osso qualquer, para que pelo menos o cão brinque com eles. As suas hemorragias verbais não são completamente imundas, não estão na base da degradação moral, não são abominavelmente degeneradas. O raquitismo mental destas criaturas torna-as invisíveis. Não incomodam.

 

O terceiro grupo é de mais difícil trato. É impudente e infame. É um nicho com olhos de um porco que nunca olham para cima; com o focinho de um porco que gosta de esterco; com o cérebro de um porco que só conhece a sua pocilga e com o grunhir de um porco, que só grita quando dói. Estas criaturas abrem a boca de porco, colmilhosa e horrível, e deixam sair tudo o que pode encher de nódoas a roupa lavada.

Não têm forma, não têm cara, arrastam uma estrutura cartilaginosa, sem ossos, inconsequente e viciosa, mal equipada e insegura. Tornam-se protótipos de gente pequena.

São circuncisados mentais e deitaram fora a parte errada.   

 

Foi precisamente por ter sido assediada por um representante desta última tribuneca - que parece saber tudo acerca da minha vida sexual e com ela fantasiar no escuro da toca onde se masturba -, que passei a usar a possibilidade que o Sapo me dá de restringir os comentários, mesmo correndo o risco lamentável de excluir aqueles que me seriam queridos, ou enriquecedores.     

 

É que escreverem que sou uma puta mal cheirosa (...) que tem uma obsessão por pilas (...), é uma terrível mentira.

Toda a gente sabe que uso Narciso Rodriguez!

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A Gaffe estremunhada

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.19

Carole Lombard in Nothing Sacred.gif

 

Sobem as persianas. Arrastam cortinados. Abrem as janelas. Escancaram portas. Batem em latas. Rompem aos saltos e aos pinotes. Fazem estalar no ar chicotes. Chamam palhaços e acrobatas.

 

- Levanta-te! Deixou de chover. Está um sol óptimo lá fora! Vá! Levanta-te. O sol está lindo!

 

Esta gente espera o quê?!

Que eu faça a fotossíntese?!  

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A Gaffe de Guillaume

rabiscado pela Gaffe, em 07.05.19

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Revejo as velhas fotos de Paris.


Fotos banais do mais banal dos amantes da cidade, pronto a oferecer-me tudo o que tem, mesmo o mais tolo, mesmo o mais ridículo.


No Palais Royal. Na galeria de arte de luz amarela e estranha. Frente à Torre Eiffel, sorrindo basbaque. Na Rue de Monceau onde por perto pairou Proust.


Neste vale de imagens, a minha distância a verter saudade.


Lembro-me da textura da mesa no Les Deux Magots onde o encontrava, a mesa de Sartre e de Genet, mas é difusa a memória do meu aranhiço que de negro vinha, de azul nos olhos, réstias lapidadas de existencialismo, falar-me de desolação, porque o Inferno era eu, que não o amava.


Encontro finalmente na base da memória e de uma imagem o nome do rapaz: Guillaume.

 

Guillaume!...

 

E subitamente sinto-me sozinha. 

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A Gaffe das zebras

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.19

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O poderoso senhor sabe, mas não quer que lho digam, que o seu queridíssimo sobrinho é homossexual, pois que se lho disserem, mesmo já sabendo, terá de o correr pela porta fora depois de lhe cravar dois socos no focinho.

 

A Gaffe receia que o poderoso senhor seja atropelado.

 

Fotografia - Mihir Mahajan

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A Gaffe dos tronos

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.19

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A Gaffe decidiu na sua tarde letárgica não ficar no escuro - ilusões - em relação à série mais disputada e mais referida dos últimos tempos.

Andou de comando na mão, serigaitando enfurecida pelos diversos canais ao seu dispor, de olhos de psicopata descontrolada e muito próxima de ser confundida com uma obsessiva-compulsiva, até encontrar o episódio número três da temporada oito de Games of Thrones, GoT para os amigos.

 

Estancou.

 

Engana-se quem pensa que apanha de uma penada toda a história e que encaixa o argumento sem percalços. A série é negra de tão enredada e deixa-nos à toa se a começarmos pelo fim. Nada que impeça a Gaffe de dormir.

 

Lamenta-se, no entanto, que ninguém se tenha lembrado de aceder uma luzinha. Aquilo é o breu durante mais de uma hora. As silhuetas absolutamente envoltas pelo lume não permitem que as personagens se identifiquem com clareza - como é evidente.

