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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe doseada

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.18

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Uma rapariga esperta sabe que em qualquer situação, a elegância é sempre um dom a manter. Pode eventualmente ser herdado, mas sucumbirá se dele não cuidarmos. Não há nesta área aquilo a que se costuma chamar abébias, embora a Gaffe nunca tenha entendido muito bem o sentido desta expressão.

 

Basta por vezes que uma rapariga se lembre do chinelo que lhe serviu uma vez para enxotar uma barata numa esquina esconsa da vida, para que se esmifre toda uma cultivada sofisticação e apurada elegância, assim como basta que de chinelos calçados tentemos imitar uma prima ballerina numa situação em que bastaria ter cuidado com a coluna.

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A Gaffe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18
 
Tinhas-te enganado no bairro, na rua e inevitavelmente no número da porta, por isso a chuva havia destruído os dois croissants com amendoim e amêndoa, Boulangerie La Môle, Rue de Tourene, empapando o saco retro, pardo, com um cozinheiro balofo e sorridente desenhado a azul. Os braços do homem desfaziam-se, alastrando pelo papel pingado e o traço do sorriso resvalava numa gota azul que escorria rápida, sobrevivendo ao empapado embrulho.
 

Senti o teu perfume muito antes de te sentir os passos, de sentir a tua luva a deslizar no corrimão. O teu perfume altera-se quando a tua pele o toca, por isso, mesmo cega, te reconheço entre milhares.

Trazias o sobretudo bege, aquele que tu gostas e dura há tanto tempo, manchado pela chuva. Nos ombros os desenhos da água do céu escuro de Paris, como se dos olhos tivessem tombado os arabescos tristes. Sorrias quando me mostraste o teu guarda-chuva desdentado pela força do vento e te sentaste no chão mesmo ao meu lado.

 

- Vim esperar contigo. Podemos esperar aqui, os dois, o tempo que quiseres.

 

Abraçaste-me e foi então que comecei a chorar, aninhada em ti. Chorei mais do que a chuva. Encharquei-te o peito de soluços e ganidos.

Ficamos quanto tempo? Quantas horas durou o meu corpo a desfazer-se em água?

Quanto tempo levei a decidir matar o tempo de esperar?

Foi ali que aprendi contigo que a espera só se torna vã no momento exacto em que a nossa alma assim o decide, mesmo sem sabermos porque o fez.

 

Há dois mendigos eternos - tu e eu, ali - que esperam por Godot. Há um povo perdido a aguardar um rei sifiliticamente mágico que perdeu no sol. Há um poeta a sonhar ser amado como um dia amou.

Não há esperas inúteis até ao momento em que as transformamos, mesmo sem saber, em vazio incómodo.

Um povo, dois mendigos e um poeta só podem ter razão.

A espera continua a vida, mistura-se com ela até ser viva. Integra a nossa alma até ser pedaço dela, indivisível, inalienável. Não adia o tempo de viver, porque é já ele.

 

Gostava de me atravessar na porta por onde o tempo passa. Impedir que se escoe, que desapareça. Talvez então eu conseguisse fazer a morte parar, ficar à espera. Talvez então encontrasse um modo de entregar a alguém o tempo que é meu e de que mais me orgulho: as horas empapadas em que eu esperei. Esse tempo exacto. Esse intervalo nítido que finda no instante em que me levantaste porque sentiste a minha espera desistir, abandonar-me a vida.

 

Paris?!

Paris espera sempre, porque nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde partimos.

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A Gaffe num slogan

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.18

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slogans que são manifestos perfeitos e que resumem de forma exemplar a indignação de quem os assume e os transforma em bandeira.

 

Não falo no Yes, we can, tornado pela desilusão em Yes! weekend! ou pela necessidade  de afirmação e resistência, no Yes, we camp, ou ainda pelo ameaçador America First 

 

Falo, por exemplo, daqueles que funcionaram quase como previsão sinistra do que, não sei se apenas metaforicamente, veio a acontecer, como o on mangera les riches, ouvido durante Maio de 1789 e Novembro de 1799, em Paris.

 

Refiro-me aos mais poéticos, inscritos nas ruas de Maio de 68, como o ouvido e inscrito nos muros parisienses je suis comme un oiseau mort quand toi tu dors, que apelava de forma belíssima à consciencialização política dos estudantes que hesitavam.

 

Nunca gostei de ouvir slogans que não fossem susceptíveis de se transformar em lança espetada num determinado tempo ou acção específica, resumindo e revelando um sentir determinado.

