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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de coração intacto

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

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É perturbadora a quantidade de vezes que deixamos que o nosso coração se parta simplesmente porque exageramos o espaço que ocupamos na vida dos outros.

 

No entanto, bastar-nos-ia fechar os olhos, respirar fundo, contar até dez, lembrarmo-nos que ficámos péssimas vestidas de presidiárias, para sorrir e deixar passar os idiotas.

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A Gaffe ambientalista

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

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É peculiar a frequência com que esquecemos que o desfecho da frase se não podes vencê-los pode não ser aquele a que por norma estamos habituados a unir. Há uma resposta à condição expressa no arranque da batalha que é muito mais frequente do que aquilo que pensamos.

 

Se não podes vencê-los, absorve-os.

 

A diluição de conceitos, princípios, ideais contrários às realidades instituídas - ou mesmo reacções a factos que nos são adversos, porque desumanos e mesmo fatais -, na atmosfera que os vai produzindo e alimentando, não é de desprezar. A manobra do instituído que produz a capacidade de absorver o que lhe é contrário, torna inócua, neutraliza e banaliza, a acção que visa combater precisamente aquilo que a vai normalizando, atenuando, ou eliminando os efeitos que eventualmente produziria.

 

A facilidade com que se produzem mitos e símbolos - que são em última instância a resposta a uma falha, a uma ausência, a um vácuo - tornou-se equivalente à capacidade que os responsáveis por essa mesma omissão têm de os absorver e neutralizar.

 

O exemplo mais fácil e mais capaz de ilustrar o dito é Malala Yousafzai que depois de publicitada, elevada ao estatuto de heroína, incensada, medalhada e galardoada, perdeu força significativa, atenuando-se o impacto mediático da sua luta e impedindo-se desta forma que a multidão de espoliadas de que era bandeira, não se chegasse a unir e a seguir. A força que parecia invulgar do seu discurso e da sua atitude, restringe-se agora a palestras, a conferências e a elocuções mais ou menos esperadas. Malala passou a ser apenas mais um rosto simbólico - o símbolo que não povoa o vácuo - numa galeria de cabeças que o poder instituído consegue absorver e que reserva para, numa hipocrisia letal, aplaudir de quando em vez.

 

Surge, entretanto, Greta Thunberh.

 

É clara e inequívoca a tentativa de aplacar o discurso, a atitude, o conceito, e a ameaça que a ambientalista consegue encarnar, por parte dos que são acusados pelo seu inesperado aparecimento. As manobras de dissuasão parecem idênticas às usadas no caso anterior. Estatuto de heroína, reconhecimento, aplauso internacional e nomeação para o Nobel da Paz. A absorção do que parece não se conseguir vencer, teve já o seu início. Tornar Greta Thunberh num sucedâneo mais jovem de Al Gore, arrastando-a e exibindo-a de palestra em palestra, de entrevista em entrevista, de conferência em conferência - pagando-lhe principescamente por cada uma -, seria a diluição perfeita e almejada do grão de areia que, depois de parecer uma ameaça, vai sendo incorporado na máquina que adapta e recicla o elemento que absorve.

 

No entanto, Greta Thunberh sofre de Asperger.

 

As características deste distúrbio – facilita uma classificação deste teor -, prometem impedir que a jovem amorteça a sua identidade. A obsessão, a tenebrosa tenacidade, a capacidade de focar toda uma vida num único ponto de luz, a indiferença à bajulação que tolda o objectivo, o desinteresse pelo que é considerado acessório - por tudo o que se afasta, ainda que levemente, do que a motiva e interessa -, e a força invulgar que a apoia e a move, tornam-se dados inesperados e passíveis de complicar, ou mesmo impedir, a sua absorção e diluição posterior.

 

É esta estranheza que une multidões.

 

Talvez Greta Thunberh seja a anomalia esperada pelo planeta.

Talvez seja desta vez que deixemos de olhar estas vozes como quem olha a última fotografia da sonda Cassini, antes de ser absorvida pela atmosfera de Saturno que acabava de captar.              

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A Gaffe muito feminista

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.19

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Não é necessário, rapazes, que acordem de madrugada, tomem um duche silencioso, escovem os dentes, se perfumem, se escanhoem, troquem de pijama e se coloquem em pose, deitados ao nosso lado, para que tenhamos um acordar principesco.   

