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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dentro da normalidade

rabiscado pela Gaffe, em 06.05.19

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Normal é vestir o que compramos para trabalhar conduzindo através do trânsito num carro que ainda estamos a pagar para chegar a tempo ao trabalho que precisamos para poder pagar as roupas e o carro e a casa que deixamos vazia todo o dia para que nos seja permitido lá viver.

 

Por tudo isto ser normal, é que precisamos de repensar o modo como lutamos por tudo o que vale mesmo a pena defender.

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A Gaffe esforçada

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.19

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Um homem devia ter de empurrar um barco através de uma montanha, pelo menos uma vez na vida.

 

Uma mulher também, embora nestes casos metafóricos nos seja mais conveniente ir de avião.

 

Imagem - Zulkarnain Ismail 

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A Gaffe alheia

rabiscado pela Gaffe, em 08.04.19

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Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Em relação ao universo, ainda não tenho certeza.

Einstein

 

Apetecia-me imenso fazer rodear esta citação de florinhas, de coisinhas ou de outras minudências amorosas. Suponho que ficaria mimoso neste espaço - ou no facebook, pois então -, se, é claro, Einstein tivesse sido realmente o seu autor.

 

A responsável pelo dito foi, por acaso, a sua digníssima esposa, Mileva Marić, que, só por um acaso também, foi minimizada, ou mesmo apagada, da Teoria da Relatividade que ajudou a empurrar.

 

Estes tropeços na atribuição de autoria destas pagelas faceboquianas são tão imbecis que levam sempre uma criatura menos exigente a esbardalhar-se no alheio e, como diz Almada:

 

Não te metas na vida alheia, se não queres ficar lá dentro.  

 

Ilustração - Marina Dieul

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A Gaffe de Saussure

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.19

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Entre muitos - e entre os mais perceptíveis -, factores que acabam por nos aproximar do estrume sobre o qual germina a coesão de determinado aglomerado de gente e que consolida uma identidade nacional, encaixam os símbolos e signos identificativos da especificidade de um povo.

O hino, a bandeira, um monumento, ou mesmo uma paisagem, são signos em que o significante e o significado obedecem na perfeição às referências e aos parâmetros enunciados por Saussure.

 

Indignamo-nos com alguém a balbuciar o hino do país que representa, trocando as palavras do refrão ou tropeçando na melodia, porque este desconhecimento fere a consciência de identidade de grupo e de identificação com determinado conjunto de valores, comportamentos, cultura e mais uma quantidade de outras histórias que não se dizem para não prolongar a paciência até à exaustão.

 

Queimar uma bandeira é, pelas mesmas razões, um insulto e uma desonra. A necessidade de reconhecer com clareza as ligações saussureanas existentes nestas situações é, mais do que habitual - e o habitual é imprescindível para que exista comunicação, mesmo a mais básica.

Hastear uma bandeira invertida para além de ser expressão de terra ocupada - conclusão já saussureana - é, simultaneamente, um lapso sausssureano.

 

Um país, um Estado, um povo, uma criatura, exprime-se também através destes signos e destes símbolos - diz-me um amigo que destas coisas sabe. 

 

Destruída a aliança entre significado e significante, através do não reconhecimento de uma destas faces da moeda - o que implica a quebra da identificação da outra -, o terreno que se abre é o da conjectura que permite todas as divagações, que incluem interpretações renovadas, mas que não deixam de estar coladas ao que atrás se diz em relação à dupla significante-significado, tocando mesmo as quase mitológicas - no sentido que Roland Barthes atribuiu ao mito.

 

Não interessa saber se é propositado ou se é lapso o hastear de uma bandeira invertida. O que se torna interessante é perceber que o símbolo - o signo -, alterado o significante, origina uma colecção razoável de congeminações que reproduzem significados diversos, nem todos apetecíveis.

Diz-me um amigo que sabe destas coisas.

 

É neste pressuposto - provavelmente errado -, que é fácil não me aperceber do lugar a que pertenço.

 

Há signos que foram lentamente desconstruídos e destruídos, provocando avalanches de novas e múltiplas interpretações que me constrangem.  

 

Paris alterou-se, quebrou a cumplicidade entre significante e significado que eu reconhecia.  

A Torre Eiffel - retiremos à sorte -, invadida por pastilha elástica e por Macron a tentar ser líder de coisa nenhuma, é o signo que já não corresponde à minha cidade.

