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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe aos trinta

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.18

Trintona.jpgEm Abril de 2019, a Gaffe atinge os trinta e muito poucos anos, iniciando o seu percurso balzaquiano.

Não que a preocupe o génio com que o francês de eterno roupão descreve as mulheres que vão observando a subtileza com que se riscam as rugas, mas confessa que a intriga a distância e os pedregulhos que vão crescendo e surgindo entre ela e as que há uma década antes dela viram a luz do dia.

 

Esta distância é pedestre. Pode atingir todas as superfícies, mas começa indubitavelmente pelos pés.

 

A Gaffe não consegue deixar de sentir uma aversão descomunal em relação aos brutais penedos que as meninas jovens decidiram calçar e tornar o denominador comum das suas andanças. Um must, o pico do Everest, o orgasmo. A textura, o aspecto do plástico e as cores primárias aliadas ao preto e ao branco luzidios que acentuam as trombas grossas que fornecem aos pés, deixam a Gaffe próxima da revolta e pronta a enfrentar ataques terroristas.

 

Passada a indignação, a Gaffe desiste de sentir o cérebro quando apanha com os monumentais tacões, grossos troncos com uma base ondulada, que são compensados por uma plataforma igualmente embondeiro e com uma base também às ondinhas. A Gaffe não entende como é que estas raparigas não se apercebem que ao contrário do que se pensa, aquilo lhes aproxima os pés das ancas, fazendo-as parecer um dos carrinhos anões com pneus gigantescos que divertem imenso os americanos trepando e esmagando uma fila de sucata. Presos a eles, as leggings que deixam os tornozelos desnudos e quase obscenos a surgir daquele amontoado de plástico e os calções de couro que soltam a barriga apertada por lycras zebradas, fazem a Gaffe acreditar que o Apocalipse já anda à solta pelas avenidas.

Esta imagem feminina dá razão àquele que diz que uma jovem mulher é como a salcicha: pode ser boa, mas é preferível nunca saber como se arranja.

 

Outro sinal, este mais agradável, que os trinta e muito poucos anos da Gaffe estão no activo é o facto de já conseguir cruzar as pernas.

 

Não é de todo fácil.

Cruzar as pernas é das operações mais complexas que uma mulher realiza e a perfeição é atingida apenas com o tempo. Uma perna é colocada em cima da outra que, inclinada, constrói um ângulo agudo com o chão, e o mimoso pé da perna que se eleva vai prender-se na barriga da perna em sossego enquanto o tronco permanece numa vertical inatacável e se beberrica o chá.

As tentativas imaturas da Gaffe fizeram-na tombar, Torre de Pisa, e esbardalhar-se no sofá, suplicando auxílio para desencravar o pé e com a bebida derramada no colo dos brocados. Hoje, trintona, consegue contorcer-se na perfeição e acrescenta a este notável número de equilibrismo a bolacha de chocolate, duas gotas de leite no chá e um sorriso Charlene de Mónaco.

 

Ter trinta e muito poucos anos deve ser isto. Perceber finalmente que a idade também não está na cabeça, mas nos pés.

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A Gaffe em equipa

rabiscado pela Gaffe, em 27.12.18

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A Gaffe descobriu que uma equipa ideal é constituída por duas, quatro ou mais pessoas sem tempo nenhum para fazer o que quer que seja e uma que gosta de fazer as coisas à sua maneira.

 

Ilustração - Slava Shults

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A Gaffe à descoberta

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.18

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A Gaffe descobriu que a uma mulher importa muitíssimo pouco, ou nada, se um homem pensa nela - e o que pensa, quando nela pensa - quando está sozinho, à noite, fechado no escuro de um quarto.

 

O que é importante é se nela pensa - e o que pensa, quando nela pensa - quando em pleno dia está rodeado de gente.  

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A Gaffe nomeia

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.18

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Em breve irá ser lido o meu apelo ao voto no âmbito do jogo que a Magda e o David se propuseram levar a cabo, o Sapos do Ano. Deve ser lido exactamente como merece e incluído no espaço dedicado ao lúdico, a que pertence sem dúvida.