 

Acreditem, meninos, que aguentamos despertar ao som do Krakatoa ou dos Moon Spell; suportamos o velho vizinho do andar de baixo que de pantufas, pijama de flanela e roupão felpudo, nos toca à campainha preocupado com a possibilidade de nos termos esquecido de fechar as torneiras do WC, desconhecendo por completo a força com que usais a sanita; perdoamos a encharcada toalha do vosso banho que enrolais à cinta, mesmo reconhecendo que o paninho com que limpamos os óculos taparia com a mesma eficácia o que cobris fanfarrões; aceitamos a vossa biblioteca com o Kama Sutra ilustrado e o outro do Tio Patinhas, sabendo de antemão que o primeiro vos causa problemas ortopédicos e que do segundo não entendeis o argumento; abdicamos da máscara de oxigénio quando nos sussurrais o brejeiro beijito matinal; aguentamos estóicas a panóplia de roupa atirada para os cantos à espera de ganhar raiz, folhas, flores e frutificar oferendo-vos as peças que substituiriam o que finalmente foi a vossa escolha; compreendemos até os vossos boxers com tubarões estampados.

 

Nós acordamos é dispostas a ver-vos sapos.

 

O que vos faz perder a coroa, meus queridos, é a crença na Igualdade dos sexos. Nada é mais prejudicial do que confiar na disponibilidade de uma rapariga para abdicar dos seus privilégios femininos por tão pouca coisa. Um mulher que quer ter o mesmo que um homem, não tem ambição.

 

Somos raparigas pragmáticas. Muitíssimo menos românticas do que aquilo que sonhais. Não reivindicamos nada a não ser o que nos é palpável e que vos foi entregue como apenso à vossa condição de macho. O lugar de direcção, a chefia do departamento, a liderança dos exércitos, a Lei, a Ordem, o Progresso e todas essas maçadas que inventais e dominais pensando que vos vão aumentar aquilo que podeis cobrir com o paninho dos óculos.

 

O que vos transforma em sapos, rapazes, é o acreditar que vos vamos engolir se nos brindardes com aquilo a que chamais tratamento igualitário, esquecendo que o vosso trabalho se tornou duplo, porque nos tereis de enfrentar de modo feroz à mesa das mais altas negociações e, depois de aceitardes as derrotas, tereis de nos continuar a segurar o guarda-chuva e a abrir a porta do automóvel.      

 

Não convém esquecer, rapazes, que não há histórias de sapos femininos.

Por muito que façamos, continuaremos princesas que não trocam os seus reinos conquistados por cavalgadura alguma e que sabem que se o príncipe afinal é um batráquio, existe a guarda de honra obediente para segurar o leque do nosso acordar.   

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A Gaffe violenta

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.19

Montelimar - August 29, 1944.jpg

Não existem escalas ou patamares para que possamos classificar a barbárie.

É desumano ousar dizer que determinado acto é passível de se considerar dentro da normalidade quando está imbuído de violência.

Encontrar espaços onde a selvajaria é susceptível de ser aceite como regular, por considerarmos ser menor do que aquela que observamos ou imaginamos um dia, é permitir a existência de um apodrecido sedimento de maldade sob os nossos pés e aceitar que desse chão se possa fazer caminho e que desse movediço solo se erga uma destruição maior, para só então condenar aquela a que assistimos.

 

Quando da queda dos nazis, a França rejubilou liberta.

A barbárie tinha sido vencida.

No entanto, os franceses precisaram de um período de crueldade imensa para travarem a destruição das almas e dos corpos a que tinham assistido, como se o avanço do horror os tivesse contagiado, beneficiando de um tempo de travagem gigantesco, e que nesse estancar lento do medonho fosse tido como normal, aceitável, a continuação do inferno.

 

Depois da Guerra, os franceses torturaram franceses. Traíram franceses. Denunciaram franceses. Enforcaram franceses. Fuzilaram franceses. Aqueles que foram considerados, justamente ou não, colaboracionistas foram alvo da fúria ensandecida e vingativa dos que foram vítimas.

 

Interessam-me as mulheres, só as mulheres, neste momento. Não todas. Ignoro, por exemplo, Chanel que se ficou pelas mãos dadas a altas patentes nazis e, mesmo assim, alegadamente, que Chanel continuou a ser cara.

