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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe arredonda a saia

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.19

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É uma maçada uma rapariga, depois de ter lido artigos inteligentíssimos relativos à saia de Rafael Esteves Martins, ser obrigada a pensar.

A verdade é que seria muito mais fácil deixar que o vento deslizasse por entre as faldas e as fraldas da montanha que um ratito conheceu biblicamente, mas o certo é que uma menina cuidadosa não pode permitir que a estação passe sem que a sua brisa se faça sentir ainda que leve, levemente como quem chama por si.

É um aborrecimento fazer de conta que ignorámos que um político, ou um voluntário a tal em nome da plebe, insinua com uma imagem - física, fotografada, visualmente palpável - as suas ambições eleitorais. A representação tem um poder de conversão significativo e cria e recria um elo de ligação, uma espécie de relação pessoal, entre o eleitor e o candidato.

A imagem adquire uma natureza representativa - paternalista? -, que sendo ao mesmo tempo uma supressão da linguagem, se torna consequentemente apta a enformar uma arma capaz de se escapar a um corpo de problemas e de soluções, para dar relevo a um modo de ser, a um estatuto social e mesmo moral.

 

A imagem do candidato é em consequência um provável assalto do irracional ao espaço que em princípio deverá ser o da racionalidade.

 

Desta forma, a saia de Rafael Esteves Martins - enfim, a imagem de qualquer político -, não consubstancia, de todo, o seu projecto, declara apenas o seu móbil, as suas circunstâncias mentais e até mesmo eróticas, o ser que ele é, o produto, o exemplo, o isco.

É mais do que evidente que a esmagadora maioria dos candidatos nos dão a ler na sua imagem apenas as normas - sociais, mentais, morais -, a que obedecem, mas convém acrescentar que essa mesma imagem impõe uma cumplicidade, porque nos permite ler o que nos é familiar, o que nos é conhecido, propondo-nos, em espelho, a nossa própria imagem, enaltecida, sobrevalorizada, transformada em convite para que nos elejamos a nós, através dos que a revelam. Entregamos um mandato a quem nos concebe uma verdadeira transferência física.  

 

É evidente que a saia de Rafael Esteves Martins permitiu uma visualização, uma majoração, de valores que tantos consideram essenciais. É evidente que estabeleceu uma cumplicidade visual com determinado grupo, mas não é suficiente, mas não autoriza a certeza de uma posterior e intransigente defesa desses mesmos valores. Não é um ideal político explanado, não é uma ideologia, não é um projecto, não é um plano, não é um programa. É um homem que vestiu uma saia, contra o aparente bom-senso, que, nestes exactos e precisos casos, funciona como defensor acérrimo de um mundo homogéneo, ao abrigo de perturbações e de fugas. Um mundo replicável.

 

Seria interessante que, ao contrário do usual, os candidatos ao Parlamento nos surgissem como caixinhas por armar. Os eleitores escolheriam as que queriam ver montadas.   

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A Gaffe simétrica

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.19
 
O conceito de beleza - falo de beleza física - é um fenómeno volátil, divergindo no tempo e no espaço, dizem os entendidos.

Uma rapariga bonitona e gorducha amada por Rubens, não é considerada digna de piropos atrolharados passados pouquíssimos séculos.

 

Sabemos que hoje basta uma quantidade ínfima de anos para alterar o conceito.

Beatriz Costa era linda de morrer e de fazer moda e hoje brilha o rabo da radiosa Rita Pereira no panorama caseiro. A antiga namoradinha de Lisboa é agora apenas uma boa actriz. A Rita Pereira é por enquanto apenas boa atrás.

 

Há no entanto qualquer detalhe que falha nesta consideração.

 

Há quem afirme que existe uma especial característica na beleza que atravessa os séculos e é, em todos, revogada e reafirmada. A beleza possui, portanto, uma característica que não passa despercebida a um construtor de pirâmides, a um legionário do Império Romano, a um renascentista emproado, a um barroco floreado, a um maneirinho maneirista, a um iluminado aborrecido, a um romântico escanzelado e por aí fora que já se faz tarde.

Torna-se curioso saber qual é a característica que unifica este conceito tornando-o transversal e, mais do que isso, omnipresente.

 

Simetria

 

Um rosto simétrico atravessa o tempo e o espaço e é considerado belo, quer seja no deserto de Gobi, quer seja na Cochinchina, quer seja ainda na rua que atravessamos hoje de manhã, no tempo do arroz de quinze, no da Sr.ª Merkel e no que virá depois, caso vier.

Se o lado esquerdo de um rosto e de um corpo é igual ao seu lado direito, temos festa e piropos atrolharados pela certa e pela História.