Por isso me apaixonei pelo que li, inscrito num cartaz que vi passar nas mãos de um velho, na brevíssima e contida reportagem sobre a desilusão portuguesa que cavalga ainda, mintam o que quiserem.

 

  DE CRAVOS A ESCRAVOS

 

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A Gaffe paisagista

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.18

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Somos por vezes criaturas em que a altivez se foi metamorfoseando, eclodindo e revelando o que de mais escuro existe em nós, sobretudo quando, à nossa frente, temos os que por nós dariam tudo, sabendo que por eles nada trocaríamos.

Desembainhamos a crueldade e tornamos fácil agredir aqueles que nos querem, quando sabemos que esse desejo não tem reflexo em nós.

 

Impomos a sela de Pégaso como condição para aceitarmos que nos transportem as pérolas com que adornamos o pescoço da soberba e obrigamos a que todos os aromas que nos chegam do quotidiano mais comum, sejam submissos reflexos das nossas escolhas autistas.    

 

As janelas do amor que os outros nos dedicam, abrem-se tantas vezes para as nossas vielas putrefactas.

 

Dizemos depois que somos demasiado exigentes, urbanas, sofisticadas e cosmopolitas e que não temos tempo para dedicar à banalidade dos que passam olhando para dentro de nós à procura de chão.

Temos apenas céu.

 

Falamos da indiferença racional e da polida e culta e livre forma de viver e de sentir de mulheres que ultrapassaram as margens da timidez vagarosa que flutua no olhar dos que nos querem, porque a ousadia e a fúria do arrojo dos heróis e dos guerreiros condiz melhor com a velocidade a que nos movemos.

 

Tantas vezes somos mulheres a jacto.

 

Neste percurso de tocadas pelos deuses das avenidas largas e infinitas, de aço, de acrílico, de brilho de navalha, apenas amarfanhamos, comprimimos, sufocamos, o desejo de numa tarde banal e corriqueira, numa rua, numa qualquer ruela abandonada, termos o tempo lento a soprar na cara enquanto alguém nos leva para longe, de mansinho.   

 

Imagem - André Gonçalves

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A Gaffe e uma paixão

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.18

 

 

Há homens que atravessam o tempo e se deixam atravessar por ele, sem piedade ou condescendência, mas sem macular a mais ínfima das partículas de que são compostos.

 

São, na sua maioria, homens de génio que rasgam os limites das impossibilidades quotidianas e refazem o universo, vertendo-o num copo com vinho que bebem no entardecer de uma esplanada qualquer, depois de terem restabelecido a ordem e a alma das coisas breves distorcidas pelos outros. 

 

Na foto -Samuel Beckett

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A Gaffe inundada

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.18

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O meu tio-avô, franciscano, antiquíssimo, teólogo, filósofo, Provincial da Ordem durante décadas e um dos grandes latinistas da Península, dizia que o conhecimento etimológico de uma palavra era essencial a quem a quisesse usar de forma certa. Sem esse saber, podemos rasgar as frases que quisermos, mas escapa-se-nos demasiadas vezes a nobreza do escrito e o sentido mais profundo daquilo que urge dizer.

 

Fica provado por estas avenidas que não prestei atenção ao sábio encanecido.

 

Recordo que uma das suas palavras favoritas tinha como iniciáticas raízes cum panis que desaguou companheiro, ou seja, aquele com quem dividimos o pão.

 

É evidente que as cãs deste sábio não tiveram origem no trabalho minucioso de partilhar o pão nas redes sociais. Aqui, a mesa é sustentada por likes e a intimidade de cada um é servida em travessas de posts, não a companheiros, mas a amigos.

O interior, ou que em nós é interno, extravasa como se algures houvesse uma fissura por onde escorre o que nem sempre é aquilo que queremos, ou apenas aquilo que decidimos deixar que se saiba. Existe uma componente exibicionista neste derramar do íntimo, neste inundar do externo a nós pelo que em nós devia permanecer, que – digam o que disserem -, não é sempre eficazmente controlada e neste encharcar do externo pelo que é nosso, até mesmo a dor - mesmo aquela que exige o maior silêncio - é capaz de penacho e de lantejoula e de abrir o desfile arrastando figurantes e cartazes numa sucessão de comentários e de imojis.

Somos demasiado selfies para segurar o narcisismo da exibição e nesse irreversível destapar, nesta atracção pelo nude, acabamos com centenas de amigos indiferentes ao étimo das palavras, desde que consigam chapinhar na mesa líquida que vamos compondo até que se perceba que afinal somos a única criatura que ficou sem pão.

Só temos água.