Olho apenas as que nas ruas e nos ermos franceses ocupados tentavam sobreviver, ou aquelas que amaram homens errados, militares rasos inimigos, camponeses e operários transformados em raça armada e eleita, sem sequer entenderem o sentido da morte que os convenceram a carregar e a entranhar e que os transformou em assassinos.

Olho as que foram despidas e humilhadas publicamente. Espancadas por túneis de gente por onde eram obrigadas a passar. Raparam-lhes a cabeça. Foram proscritas. Amaldiçoadas.

 

A brutalidade desumana exercida sobre estas francesas, por franceses, não pode ser nunca ser minimizada por ter sido consequência de outra. Não é menor e também não é maior, não é igual, nem diferente, que a perpetrada anteriormente ou a que nos permitimos imaginar no futuro. Não tem - nunca teve, nem terá -, termo de comparação. Ergue-se sozinha no meio das gentes e é absolutamente ímpar em cada instante, exclusiva e excepcional na destruição que provoca.

 

Não há uma violência dentro do normal e se existem acórdãos, leis, julgados, julgamentos, recursos e sentenças que contrariam este postulado, é porque quem os escreve, fideliza ou a eles se vincula, é também gente capaz de rapar o cabelo a mulheres, de as despir, de as humilhar publicamente e de as fazer espancar em túneis de ódio, justificando esta barbárie com a mentira que lhe diz que há sempre outra maior.  

 

Na imagem - Montelimar,  França - civis franceses castigam uma mulher por envolvimento com um alemão.

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A Gaffe de Billy Porter

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.19

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Enquanto a mãe, ouvida atentamente pela amiga, comenta Billy Porter, elogiando a ousadia, a originalidade, a intrepidez, o arrojo, e a disrupção do homem que apenas quis homenagear o lendário Hector Valle, da Casa Xtravaganza, - que morreu há cerca de dois meses e cujo talento se estendeu muito para além da red carpet -, as crianças, menos empolgadas, brincam no relvado em frente, olhadas por mim.

 

O rapazinho é pacato, reservado, concentrado. Usa uma nave espacial sofisticada como carrinho de bombeiros - ou ambulância, dado o local -, e vai mimando ruídos de sirenes enquanto faz deslizar com urgência um socorro imaginário a um deflagrar de catástrofes na relva.

A rapariga, mais novinha, vai destruindo a ilusão, pisando o trilho desenhado, ou calcando a mão do irmão, tentando de soslaio vigiar a mãe de modo a que a sua maldade não seja descoberta.

 

Não creio que seja uma criança maquiavélica. É apenas uma menina má. Detém aquela espécie de maldade gratuita que causa danos maiores do que os provocados pela que foi projectada visando um alvo específico.

O menino perde a paciência. Empurra com força a irmã que de rabo no chão desata num desalmado choro.  

 

A senhora elegante interrompe os comentários oscarizados, levanta-se e num assomo de urbanidade, num acesso pedagógico, num surto educativo, dirige-se ao agressor e faz desabar sobre o petiz uma quantidade sábia de sábios ensinamentos que começa por vincar a necessidade de se respeitar uma menina, passam pela nódoa de se agredir gente mais frágil e acabam, depois de muitas voltas, com a vergonha e cobardia que é exercer violência física sobre quem não se consegue defender.

Um corrupio de belíssimas cogitações e um acervo de maravilhosos conceitos e princípios a transmitir às gerações futuras.

 

O rapaz foi obrigado a pedir desculpa e fê-lo com uma sinceridade realmente envergonhada.

Promete que não voltará a empurrar a cabra da irmã que se calou num instante.

 

Não vale a pena tecer considerações acerca da saia, quer de Billy Porter, quer desta menina. Ambas conseguem fazer disparar uma série imensa de considerações - eivadas de ignorância, aqui e ali, ali e acolá -, dignas de anotação e merecedoras de atenção e mesmo de respeito, como é da praxe dedicar a afirmações politicamente correctas, quer se queira, quer se não queira.

 

Há, no entanto, uma minudência demoníaca que me pousou no ombro e não me deixou sossegar.

 

Este rapazinho absorveu a assertiva lição - e todas as que se seguirão, pela certa e de forma certa -, e passará a contar com a dita fragilidade feminina - em todas as vertentes, encostas, precipícios e abismos -, que irá temer macular sempre que a vida lhe colocar na frente uma mulher que lhe seja importante.