Há, porém, sinais que possibilitam uma diferenciação. As personagens principais usam MA-RA-VI-LHO-SOS casacos de peles. Se vislumbrarmos uma gola gigantesca de pêlo, ou se visualizarmos uma capa de couro encimada por uma fabulosa écharpe de um vison anfetamínico, podemos de imediato concluir que estamos na presença de uma figura importante em toda a trama e de todas as temporadas. O couro também não é de desprezar, pois que é usado por gente muitíssimo corajosa, muitíssimo nervosa, muitíssimo guerreira, quiçá heroica.   

 

A Gaffe deu conta da presença de dragões. Não será de estranhar, tendo em consideração que os outros bichos são o guarda-roupa. Há uns que cospem fogo azul e que são aparentemente maus, e outros que soltam o fogo habitual e que se deixam montar por gente gira e de casaco de peles. Ficou felicíssima. Há imenso tempo que não os revia. O último com quem conviveu dava aulas de matemática no Colégio onde penou esta rapariga e era massacrado por meia dúzia de minorcas muito pouco educados. Sem berço e logicamente sem casacos maravilhosos.

 

A propósito de minorcas, a Gaffe reparou num anão - ai, perdão!, num senhor de estatura extremamente baixa -, que, neste episódio estava, juntamente com uma data de gente pobre - sem agasalhos de peles, portanto -, enfiado num bunker, agachado atrás de uma pedra, ou então de pé - intuiu-se, mas podia perfeitamente estar de joelhos, que a perspetiva não ajudava -  a olhar em frente, muito calado, muito circunspecto, mas muito maneirinho. A Gaffe pensou imediatamente que era um grande nome da série, pois que não fazia muito sentido os grandes planos com que o bafejavam, se o anão – Perdão!, o senhor de estatura extremamente baixa -, não tivesse importância gigantesca, e que estava ali a olhar em frente apenas porque aguardava o desfecho da porrada sem fim que ocorria no exterior.

 

Uma desgraça.

 

A Gaffe nunca em série alguma - nem na Guerra das Estrelas - assistiu a tanta bordoada!

Aquilo eram cabeças pelo ar, espadas cravadas nos rins, flechas a arder rasgando a noite incendiada, corações arrancados à paulada, figurantes esventrados lançados ao ar em chamas, tripas a jorrar pelos olhos, pedaços de corpos no chão empapado em lama, sangue e vísceras e um interminável coro de gritos excruciantes. A Gaffe compreende que fossem obrigados a ressuscitar os mortos, que não há elenco vivo que aguente tamanha chacina.

 

O responsável - segundo parece - aparece por fim.

Imponente, resistente, poderoso, ameaçador e muito sisudo. É um senhor encorpado, com caracóis calcificados e com uma cara de quem já teve melhores dias. Avança sem qualquer impedimento pelo meio dos cadáveres que se levantam, qual lázaros por atacado, de espada em punho, deixando adivinhar que tem um propósito igual à sua determinação. Ficamos a saber que é à prova de fogo, pois que um dragão montado por uma menina vestida de branco, loira platinada, com um penteado que deve ter sido elaborada na primeira temporada da série e pensado para durar, o incendeia sem que o maléfico chamusque o que quer que seja. O maldito mata a fonte de ignição e faz tombar a virgem - parece-lhe, mas a Gaffe só viu este episódio. Aparece um herói todo porco - na série não há chuveiros - que tenta salvar a honra do convento e que é, como seria de esperar, exterminado.

A donzela, que se revela dura de roer, dando conta de uma quantidade significativa de lázaros, chora, tapando o agonizante com o penteado e com as vestes brancas que continuam imaculadas.  

 

A Gaffe é levada então a acompanhar o malévolo que se aproxima de uma personagem que lhe pareceu a Clarinha da Heidi, mas com uma cadeira de rodas mais steampunk. Adivinha-se a importância da figura pela gola do casaco e pela passividade com que enfrenta o perigo. Olha o infinito à espera que a espada do senhor de caracóis calcificados lhe arranque o que ainda mexe, ou seja, a cabeça.

Subitamente, já a arma se erguera, salta do nada uma menina que num golpe complicado espeta um punhal no ventre do malvado que explode e faz desintegrar todo o exército de mortos que, não fosse este pormenor, estariam mais ou menos vivos e a matar completamente aquilo tudo.

O episódio acaba, imediatamente a seguir a uma senhora - suspeita-se que íntima do falecido cornudo - ter largado no chão uma coroa pirosa e se desfazer ao longe, logo ali muito perto da linha do horizonte. 

