Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe artesanal

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.19

GAFFE.png

Na mão dele havia o traço negro das gôndolas e um abandono, ao frio, de estandartes.

Na mão dela ficava o mapa do corpo que era o dele, reencontrado, e o lento arrasto da euforia dos trajectos.

Na mão dele havia um peregrino. Outrora as mãos peregrinavam e no encontro com as mãos dela ouviam-se rezas pagãs nas catedrais.

As mãos dele, divinas.

As mãos dela comédias, saltimbancos súbitos que assustavam prendendo pássaros aos dedos.

 

A mão dele agora no flanco dela, como o esboço morto de um poeta, deixou de ser tudo.

São mortas as baladas que ecoavam por entre os dedos brandos da mão dele.

Talvez a noite aquática das praças tenha desfeito o que ele entrançava na varanda dos seus dedos, ou talvez seja ela a ir-se embora.

 

Porque o fim do amor é artesanal.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe num desencontro

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.19

M. Romanov.jpg

Há quem afirme que crescemos desenvolvendo algumas características perfeitamente vincadas e indeléveis transportadas em pormenores com sabor a fado e a destino, impressos no nome que nos dão, ou no da rua em que nascemos, no número da porta em que vivemos, ou nas estrelas mais esconsas que nos regem.

 

Gosto de acreditar que pode ser verdade. É quase fantasia, é quase uma história de embalar que nos contam, é quase uma poeira que cintila fora do real.

 

Há, no entanto, um detalhe deslumbrante neste correr de fado e de cantigas.

Há gente que nasceu para obedecer a determinada imagem, definida e única. Não existe, ou existe com menor vontade e maior esquecimento, se quebra ou subverte a vincada representação de si nos outros.

 

Não há forma de se reproduzir esta espécie subtil de um carisma que não passa de inteligência à flor da pele. Nasce como um signo que encontra definição e corpo no corpo de quem percebe ou sente esta particularidade. O duplo, o imitador, carece de certezas ou de vida própria. Fica sempre aquém daquilo que se quer.

O confronto do sujeito com a imagem que o reproduz na perfeição é raro e imperceptível. Reconhecemo-lo quando percebemos que, depois de o vislumbrar nos outros, não conseguimos deixar de admitir que há, algures, um encontro a que faltamos.

 

Na foto - Mikhail Alexandrovitch Romanov

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe do não

rabiscado pela Gaffe, em 09.07.19

594.jpg

Não era um bom vento. Tresandava a podre e a doença. Dos casamentos não chegava nota, que a morte tinha arrastado os noivos, empurrando os corpos para o rio.

O tifo galgava os penedos, depois de tombar nas margens putrefactas e desatado em fúria abria terreno nos corpos dos novos, que os velhos caíam de choro e de fome.

Morria-se.

A gente do Douro usava panos amarrados na boca, com algodão em rama dentro. Para a proteger do febre, que nos socalcos e nas margens do rio a maleita é masculina, já que às mulheres foram entregues os dons curativos.

 

- Tombaram como os espanhóis. A morte é diferentemente igual em todo o lado.

 

A memória da Guerra Civil espanhola assombra o meu velho Domingos, tão tenro na altura que dessa tragédia apenas retém o terror do febre, o nauseabundo correr da água encharcada em corpos e o burburinho das rezas envolvidas em lenços pretos, em raízes e terços lacrimejantes. Pesada e seca memória, como trovoada em mês de Julho.

 

- P’ra lá do Marão, mandam os que lá estão, mas no Douro manda o não.

    

O não como matador da esperança. Para lá do não caído sobre a terra, já nada é fértil. O não como o fim do tempo, como se nada existisse depois do muro erguido pelo amontoar de corpos já negados.

As mulheres carpiam este não isento de revolta.

Urdiam um não confrangido, de lamento, de desilusão irreversível, de perda, de ausência de espera no contínuo de vida ainda por viver.

 

Ainda existe este não aqui no Douro. Solene de incenso e de tragédia, de final profundo, de sinal da cruz, mas ficou aguacento e já de poucas lágrimas, para fazer de conta que é talvez, esse estrondoso lugar de redenção da esperança.

 

De Espanha corria o não dizível. Veio no Douro a tremular na água e a terra o abrasou, comeu, tornou raiz. Regurgitou-o depois para mal do homens.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe sem encanto

rabiscado pela Gaffe, em 02.07.19

dina-goldstein-snowy-lr_med_hr.jpeg

Vou tomando consciência do facto de quase todos os meus rabiscos ficarem sem nexo, sem sentido, sem qualquer ponta por onde se lhes pegar, sem o auxílio das figurinhas que escolhi para os ilustrar.