Este masculino cuidado apreendido ao longo do tempo, o intransigente respeito pela mulher que mesmo irracional é eventualmente tida como inatacável, estas pinças sublimadas que a tornam quase intangível, o cultivo de uma feminina debilidade de ficção, fazem parte, também, da real fragilidade feminina.

 

Creio que existem algumas relações a soçobrar, porque o elemento masculino inconscientemente recusa o confronto, o contradizer, a aberta e esclarecedora discussão e a saudável negação do que na parceira está errado, apenas porque lhe incutiram desde a infância - que já ninguém recorda por demasiado tenra -, a noção da frágil delicadeza feminina que impede o solavanco da contradição ou o empurrão da discordância.

  

Os cavalheiros nem sempre são os homens mais sinceros. Acompanham por vezes senhoras que se pensa terem saído de um circo manhoso, apenas porque são incapazes de corrigir, de opinar, de contradizer escolhas, não se vá ferir suscetibilidades de mulher etérea.   

 

Se também é por cobardia que um homem agride, seja de que modo for, uma mulher, pode não ser errado apontar também como cobarde o silêncio masculino perante a erro feminino, motivado pelo receio de magoar ou de melindrar ou de violar uma ensinada, e bem aprendida, imaterialidade oriunda da natural fraqueza da mulher quase angelizada.

 

Talvez seja por isto que os casais do mesmo sexo conseguem solidificar com maior facilidade e com maior durabilidade, uma relação que, talvez também por isto, seja mais difícil de iniciar. Não se deparam com esta espécie de síndrome do bom guerreiro que obriga o mais poderoso a poupar - e a defender - o que lhe disseram ser mais fácil de vencer por ser mais fraco.

 

Evidentemente que são conjecturas iguais às que volteiam em torno da saia de Billy Porter.

Existem, são visíveis, mas nada garante que na origem de todas não esteja a ignorância do que realmente se esconde debaixo dos panos.

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A Gaffe com fotografias

rabiscado pela Gaffe, em 13.02.19

WWII

 

Há algum tempo deparei-me com uma imagem extraordinária captada durante a Segunda Grande Guerra. Guardei-a pela beleza textual, literal, daquilo que via.

No meio dos escombros, um grupo de soldados russos ouve tocar piano.

Estranhei a minha apatia, a minha indiferença, perante a narrativa, perante o símbolo expresso no que via. A imagem não me comoveu, não ergueu paliçadas de alvoroços, nem me impressionou a evidência poética do que era retratado.

Era apenas uma fotografia extraordinária. Esteticamente perfeita.

 

Encontrei há dias uma outra, de Joseph Eid, com o mesmo conceito da primeira.

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Em Alepo, um velho no meio dos escombros de que já ninguém se importa ou fala, ouve música.

Mais uma vez, e apesar de não a perceber tão perfeita como a anterior, considerei-a uma bela imagem. Mais uma vez não me comoveu, nem me fez evadir por caminhos mais ou menos filosóficos, de maior ou menor narrativa emocional.

 

Recordei então o que há muito penso.

Humildemente reconheço que os discursos que ambas as fotos me vão provocando acorrentam a minha pobre opinião às tábuas da tolice, mas socorro-me de Geneviève Serreau para entregar alguma racionalidade àquilo que penso acerca do assunto.

 

A autora, algures num estudo sobre Bertolt Brecht e a propósito de uma fotografia onde nos é mostrado um massacre de comunistas gualtemaltecos, refere que o horror não está no que vemos, mas porque o vemos a partir da nossa própria liberdade.

 

Admito que é complexo este postulado. No entanto, com a ajuda preciosa do pensamento de quem me está próximo e é anos-luz mais racional do que eu, acabo a entender que não basta ao fotógrafo mostrar-nos a abominação para que a sintamos. Até porque – continua – a dor é fotogénica.

 

A linguagem internacional do horror é documentada de modo a que saibamos interpretar os signos. É elaborada de forma hábil - usando contrastes, aproximações ou reconstruções subliminares -, facilitando-nos uma leitura já preparada, que não nos toca grandemente, porque pensou por nós, sentiu por nós, sofreu por nós e de certa modo indignou-se por nós.