Há cada vez mais lixo amontoado nos Champs-Élysées. Há migrantes desprezados e rotos e esfomeados, há refugiados em completo abandono, há cada vez mais sem-abrigo, há miséria, há degradação humana e indiferença total perante o facto, nas ruas e avenidas da cidade-luz que se apagou. O Louvre é cada vez mais visto como depósito de roubos, de pilhagem, de prepotência francesa sobre culturas esmagadas e o paternalismo que usa para justificar e perpetuar a retenção de obras-de-arte que não lhe pertencem, deixa de fazer sentido - sabemos, por exemplo, do culto, o respeito e o cuidado quase obsessivos que os gregos dedicam desde há muito ao seu património cultural, embora se reconheça que o iraquiano se perdeu em grande escala, por não haver tutor. As escadas de Montmartre deixaram de ter poetas e boémios e pintores, não há mansardas há muito, há corrimãos de seringas e os bouquinistes atiram livros ao Sena embrulhados em plástico, juntamente com o crack perseguido pela polícia que não está ocupada a varrer das ruas os coletes amarelos.

É correcto afirmar ter lido e sentido erradamente o signo Paris. A aliança que fiz entre significado e significante não resulta agora, partida em duas metades visíveis e tornadas antagónicas, incongruentes, quase ilegíveis.    

 

Mea culpa, pois que sou tontinha.     

 

O Douro é, por sua vez, outro signo que perco com os tiros das luzes dos paquetes turísticos.  

O rio em agonia. Desvirtuado o seu correr pelas pacóvias instâncias de turistas deslumbrados com as selfies que o arrancam do sessego. As margens violadas pelas pisadas das gordas matronas que urinam agachadas longe dos barcos de recreio. Os ossos de frango assado, os restos de churrasco, de gordura despejada nos papéis atirados para as árvores que pingam plástico. Os socalcos que não aguentam o peso dos velhos obesos, de chapéus de palha e pena alemã ao lado, ébrios pelas provas que provam a indignidade dos assaltos que executam com a ganância de palatos não cuidados, emproados e arrogantes, fellianianos, cobardes, com um medo ainda discreto do povo, arrastando, atrapalhados e toscos, as mochilas da degradação.

A minha casa, retirada há muito dos roteiros dos flash, tornada inacessível por uma arquitectura que obriga a paisagem a fechar o cerco sobre os muros, sofre a ameaça de se tornar alvo desabrido de americanos bêbados, de ingleses que acreditam que a podem calcar, de chineses e de japoneses que lhe roubam raízes para fazer chá.  

 

Mea culpa, pois que sou parvinha.     

 

Os meus signos quebrados, largam-me nua, sem saber onde fica a minha casa, próxima da criação de um outro mito.

Tenho de reler Saussure enquanto choro.

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A Gaffe não aceita

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

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Um dos verbos que devia ser abolido do dicionário da alma de alguns é o aceitar.

 

Torna-se obsceno quando é usado na primeira pessoa quando a pessoa é a primeira a usar o que aceitou como arma de arremesso.  

É vulgar - nunca deixando de ser repugnante -, ouvirmos a tentativa de cuspir um insulto com o que horas antes se jurou aceitar com a pia benevolência dos que são caritativos e olham a humanidade com a brandura dos mansos que deles é o reino dos céus.

É nojenta a facilidade com que aceitar o outro se funde a crença na ilusória, com a mentirosa, certeza de que somos bons e que jamais nos imiscuiremos, ou combateremos, o que no outro é diferente.   

 

Aceitar o outro, tem por vezes implícito um minúsculo julgamento feito nos confins da alma de quem aceita.
Quando aceitam não estão a reorganizar o pensamento de forma a que este se adapte ao que não consegue ou que revela dificuldade em compreender ou reconhecer como forma de consciência independente e diversa daquela que possui.


Sentam-se nos seus pequeninos tronos e, magnanimamente, aceitam o outro.

Não o entendem segundo diferentes arquitecturas interiores e recusam ou subtilmente condenam cada acto cometido, porque não é assimilado pelas suas organizações internas, mas, e como são criaturas superiores, aceitam.


O seu irrisório tribunal interno não arrisca declaradamente o perdão, por beata modéstia, mas inclui no aceitar uma parcela de indulgência, envernizada, mascarada de respeito pelo outro.
Aceitar
, dentro deles, traz no bolso um calado sentimento de superioridade, uma velada e inconsciente vontade de domínio, uma escondida certeza de que, o que são, se torna a regra mais conveniente para o equilíbrio planetário.
Julgam o outro quando o aceitam e não abdicam dessa miserável e ínfima sensação de superioridade. Ao aceitar, recusam, recuam e, em última análise, assinam no esconso da alma a moção de censura ou a negação.