 

A Gaffe não volta a assistir a debates com os candidatos às eleições europeias.   

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A Gaffe de Sartre

rabiscado pela Gaffe, em 30.04.19

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A Gaffe desconhece se chegados aos trinta - e poucos - não se atravessa uma crise existencial que anuncia a dos cinquenta. O certo é que esta rapariga anda sartriana e capaz de questionar tudo quanto lhe diz respeito, muito quis saber quem sou, o que faço aqui, quem me abandonou, de quem me esqueci.   

 

Num assomo de melancolia misturado com uma pitada de náusea e um cheirinho a rosmaninho vindo do jardim onde não passa, a Gaffe chegou a colocar em causa a sua permanência nestas Avenidas, optando por outras paragens mais zen, mais minimalistas, mais clean.

 

A Gaffe, em última análise, aborreceu este cantinho. Quer largar a tralha e ficar apenas de collants, qual cavalheiro de Giovanni Battista Moroni. 

MORONI, Giovanni Battista.jpg

Colocou a hipótese de lhe alterar o layout, o template, a macacada, transformando toda a imagem que a tem acompanhado durante quase dez anos, deixando em simultâneo de ser genérica para se especializar, pois que toda a gente sabe que os genéricos não são como os de marca. Infelizmente, na busca do Graal da metamorfose, a Gaffe encontrou apenas um cabeçalho que encaixa lindamente num dos seus blogs favoritos, A Marquesa de Marvila, e coloca-o, se caso haja interesse e permitam que o acabe, ao dispor da patrona do dito.

M.Marvila.jpg

Encontrou em seguida um bando de gente giríssima e de óptimas famílias que poderia figurar no cabeçalho desta alteração projectada, ou tomar chá com esta rapariga tão pouco sociável. Embora fosse um conjuntinho que facilmente representaria - cada menina na sua vez -, as diversas faces desta lua, nenhuma era ruiva. Uma maçada, pois que faltava ali o seu sinete, a sua imagem de marca.

Dior, photographed by Loomis Dean - 1957.jpg

Alvitrou seguir as pisadas de Joana Vasconcelos e colar penduricalhos por todo o lado, ou revestir todas as paredes com rosetas de qualquer coisa Kitsch. Poderia com esta manobra despertar o interesse de Berardo, senhor com dedo e olho, quer para obras-de-arte, quer para administradores de bancos, mas depressa percebeu que Dias Loureiro já regressou há imenso tempo a Portugal e que provavelmente já veio bem forrado, bem estufado, bem almofadado e sem bigode farto que é coisa de mafiosos de primeira linha que vestem fatos pretos e traçam lenços no pescoço - de preferência nos toutiços de bancos que serão resgatados da falência por aquela massa amorfa que é o povinho.      

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Pensou transformar as Avenidas num manancial de bisbilhotice, de estardalhaço, de exposição, de expiação e de espionagem de toda e qualquer privacidade, publicando ensandecida tudo o que conseguisse apanhar desprevenido e sem biquinho faceboquiano, mas depois considerou que se nem o moderníssimo Acordo Ortográfico interessa ao Brasil, jamais seria atraente qualquer coisa semelhante, ou seja, uma pobre ventoinha desalmada a atirar ao rosto das pessoas coisas iguais às que costuma escrever José António Saraiva - ou Margarida Rebelo Pinto nos seus melhores dias.      

peep.jpgOutra possibilidade seria a de encarnar uma intelectual capaz de nos deslumbrar com páginas de aceso siso, de profundo pensar e de acutilante verbo poético. Muito Virgínia Woolf, muito Lispector, muito Agustina, ou muito Sophia. Infelizmente, a Gaffe não suporta o calor do Rio de Janeiro e jamais se deslocará à Real Biblioteca Portuguesa para ser fotografada em grande estilo mental, cerebral e internacional, agarrada a um livro numa atitude de profunda meditação, a olhar o horizonte, ou debruçada sobre a dor de Rui Moreira por mais um acidental incêndio do outro lado do Atlântico - sei que estás em festa, pá -  no velho Porto, de preferência na casa de Garrett, que permitirá, mais cedo ou mais tarde, a inauguração de mais um hostel modernaço.  