Esta ligação ou simbiose, como se lhes queira chamar, é uma miserável metáfora para outras uniões que grassam por todo o lado e que são incomparavelmente mais dignas e mais importantes do que as que vou fazendo levianamente por aqui.

 

Há alianças que fustigam os dias com os brilhos de promessas encantadas, uniões que afiançam a eternidade de uma fábula, elos que trazem a garantia do encanto e da magia de uma história de fadas, laços de seda, de veludo e de cetim que adornam a solidez do reino onde se pode ser feliz para todo o sempre, que, de modo subtil, se vão esfumando ou estilhaçando em silêncio de encontro ao tempo que passa.

 

Subitamente, percebemos que atingimos o limite concedido para alojar pedaços que supomos ser os que nos são mais queridos, que esgotamos a nossa capacidade de acumular sentimentos ou imagens de um sentir que não é nosso, que todos os retalhos de felicidade que fomos reunindo são substituídos pela cinza de um aviso breve e cru.

 

Não nos é permitido mais.

 

As adornadas vedações que nos impediam de ver o que chegava lento e sem ruído para minar a nossa etérea ilusão de felicidade, acabam por fazer desaparecer o que retínhamos na alma e que nos fazia acreditar que éramos heróis e heroínas de contos infantis.

Ficamos com os abismos da desilusão nos braços.

 

É claro que há remédio!

Levantamos o rabinho da rocha magmática, enegrecida e bruta, em que se transformou a vida e vamos substituindo, com a coragem dos que se sentem sós, pedaço a pedaço, as imagens perdidas, retocando sempre que podermos o ilusório acumulado outrora com a consciência, exacta como um bisturi, de que nem sempre os sapos trazem príncipes dentro.

 

Imagem - Dina Goldstein

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe num mergulho

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

mergulho.jpg

Todas as viagens são pequenas colisões com universos distintos do nosso e todas nos provocam o embate com o Outro, o mergulho no Outro.

Olhamos e somos olhados e é nesta simbiose que se adquire a capacidade de operar ou favorecer o crescimento positivo do que somos.

Olhar o Outro e deixar que o Outro nos olhe, consubstancia o âmago da harmonia mais simples e a simplicidade é factor essencial para a evolução sustentada e sustentável dos nossos mais interiores e mais íntimos edifícios.

 

Se estas visões, estas trocas externas e internas de olhares, estes mergulhos bilaterais, se fizerem a partir de uma partilha consensual de uma viagem, o resultado torna-se perene, porque deixa paisagens em retinas díspares abalroadas pela mais pacífica das cumplicidades.

 

Posto isto, meninos, façam-nos um favor: Não usem lentes baças quando nos abraçarem nos lugares tocados pelos olhos dos nossos corações.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe dos desobedientes

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.19

Desobediente.jpg

 

Penso tantas vezes que se torna secundária, mesmo inútil, a imagem de correcção política, de aprumo vincado, de sensatez moderada e isenta de qualquer percalço mais ousado, de rigidez polida e conveniente ou de eventual perfeição consensual que tenta induzir uma desejada aceitação social, primeiro degrau para uma ascensão planeada.

 

Aqueles que são a imagem estereotipada do jovem adulto urbano, integrado, sociável e sociabilizado, detentores de títulos académicos pomposos, colaboradores empenhados de multinacionais, ou nomeados pelos governos como especialistas, possuem, geralmente, uma reputação acima das suas possibilidades morais.

 

Mas obedecem.

 

Obedecer não é erro imediato. Só se torna condenável quando a gravata Cerruti, normativa, aperta e asfixia muito mais do que o colarinho da escolha Lagerfeld - vamos manter dúbia esta pequena frase.

 

A conquista de uma liberdade capaz de se demarcar do jogo que acaba na uniformização e no massificar dos indivíduos, é lenta e, como o ballet, exige que se comece cedo.

 

A prova de que foi solidificada surge, de vez em quando, numa das mais vulgares ruas das cidades, usada por homens que - ao contrário dos que parecem governar as multidões -, jamais conseguirão perder o tempo, porque exibem esta liberdade carismática ao lado da cicatriz que fica da conquista.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe à descoberta

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.19

 

a5.jpg

Uma das mais eficazes formas de se descobrir um herói, é surpreendê-lo quando julga que ninguém o observa.