 

É mais do que evidente que a liberdade de escolha, quer dos nomeados, quer dos finalistas, foi total. Não se colocaram fronteiras, não foram erguidos parâmetros ou limites, não se desenharam condições. As escolhas tiverem como base a empatia que um blog causa nos leitores. Os like que desperta nos nossos pequeninos corações.

 

Foi, e é, agradável perceber que causo alguma em alguns.

Fico igualmente agradada pelas companhias que tenho.

 

É evidente que, nestes casos em que um desafio não tem especificidades que o condicionam ou reduzem, os alhos e os bugalhos são sempre subjectivos e altamente díspares. Os que escolhi, podem não figurar na listagem dos eleitos e os eleitos podem não ser os que sigo.

Este facto, não cria atritos. A única regra que se vislumbra neste jogo relaciona-o com a capacidade que cada blog possui de se aproximar dos leitores, seja porque razão for, e são tão copiosas, como dissemelhantes. Creio que é esta uma das características mais importantes do jogo em causa.

 

No entanto, todo este saudável movimento provocou-me algumas inseguranças.

 

Há milhares de blogs. Milhões de palavras dentro deles. Cada um destes compartimentos acredita ser único, exprimindo o que deve ser considerado letra imutável e irrepreensível, provavelmente capaz de alterar ou deslocar as pedras da montanha. Não nos apercebermos sequer que é do Everest que falamos. Opinamos, contamos histórias, escrevemos simulacros de poesia, textos cadavéricos, odes primaveris, luminárias, trovões e víboras, nadas, pequenas quedas, rasgões na paisagem, macambúzios resmungos, emplastros digitais, e tudo o que se quer, porque é possível.

 

O que importa então? O que é realmente um blog importante? O que importa realmente num blog? O que o faz transversal, o que o torna indispensável, necessário ou mesmo urgente?

 

Diz-me um Amigo que é fácil escrevermos sobre as nossas emoções, basta um conhecimento razoável da língua e relativo talento para erguer paredes de frases com os andaimes das palavras bem seguras. O genial é fazer com que as nossas escritas emoções se transformem nas dos outros, sejam as dos outros, se tornem comuns.  

 

Não sei.

 

Li ontem, apesar desta minha medíocre ignorância, Mulheres da minha vida. Li depois Uma história, duas histórias.

 

No fim da cada um destes textos, compreendi que a dimensão dos meus motins estava ali contida. Os escritos tornavam-se traduções de emoções, que não sendo minhas, me pertencem.

 

Acredito piamente que esta é com certeza uma das pouquíssimas razões que tornam um blog essencial, fundamental, imprescindível.  

 

Eu só vou continuar a brincar.

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A Gaffe tigresse

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

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No aniversário de Marie Curie - a menina, convém referir, faz hoje 151 anos -, a Gaffe fica perplexa quando se lhe depara uma magnífica fotografia da Conferência de Solvay em 1927, onde ninguém está a usar padrões tigresse.

 

Se por um lado é compreensível que a cavalheiros os ditos não favorecem, é por outro escandaloso que Marie Curie não reforce a sua feminilidade com uma peça, um apontamento, uma nuance, um sapato, ou uma calça, ou uma luva - ou qualquer coisa assim no singular -, uma bandolete, um cintinho, um chapelinho, um lencinho, um niquinho de trapo ou uma pochete, em padrão tigresse.

 

Tendo em consideração que a cientista é o único pipi a marcar presença entre as pilas nobelizadas ali presentes, e sobretudo o único pipi a quem foi atribuído por duas vezes o Prémio sueco, seria de esperar que marcasse a diferença, que desse nas vistas - embora no caso até se compreenda que não -, com uma nota tigresse que é, sabemo-lo hoje, o orgasmo de toda a mulher que se preza - e das outras também.

 

Sendo o padrão tigresse a maior porcaria, a maior imbecilidade, a maior pantufada, a maior cacada, o mais ranhoso dos padrões mais ranhosos, uma das mais irritantes visões da humanidade, a maior ofensa ao bom-gosto e a negação absoluta do bom-senso, seria de prever que Marie Curie o usasse. Demonstrava às pilas contentes - às do passado e às de tanto presente - que por muito Nobel que ganhe, uma mulher vai continuar parva o tempo todo.

 

Assim, Marie Curie provou apenas que dois passarinhos na mão, valem muito mais do que uma data de pilas no ar.   

