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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe tigresse

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

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No aniversário de Marie Curie - a menina, convém referir, faz hoje 151 anos -, a Gaffe fica perplexa quando se lhe depara uma magnífica fotografia da Conferência de Solvay em 1927, onde ninguém está a usar padrões tigresse.

 

Se por um lado é compreensível que a cavalheiros os ditos não favorecem, é por outro escandaloso que Marie Curie não reforce a sua feminilidade com uma peça, um apontamento, uma nuance, um sapato, ou uma calça, ou uma luva - ou qualquer coisa assim no singular -, uma bandolete, um cintinho, um chapelinho, um lencinho, um niquinho de trapo ou uma pochete, em padrão tigresse.

 

Tendo em consideração que a cientista é o único pipi a marcar presença entre as pilas nobelizadas ali presentes, e sobretudo o único pipi a quem foi atribuído por duas vezes o Prémio sueco, seria de esperar que marcasse a diferença, que desse nas vistas - embora no caso até se compreenda que não -, com uma nota tigresse que é, sabemo-lo hoje, o orgasmo de toda a mulher que se preza - e das outras também.

 

Sendo o padrão tigresse a maior porcaria, a maior imbecilidade, a maior pantufada, a maior cacada, o mais ranhoso dos padrões mais ranhosos, uma das mais irritantes visões da humanidade, a maior ofensa ao bom-gosto e a negação absoluta do bom-senso, seria de prever que Marie Curie o usasse. Demonstrava às pilas contentes - às do passado e às de tanto presente - que por muito Nobel que ganhe, uma mulher vai continuar parva o tempo todo.

 

Assim, Marie Curie provou apenas que dois passarinhos na mão, valem muito mais do que uma data de pilas no ar.   

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A Gaffe narradora

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

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A Gaffe reconhece que deviamos apenas usar as palavras quando elas são melhores do que o silêncio, no entanto existe pouca coisa mais dolorosa do que guardarmos dentro uma história que não contamos a ninguém, sobretudo porque nunca saberemos se por causa dela seriamos amados por alguém.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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A Gaffe do rebanho

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.18

 

 

Coitados dos cordeiros quando os lobos querem ter razão.

 

Foto - René Maltête

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A Gaffe na aldeia

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.18

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Minhas queridas, nunca, mas nunca, se atrevam a visitar uma aldeia pitoresca que nunca vos viu mais novas, com os pés vertiginosamente enfiados no vosso glamour Louboutin.

 

O descalabro espera-vos.

 

Esqueçam a sofisticação do equilíbrio treinado nas ruas das capitais europeias; ignorem a delícia que é ver o pasmo das burguesas pequeninas e adocicadas, que saltitam excitadas na hora da catequese; procurem evitar o orgasmo que é sentir que, perto de nós, a princesa lendária que se espetou contra o poste, é cilindrada pelo nosso merecido cintilar.

Tudo o que é deslumbre, sedução e requinte se eclipsa no segundo em que o nosso pé Louboutin surge à porta do Jaguar para pisar as pedras da calçada.

 

A partir desse momento, tudo é trágico.

 

Se a sola rubra do sapato não pisar pistas biológicas deixadas pelas cabras - e não me refiro às catequistas - e por bois que quase nos enfiam o focinho húmido nas axilas, corremos o sério risco de nos estatelarmos no centro da aldeia, com o tacão cravado num interstício manhoso, numa fenda traiçoeira, nas pedras da calçada, sem termos sequer um garboso matulão Armani para nos amparar a queda. Se não formos mordidas pelas galinhas - falo também das catequistas - e sentirmos o nosso jovial conjunto, Valentino Verão 2017, esventrado pelas garras de gatos psicopatas, acabamos a enfardar chouriços de sangue suspeitando que o interior está recheado com uma das nossas incautas antecessoras.  