Com um cobarde, o método é idêntico.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de tempo roubado

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.19

Gabriel Cualladò. 1957.jpg

 

Ficamos depois esquecidos, como um casaco pousado num banco de uma gare qualquer que não traz destinos, por onde não passam passageiros, por onde o repentino restolhar do tempo deixa de fazer sentido, por já não nos pertencer, por já não ser o nosso.

 

Ficamos de tempo roubado, sentados à espera de Godot, de bagagem parada inútil como a eternidade.  

 

Roubam-nos o tempo.

Somos inconscientes operários casuais sem que ninguém assuma o pagamento de salário, sem que ninguém se importe com as nossas faltas, com as nossas férias, com as nossas quedas.

Somos episódicos funcionários de multinacionais e manuseamos sozinhos o leitor de códigos de barras; e apresentemos o cartão à frincha do banco; e montamos a mobília que vem em peças soltas que tivemos de transportar sem rede; e escolhemos no écran o hamburger certo; e trocamos anúncios, e publicitamos o que não sabemos trocando e partilhando slogans; e pagamos o serviço prestado com dados faceboquianos; e registamos os nossos consumos no Portal das Finanças; e enchemos depósitos, sozinhos; e contamos a água e contamos a luz e contamos o gás e informamos depois os donos de tudo; e não temos horários e não temos salário, e não temos férias.

Só picamos os pontos que nos governam o tempo que nos roubam.

Somos grátis.

 

Ficamos depois esquecidos numa gare qualquer, como um casaco velho que já ninguém quer.

Um dia, mortos, havemos de enterrar a eternidade.  

Fotografia - Gabriel Cualladò, 1957

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de Agustina

rabiscado pela Gaffe, em 03.06.19

.

A Senhora que escreve livros em folhas sem margens, com letra cerrada sem espaço para erros, pede a mantilha de caxemira de um azul nocturno. Debruça-a nos ombros.

A vaidade é vantagem que lhe amansa as rugas.

A Senhora dos aforismos veste-se de escuro.

A Senhora que escreve romances na velha cozinha, perto do jardim, olha para as árvores medonhas de frio. Olha pela janela para dentro das árvores e o jardim inteiro dentro da cozinha à espera das letras que a velha Senhora que olha o jardim se esqueceu lá fora.

A Senhora que escreve romances não risca palavras. Reproduz as frases com outras diferentes em novos papéis cerrados, sem margens, sem espaço para mais.

A velha Senhora não risca palavras. Falta-lhe a coragem para as abolir e por isso um erro, uma escolha falsa, um som que destoa, fica por tocar, a pairar nas árvores que ficam lá fora.

A velha Senhora escreve romances nas folhas das árvores que crescem nos olhos sem fim com que da janela vê uivar o tempo.

O tempo que cresce dentro das janelas, perto de palavras que tem para cuidar.

Agustina. Meu amor amargo, meu amor coberto por mantilha.

Meu amor guarida. Meu amor casulo. Mau amor de malmequer que bem me quer. Meu amor de sol coberto escuro e saturado de palavras. Meu amor infindo. 

 

Ouvem-se cães a uivar por toda a casa.

Os sons da casa são os cães a uivar.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe com pés de barro

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.19

MM.jpg

 

A eternidade de um mito depende da sua capacidade de permanecer preso no casulo do seu apogeu.   

O tempo enfraquece o símbolo, quando o símbolo depende da decadência do frágil.

O mito, tal como os deuses, tem os pés atados à volatilidade humana.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe dentro da normalidade

rabiscado pela Gaffe, em 06.05.19

2a.jpg

 

Normal é vestir o que compramos para trabalhar conduzindo através do trânsito num carro que ainda estamos a pagar para chegar a tempo ao trabalho que precisamos para poder pagar as roupas e o carro e a casa que deixamos vazia todo o dia para que nos seja permitido lá viver.

 

Por tudo isto ser normal, é que precisamos de repensar o modo como lutamos por tudo o que vale mesmo a pena defender.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe esforçada

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.19

Zulkarnain Ismail.png

 

Um homem devia ter de empurrar um barco através de uma montanha, pelo menos uma vez na vida.

 

Uma mulher também, embora nestes casos metafóricos nos seja mais conveniente ir de avião.