Ao aceitar as formas externas ao traçado arquitectónico que reconhecem como seu, são como as anafadas senhoras, de agenda apopléctica e reservado lugar em todas as comissões de avaliação e em todos os plenários ou jurados. Depilam as sobrancelhas para as desenhar depois com traços negros, escondem estampas pornográficas nas páginas batidas do missal e aceitam, soberanamente, superiormente, o outro que também tem direito à vida.


Não consigo compreender estes gauleses... mas aceito-os - diz o Imperador, olhando de soslaio o Axtérix.

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A Gaffe real

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.19

 

A Gaffe, como está provado, não é especialmente católica. No entanto, não deixa de se espantar com o modo como Deus encara miseravelmente as monarquias, tendo em consideração as cabeças que escolhe para coroar.

Os outros regimes não escapam ao desprezo divino, mas os diferentes escolhidos que os encabeçam, dizem-se eleitos por outras artes.

 

Há no entanto, algumas - raras -, excepções a esta indiferença divina.

 

Há mulheres que são ocultas, latentes infantas, herdeiras dos reinos mais íntimos das almas dos homens e, mesmo sem diadema repleto de jóias solares, são capazes de urdir a mais imponente das insígnias reais: as coroas que ostentam são entrançadas com as próprias fibras.

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A Gaffe do bajulador

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.19

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Na imensa fila dos bajuladores mais abjectos, é sempre aquele que ocupa o lugar da frente, o primeiro a calcar e a esmagar o incensado quando o encontra caído.

 

Ilustração - Denis Zilber

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A Gaffe das fadas

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.19

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Tentei há imenso tempo, uma aproximação presunçosa e mais ou menos freudiana às histórias de fadas.

Recupero o que na altura foi escrito, pois que nada se alterou e porque encontrei ilustrações extraordinárias que quero muito mostrar.

 

Na altura usei apenas O Capuchinho Vermelho e A Bela Adormecida que são, sem hipótese de contradição, duas obras com direito a figurar nas estantes da memória de todas as crianças. Não fiz, nem pretendo fazer por estar longe de ser capaz, uma análise exaustiva das obras. Aflorei apenas o aspecto que ilustra de certo modo o que sempre pensei acerca do assunto.

 

O primeiro conto fala de uma menina que, usando um capuz encarnado, deverá no seu passeio pelo bosque, passar a ter cuidado com o lobo que a espreita com intuitos devoradores. Numa primeira e quase imediata aproximação, descobrimos a cor do capuchinho que, segundo uma data considerável de analistas, representa a menarca, a primeira menstruação de uma jovem. A rapariga, fértil, deverá cuidar da sua segurança e do afastamento do possível agressor e/ou desflorador, aqui transformado em lobo cujas características estão desenhadas de modo a ser considerado fatal. A lição possível é dada de modo eficaz e o aviso subliminar fica registado. A menstruação, metaforicamente encapuzada, é sinal claro, vermelho, para que a jovem menina passe a observar os sinais de perigo vindos do bosque. Uma agressão não pode, ainda hoje, ser evitada usando o medo do lobo que espreita?

 

É também curiosa a quantidade de sangue que se derrama nestes dois contos - mas não exclusiva destes. O sangue metafórico do capuz e o sangue provindo da picada que adormece a Bela. Desta feita, no caso da Princesa catatónica, ser picada é ser desflorada. Há um elemento perfurador, o fuso, que penetra na carne da jovem que tinha atingido a idade em que se tornaria normal uma iniciação sexual. Como castigo, a adolescente adormece e terá de ser o Escolhido a tentar reanimá-la com um beijo após ultrapassar uma série de provas que demonstram que é o merecedor. O feitiço é imposto pela bruxa - interessante também esta dualidade entre bruxa/fada, fada madrinha/feiticeira, que está muito próxima da imagem da mãe, criatura benévola versus criatura malfazeja - e é quebrado por imposição - permissão? - de uma fada com a condição de ser um corajoso, garboso e aprovado jovem a reanimar a princesa picada e ensanguentada. Neste caso, o beijo poderá ser leve e pueril, ao contrário do da Branca de Neve que será obrigatoriamente mais profundo de forma a retirar da garganta o pedaço de maçã envenenada. Muitas vezes ignorada ou dispensada esta característica contribui de modo decisivo para a perenidade e a intemporalidade da história.