 

O campo, minhas caras, é um lugar perigoso para uma rapariga pedante, pretensiosa, afectada e snob como eu. Engana-se quem pensa que as cidades sobrelotadas são ninho de armadilhas, incubadoras de crimes. São as perdidas aldeias no perdido interior de Portugal o Dexter Morgan desta história.

 

Nunca, mas nunca, se esqueçam, na rota das aldeias esquecidas, de incluir nas vossas Louis Vuitton um parzito de chinelos que não vos descalce a dignidade e um rosário. Há que pedir a Deus para que, pelo menos, não se nos estale o verniz.

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A Gaffe e a actriz

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

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Antes e agora, as mais sofisticadas princesas europeias foram actrizes.

 

A elegância absoluta, sem erro e sem margens para dúvida ou hesitação, parece ter como aliada imprescindível uma lapidada capacidade de fingir.

 

Duquesa de Sussex por Roland Mouret 

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A Gaffe relativa

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.18

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Diz o sábio que o tempo é relativo.

A Gaffe simpatiza imenso com o alegado autor da máxima e embora jamais possa entender a sua Teoria, percebe a simplória sentença que lhe é atribuída.

A consciência das alterações operadas nesta rapariga aos longo destes últimos anos, sobreveio num curtíssimo espaço de tempo. Dois meses foram suficientes para que as metamorfoses ocorridas em silêncio subterrâneo, se revelassem de forma evidente e provassem que o povo tem razão, de quando em vez.

Quem sai aos seus, não degenera.  

A Gaffe apercebeu-se que saía aos seus. Provavelmente aos piores, se pautarmos a nossa avaliação pelas listagens e parâmetros de quem vai pastando unicórnios.

O optimismo ledo e brando, a tolerância suave, a maleabilidade, a paciência, a solidariedade, a compreensão e todas as outras características que são apanágios das boas pessoas, foram sendo assoberbadas, foram tendo acidentes - atropelamento e fuga - e foram assolapadas, devagarinho aniquiladas, pois que devagar se vai ao longe. A grande metrópole do real acabou de vez com a ilusão de que todo isto era impressão, uma fitinha de nada para compor o ramalhete.

 

A Gaffe é uma cabra, cumprindo a tradição dos seus - das suas, sobretudo. Agrada-lhe perceber que orgulha a família.

Como seria de esperar, não a incomoda balir desta forma. Tem o mesmo som da Inocência ou da infância - nem sempre coincidem -, pois que nos convencem que os extremos se tocam.

 

Apesar do dito, a Gaffe observa o mundo como outrora. A diferença está no facto de sentir que no antigamente das estrelas, pese embora os brilhozinhos, usar o capuchinho das pessoas certas podia facilmente ser sinónimo de perigo, enquanto que agora esta rapariga sabe que os lobos estão em extinção. Os pobrezinhos.

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A Gaffe carnívora

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Gosto de comer, mas sou carnívora. 


Gosto de sentir os dentes a afundar em carne tenra e suculenta, de sentir os molhos aromatizados a banhar-me a boca.

Gosto de lamber nacos de carne para lhes sentir o sabor das ervas que lhes deram alma.

Gosto de lamber a alma da carne. 
Gosto de sentir os ossos a estalar, quebrados pelos dentes, de sucos de carnes frescas assadas com ramos de alecrim.

Gosto de morder enchidos até espalhar todos os sabores por toda a boca, misturando-os em orgias de saliva. 

Gosto de trincar, morder, dilacerar, esmagar, cortar, ferrar, mascar e misturar em carnavais de sabor e baba as carnes suculentas que afago com a língua até me enfurecer.

Gosto de sentir correr pelo queixo os fios de saliva e molho e de lamber os dedos.

 

Com as sobremesas sou mais sofisticada.

 

Ilustração - Ricardo Martinez

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A Gaffe sem milagres

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.18

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Quando caminhamos sobre as águas, há sempre alguém que diz que é porque não sabemos nadar.