 

Imagem - Zulkarnain Ismail 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe alheia

rabiscado pela Gaffe, em 08.04.19

marinadieul.jpg

 

Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Em relação ao universo, ainda não tenho certeza.

Einstein

 

Apetecia-me imenso fazer rodear esta citação de florinhas, de coisinhas ou de outras minudências amorosas. Suponho que ficaria mimoso neste espaço - ou no facebook, pois então -, se, é claro, Einstein tivesse sido realmente o seu autor.

 

A responsável pelo dito foi, por acaso, a sua digníssima esposa, Mileva Marić, que, só por um acaso também, foi minimizada, ou mesmo apagada, da Teoria da Relatividade que ajudou a empurrar.

 

Estes tropeços na atribuição de autoria destas pagelas faceboquianas são tão imbecis que levam sempre uma criatura menos exigente a esbardalhar-se no alheio e, como diz Almada:

 

Não te metas na vida alheia, se não queres ficar lá dentro.  

 

Ilustração - Marina Dieul

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de Saussure

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.19

casa.gif

 

Entre muitos - e entre os mais perceptíveis -, factores que acabam por nos aproximar do estrume sobre o qual germina a coesão de determinado aglomerado de gente e que consolida uma identidade nacional, encaixam os símbolos e signos identificativos da especificidade de um povo.

O hino, a bandeira, um monumento, ou mesmo uma paisagem, são signos em que o significante e o significado obedecem na perfeição às referências e aos parâmetros enunciados por Saussure.

 

Indignamo-nos com alguém a balbuciar o hino do país que representa, trocando as palavras do refrão ou tropeçando na melodia, porque este desconhecimento fere a consciência de identidade de grupo e de identificação com determinado conjunto de valores, comportamentos, cultura e mais uma quantidade de outras histórias que não se dizem para não prolongar a paciência até à exaustão.

 

Queimar uma bandeira é, pelas mesmas razões, um insulto e uma desonra. A necessidade de reconhecer com clareza as ligações saussureanas existentes nestas situações é, mais do que habitual - e o habitual é imprescindível para que exista comunicação, mesmo a mais básica.

Hastear uma bandeira invertida para além de ser expressão de terra ocupada - conclusão já saussureana - é, simultaneamente, um lapso sausssureano.

 

Um país, um Estado, um povo, uma criatura, exprime-se também através destes signos e destes símbolos - diz-me um amigo que destas coisas sabe. 

 

Destruída a aliança entre significado e significante, através do não reconhecimento de uma destas faces da moeda - o que implica a quebra da identificação da outra -, o terreno que se abre é o da conjectura que permite todas as divagações, que incluem interpretações renovadas, mas que não deixam de estar coladas ao que atrás se diz em relação à dupla significante-significado, tocando mesmo as quase mitológicas - no sentido que Roland Barthes atribuiu ao mito.

 

Não interessa saber se é propositado ou se é lapso o hastear de uma bandeira invertida. O que se torna interessante é perceber que o símbolo - o signo -, alterado o significante, origina uma colecção razoável de congeminações que reproduzem significados diversos, nem todos apetecíveis.

Diz-me um amigo que sabe destas coisas.

 

É neste pressuposto - provavelmente errado -, que é fácil não me aperceber do lugar a que pertenço.

 

Há signos que foram lentamente desconstruídos e destruídos, provocando avalanches de novas e múltiplas interpretações que me constrangem.  

 

Paris alterou-se, quebrou a cumplicidade entre significante e significado que eu reconhecia.  

A Torre Eiffel - retiremos à sorte -, invadida por pastilha elástica e por Macron a tentar ser líder de coisa nenhuma, é o signo que já não corresponde à minha cidade.

Há cada vez mais lixo amontoado nos Champs-Élysées. Há migrantes desprezados e rotos e esfomeados, há refugiados em completo abandono, há cada vez mais sem-abrigo, há miséria, há degradação humana e indiferença total perante o facto, nas ruas e avenidas da cidade-luz que se apagou. O Louvre é cada vez mais visto como depósito de roubos, de pilhagem, de prepotência francesa sobre culturas esmagadas e o paternalismo que usa para justificar e perpetuar a retenção de obras-de-arte que não lhe pertencem, deixa de fazer sentido - sabemos, por exemplo, do culto, o respeito e o cuidado quase obsessivos que os gregos dedicam desde há muito ao seu património cultural, embora se reconheça que o iraquiano se perdeu em grande escala, por não haver tutor. As escadas de Montmartre deixaram de ter poetas e boémios e pintores, não há mansardas há muito, há corrimãos de seringas e os bouquinistes atiram livros ao Sena embrulhados em plástico, juntamente com o crack perseguido pela polícia que não está ocupada a varrer das ruas os coletes amarelos.