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A Gaffe narradora

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

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A Gaffe reconhece que deviamos apenas usar as palavras quando elas são melhores do que o silêncio, no entanto existe pouca coisa mais dolorosa do que guardarmos dentro uma história que não contamos a ninguém, sobretudo porque nunca saberemos se por causa dela seriamos amados por alguém.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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A Gaffe do rebanho

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.18

 

 

Coitados dos cordeiros quando os lobos querem ter razão.

 

Foto - René Maltête

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A Gaffe na aldeia

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.18

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Minhas queridas, nunca, mas nunca, se atrevam a visitar uma aldeia pitoresca que nunca vos viu mais novas, com os pés vertiginosamente enfiados no vosso glamour Louboutin.

 

O descalabro espera-vos.

 

Esqueçam a sofisticação do equilíbrio treinado nas ruas das capitais europeias; ignorem a delícia que é ver o pasmo das burguesas pequeninas e adocicadas, que saltitam excitadas na hora da catequese; procurem evitar o orgasmo que é sentir que, perto de nós, a princesa lendária que se espetou contra o poste, é cilindrada pelo nosso merecido cintilar.

Tudo o que é deslumbre, sedução e requinte se eclipsa no segundo em que o nosso pé Louboutin surge à porta do Jaguar para pisar as pedras da calçada.

 

A partir desse momento, tudo é trágico.

 

Se a sola rubra do sapato não pisar pistas biológicas deixadas pelas cabras - e não me refiro às catequistas - e por bois que quase nos enfiam o focinho húmido nas axilas, corremos o sério risco de nos estatelarmos no centro da aldeia, com o tacão cravado num interstício manhoso, numa fenda traiçoeira, nas pedras da calçada, sem termos sequer um garboso matulão Armani para nos amparar a queda. Se não formos mordidas pelas galinhas - falo também das catequistas - e sentirmos o nosso jovial conjunto, Valentino Verão 2017, esventrado pelas garras de gatos psicopatas, acabamos a enfardar chouriços de sangue suspeitando que o interior está recheado com uma das nossas incautas antecessoras.  

 

O campo, minhas caras, é um lugar perigoso para uma rapariga pedante, pretensiosa, afectada e snob como eu. Engana-se quem pensa que as cidades sobrelotadas são ninho de armadilhas, incubadoras de crimes. São as perdidas aldeias no perdido interior de Portugal o Dexter Morgan desta história.

 

Nunca, mas nunca, se esqueçam, na rota das aldeias esquecidas, de incluir nas vossas Louis Vuitton um parzito de chinelos que não vos descalce a dignidade e um rosário. Há que pedir a Deus para que, pelo menos, não se nos estale o verniz.

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A Gaffe e a actriz

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

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Antes e agora, as mais sofisticadas princesas europeias foram actrizes.

 

A elegância absoluta, sem erro e sem margens para dúvida ou hesitação, parece ter como aliada imprescindível uma lapidada capacidade de fingir.

 

Duquesa de Sussex por Roland Mouret 

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A Gaffe relativa

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.18

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Diz o sábio que o tempo é relativo.

A Gaffe simpatiza imenso com o alegado autor da máxima e embora jamais possa entender a sua Teoria, percebe a simplória sentença que lhe é atribuída.

A consciência das alterações operadas nesta rapariga aos longo destes últimos anos, sobreveio num curtíssimo espaço de tempo. Dois meses foram suficientes para que as metamorfoses ocorridas em silêncio subterrâneo, se revelassem de forma evidente e provassem que o povo tem razão, de quando em vez.

Quem sai aos seus, não degenera.  

A Gaffe apercebeu-se que saía aos seus. Provavelmente aos piores, se pautarmos a nossa avaliação pelas listagens e parâmetros de quem vai pastando unicórnios.

O optimismo ledo e brando, a tolerância suave, a maleabilidade, a paciência, a solidariedade, a compreensão e todas as outras características que são apanágios das boas pessoas, foram sendo assoberbadas, foram tendo acidentes - atropelamento e fuga - e foram assolapadas, devagarinho aniquiladas, pois que devagar se vai ao longe. A grande metrópole do real acabou de vez com a ilusão de que todo isto era impressão, uma fitinha de nada para compor o ramalhete.