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Seria possível abrir um espaço de críticas e de comentários políticos, mas o único e último choque sentido por esta rapariga no âmbito do pensado, foi ter apanhado com uma das manas Mortágua com um funil giríssimo, numa manifestação que comemorava a Liberdade, a declamar uma quadrinha ao gosto popular com um apelo a Santo António. Pede-se ao Santinho que leve um presidente, eleito em liberdade por um país estrangeiro, para junto de um velhinho qualquer já falecido. A quadra pareceu-lhe de má métrica, mas toda a gente sabe que é brincadeirinha de um Carnaval bloquista - as escolas atravessam o sambódromo divididas em blocos - e ninguém leva a mal. Pelo menos tão a mal como saber que o Ministro da Justiça brasileiro é capaz de se imiscuir no sistema judicial de um país estrangeiro - caiu o Carmo e a Trindade e por pouco não se inauguram dois hostels -, ou que esganiçadas é um impropério digno de figurar no registo criminal e cadastro social do responsável pelo insulto - que nem sequer teve como alvo certo Heloísa Apolónia. O que a chocou realmente neste episódio burlesco foi perceber que uma das manas Mortágua - que venha o Lenine e as distinga -, engordou e tem acne.

A Gaffe, como se prova, também não consegue um comentário político em condições.  

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A crise dos trinta - e poucos - atinge a Gaffe e deixa-a exaurida e sem saber o que fará depois de tudo arder e com medo de entrar depressa nessa noite escura.

Abre Lobo Antunes para relaxar e ficar tudo como está, que o Nobel escapou há muito.

Assim como assim, já não se entende nada no cá fora.      

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A Gaffe de aniversário

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.19

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A Gaffe partilha hoje convosco um pedacinho muito especial da sua vida minúscula.

Por ter decidido só  envelhecer de cinco em cinco anos, o bolo de aniversário é apenas aquele leve e eterno flirt que se mantém com a Primavera.

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A Gaffe não se esqueceu!

rabiscado pela Gaffe, em 21.04.19

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Páscoa feliz!

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A Gaffe "leakable"

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.19

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A Gaffe aconselha toda a rapariga esperta a não visitar o Equador. Só a embaixada envelhece imenso. Quem de lá saiu com mais de duzentos anos foi o avô de Julian Assange, ou aquilo cumpre o famoso setenta vezes sete com um rigor excessivo.

 

É evidente que Julian nunca foi o que as nossas irmãs brasileiras - um grande saravá também para vós, minhas queridas! -, chamam àquilo que no post anterior aparece a abrir o Verão – um gato, até porque é sempre um cão que diz à polícia onde é que escondemos a droga, mas é deprimente, quando o moçoilo pede ao engate de uma equatoriana Sexta-feira à noite para escolher alguém para um forrobodó a três, ter a rapariga a escolher dois dos amigos mais chegados ao rapaz.

 

A verdade é que a Gaffe não simpatiza com gurus, chantagistas, lunáticos, oportunistas e prováveis violadores de suecas novinhas.

Assange também é feio.

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A Gaffe com uma história pequenina

rabiscado pela Gaffe, em 09.04.19

Corremos à procura das nossas histórias e esperamos que a maioria nos deslumbre como brilho das estrelas. Narramos os nossos mais pequenos acontecimentos com uma grandiloquência patega e, ufanos, respiramos fundo quando conseguimos, finalmente, fazer cintilar um pedacinho arrancado à ilusão de termos um diadema de brilhos imperiais a encimar-nos.

No entanto, as nossas histórias mais perfeitas são normalmente frágeis, pequeninas, fáceis de encontrar, fáceis de contar e fáceis de esquecer.

 

Encontrei algures uma destas preciosidades. Não há referência ao autor. Reproduzo-a, traduzindo do inglês todas as legendas, sem qualquer interferência minha e sem macular com minha saracoteante e retorcida escrita o que é cristalino, límpido, e de uma pureza apenas visível no que há de essencial.

 

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Numa noite de temporal a minha namorada viu o que pensávamos ser um pardal morto na nossa varanda. Mal respirava, coberto de formigas e completamente cego.

 

Abrigamo-lo dentro de uma caixa. Depois de passar uma noite no nosso quarto, acordou-nos com um piar agudo.Tentamos alimentá-lo, mas sem sorte. Aproximamo-lo da nossa varanda. Continuou a piar sem parar, durante três horas.

 

Finalmente, o pai veio ao encontro deste piar e começou a alimentar o pobrezinho. Trazia-lhe insectos e pão a cada 10-15 minutos durante todo o dia, durante duas semanas seguidas.