 

Estes dois exemplos, mostrados de forma simplificada e incompetente, dizem dos modos sublimados de abordar o sexo nas histórias para as crianças, transmitindo noções e conceitos que se enraízam no inconsciente colectivo e estão directamente relacionados com os chamados arquétipos da humanidade. Não são exageros de mentes sórdidas capazes de encontrar, de modo freudiano, o sexo nos anjos. Até porque são raros - se é que há alguns - os contos onde os querubins se tornam personagens dignas de eternidade oral ou escrita. Por não terem sexo, acabam não contáveis.

 

A minha aproximação, pecando por defeito, é necessariamente curta e restrita e está apoiada nos mais básicos alicerces do corpo construtor da clássica narrativa infantil susceptível de atravessar gerações sem modificações na sua estrutura essencial. Carece de maior desenvolvimento que não tem lugar aqui e deveria, logicamente, ser aliada a outras que com esta fornecem o estatuto de obra maior ao que é contado.

 

A violência, a morte, a crueldade, a disfunção - sobretudo no âmbito familiar - e o universo do fantasioso povoado por ogres, fadas, duendes e bruxas, são pilares quase totalmente ausentes na literatura infantil da actualidade que oferece à criança uma planície asséptica, afastada e purificada, repetindo e retratando um quotidiano aparentemente inocente, clarificado e isento de implícitas referências aos arquétipos edificadores e organizadores do inconsciente colectivo.

 

Com um público situado numa faixa etária ligeiramente mais elevada, J. K. Rowling recorre a estas implicações de forma quase exemplar em Harry Potter, provando que hoje, como no século que viu o Capuchinho ser atacado pela fera, ou nos reinos de Tolkien, recorrer às certeiras e velhíssimas fórmulas mágicas é garantia de aceitação, de reconhecimento imediato e projecção no futuro e não se está a falar, neste momento, de óptimas e inteligentes campanhas publicitárias.

 

Este palrar inútil e maçador serve apenas para vos mostrar o trabalho fabuloso de Daniel Egnéus e não dispensa a leitura do folheto informativo, por exemplo, aqui aqui.

 

 

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A Gaffe peticionária

rabiscado pela Gaffe, em 25.03.19

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Não faço ideia se Adolfo Mesquita Nunes é agora capaz de travar a planeada construção da última barragem a ser erguida em toda a Europa, que já há algum tempo desistiu destas traiçoeiras produtoras de energia renovável que se descobrem insustentáveis, pouco inteligentes e pouco eficientes, com a agravante de se tornarem desastrosas em termos ambientais e calamitosas para o património natural, cultural e humano.

 

A EDP e o governo querem construir no Tâmega mais uma barragem, a de Fridão.

 

Inútil, a não ser que se queira - também -, arrasar Amarante, pois que o mostrengo pousará o rabo sobre uma falha sísmica que, se irritada, dará dez minutinhos para que a cidade toda inteira fuja, antes de ser afogada por uma onda gigante.

   

A 18 de Abril será riscado o futuro do rio. Ou é arruinado, ou continua a correr.

Antes de ser demasiado tarde, faça o favor de não morrer mais uma vez.

 

eunaoassino.com

 

Actualização (16.04.2019) - a barragem não avança. Obrigada. 

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A Gaffe de coração intacto

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

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É perturbadora a quantidade de vezes que deixamos que o nosso coração se parta simplesmente porque exageramos o espaço que ocupamos na vida dos outros.

 

No entanto, bastar-nos-ia fechar os olhos, respirar fundo, contar até dez, lembrarmo-nos que ficámos péssimas vestidas de presidiárias, para sorrir e deixar passar os idiotas.

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A Gaffe ambientalista

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

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É peculiar a frequência com que esquecemos que o desfecho da frase se não podes vencê-los pode não ser aquele a que por norma estamos habituados a unir. Há uma resposta à condição expressa no arranque da batalha que é muito mais frequente do que aquilo que pensamos.

 

Se não podes vencê-los, absorve-os.

 

A diluição de conceitos, princípios, ideais contrários às realidades instituídas - ou mesmo reacções a factos que nos são adversos, porque desumanos e mesmo fatais -, na atmosfera que os vai produzindo e alimentando, não é de desprezar. A manobra do instituído que produz a capacidade de absorver o que lhe é contrário, torna inócua, neutraliza e banaliza, a acção que visa combater precisamente aquilo que a vai normalizando, atenuando, ou eliminando os efeitos que eventualmente produziria.