Intelectualmente aquiescemos, mas não nos sentimos realmente ligados a estas imagens. Estão isentas de histórias, impedem que as inventemos porque já estão narradas pelo autor.

 

As imagens, dirão, não obedecem a estes pressupostos. Foram acasos. Dizem-nos ser apenas performances a decorrer no espaço visitado - o que só por si daria um tratado relacionado com a banalização do terror e com a distorção, o esmagamento e amálgama de signos distintos. Se tal fosse verdade, acabava-se por impedir o aparecimento de elementos propositadamente contrastantes e contrastados e, sendo em directo, sem reconstruções ou interpretações prováveis, dar-nos-iam, em consequência, a possibilidade de sentirmos.  No entanto, a captação daqueles instantes surge ainda contaminada pelo construído, tornam-se demasiado intencionais, porque estão imbuídas da vontade de se usar uma linguagem incómoda e acabam por nos merecer apenas o tempo de uma leitura instantânea. As fotos não nos desorganizam, porque se reduzem a uma linguagem específica, isentando-nos do verdadeiro confronto com o escândalo.

 

Nas imagens do terror que nos mostram existem signos claros e nítidos, mas sem a ambiguidade, a textura a espessura que deve caracterizar um signo.

 

Parecem estranhas, paradoxalmente calmas, porque estão privadas da nossa explicação privada, usam a linguagem – que já conhecemos, que já falamos, que já entendemos - internacional do horror, e, custe o que custar, por causa disso estão contaminadas pela presença do fotógrafo.  

 

São literais.

 

Introduzem-nos ao escândalo do horror, mas não ao próprio horror - diria Barthes.  

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A Gaffe pragmática

rabiscado pela Gaffe, em 11.02.19

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A vida não é um conto de fadas.

Se perdeste um sapato à meia-noite, estavas bêbada.  

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A Gaffe aos trinta

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.18

Trintona.jpgEm Abril de 2019, a Gaffe atinge os trinta e muito poucos anos, iniciando o seu percurso balzaquiano.

Não que a preocupe o génio com que o francês de eterno roupão descreve as mulheres que vão observando a subtileza com que se riscam as rugas, mas confessa que a intriga a distância e os pedregulhos que vão crescendo e surgindo entre ela e as que há uma década antes dela viram a luz do dia.

 

Esta distância é pedestre. Pode atingir todas as superfícies, mas começa indubitavelmente pelos pés.

 

A Gaffe não consegue deixar de sentir uma aversão descomunal em relação aos brutais penedos que as meninas jovens decidiram calçar e tornar o denominador comum das suas andanças. Um must, o pico do Everest, o orgasmo. A textura, o aspecto do plástico e as cores primárias aliadas ao preto e ao branco luzidios que acentuam as trombas grossas que fornecem aos pés, deixam a Gaffe próxima da revolta e pronta a enfrentar ataques terroristas.

 

Passada a indignação, a Gaffe desiste de sentir o cérebro quando apanha com os monumentais tacões, grossos troncos com uma base ondulada, que são compensados por uma plataforma igualmente embondeiro e com uma base também às ondinhas. A Gaffe não entende como é que estas raparigas não se apercebem que ao contrário do que se pensa, aquilo lhes aproxima os pés das ancas, fazendo-as parecer um dos carrinhos anões com pneus gigantescos que divertem imenso os americanos trepando e esmagando uma fila de sucata. Presos a eles, as leggings que deixam os tornozelos desnudos e quase obscenos a surgir daquele amontoado de plástico e os calções de couro que soltam a barriga apertada por lycras zebradas, fazem a Gaffe acreditar que o Apocalipse já anda à solta pelas avenidas.

Esta imagem feminina dá razão àquele que diz que uma jovem mulher é como a salcicha: pode ser boa, mas é preferível nunca saber como se arranja.

 

Outro sinal, este mais agradável, que os trinta e muito poucos anos da Gaffe estão no activo é o facto de já conseguir cruzar as pernas.

 

Não é de todo fácil.

Cruzar as pernas é das operações mais complexas que uma mulher realiza e a perfeição é atingida apenas com o tempo. Uma perna é colocada em cima da outra que, inclinada, constrói um ângulo agudo com o chão, e o mimoso pé da perna que se eleva vai prender-se na barriga da perna em sossego enquanto o tronco permanece numa vertical inatacável e se beberrica o chá.