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A Gaffe atapetada

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.18

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A vida é assim:

Os tapetes de Arraiolos são lindíssimos, até veres um do Irão.

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A Gaffe apaziguada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.18

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O calor desabou.

 

Há duas semanas que sentia que poderia se me calasse passar despercebida e escapar às labaredas.

Sentava-se num dos bancos de pedra que rodeiam a cisterna e ficava quieta a ouvir a sombra a trepar pelas árvores frias. Começava a erguer-se do chão, tingindo-o de cinzento. Alastrava até encher a água de chumbo picotado pelo vermelho das carpas asfixiadas que vinham abrir a boca à superfície. Depois, como bicho insidioso, a sombra enlaçava os troncos dos teixos. Sentia o barulho rumorejante desse trepar irreversível.

As mãos da sombra são frias. Tocavam-me nos pés, nas mãos, na boca, e imobilizavam as palavras e os gestos e mesmo o toque ínfimo do fio de água que alimenta a cisterna se estilhaçava na pele líquida com a invisibilidade da finitude. Mergulhava nesta descoloração com a beatitude dos que desistem, com a aceitação dos suicidas e deixava que a consciência da minha morte crescesse indolor.

 

Dentro de mim, a morte vai crescendo igual à sombra da cisterna e a placidez deste facto tranquiliza-me, como me apazigua a sombra a crescer nos teixos frios.   

   

Agora o calor desabou e um pavão destrói a obscuridade com o grito de jóias estridentes.  

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A Gaffe quotidiana

rabiscado pela Gaffe, em 28.05.18

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Dizem que a banalidade não tem narrativa, que as histórias que ficam presas à memória cravam as raízes nos dias que não são derramados nas ruas vulgares, que apenas o incomum nos deixa marca.

 

Possivelmente.

 

No entanto, as histórias mais simples, aquelas que atravessam as ruas connosco ao lado, as que se esfumam no passar das horas destinadas a não ser colhidas por ninguém, são sempre as nossas, as que riscamos a todo o instante sem que se percebam os traços que ficaram esbatidos nos instantes que passaram, banais, quotidianos.

 

Pertencem-nos, são coisa nossa e são coisas dos outros. Iguais ou similares em toda a gente. Não trazem narrativas presas à banalidade comum a todos os que passam, porque o banal é tido como surdo e mudo.

 

Passamos pelas nossas histórias como cegos.   

 

Imagem - Jorge Gamboa

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A Gaffe receosa

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.18

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Estranho bicho, o Medo.

Estranhas as entranhas - que lhe são externas - onde decompõe a alma que agarrou.

Só uma vez agride, acidulando o exterior a si, corrompendo a luminosidade e devassando a lucidez. Depois espera que o exercício da corrupção na alma única e isolada em que injectou peçonha alastre e contamine as almas em redor.

 

Uma só vez o Medo actua. Numa só alma. Depois descansa.

O que tritura o resto é o receio, apenas o receio, basta o receio, de sentir sobre aquela que é a nossa vida a reprodução daquilo que conspurcou a outra.

 

Gravura - Domenico Marchetti

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A Gaffe doseada

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.18

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Uma rapariga esperta sabe que em qualquer situação, a elegância é sempre um dom a manter. Pode eventualmente ser herdado, mas sucumbirá se dele não cuidarmos. Não há nesta área aquilo a que se costuma chamar abébias, embora a Gaffe nunca tenha entendido muito bem o sentido desta expressão.

 

Basta por vezes que uma rapariga se lembre do chinelo que lhe serviu uma vez para enxotar uma barata numa esquina esconsa da vida, para que se esmifre toda uma cultivada sofisticação e apurada elegância, assim como basta que de chinelos calçados tentemos imitar uma prima ballerina numa situação em que bastaria ter cuidado com a coluna.