 

O pardal estava a ficar maior a cada dia, mas ainda estava cego. Chamamos um veterinário que experimentou um colírio simples. Funcionou como por encanto! O pardalito até se começou a esconder de nós atrás das flores. O pai começou então a mostrar-lhe como voar pela janela.

 

Um dia acabou por sair. Sabíamos que esse dia chegaria eventualmente. Ficamos realmente preocupados porque naquela mesma noite, e nos dias que se seguiram, houve tempestade. No entanto, três dias depois, o pardal voltou e adormeceu num dos nossos vasos, ao abrigo das flores.

 

Brilha tanto, não brilha?!

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A Gaffe alheia

rabiscado pela Gaffe, em 08.04.19

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Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Em relação ao universo, ainda não tenho certeza.

Einstein

 

Apetecia-me imenso fazer rodear esta citação de florinhas, de coisinhas ou de outras minudências amorosas. Suponho que ficaria mimoso neste espaço - ou no facebook, pois então -, se, é claro, Einstein tivesse sido realmente o seu autor.

 

A responsável pelo dito foi, por acaso, a sua digníssima esposa, Mileva Marić, que, só por um acaso também, foi minimizada, ou mesmo apagada, da Teoria da Relatividade que ajudou a empurrar.

 

Estes tropeços na atribuição de autoria destas pagelas faceboquianas são tão imbecis que levam sempre uma criatura menos exigente a esbardalhar-se no alheio e, como diz Almada:

 

Não te metas na vida alheia, se não queres ficar lá dentro.  

 

Ilustração - Marina Dieul

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A Gaffe e o melhor amigo

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

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Por vezes, as raparigas espertas, devem admitir que um homem que lhes oferece um colorido e gigantesco ramo de flores, em vez de um anel de diamantes com um poderosíssimo apelo aristocrático, o faz ignorando que preferimos Marilyn quando nos diz platinada que os homens passam, os diamantes ficam e que trauteamos muito mais depressa Diamonds are a girl's best friend do que You Don't Bring Me Flowers mesmo debaixo do nariz da Straisand.

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A Gaffe ao jantar

rabiscado pela Gaffe, em 01.04.19

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A partir do mar, subimos a rua do Padrão.
O meu rapagão cabisbaixo e amuado por não ter cedido ao seu desejo de jantar íntimo e eu pronto a flutar na música suave e na luminosiadade macia de um dos meus restaurantes favoritos. 
Encosto o meu ombro ao dele e aperto-lhe a mão. 
Ninguém na Praça de Liège. Ninguém nos caminhos do Passeio Alegre. Ninguém nos telhados do Hotel BoaVista. Ninguém nas ruas e nos becos.


Sobretudo ninguém na rua do Padrão. 

 

Sopa de mexilhões com açafrão e “croutons” de alho. 
Ovos com salmão fumado e caviar.

 

O rapagão tem os olhos pousados na toalha. Se os levantar, sei que milhares de pestanas negras farão sombra na ternura desse olhar. Está perdido, porque usa jeans demasiado gastos e puídos - e logo num dos meus restaurantes de eleição!
Tem uma boca carnuda, com lábios macios e quentes, ligeiramente salgados, e dentes perfeitos. 

 

Pato fumado fumado com ovos de codorniz. 
Caesar com salmão fumado.

 

O meu rapagão tem um imenso corpo moreno, quase chocolate brando, que gosto de fazer ondular. Tem peitorais longos, largos e fortes e que são de ferro se eu lhes tocar. Tem um traço de pêlo, uma estradinha, uma serpente, que nasce no umbigo e desce até me dizer onde começa o paraíso.

 

Robalo com algas e molho holandês. 
“Magret” de pato salpicado com vinagrete morno de hortelã.

 

A minha perna toca na dele. Olha para mim e tenta afastar-se, embaraçado. Durante todo o jantar procurou manter-se discreto, despercebido. Empurro a minha perna de modo a que ela encaixe no meio das pernas dele. O meu rapagão aperta os joelhos, aprisionando-me. Sorri, malicioso. 

 

“Tarte tatin” quente com natas batidas. 
Bolo de chocolate amanteigado.

 

A minha mão desce. Debaixo da mesa, no abrigo branco da toalha, toco-lhe na coxa. 
Pousado o guardanapo, o rapagão agarra-me nos dedos, domina-os e obriga-me a fechá-los ... em redor da conta. 

 

Bebemos àgua. 

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