 

A facilidade com que se produzem mitos e símbolos - que são em última instância a resposta a uma falha, a uma ausência, a um vácuo - tornou-se equivalente à capacidade que os responsáveis por essa mesma omissão têm de os absorver e neutralizar.

 

O exemplo mais fácil e mais capaz de ilustrar o dito é Malala Yousafzai que depois de publicitada, elevada ao estatuto de heroína, incensada, medalhada e galardoada, perdeu força significativa, atenuando-se o impacto mediático da sua luta e impedindo-se desta forma que a multidão de espoliadas de que era bandeira, não se chegasse a unir e a seguir. A força que parecia invulgar do seu discurso e da sua atitude, restringe-se agora a palestras, a conferências e a elocuções mais ou menos esperadas. Malala passou a ser apenas mais um rosto simbólico - o símbolo que não povoa o vácuo - numa galeria de cabeças que o poder instituído consegue absorver e que reserva para, numa hipocrisia letal, aplaudir de quando em vez.

 

Surge, entretanto, Greta Thunberh.

 

É clara e inequívoca a tentativa de aplacar o discurso, a atitude, o conceito, e a ameaça que a ambientalista consegue encarnar, por parte dos que são acusados pelo seu inesperado aparecimento. As manobras de dissuasão parecem idênticas às usadas no caso anterior. Estatuto de heroína, reconhecimento, aplauso internacional e nomeação para o Nobel da Paz. A absorção do que parece não se conseguir vencer, teve já o seu início. Tornar Greta Thunberh num sucedâneo mais jovem de Al Gore, arrastando-a e exibindo-a de palestra em palestra, de entrevista em entrevista, de conferência em conferência - pagando-lhe principescamente por cada uma -, seria a diluição perfeita e almejada do grão de areia que, depois de parecer uma ameaça, vai sendo incorporado na máquina que adapta e recicla o elemento que absorve.

 

No entanto, Greta Thunberh sofre de Asperger.

 

As características deste distúrbio – facilita uma classificação deste teor -, prometem impedir que a jovem amorteça a sua identidade. A obsessão, a tenebrosa tenacidade, a capacidade de focar toda uma vida num único ponto de luz, a indiferença à bajulação que tolda o objectivo, o desinteresse pelo que é considerado acessório - por tudo o que se afasta, ainda que levemente, do que a motiva e interessa -, e a força invulgar que a apoia e a move, tornam-se dados inesperados e passíveis de complicar, ou mesmo impedir, a sua absorção e diluição posterior.

 

É esta estranheza que une multidões.

 

Talvez Greta Thunberh seja a anomalia esperada pelo planeta.

Talvez seja desta vez que deixemos de olhar estas vozes como quem olha a última fotografia da sonda Cassini, antes de ser absorvida pela atmosfera de Saturno que acabava de captar.              

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A Gaffe muito feminista

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.19

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Não é necessário, rapazes, que acordem de madrugada, tomem um duche silencioso, escovem os dentes, se perfumem, se escanhoem, troquem de pijama e se coloquem em pose, deitados ao nosso lado, para que tenhamos um acordar principesco.   

 

Acreditem, meninos, que aguentamos despertar ao som do Krakatoa ou dos Moon Spell; suportamos o velho vizinho do andar de baixo que de pantufas, pijama de flanela e roupão felpudo, nos toca à campainha preocupado com a possibilidade de nos termos esquecido de fechar as torneiras do WC, desconhecendo por completo a força com que usais a sanita; perdoamos a encharcada toalha do vosso banho que enrolais à cinta, mesmo reconhecendo que o paninho com que limpamos os óculos taparia com a mesma eficácia o que cobris fanfarrões; aceitamos a vossa biblioteca com o Kama Sutra ilustrado e o outro do Tio Patinhas, sabendo de antemão que o primeiro vos causa problemas ortopédicos e que do segundo não entendeis o argumento; abdicamos da máscara de oxigénio quando nos sussurrais o brejeiro beijito matinal; aguentamos estóicas a panóplia de roupa atirada para os cantos à espera de ganhar raiz, folhas, flores e frutificar oferendo-vos as peças que substituiriam o que finalmente foi a vossa escolha; compreendemos até os vossos boxers com tubarões estampados.

 

Nós acordamos é dispostas a ver-vos sapos.