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A Gaffe fofinha

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.18

A Gaffe fofinha

 

A Gaffe sabe que aqueles que teimam em vestir a pele de cordeiro, acabam sempre no prato dos lobos.

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A Gaffe duplicada

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.18

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Nestes derradeiros dias chuva, aproximo-me mais vezes da janela.

Gosto de ver a água a serpentear nos vidros, mas nunca aliei qualquer emoção à paisagem encharcada que avisto. Sempre foi apenas chuva. Sigo com os olhos, com os dedos, os trajectos das gotas.

Nada mais.

Sei que são semelhantes aos que percorria em Paris. Olhava as ruas desfocadas e procurava dentro das gotas as deformações que provocavam nos edifícios, como pequenos e redondos espelhos de circo. Ficava durante demasiado tempo a tentar entrar nas gotículas que fugiam num rasto de serpentinas transparentes.

 

Se olhar agora pelas janelas de chuva que agora vivo, não procuro mais do que via outrora. As ruas estão encharcadas e há edifícios que tremem dentro da água que toca e desliza pelos vidros. Não existem diferenças de maior. A chuva uniformiza as paisagens envidraçadas.

Estranho é sentir que quem olha esta duplicação alagada das ruas talvez seja outra em cada paisagem.

As escolhas que fiz em cada avistamento, alteraram o desenho e a rota da gota da minha vida tombando na superfície das coisas. A paisagem ficou impune no exterior, similar em todos os lugares, mas os dedos que percorrem agora a face seca do interior de onde avisto o inalterado, são outros dedos. Diferentes dos que nunca vi e meus mesmo assim.

Ao longe, demasiado esbatidos, há dedos que seguem gotas de chuva nos vidros que não aceitei. São dedos que não conheço, mas que são meus em paradoxo.

Os que acompanham a descida da água pelo vidro de agora, são apenas as tempestades que escolhi.

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A Gaffe dos deuses

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.18

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O papel de José António Saraiva não me assenta bem, no entanto é aberta esta excepção, pois que é admissível que estas nuances escuras aqui sejam visíveis por nobre causa e por força de argumento.

 

É curioso verificar como somos capazes de idolatrar os autores de obras-de-arte ao ponto de quase os aproximarmos dos deuses, rendendo-lhes homenagens pirosas expressas em rectângulos floridos onde cintilam frases descontextualizadas, ou imagens fenomenais cortadas onde nos convém, muito ao nosso contento e ao nosso intento.

Muitas vezes rendemo-nos de joelhos.

A adoração que lhes entregamos não é de todo, ou totalmente, descabida. São singulares criadores. Criaturas de excepção.

 

Há no entanto, o esquecimento, provavelmente deslumbrado, da existência do homem - e da mulher - para lá da obra que produz e nem sempre o que se nos depara é digno de respeito.

Retiremos ao acaso, saraivadamente, de forma caótica e sem qualquer lógica, da caixinha desta Pandora de subúrbio:

Caravaggio, um assassino e um celerado;

Michelangelo, um ladrão e um defraudador;

Ezra Pound, um anti-semita convicto e perigoso;

Proust pagava a rapazinhos para se masturbarem enquanto roía os lençóis, enfiado até aos dentes na cama que raramente abandonava;

Virgínia Woolf considerava que as criadas estavam num patamar inferior ao dos seus cães de companhia;

Céline, um nazi;

Enid Blyton desprezava e ignorava os filhos, maltratando-os;

Bukowski, um misógino asqueroso;

Elia Kazan traiu companheiros denunciando-os ao governo americano anti-comunista;

Vargas Llosa escreveu que o assassinato de jornalistas mexicanos é da responsabilidade da liberdade de imprensa e - caso me considerem digna de perdão por incluir uma minhoca nesta minúscula listagem - Cat Stevens assinou a fatwa contra Salman Rushide.

 

A obra, quando fenomenal, assemelha-se à morte no processo de reabilitação daquele que a produz.

Iliba, explica ou apaga as chagas que se foram abrindo nos outros por aqueles que explodiram em talento, honrando e alargando, inovando e dignificando, áreas diversas de forma irrepetível.

 

É evidente que as privadas posições de Proust - um desconforto! -, as canalhices de Michaelangelo ou a presunção imbecil de Virgínia Woolf, são absolutamente independentes das obras que os imortalizaram.

Caravaggio continua a ser um dos mais fascinantes manipuladores da luz, provavelmente igualado - se tais ousadias comparativas nos fossem permitidas - apenas por Renoir e provavelmente superado por Monet; Virgínia Woolf mantém Mrs. Dalloway como um dos mais impressionantes romances da literatura universal e as crónicas de Vargas Llosa continuam a siderar leitores.