A Beleza é simétrica, diziam alguns gregos velhos e diz o senhor Ramiro que não conta porque que vê beleza em tudo, vendo a dobrar, engarrafado em vinhaça.

 

Não me custa acreditar. Embora me seja penoso verificar que tenho uma orelha colocada um bocadinho mais abaixo do que a outra e que o meu braço esquerdo é imperceptivelmente mais pequeno do que o direito, não recuso a proclamada eternidade da simetria.

 

No entanto, seja lá pelo que for, olho fotografias como esta - enviada por um homem simétrico -, de gente banal e sem história, e penso que, respeitando ou não a regra que garante unanimidade, esta gente perdida no tempo e até no espaço, contém essa extraordinária beleza do que fica apenas porque não tem nada mais do que a verdade do que vejo, transformando o que vejo no que é belo - mesmo desigual, como metades de um fruto cortado tosco ao meio -, e provando sem lugar para dúvidas que, como diz esse meu querido amigo, em jeito de legenda, só o passado é eterno.

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A Gaffe sem ler

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.19

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Uma das armas da prepotência é aquela que faz com que os que a protegem não consigam, não queiram ou simplesmente deixem de ler.

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A Gaffe num cálice de Douro

rabiscado pela Gaffe, em 18.10.19

(Com saudade)

A elegância apenas amadurece como um vinho de eleição, ganhando corpo, paladar, textura, aroma e personalidade inconfundível, se, para além de o fazer em cascos de qualidade única, traz os taninos da inteligência incutidos na história do chão donde proveio.  

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A Gaffe dos ilhéus

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.19
 

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Em todos os homens há dispersas e pequenas ilhas de profunda elegância, de sofisticado conservadorismo e de máscula discrição. De vez em quando, uma é avistada!

Já uma mulher navega quase sempre na segurança do segredo de dia friorento na linha mais íntima e serena, escondida, das ilhas mais difusas.

 

Raros são os homens e as mulheres que se mostram sempre abertos arquipélagos.

 

Na fotografia - Madalina Ghenea 

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A Gaffe já sabe ler

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.19

 

Para a Tia! Tia! !Tia!

A petiza já sabe ler.

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafada, mas feliz.

Esta felicidade estende-se aos adultos que, para além de considerarem ter encontrado na família um prodígio inesperado, ficam libertos da maçadoria que se vinha tornando ler ou inventar histórias todas as noites à beira sono e ao canto da exaustão, quando a criança reivindicava o direito de ouvir a construção da fantasia pelas vozes que lhe desvendavam, que lhe decifravam, os signos e os mistérios contidos num livro.

 

No início, repetir as mesmas histórias era uma bênção que nos parecia maldição até batermos contra a vontade infantil de ouvir Sherazades improvisadas e inábeis.

Éramos três. O livro, a criança e a pobre criatura cansada que noite após noite servia de intermediária entre a fantasia e a avidez de sonho da ouvinte.

- Hoje é a tua vez. Ontem contei duas seguidas!

Agora que já sabe ler, é um alívio. É autónoma. Já permite que os deixemos, a ela e ao livro, entregues um ao outro.

 

Agora que já sabe ler, odeia ler.

 

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafada e perdida por completo no labirinto que foi descobrindo, mas onde ainda não encontrou saída. A frase vai-se erguendo sem sentido. Lida, mas não entendida, como se cada palavra conquistada se perdesse no tempo que leva a conquista e que impede que a união das parcelas não tenha resultado.

 

Ao parar de ouvir o contador de histórias, porque se tornou capaz de as procurar e decifrar sozinha, ao ser entregue sem apoio ao livro, deu início a uma luta que perde noite após noite, à beira do sono já despovoado. 

 

Cultivar o prazer de ler numa criança é continuar a ler-lhe, mesmo quando sabemos que ela já vai tocando as frases com tranquilidade. É permanecer três, mesmo pensando que dois já bastavam.


Creio que descobrimos isso apenas quando a criança nos avisa que saltamos uma frase, quando nos aponta, com o dedo a passear nas palavras certas, lendo, palavra por palavra, o erro que cometemos descrevendo em tons de verde a capa do príncipe, quando é lilás para condizer com os olhos da princesa e nos retira, maternalmente, o livro da mão.

 

Creio que descobrimos isso apenas quando ouvimos, numa noite qualquer à beira do cansaço, a criança declarar com convicção que não lemos como deve ser, desatando-nos o livro que abrimos cautelosos e soltando, como deve ser, a história que nos vai adormecer.

A partir desse momento, todas as palavras deixam de ser nossas, que somos tias tontas que não sabem ler, para se transformarem no ninho dos sonhos que fazem leitores.  