As tentativas imaturas da Gaffe fizeram-na tombar, Torre de Pisa, e esbardalhar-se no sofá, suplicando auxílio para desencravar o pé e com a bebida derramada no colo dos brocados. Hoje, trintona, consegue contorcer-se na perfeição e acrescenta a este notável número de equilibrismo a bolacha de chocolate, duas gotas de leite no chá e um sorriso Charlene de Mónaco.

 

Ter trinta e muito poucos anos deve ser isto. Perceber finalmente que a idade também não está na cabeça, mas nos pés.

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A Gaffe em equipa

rabiscado pela Gaffe, em 27.12.18

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A Gaffe descobriu que uma equipa ideal é constituída por duas, quatro ou mais pessoas sem tempo nenhum para fazer o que quer que seja e uma que gosta de fazer as coisas à sua maneira.

 

Ilustração - Slava Shults

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A Gaffe à descoberta

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.18

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A Gaffe descobriu que a uma mulher importa muitíssimo pouco, ou nada, se um homem pensa nela - e o que pensa, quando nela pensa - quando está sozinho, à noite, fechado no escuro de um quarto.

 

O que é importante é se nela pensa - e o que pensa, quando nela pensa - quando em pleno dia está rodeado de gente.  

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A Gaffe nomeia

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.18

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Em breve irá ser lido o meu apelo ao voto no âmbito do jogo que a Magda e o David se propuseram levar a cabo, o Sapos do Ano. Deve ser lido exactamente como merece e incluído no espaço dedicado ao lúdico, a que pertence sem dúvida.

 

É mais do que evidente que a liberdade de escolha, quer dos nomeados, quer dos finalistas, foi total. Não se colocaram fronteiras, não foram erguidos parâmetros ou limites, não se desenharam condições. As escolhas tiverem como base a empatia que um blog causa nos leitores. Os like que desperta nos nossos pequeninos corações.

 

Foi, e é, agradável perceber que causo alguma em alguns.

Fico igualmente agradada pelas companhias que tenho.

 

É evidente que, nestes casos em que um desafio não tem especificidades que o condicionam ou reduzem, os alhos e os bugalhos são sempre subjectivos e altamente díspares. Os que escolhi, podem não figurar na listagem dos eleitos e os eleitos podem não ser os que sigo.

Este facto, não cria atritos. A única regra que se vislumbra neste jogo relaciona-o com a capacidade que cada blog possui de se aproximar dos leitores, seja porque razão for, e são tão copiosas, como dissemelhantes. Creio que é esta uma das características mais importantes do jogo em causa.

 

No entanto, todo este saudável movimento provocou-me algumas inseguranças.

 

Há milhares de blogs. Milhões de palavras dentro deles. Cada um destes compartimentos acredita ser único, exprimindo o que deve ser considerado letra imutável e irrepreensível, provavelmente capaz de alterar ou deslocar as pedras da montanha. Não nos apercebermos sequer que é do Everest que falamos. Opinamos, contamos histórias, escrevemos simulacros de poesia, textos cadavéricos, odes primaveris, luminárias, trovões e víboras, nadas, pequenas quedas, rasgões na paisagem, macambúzios resmungos, emplastros digitais, e tudo o que se quer, porque é possível.

 

O que importa então? O que é realmente um blog importante? O que importa realmente num blog? O que o faz transversal, o que o torna indispensável, necessário ou mesmo urgente?

 

Diz-me um Amigo que é fácil escrevermos sobre as nossas emoções, basta um conhecimento razoável da língua e relativo talento para erguer paredes de frases com os andaimes das palavras bem seguras. O genial é fazer com que as nossas escritas emoções se transformem nas dos outros, sejam as dos outros, se tornem comuns.  

 

Não sei.

 

Li ontem, apesar desta minha medíocre ignorância, Mulheres da minha vida. Li depois Uma história, duas histórias.

 

No fim da cada um destes textos, compreendi que a dimensão dos meus motins estava ali contida. Os escritos tornavam-se traduções de emoções, que não sendo minhas, me pertencem.

 

Acredito piamente que esta é com certeza uma das pouquíssimas razões que tornam um blog essencial, fundamental, imprescindível.  

 

Eu só vou continuar a brincar.