A criatura térrea que produz a obra-prima não parece interferir na construção dessa galáxia. E no entanto, existe e é capaz de assassinar, de condescender com o massacre de judeus, de justificar o homicídio de jornalistas, de olhar alguns como criaturas de segunda mão ou de perverter, sinistro, adolescentes.

 

Se estes dados interferem com a leitura que se faz da obra, é duvidoso, apesar de eu - pobre de mim que não conto -, não conseguir tocar num livro de Luiz Pacheco, porque o penso porco, pedófilo, rufia e asqueroso, nauseabundo, manipulador e nojento. Desconheço se no acto de nos apoderarmos de determinada obra, estes factores que - é imprescindível sublinhar - pertencem exclusivamente à esfera do privado do homem ou da mulher que a produziu, atingem e trespassam a apreciação que dela, da obra, se faz, adquirindo peso suficiente para tornar difícil a extracção das vivências escolhidas pelo autor - sobretudo as que nos são repulsivas -, da qualidade quase sobrenatural do que nos é entregue.

 

Seja como for, reconhecer o barro nos pés de cada deus é sempre uma forma de partilhar com eles a mortalidade.        

 

Foto - Aurelio Monge

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A Gaffe abnegada

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.18

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Acho transcendente o amor abnegado.

 

Uma criatura engole as lâminas, se o seu grande amor quiser deixar crescer a barba. Uma criatura rasteja toda depenada, se o seu grande amor tiver decidido colar umas penas nas costas e fazer de conta que voa.

É bonito.

Não há grilhetas.

A alforria do amor da nossa vida é coisa dele e há que não quebrar os cristais da autonomia. Não ocupamos o espaço que é do outro, porque estamos cientes da total independência e da santa liberdade que não podemos conspurcar com pieguices nossas, com a mania que temos de arrancar com os dentes o coração de quem amamos e deixar o infeliz ali descarnado, com um buraco no peito, bem visível, para que toda a gente perceba que dali já não leva um pirolito.

 

Uma criatura deve ser abnegada, pois que as coisas boas são todas muito Saint-Exupéry.

É difícil contra-argumentar, a não ser se formos nobres ingleses numa caçada à raposa.

 

Ilustração - Mirko Hanák

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A Gaffe psicanalista

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.18

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Freud tinha razão!

90% daquilo que os homens pensam é transformado cedo ou tarde em sexo.

O restante é sexo que transformam em ideia. 

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A Gaffe tempestuosa

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.18

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Meus queridos, tenham sempre presente que a velocidade com que nós dizemos:

 

- Está tudo bem!

 

É directamente proporcional à severidade da tempestade de horrores que está prestes a começar.

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A Gaffe contabilista

rabiscado pela Gaffe, em 12.03.18

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Somos por natureza quantificadores e por, muito que o neguemos, os números e a sua placidez, ou palidez ordenada, vão-se tornando facilitadores dos julgamentos que fazemos de nós e dos outros. Tornam-se traves mestras sem as quais nenhum edifício interior pode sobreviver e mesmo que pintemos os muros que somos com motivos florais, acabamos a contabilizar o número de pétalas que colorimos, para oferecer alguma harmonia mesmo ao terror.

 

Medimos o bebé, contamos os tostões, contabilizamos acidentes, medimos a tensão arterial, calculamos o défice, numeramos as casas, somamos desgostos, subtraímos esperanças, multiplicamos terrores, dividimos solidariedades por grupos contados pelos dedos, somos corajosos ao som do um-dois-três e fugimos quando não há ninguém a ver, porque às vezes somos zero.

 

Não incomoda este matematizar da vida, pois que é intrínseco a ela.

Não nos apercebemos da quase instintiva força que tenta escapar ao Caos, empurrando o que somos para os trilhos da Ordem que supomos encontrar na tentativa inata de quantificarmos o Universo.

Somos ordenados dentro desta confiança tranquilizadora, porque mesma a dor, a mais estrepitante, aquela a que atribuímos o número um, numa escala que vai do coração à morte, pode ser passível de baixar de nível à medida que o tempo passa e se acumula.

Medimos o que somos sobretudo com as escalas dos outros.

Somos pequenos, invariavelmente pequenos e contamos cada milímetro que nos fazem sonhar com maior altura. Inflacionamos o que obtemos, pois que tão pouco amor e tão curta a vida. Atiramos a primeira pedra àquele que finalizou em último a corrida dos metros que nunca foram dele e gastamos as métricas de todos os versos, porque temos dez dedos apenas para numerar as sílabas.