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A Gaffe com Tolstoi

rabiscado pela Gaffe, em 15.10.19

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É claro que hesito.

Se pensar ligeiramente mais alto acabo por descobrir a mais evidente das verdades:

Não interessa absolutamente nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a escoar frases patetas - patéticas, também - que tropeçam e escorregam, acabando esparramadas nos meus braços.

Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:

Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, com a certeza da existência de alguém a ouvir, babado e interessado, a alterar a vida, a repensar o ser, a duvidar do ego, a rastejar só para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.

 

Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto: Não há coincidências.

 

Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de Nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo: 


Narra a tua aldeia e narrarás o mundo.


E bem ou mal, atarantada e trôpega, lá volto eu a abrir os portões da quinta.

Fotografia - Sydney Hirsch

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A Gaffe queirosianamente fácil

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

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Deparo-me, nas minhas andanças por diferentes Avenidas, com verdadeiras jóias, inesperadas, mas perfeitamente aceitáveis tendo em conta os contextos e as épocas em que foram ditas ou escritas.
Fornecem pequenas - contudo brilhantes - informações acerca, por exemplo, de como era encarada quer a narrativa para a infância, quer os seus produtores.

Tomemos, retirando à toa, uma das Cartas de Inglaterra de Eça de Queirós onde é louvada a literatura infantil inglesa e aconselhada a adopção iluminada deste tipo de narrativa fácil.
Ouçamos:

(...) eu tenho a certeza que uma tal literatura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domésticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras inteligentes e pobres se poderiam empregar em escrever estas fáceis histórias (...)

 

É natural que senhoras inteligentes e pobres não possam pela certa ser convidadas a escrever O Crime do Padre Amaro ou O Primo Basílio, cujas narrativas não são, de todo, fáceis - embora exijam produtor inteligente. É também curioso verificar que, aparentemente, a razão que origina a recomendação desta actividade seja a pobreza de quem é reconhecidamente inteligente, assim como o desejo manifesto de que esta literatura infantil esteja presente entre os nossos costumes domésticos.

Apesar do aceitável mau grado com que lemos estes anacronismos, somos obrigados a reconhecer que, também aqui, Eça é um iluminista. Ao pretender reformar os costumes, reconhece e considera que a literatura infantil serve essa reforma, não se esgotando nela evidentemente.
 
Mas não deixa de ser interessante este olhar queirosiano sobre o que na época se poderia apelidar a Literatura do sotão.
 
E não deixa de ser pertinente verificar que hoje o leque de quem escreve estas histórias fáceis se abriu imenso, incluindo também gente muito pouco inteligente e de todas as posses e poses.
 
Ilustração - Edouard John Mentha

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A Gaffe do príncipe encantado

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.19

Fernando Vicente.jpgDe acordo com a perplexidade masculina, as mulheres apaixonam-se por um homem exactamente como ele é, por ele ser como é, e num instante desatam a querer modificá-lo.

 

Esta característica para além de fazer parte do nosso encanto, pertence, aos olhos do macho, ao insondável mistério da alma feminina, embora seja constrangedoramente fácil de explicar.

 

A culpa não está nas estrelas, mas próxima delas.

 

Somos todas herdeiras das aristocratas dos contos de fadas. Desde o princípio que convivemos com Princesas encantadas e desde o início que as sublimamos. Temos os genes desta nobreza encantatória que nos são transmitidos pelas narrativas da infância e somos portadoras, mais ou menos conscientes, de um imaginário palaciano em que nos movemos ao som diáfano de histórias antigas de dragões e cavaleiros.

 

Esta miscelânea de coroas encantadas de que somos feitas torna-nos capazes de acordar como a sofisticada e fria - muito Grace Kelly -, Princesa Aurora para logo a seguir, tornarmo-nos a dona de casa suburbana vivida por Branca de Neve, passando nos intervalos pela sopeira consumista que sonha desalmadamente com sapatos, não descurando encarnar, caso for necessário, Maléfica ou mesmo a Bruxa Má, cujos únicos erros são desconhecer por completo Yves-Saint-Laurent e não tratar da pele.

 

Este largo número de Princesas que somos em simultâneo contrasta com a simplicidade dos Príncipes que connosco contracenam.

 

Ao contrário dos homens que, pese embora o dito e redito, são todos diferentes - não valia a pena traí-los se fossem todos iguais -, os Príncipes encantados são idênticos. Uma pobreza que nos leva a acreditar que o rapagão que lambuza o sono de Aurora é exactamente o mesmo que nos revela o maroto fetiche por sapatos.