 

O que vos faz perder a coroa, meus queridos, é a crença na Igualdade dos sexos. Nada é mais prejudicial do que confiar na disponibilidade de uma rapariga para abdicar dos seus privilégios femininos por tão pouca coisa. Um mulher que quer ter o mesmo que um homem, não tem ambição.

 

Somos raparigas pragmáticas. Muitíssimo menos românticas do que aquilo que sonhais. Não reivindicamos nada a não ser o que nos é palpável e que vos foi entregue como apenso à vossa condição de macho. O lugar de direcção, a chefia do departamento, a liderança dos exércitos, a Lei, a Ordem, o Progresso e todas essas maçadas que inventais e dominais pensando que vos vão aumentar aquilo que podeis cobrir com o paninho dos óculos.

 

O que vos transforma em sapos, rapazes, é o acreditar que vos vamos engolir se nos brindardes com aquilo a que chamais tratamento igualitário, esquecendo que o vosso trabalho se tornou duplo, porque nos tereis de enfrentar de modo feroz à mesa das mais altas negociações e, depois de aceitardes as derrotas, tereis de nos continuar a segurar o guarda-chuva e a abrir a porta do automóvel.      

 

Não convém esquecer, rapazes, que não há histórias de sapos femininos.

Por muito que façamos, continuaremos princesas que não trocam os seus reinos conquistados por cavalgadura alguma e que sabem que se o príncipe afinal é um batráquio, existe a guarda de honra obediente para segurar o leque do nosso acordar.   

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A Gaffe violenta

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.19

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Não existem escalas ou patamares para que possamos classificar a barbárie.

É desumano ousar dizer que determinado acto é passível de se considerar dentro da normalidade quando está imbuído de violência.

Encontrar espaços onde a selvajaria é susceptível de ser aceite como regular, por considerarmos ser menor do que aquela que observamos ou imaginamos um dia, é permitir a existência de um apodrecido sedimento de maldade sob os nossos pés e aceitar que desse chão se possa fazer caminho e que desse movediço solo se erga uma destruição maior, para só então condenar aquela a que assistimos.

 

Quando da queda dos nazis, a França rejubilou liberta.

A barbárie tinha sido vencida.

No entanto, os franceses precisaram de um período de crueldade imensa para travarem a destruição das almas e dos corpos a que tinham assistido, como se o avanço do horror os tivesse contagiado, beneficiando de um tempo de travagem gigantesco, e que nesse estancar lento do medonho fosse tido como normal, aceitável, a continuação do inferno.

 

Depois da Guerra, os franceses torturaram franceses. Traíram franceses. Denunciaram franceses. Enforcaram franceses. Fuzilaram franceses. Aqueles que foram considerados, justamente ou não, colaboracionistas foram alvo da fúria ensandecida e vingativa dos que foram vítimas.

 

Interessam-me as mulheres, só as mulheres, neste momento. Não todas. Ignoro, por exemplo, Chanel que se ficou pelas mãos dadas a altas patentes nazis e, mesmo assim, alegadamente, que Chanel continuou a ser cara.

Olho apenas as que nas ruas e nos ermos franceses ocupados tentavam sobreviver, ou aquelas que amaram homens errados, militares rasos inimigos, camponeses e operários transformados em raça armada e eleita, sem sequer entenderem o sentido da morte que os convenceram a carregar e a entranhar e que os transformou em assassinos.

Olho as que foram despidas e humilhadas publicamente. Espancadas por túneis de gente por onde eram obrigadas a passar. Raparam-lhes a cabeça. Foram proscritas. Amaldiçoadas.

 

A brutalidade desumana exercida sobre estas francesas, por franceses, não pode ser nunca ser minimizada por ter sido consequência de outra. Não é menor e também não é maior, não é igual, nem diferente, que a perpetrada anteriormente ou a que nos permitimos imaginar no futuro. Não tem - nunca teve, nem terá -, termo de comparação. Ergue-se sozinha no meio das gentes e é absolutamente ímpar em cada instante, exclusiva e excepcional na destruição que provoca.

 

Não há uma violência dentro do normal e se existem acórdãos, leis, julgados, julgamentos, recursos e sentenças que contrariam este postulado, é porque quem os escreve, fideliza ou a eles se vincula, é também gente capaz de rapar o cabelo a mulheres, de as despir, de as humilhar publicamente e de as fazer espancar em túneis de ódio, justificando esta barbárie com a mentira que lhe diz que há sempre outra maior.  