É correcto afirmar ter lido e sentido erradamente o signo Paris. A aliança que fiz entre significado e significante não resulta agora, partida em duas metades visíveis e tornadas antagónicas, incongruentes, quase ilegíveis.    

 

Mea culpa, pois que sou tontinha.     

 

O Douro é, por sua vez, outro signo que perco com os tiros das luzes dos paquetes turísticos.  

O rio em agonia. Desvirtuado o seu correr pelas pacóvias instâncias de turistas deslumbrados com as selfies que o arrancam do sessego. As margens violadas pelas pisadas das gordas matronas que urinam agachadas longe dos barcos de recreio. Os ossos de frango assado, os restos de churrasco, de gordura despejada nos papéis atirados para as árvores que pingam plástico. Os socalcos que não aguentam o peso dos velhos obesos, de chapéus de palha e pena alemã ao lado, ébrios pelas provas que provam a indignidade dos assaltos que executam com a ganância de palatos não cuidados, emproados e arrogantes, fellianianos, cobardes, com um medo ainda discreto do povo, arrastando, atrapalhados e toscos, as mochilas da degradação.

A minha casa, retirada há muito dos roteiros dos flash, tornada inacessível por uma arquitectura que obriga a paisagem a fechar o cerco sobre os muros, sofre a ameaça de se tornar alvo desabrido de americanos bêbados, de ingleses que acreditam que a podem calcar, de chineses e de japoneses que lhe roubam raízes para fazer chá.  

 

Mea culpa, pois que sou parvinha.     

 

Os meus signos quebrados, largam-me nua, sem saber onde fica a minha casa, próxima da criação de um outro mito.

Tenho de reler Saussure enquanto choro.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe não aceita

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

B1.jpg

Um dos verbos que devia ser abolido do dicionário da alma de alguns é o aceitar.

 

Torna-se obsceno quando é usado na primeira pessoa quando a pessoa é a primeira a usar o que aceitou como arma de arremesso.  

É vulgar - nunca deixando de ser repugnante -, ouvirmos a tentativa de cuspir um insulto com o que horas antes se jurou aceitar com a pia benevolência dos que são caritativos e olham a humanidade com a brandura dos mansos que deles é o reino dos céus.

É nojenta a facilidade com que aceitar o outro se funde a crença na ilusória, com a mentirosa, certeza de que somos bons e que jamais nos imiscuiremos, ou combateremos, o que no outro é diferente.   

 

Aceitar o outro, tem por vezes implícito um minúsculo julgamento feito nos confins da alma de quem aceita.
Quando aceitam não estão a reorganizar o pensamento de forma a que este se adapte ao que não consegue ou que revela dificuldade em compreender ou reconhecer como forma de consciência independente e diversa daquela que possui.


Sentam-se nos seus pequeninos tronos e, magnanimamente, aceitam o outro.

Não o entendem segundo diferentes arquitecturas interiores e recusam ou subtilmente condenam cada acto cometido, porque não é assimilado pelas suas organizações internas, mas, e como são criaturas superiores, aceitam.


O seu irrisório tribunal interno não arrisca declaradamente o perdão, por beata modéstia, mas inclui no aceitar uma parcela de indulgência, envernizada, mascarada de respeito pelo outro.
Aceitar
, dentro deles, traz no bolso um calado sentimento de superioridade, uma velada e inconsciente vontade de domínio, uma escondida certeza de que, o que são, se torna a regra mais conveniente para o equilíbrio planetário.
Julgam o outro quando o aceitam e não abdicam dessa miserável e ínfima sensação de superioridade. Ao aceitar, recusam, recuam e, em última análise, assinam no esconso da alma a moção de censura ou a negação.


Ao aceitar as formas externas ao traçado arquitectónico que reconhecem como seu, são como as anafadas senhoras, de agenda apopléctica e reservado lugar em todas as comissões de avaliação e em todos os plenários ou jurados. Depilam as sobrancelhas para as desenhar depois com traços negros, escondem estampas pornográficas nas páginas batidas do missal e aceitam, soberanamente, superiormente, o outro que também tem direito à vida.


Não consigo compreender estes gauleses... mas aceito-os - diz o Imperador, olhando de soslaio o Axtérix.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)