 

Conhecemos de cor as suas funções e reconhecemos as suas capacidades militares, mas, convenhamos, Branca de Neve pede um Príncipe caseirinho e paciente, disposto a adoptar os sete pequeninos, enquanto Aurora exige a sofisticação palaciana de um Príncipe diplomata e bailarino e Cinderela merece um fashion victim ligeiramente masoquista.

 

A uniformidade principesca é uma maçada.

 

As várias Princesas encantadas que somos - ao mesmo tempo - não deixam nunca de sonhar ver surgir o seu amado irreal e, em consequência, adaptam o real cavaleiro que as encontrou, tentando moldar o barro que lhe chega às mãos sem nunca deixar de amar as formas incompletas com que iniciam a tarefa.

 

Rapazes, tentar modificar-vos é altamente lisonjeiro! Resulta da certeza de termos encontrado um Príncipe diferente e da vontade imensa de o vermos perfeito exactamente como sabemos que sóis ou podeis ser para cada uma das nossas Infantas encantadas.

 

Não dói se aprenderdes a sempre olhar para nós como Princesas.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe sem asas

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.19

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Quando era criança, há muito pouco tempo, tinha a certeza que a inteligência encarnava nos corpos que escolhia à toa, transformando-os numa espécie de anjos com asas dentro.

Não acreditava que os que tocavam a genialidade, ainda que de forma imponderável e etérea, tivessem corpo físico sujeito às exigências mais violentas da carne. Eram insuspeitos, impolutos, intocáveis, isentos de terra e de lama, envoltos em poeira de conto medieval com a consistência do ferro de armadura e até o vertiginoso abismo que se abre de súbito quando um corpo nu e desejado se torna bracelete, anel, colar no nosso corpo, não despertava neles atracção.  


Assexuava-os, divinizando-os.  
Não lhes negava o corpo, mas via asas dentro, longe de mim, que era um terreno bicho, verme, insecto a mirar estrelas.

 
Agora espio a minha irmã.  


Tem o cabelo tratado por um cabeleireiro das estrelas, loiro, quase em demasia. Reflecte a luz, como se fossem penas duma ave ao sol as madeixas lisas sobrepostas. Os olhos pardos, descobertos poços de lâminas abertas. A boca desenhada a prumo, obediente às regras do perfeito. O corpo esguio, flexível, modulado, alto, muto alto pois que  

- saiu ao pai! -  dizem os homens curtos, habituados a resumos dentro.  


Está atenta ao que lê, de sobrancelhas erguidas, escarninhas. Os dedos longos nas páginas são corta-papel e o baloiço do pé faz compassar o tempo.  


Detém todo o poder que lhe foi dado como se houvesse memória de batalhas naquilo que decide e a inteligência à flor da pele veste-a melhor do que Dior faria. Fica-lhe bem, como um perfume fiel há tanto tempo que deixa de se fazer sentir a quem o usa. 


Olho a minha irmã como o bicho pequeno e terreno que segue o rasto dos cometas, mas sei que a mulher que espreito do chão da minha lura, é ténue, frágil como eu, e não tem asas.  


Longe, há pouco tempo ainda, era criança. As certezas tinham asas e às vezes coração. Agora sou igual a toda a gente.

 

Ilustração - Olga Esther

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A Gaffe estupefacta

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.19

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As plataformas onde se alojam blogues não comunicam entre si, ou seja, uma determinada acção com origem no Blogspot, por exemplo, que se reporte a uma situação específica na Wordpress ou Sapo, não tem eco nas plataformas visadas e o caso é ignorado pelos destinos ou destinatários.

Foi o que aconteceu.

Apenas agora - e porque só agora o soube -,  dou comigo com uma gigantesca estrela pousada em mim que patinava, que esquiava, que me tentava equilibrar no piso escorregadio destas Avenidas.

Sinto-me absolutamente deslumbrada, orgulhosa, vaidosa e um bocadinho atarantada, porque mereci a simpatia de um dos raríssimos cavalheiros, de um dos grandes cavaleiros, da Literatura Portuguesa de todo o sempre.

Rentes de Carvalho teve a imensa generosidade de me considerar uma excelente surpresa.

E bastava-me um sorriso.

Valham-me todos os deuses! Eu tenho mesmo aqui ao lado as extraordinárias obras deste sábio e tanta vergonha de descobrir que estou nestes preparos!

Sinto-me tão recompensada!   

Muito obrigada.

 

Ilustração - Denis Zilber

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A Gaffe sombria

rabiscado pela Gaffe, em 12.09.19

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Quando homens pequenos começam a projectar grandes sombras, o sol está a tombar.