 

Na imagem - Montelimar,  França - civis franceses castigam uma mulher por envolvimento com um alemão.

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A Gaffe de Billy Porter

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.19

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Enquanto a mãe, ouvida atentamente pela amiga, comenta Billy Porter, elogiando a ousadia, a originalidade, a intrepidez, o arrojo, e a disrupção do homem que apenas quis homenagear o lendário Hector Valle, da Casa Xtravaganza, - que morreu há cerca de dois meses e cujo talento se estendeu muito para além da red carpet -, as crianças, menos empolgadas, brincam no relvado em frente, olhadas por mim.

 

O rapazinho é pacato, reservado, concentrado. Usa uma nave espacial sofisticada como carrinho de bombeiros - ou ambulância, dado o local -, e vai mimando ruídos de sirenes enquanto faz deslizar com urgência um socorro imaginário a um deflagrar de catástrofes na relva.

A rapariga, mais novinha, vai destruindo a ilusão, pisando o trilho desenhado, ou calcando a mão do irmão, tentando de soslaio vigiar a mãe de modo a que a sua maldade não seja descoberta.

 

Não creio que seja uma criança maquiavélica. É apenas uma menina má. Detém aquela espécie de maldade gratuita que causa danos maiores do que os provocados pela que foi projectada visando um alvo específico.

O menino perde a paciência. Empurra com força a irmã que de rabo no chão desata num desalmado choro.  

 

A senhora elegante interrompe os comentários oscarizados, levanta-se e num assomo de urbanidade, num acesso pedagógico, num surto educativo, dirige-se ao agressor e faz desabar sobre o petiz uma quantidade sábia de sábios ensinamentos que começa por vincar a necessidade de se respeitar uma menina, passam pela nódoa de se agredir gente mais frágil e acabam, depois de muitas voltas, com a vergonha e cobardia que é exercer violência física sobre quem não se consegue defender.

Um corrupio de belíssimas cogitações e um acervo de maravilhosos conceitos e princípios a transmitir às gerações futuras.

 

O rapaz foi obrigado a pedir desculpa e fê-lo com uma sinceridade realmente envergonhada.

Promete que não voltará a empurrar a cabra da irmã que se calou num instante.

 

Não vale a pena tecer considerações acerca da saia, quer de Billy Porter, quer desta menina. Ambas conseguem fazer disparar uma série imensa de considerações - eivadas de ignorância, aqui e ali, ali e acolá -, dignas de anotação e merecedoras de atenção e mesmo de respeito, como é da praxe dedicar a afirmações politicamente correctas, quer se queira, quer se não queira.

 

Há, no entanto, uma minudência demoníaca que me pousou no ombro e não me deixou sossegar.

 

Este rapazinho absorveu a assertiva lição - e todas as que se seguirão, pela certa e de forma certa -, e passará a contar com a dita fragilidade feminina - em todas as vertentes, encostas, precipícios e abismos -, que irá temer macular sempre que a vida lhe colocar na frente uma mulher que lhe seja importante.

Este masculino cuidado apreendido ao longo do tempo, o intransigente respeito pela mulher que mesmo irracional é eventualmente tida como inatacável, estas pinças sublimadas que a tornam quase intangível, o cultivo de uma feminina debilidade de ficção, fazem parte, também, da real fragilidade feminina.

 

Creio que existem algumas relações a soçobrar, porque o elemento masculino inconscientemente recusa o confronto, o contradizer, a aberta e esclarecedora discussão e a saudável negação do que na parceira está errado, apenas porque lhe incutiram desde a infância - que já ninguém recorda por demasiado tenra -, a noção da frágil delicadeza feminina que impede o solavanco da contradição ou o empurrão da discordância.

  

Os cavalheiros nem sempre são os homens mais sinceros. Acompanham por vezes senhoras que se pensa terem saído de um circo manhoso, apenas porque são incapazes de corrigir, de opinar, de contradizer escolhas, não se vá ferir suscetibilidades de mulher etérea.   

 

Se também é por cobardia que um homem agride, seja de que modo for, uma mulher, pode não ser errado apontar também como cobarde o silêncio masculino perante a erro feminino, motivado pelo receio de magoar ou de melindrar ou de violar uma ensinada, e bem aprendida, imaterialidade oriunda da natural fraqueza da mulher quase angelizada.