 

A Gaffe é uma cabra, cumprindo a tradição dos seus - das suas, sobretudo. Agrada-lhe perceber que orgulha a família.

Como seria de esperar, não a incomoda balir desta forma. Tem o mesmo som da Inocência ou da infância - nem sempre coincidem -, pois que nos convencem que os extremos se tocam.

 

Apesar do dito, a Gaffe observa o mundo como outrora. A diferença está no facto de sentir que no antigamente das estrelas, pese embora os brilhozinhos, usar o capuchinho das pessoas certas podia facilmente ser sinónimo de perigo, enquanto que agora esta rapariga sabe que os lobos estão em extinção. Os pobrezinhos.

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A Gaffe carnívora

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Gosto de comer, mas sou carnívora. 


Gosto de sentir os dentes a afundar em carne tenra e suculenta, de sentir os molhos aromatizados a banhar-me a boca.

Gosto de lamber nacos de carne para lhes sentir o sabor das ervas que lhes deram alma.

Gosto de lamber a alma da carne. 
Gosto de sentir os ossos a estalar, quebrados pelos dentes, de sucos de carnes frescas assadas com ramos de alecrim.

Gosto de morder enchidos até espalhar todos os sabores por toda a boca, misturando-os em orgias de saliva. 

Gosto de trincar, morder, dilacerar, esmagar, cortar, ferrar, mascar e misturar em carnavais de sabor e baba as carnes suculentas que afago com a língua até me enfurecer.

Gosto de sentir correr pelo queixo os fios de saliva e molho e de lamber os dedos.

 

Com as sobremesas sou mais sofisticada.

 

Ilustração - Ricardo Martinez

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A Gaffe sem milagres

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.18

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Quando caminhamos sobre as águas, há sempre alguém que diz que é porque não sabemos nadar.

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A Gaffe atapetada

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.18

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A vida é assim:

Os tapetes de Arraiolos são lindíssimos, até veres um do Irão.

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A Gaffe apaziguada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.18

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O calor desabou.

 

Há duas semanas que sentia que poderia se me calasse passar despercebida e escapar às labaredas.

Sentava-se num dos bancos de pedra que rodeiam a cisterna e ficava quieta a ouvir a sombra a trepar pelas árvores frias. Começava a erguer-se do chão, tingindo-o de cinzento. Alastrava até encher a água de chumbo picotado pelo vermelho das carpas asfixiadas que vinham abrir a boca à superfície. Depois, como bicho insidioso, a sombra enlaçava os troncos dos teixos. Sentia o barulho rumorejante desse trepar irreversível.

As mãos da sombra são frias. Tocavam-me nos pés, nas mãos, na boca, e imobilizavam as palavras e os gestos e mesmo o toque ínfimo do fio de água que alimenta a cisterna se estilhaçava na pele líquida com a invisibilidade da finitude. Mergulhava nesta descoloração com a beatitude dos que desistem, com a aceitação dos suicidas e deixava que a consciência da minha morte crescesse indolor.

 

Dentro de mim, a morte vai crescendo igual à sombra da cisterna e a placidez deste facto tranquiliza-me, como me apazigua a sombra a crescer nos teixos frios.   

   

Agora o calor desabou e um pavão destrói a obscuridade com o grito de jóias estridentes.  

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A Gaffe quotidiana

rabiscado pela Gaffe, em 28.05.18

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Dizem que a banalidade não tem narrativa, que as histórias que ficam presas à memória cravam as raízes nos dias que não são derramados nas ruas vulgares, que apenas o incomum nos deixa marca.

 

Possivelmente.

 

No entanto, as histórias mais simples, aquelas que atravessam as ruas connosco ao lado, as que se esfumam no passar das horas destinadas a não ser colhidas por ninguém, são sempre as nossas, as que riscamos a todo o instante sem que se percebam os traços que ficaram esbatidos nos instantes que passaram, banais, quotidianos.

 

Pertencem-nos, são coisa nossa e são coisas dos outros. Iguais ou similares em toda a gente. Não trazem narrativas presas à banalidade comum a todos os que passam, porque o banal é tido como surdo e mudo.

 

Passamos pelas nossas histórias como cegos.   

 

Imagem - Jorge Gamboa

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