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A Gaffe testando

rabiscado pela Gaffe, em 06.09.19

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A Gaffe percebeu que a mais rápida forma de nos apercebermos se estamos a envelhecer, é esbardalharmo-nos na frente de várias pessoas, com um alarido descomunal.

 

Se todos desatarem a rir, estamos jovens.

Se toda a gente entrar em pânico e a correr para nos ajudar, é de se começar a seleccionar o nosso lar de idosos.

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A Gaffe pistoleira

rabiscado pela Gaffe, em 04.09.19

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Raparigas, tenham sempre presente que há homens a quem dar uma segunda oportunidade, é o mesmo que lhes entregar uma segunda bala, porque não nos acertaram com a primeira.

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A Gaffe de Ângelo Rodrigues

rabiscado pela Gaffe, em 03.09.19

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Just don’t tell me what to do.

 

A nudez foi durante séculos - sobretudo os amarfanhados pelo judaico-cristão - o último reduto da privacidade e talvez por isso, exactamente como o seu contrário, um latente factor de domínio sobre os outros.

A perturbação no equilíbrio entre o privado e o público, desencadeia anomalias que podem dar origem a eras, a épocas, a períodos e, numa escala mais caseirinha, a alterações comportamentais, a conceitos, a preconceitos e a distúrbios aparentemente incompreensíveis.

 

Dizem que um dos sustentáculos da Idade Média, um dos que escorou a sua origem, foi a usurpação do que era público pela esfera do privado. Os feudos são disso prova. O retalhar da terra e a inclusão das porções resultantes no círculo adstrito à propriedade privada, tornou possível o exacerbar do domínio sobre o Outro que foi engolido, como parte do usurpado, pelo poder de quem detinha a capacidade de chamar seu ao até ali de muitos.

 

A anulação do privado em favor do público, abala e destrói as monarquias e os impérios anteriores e sustenta ideologias que acabam por não produzir o equilíbrio frágil e absolutamente necessário entre meu e nosso.   

    

Esta mecânica, aqui referida de forma insipiente e torpe - incapacidade minha -, é observável nos jogos e nas guerras travados nas redes sociais, na publicidade, na comunicação social mais fútil – eventualmente quase toda -, e que reverberam nos modos de se olhar o Outro.

 

O corpo torna-se público. A nudez deixa de possuir o seu carácter reservado, de índole privada, pertença exclusiva do indivíduo, e é exigida com voracidade pela multidão que a torna sua e que nela se reflecte escolhendo os indícios que ali cumprem o sabor do gosto que se impõe. Ignora-se, apaga-se ou subvaloriza-se o restante com a velocidade do relâmpado de um olhar. A visão da nudez do Outro é toldada e contaminada por conceitos estéticos mutáveis que exigem um imediatismo destruidor na resposta e no estímulo. Somos nus públicos, dependendo das multidões que se tornam ferozes quando o que lhes é fornecido não obedece ao almejado pela quimera da perfeição. A multidão que se une sem ter consciência racional do elemento que a aglutina é quase sempre um anseio de superação de cada indivíduo que a enforma.

 

O domínio descontrolado exercido pelo público é tão devastador como aquele que é exercido pelo privado quando desarvorado.

 

O corpo público obedece então a todas as exigências daqueles que o devoram, acabando única moeda de troca. Fornece a ilusão de todas as quimeras, de todas as perfeições, recebendo das multidões a ilusão de uma espécie de existir dentro de uma espécie de verdade que é consequência da tremenda ilusão de reconhecimento, de aceitação e do aplauso.

É nessa variante, nesse desvio da nudez que de súbito é exigida despudoradamente pública, que o corpo é imolado.

Tornamo-nos implacáveis. Clamamos contra a perpetuação desta anomalia, carpimos a nossa vítima, depois de lhe termos exigido a pele e os músculos, e dentro de uma preguiça soberba e quase patológica, doentia, maníaca, subversiva, disforme e coberta com os lençóis da nossa conspurcada e mentirosa inocência, continuamos a insinuar o que o Outro tem de fazer para que o possamos aplaudir.

 

Somos agora, paradoxalmente, uma multidão medonha e animalesca quando em privado, numa espantosa normalidade, lambemos a ilusão da perfeição do corpo e da nudez dos bonecos que injectamos com o reflexo da imagem que nunca será a nossa, como se tivéssemos um espelho capaz de nos mentir, omitindo a queda inexorável que é a vida.  

 

Somos todos - carrascos e vítimas -, de cartão e todos temos pés de argila. Debruçados na margem do rio, procuramos na água uma jangada que nos faça chegar ao outro lado, mesmo que no outro lado não se encontre nada.    

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