 

Talvez seja por isto que os casais do mesmo sexo conseguem solidificar com maior facilidade e com maior durabilidade, uma relação que, talvez também por isto, seja mais difícil de iniciar. Não se deparam com esta espécie de síndrome do bom guerreiro que obriga o mais poderoso a poupar - e a defender - o que lhe disseram ser mais fácil de vencer por ser mais fraco.

 

Evidentemente que são conjecturas iguais às que volteiam em torno da saia de Billy Porter.

Existem, são visíveis, mas nada garante que na origem de todas não esteja a ignorância do que realmente se esconde debaixo dos panos.

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A Gaffe com fotografias

rabiscado pela Gaffe, em 13.02.19

WWII

 

Há algum tempo deparei-me com uma imagem extraordinária captada durante a Segunda Grande Guerra. Guardei-a pela beleza textual, literal, daquilo que via.

No meio dos escombros, um grupo de soldados russos ouve tocar piano.

Estranhei a minha apatia, a minha indiferença, perante a narrativa, perante o símbolo expresso no que via. A imagem não me comoveu, não ergueu paliçadas de alvoroços, nem me impressionou a evidência poética do que era retratado.

Era apenas uma fotografia extraordinária. Esteticamente perfeita.

 

Encontrei há dias uma outra, de Joseph Eid, com o mesmo conceito da primeira.

Joseph Eid.jpg

 

Em Alepo, um velho no meio dos escombros de que já ninguém se importa ou fala, ouve música.

Mais uma vez, e apesar de não a perceber tão perfeita como a anterior, considerei-a uma bela imagem. Mais uma vez não me comoveu, nem me fez evadir por caminhos mais ou menos filosóficos, de maior ou menor narrativa emocional.

 

Recordei então o que há muito penso.

Humildemente reconheço que os discursos que ambas as fotos me vão provocando acorrentam a minha pobre opinião às tábuas da tolice, mas socorro-me de Geneviève Serreau para entregar alguma racionalidade àquilo que penso acerca do assunto.

 

A autora, algures num estudo sobre Bertolt Brecht e a propósito de uma fotografia onde nos é mostrado um massacre de comunistas gualtemaltecos, refere que o horror não está no que vemos, mas porque o vemos a partir da nossa própria liberdade.

 

Admito que é complexo este postulado. No entanto, com a ajuda preciosa do pensamento de quem me está próximo e é anos-luz mais racional do que eu, acabo a entender que não basta ao fotógrafo mostrar-nos a abominação para que a sintamos. Até porque – continua – a dor é fotogénica.

 

A linguagem internacional do horror é documentada de modo a que saibamos interpretar os signos. É elaborada de forma hábil - usando contrastes, aproximações ou reconstruções subliminares -, facilitando-nos uma leitura já preparada, que não nos toca grandemente, porque pensou por nós, sentiu por nós, sofreu por nós e de certa modo indignou-se por nós.

Intelectualmente aquiescemos, mas não nos sentimos realmente ligados a estas imagens. Estão isentas de histórias, impedem que as inventemos porque já estão narradas pelo autor.

 

As imagens, dirão, não obedecem a estes pressupostos. Foram acasos. Dizem-nos ser apenas performances a decorrer no espaço visitado - o que só por si daria um tratado relacionado com a banalização do terror e com a distorção, o esmagamento e amálgama de signos distintos. Se tal fosse verdade, acabava-se por impedir o aparecimento de elementos propositadamente contrastantes e contrastados e, sendo em directo, sem reconstruções ou interpretações prováveis, dar-nos-iam, em consequência, a possibilidade de sentirmos.  No entanto, a captação daqueles instantes surge ainda contaminada pelo construído, tornam-se demasiado intencionais, porque estão imbuídas da vontade de se usar uma linguagem incómoda e acabam por nos merecer apenas o tempo de uma leitura instantânea. As fotos não nos desorganizam, porque se reduzem a uma linguagem específica, isentando-nos do verdadeiro confronto com o escândalo.

 

Nas imagens do terror que nos mostram existem signos claros e nítidos, mas sem a ambiguidade, a textura a espessura que deve caracterizar um signo.

 

Parecem estranhas, paradoxalmente calmas, porque estão privadas da nossa explicação privada, usam a linguagem – que já conhecemos, que já falamos, que já entendemos - internacional do horror, e, custe o que custar, por causa disso estão contaminadas pela presença do fotógrafo.  

 

São literais.

 

Introduzem-nos ao escândalo do horror, mas não ao próprio horror - diria Barthes.  

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