O meu amor é maior que o dele. A tua dor é menor que a minha. A felicidade é sempre pequena. A fracção de segundos é sempre uma vida e acabamos debaixo de sete palmos de terra, porque afinal os homens não se medem aos palmos, nem se medem às palmas.

 

Talvez os homens se calculem apenas na ausência da ordem dos compassos dos outros, quando sozinhos olham a própria cegueira e se apercebem que o Nada é bem melhor que o Zero.            

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A Gaffe silenciada

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.18

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Olham-se e continuam a trespassar com os dedos o corpo um do outro e a fingir que é amor a dor dessa vertigem.
De olhos sem sentidos, a disparar palavras sobre a carne.

É trágico quando o que faz falta ao nosso silêncio, para que o silêncio do outro seja completo, é que até a solidão se torne muda.

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A Gaffe imperiosa

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.18

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Todas as mulheres possuem um desenvolvidíssimo espírito científico, pese embora apenas algumas o usem para tentar dissecar a alma alheia. Por norma os instrumentos usados não incluem a inteligência, posto que para a operação fica aquém do esperado e, no máximo, o que se obtém é a pele do observado, que fica sempre bem no soalho de madeira.

 

Há no entanto casos em que é possível tentar chegar a resultados interessantes, se o analisado for um conceito.

As mulheres são peritas em elaborar pareceres, a formular noções e a construir máximas que os homens gostam de usar depois. São Piçarras e Tonys das nossas melodias e chegam aos festivais já vencedores. Deixamos, porque não importa o resultado do júri. O que nos dá gozo é a certeza do engano dos jurados que se revelam ainda mais tontos do que na realidade são.

 

Os conceitos que nós, mulheres, fazemos florir são como papoilas. Surgem às centenas, em campos magníficos e dão ramalhetes perfeitos, porque efémeros. É lógico que cada uma de nós escolhe a papoila que mais condiz com o seu tom de pele, com a cor do blush, com a cor do dia do decote, ou com a forma que lhe parece próxima da perfeição sonhada.

 

Malgré tout, é sempre uma papoila que é escolhida.

 

Esta inteligentíssima, - apesar de modesta que sou, devo assumir -,  introdução, chega a propósito dos conceitos de elegância feminina que provocaram um olhar bucólico sobre este campo plano e tão singelo onde pulula, aqui e ali, o escarlate das florinhas.

Há que pegar no bisturi.

 

A elegância - a Elegância -, pode ser analisada com objectividade científica. É possível arrancá-la do somatório dos distintos conceitos que são construídos por cada uma de nós e tornados de certo modo distintos uns dos outros. Há a elegância da mulher magra e alta, esguia como a haste de um lírio. Há a elegância da que veste sem ser vestida por Valentino. Há a elegância construída pela fleuma gélida perante incêndios de barracão. Há a elegância da maturidade que constrói castelos de reserva e discrição e há outras que não se dizem por exaustão.

Por norma, alia-se, mesmo inconscientemente, a elegância de uma mulher à sua biografia. No entanto, a Elegância pode ser isolada, pode ser objectivada, pode ser detectada sem as interferências usuais e sem as premissas que habitualmente nos levam a resultados viciados.

Uma mulher pode ser Elegante independentemente do mundo que a olha, para além de si, para além da sua história ou da sua voz. Neste pressuposto, pode ser Elegante uma psicopata, uma assassina, uma inócua dona de casa, uma apaixonada pelo funk, uma vendedora do Bolhão - estas são quase todas, quando calmas! -, ou uma candidata a Prémio Nobel da Paz.

 

A Elegância é um palimpsesto. Talvez exista uma facilidade relativa em separar camadas, desagregar substratos, definindo-os como eleitos na subjectivização do conceito, mas no final - e afinal -, o somatório torna-se indistinto, quase invisível, quase mistério, porque, diz o aviador, o que realmente importa não se vê.

 

A Elegância não é portanto uma projecção do olhar do Outro. É o reconhecimento do Outro da existência imperiosa e única de alguém.

 

Sentimos a Elegância, somos Elegantes, porque somos, nós também, palimpsestos, mas nesse aglomerar, nesse sedimentar de histórias que são nossas - apenas nossas e sem domínio algum sobre o olhar dos outros - existe um elemento essencial que atravessa cada substrato, solidificando o todo.

 

A inteligência.

 

Nenhuma mulher é Elegante se não for inteligente e logicamente madura (aos dezoito anos escolhemos sempre o perfume errado).  

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