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A Gaffe tigresse

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

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No aniversário de Marie Curie - a menina, convém referir, faz hoje 151 anos -, a Gaffe fica perplexa quando se lhe depara uma magnífica fotografia da Conferência de Solvay em 1927, onde ninguém está a usar padrões tigresse.

 

Se por um lado é compreensível que a cavalheiros os ditos não favorecem, é por outro escandaloso que Marie Curie não reforce a sua feminilidade com uma peça, um apontamento, uma nuance, um sapato, ou uma calça, ou uma luva - ou qualquer coisa assim no singular -, uma bandolete, um cintinho, um chapelinho, um lencinho, um niquinho de trapo ou uma pochete, em padrão tigresse.

 

Tendo em consideração que a cientista é o único pipi a marcar presença entre as pilas nobelizadas ali presentes, e sobretudo o único pipi a quem foi atribuído por duas vezes o Prémio sueco, seria de esperar que marcasse a diferença, que desse nas vistas - embora no caso até se compreenda que não -, com uma nota tigresse que é, sabemo-lo hoje, o orgasmo de toda a mulher que se preza - e das outras também.

 

Sendo o padrão tigresse a maior porcaria, a maior imbecilidade, a maior pantufada, a maior cacada, o mais ranhoso dos padrões mais ranhosos, uma das mais irritantes visões da humanidade, a maior ofensa ao bom-gosto e a negação absoluta do bom-senso, seria de prever que Marie Curie o usasse. Demonstrava às pilas contentes - às do passado e às de tanto presente - que por muito Nobel que ganhe, uma mulher vai continuar parva o tempo todo.

 

Assim, Marie Curie provou apenas que dois passarinhos na mão, valem muito mais do que uma data de pilas no ar.   

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A Gaffe narradora

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

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A Gaffe reconhece que deviamos apenas usar as palavras quando elas são melhores do que o silêncio, no entanto existe pouca coisa mais dolorosa do que guardarmos dentro uma história que não contamos a ninguém, sobretudo porque nunca saberemos se por causa dela seriamos amados por alguém.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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A Gaffe do rebanho

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.18

 

 

Coitados dos cordeiros quando os lobos querem ter razão.

 

Foto - René Maltête

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A Gaffe na aldeia

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.18

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Minhas queridas, nunca, mas nunca, se atrevam a visitar uma aldeia pitoresca que nunca vos viu mais novas, com os pés vertiginosamente enfiados no vosso glamour Louboutin.

 

O descalabro espera-vos.

 

Esqueçam a sofisticação do equilíbrio treinado nas ruas das capitais europeias; ignorem a delícia que é ver o pasmo das burguesas pequeninas e adocicadas, que saltitam excitadas na hora da catequese; procurem evitar o orgasmo que é sentir que, perto de nós, a princesa lendária que se espetou contra o poste, é cilindrada pelo nosso merecido cintilar.

Tudo o que é deslumbre, sedução e requinte se eclipsa no segundo em que o nosso pé Louboutin surge à porta do Jaguar para pisar as pedras da calçada.

 

A partir desse momento, tudo é trágico.

 

Se a sola rubra do sapato não pisar pistas biológicas deixadas pelas cabras - e não me refiro às catequistas - e por bois que quase nos enfiam o focinho húmido nas axilas, corremos o sério risco de nos estatelarmos no centro da aldeia, com o tacão cravado num interstício manhoso, numa fenda traiçoeira, nas pedras da calçada, sem termos sequer um garboso matulão Armani para nos amparar a queda. Se não formos mordidas pelas galinhas - falo também das catequistas - e sentirmos o nosso jovial conjunto, Valentino Verão 2017, esventrado pelas garras de gatos psicopatas, acabamos a enfardar chouriços de sangue suspeitando que o interior está recheado com uma das nossas incautas antecessoras.  

 

O campo, minhas caras, é um lugar perigoso para uma rapariga pedante, pretensiosa, afectada e snob como eu. Engana-se quem pensa que as cidades sobrelotadas são ninho de armadilhas, incubadoras de crimes. São as perdidas aldeias no perdido interior de Portugal o Dexter Morgan desta história.

 

Nunca, mas nunca, se esqueçam, na rota das aldeias esquecidas, de incluir nas vossas Louis Vuitton um parzito de chinelos que não vos descalce a dignidade e um rosário. Há que pedir a Deus para que, pelo menos, não se nos estale o verniz.

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