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A Gaffe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18
 
Tinhas-te enganado no bairro, na rua e inevitavelmente no número da porta, por isso a chuva havia destruído os dois croissants com amendoim e amêndoa, Boulangerie La Môle, Rue de Tourene, empapando o saco retro, pardo, com um cozinheiro balofo e sorridente desenhado a azul. Os braços do homem desfaziam-se, alastrando pelo papel pingado e o traço do sorriso resvalava numa gota azul que escorria rápida, sobrevivendo ao empapado embrulho.
 

Senti o teu perfume muito antes de te sentir os passos, de sentir a tua luva a deslizar no corrimão. O teu perfume altera-se quando a tua pele o toca, por isso, mesmo cega, te reconheço entre milhares.

Trazias o sobretudo bege, aquele que tu gostas e dura há tanto tempo, manchado pela chuva. Nos ombros os desenhos da água do céu escuro de Paris, como se dos olhos tivessem tombado os arabescos tristes. Sorrias quando me mostraste o teu guarda-chuva desdentado pela força do vento e te sentaste no chão mesmo ao meu lado.

 

- Vim esperar contigo. Podemos esperar aqui, os dois, o tempo que quiseres.

 

Abraçaste-me e foi então que comecei a chorar, aninhada em ti. Chorei mais do que a chuva. Encharquei-te o peito de soluços e ganidos.

Ficamos quanto tempo? Quantas horas durou o meu corpo a desfazer-se em água?

Quanto tempo levei a decidir matar o tempo de esperar?

Foi ali que aprendi contigo que a espera só se torna vã no momento exacto em que a nossa alma assim o decide, mesmo sem sabermos porque o fez.

 

Há dois mendigos eternos - tu e eu, ali - que esperam por Godot. Há um povo perdido a aguardar um rei sifiliticamente mágico que perdeu no sol. Há um poeta a sonhar ser amado como um dia amou.

Não há esperas inúteis até ao momento em que as transformamos, mesmo sem saber, em vazio incómodo.

Um povo, dois mendigos e um poeta só podem ter razão.

A espera continua a vida, mistura-se com ela até ser viva. Integra a nossa alma até ser pedaço dela, indivisível, inalienável. Não adia o tempo de viver, porque é já ele.

 

Gostava de me atravessar na porta por onde o tempo passa. Impedir que se escoe, que desapareça. Talvez então eu conseguisse fazer a morte parar, ficar à espera. Talvez então encontrasse um modo de entregar a alguém o tempo que é meu e de que mais me orgulho: as horas empapadas em que eu esperei. Esse tempo exacto. Esse intervalo nítido que finda no instante em que me levantaste porque sentiste a minha espera desistir, abandonar-me a vida.

 

Paris?!

Paris espera sempre, porque nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde partimos.

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A Gaffe num slogan

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.18

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slogans que são manifestos perfeitos e que resumem de forma exemplar a indignação de quem os assume e os transforma em bandeira.

 

Não falo no Yes, we can, tornado pela desilusão em Yes! weekend! ou pela necessidade  de afirmação e resistência, no Yes, we camp, ou ainda pelo ameaçador America First 

 

Falo, por exemplo, daqueles que funcionaram quase como previsão sinistra do que, não sei se apenas metaforicamente, veio a acontecer, como o on mangera les riches, ouvido durante Maio de 1789 e Novembro de 1799, em Paris.

 

Refiro-me aos mais poéticos, inscritos nas ruas de Maio de 68, como o ouvido e inscrito nos muros parisienses je suis comme un oiseau mort quand toi tu dors, que apelava de forma belíssima à consciencialização política dos estudantes que hesitavam.

 

Nunca gostei de ouvir slogans que não fossem susceptíveis de se transformar em lança espetada num determinado tempo ou acção específica, resumindo e revelando um sentir determinado.

Por isso me apaixonei pelo que li, inscrito num cartaz que vi passar nas mãos de um velho, na brevíssima e contida reportagem sobre a desilusão portuguesa que cavalga ainda, mintam o que quiserem.

 

  DE CRAVOS A ESCRAVOS

 

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