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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sombria

rabiscado pela Gaffe, em 12.09.19

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Quando homens pequenos começam a projectar grandes sombras, o sol está a tombar.

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A Gaffe testando

rabiscado pela Gaffe, em 06.09.19

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A Gaffe percebeu que a mais rápida forma de nos apercebermos se estamos a envelhecer, é esbardalharmo-nos na frente de várias pessoas, com um alarido descomunal.

 

Se todos desatarem a rir, estamos jovens.

Se toda a gente entrar em pânico e a correr para nos ajudar, é de se começar a seleccionar o nosso lar de idosos.

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A Gaffe pistoleira

rabiscado pela Gaffe, em 04.09.19

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Raparigas, tenham sempre presente que há homens a quem dar uma segunda oportunidade, é o mesmo que lhes entregar uma segunda bala, porque não nos acertaram com a primeira.

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A Gaffe de Ângelo Rodrigues

rabiscado pela Gaffe, em 03.09.19

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Just don’t tell me what to do.

 

A nudez foi durante séculos - sobretudo os amarfanhados pelo judaico-cristão - o último reduto da privacidade e talvez por isso, exactamente como o seu contrário, um latente factor de domínio sobre os outros.

A perturbação no equilíbrio entre o privado e o público, desencadeia anomalias que podem dar origem a eras, a épocas, a períodos e, numa escala mais caseirinha, a alterações comportamentais, a conceitos, a preconceitos e a distúrbios aparentemente incompreensíveis.

 

Dizem que um dos sustentáculos da Idade Média, um dos que escorou a sua origem, foi a usurpação do que era público pela esfera do privado. Os feudos são disso prova. O retalhar da terra e a inclusão das porções resultantes no círculo adstrito à propriedade privada, tornou possível o exacerbar do domínio sobre o Outro que foi engolido, como parte do usurpado, pelo poder de quem detinha a capacidade de chamar seu ao até ali de muitos.

 

A anulação do privado em favor do público, abala e destrói as monarquias e os impérios anteriores e sustenta ideologias que acabam por não produzir o equilíbrio frágil e absolutamente necessário entre meu e nosso.   

    

Esta mecânica, aqui referida de forma insipiente e torpe - incapacidade minha -, é observável nos jogos e nas guerras travados nas redes sociais, na publicidade, na comunicação social mais fútil – eventualmente quase toda -, e que reverberam nos modos de se olhar o Outro.

 

O corpo torna-se público. A nudez deixa de possuir o seu carácter reservado, de índole privada, pertença exclusiva do indivíduo, e é exigida com voracidade pela multidão que a torna sua e que nela se reflecte escolhendo os indícios que ali cumprem o sabor do gosto que se impõe. Ignora-se, apaga-se ou subvaloriza-se o restante com a velocidade do relâmpado de um olhar. A visão da nudez do Outro é toldada e contaminada por conceitos estéticos mutáveis que exigem um imediatismo destruidor na resposta e no estímulo. Somos nus públicos, dependendo das multidões que se tornam ferozes quando o que lhes é fornecido não obedece ao almejado pela quimera da perfeição. A multidão que se une sem ter consciência racional do elemento que a aglutina é quase sempre um anseio de superação de cada indivíduo que a enforma.

 

O domínio descontrolado exercido pelo público é tão devastador como aquele que é exercido pelo privado quando desarvorado.

 

O corpo público obedece então a todas as exigências daqueles que o devoram, acabando única moeda de troca. Fornece a ilusão de todas as quimeras, de todas as perfeições, recebendo das multidões a ilusão de uma espécie de existir dentro de uma espécie de verdade que é consequência da tremenda ilusão de reconhecimento, de aceitação e do aplauso.

É nessa variante, nesse desvio da nudez que de súbito é exigida despudoradamente pública, que o corpo é imolado.

Tornamo-nos implacáveis. Clamamos contra a perpetuação desta anomalia, carpimos a nossa vítima, depois de lhe termos exigido a pele e os músculos, e dentro de uma preguiça soberba e quase patológica, doentia, maníaca, subversiva, disforme e coberta com os lençóis da nossa conspurcada e mentirosa inocência, continuamos a insinuar o que o Outro tem de fazer para que o possamos aplaudir.

 

Somos agora, paradoxalmente, uma multidão medonha e animalesca quando em privado, numa espantosa normalidade, lambemos a ilusão da perfeição do corpo e da nudez dos bonecos que injectamos com o reflexo da imagem que nunca será a nossa, como se tivéssemos um espelho capaz de nos mentir, omitindo a queda inexorável que é a vida.  

 

Somos todos - carrascos e vítimas -, de cartão e todos temos pés de argila. Debruçados na margem do rio, procuramos na água uma jangada que nos faça chegar ao outro lado, mesmo que no outro lado não se encontre nada.    

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A Gaffe platinada

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.19

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No passado dia 01 de Junho Marilyn faria 93 anos.

Morreu a 5 de Agosto de 1962.

Demorei imenso tempo à procura de uma imagem fulgurante desta inacreditável e quase impossível mulher, mas todas, sem qualquer excepção, me deixaram deslumbrada.

É impraticável escolher uma única fotografia de Monroe, porque todas elas irradiam o magnetismo dos deuses.  

 

Do que dela disseram, escolhi a opinião de outro deslumbre no feminino.

Acabei por me render à evidência. Há muito pouca coisa mais saborosa do que um elogio de uma rival.

She sure registered on that screen. The minute the camera turned on her she became this incredible creature, and she was absolutely dazzling. She was-there’s no question about that. During our scenes she’d look at my forehead instead of my eyes. At the end of a take, she’d look to her coach for approval. If the headshake was no, she’d insist on another take. A scene often went to fifteen or more takes. Despite this I couldn’t dislike Marilyn. She had no meanness in her - no bitchery. She just had to concentrate on herself and the people who were there only for her… Fifty years on, we’re still watching her movies and talking about her. That’s not a dumb woman - trust me. - Lauren Bacall

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A Gaffe longínqua

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.19

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Talvez os lugares não mudem. Talvez mude apenas a forma como os esquecemos. 

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Sei que me alterei.

Já não é Saudade o que Paris me entrega. É outro som parecido. Uma outra voz que chega das ruas e vielas, das pontes, das esquinas e das casas, dos muros, dos cantos e ruelas, das arcadas.

Uma outra voz a percorrer-me a alma a dizer que me alterei, que não sou mais a rapariguinha que noutra voz ouvia a alma toda de Paris e que a desfez de encontro à luz que vinha nas tardes em que o som era só seu.
Paris já não terá a voz que vinha e eu não terei a mesma luz que ouvia.

 

Olho agora Paris como a mulher que descobre que o lugar imenso nos olhos da criança não passa de uma pequena esfera de poeira.

 

A memória é agora um lamento prolongado e manso, um suave entardecer inócuo, a manta na cadeira do café, uma tristeza que passa como se tivesse um corpo esmaecido e atravessasse a rua devagar, para o outro lado.

Paris, a que perdi, guardada no meu peito, esmoreceu na perda. Não distingo os traços dessa dor, já não a reconheço e trago um alfinete a picotar-me a alma por ter abandonado o espanto que foi sentir-me longe.

 

Sei que Paris é mais pequena agora do que dantes e que eu cresci no espaço desta míngua.

E no entanto, Paris paciente espera por mim, para me mostrar, mal chegada, a melancólica procissão de outra saudade composta só por mim, porque é de mim que a tenho, que a dor maior não se partilha e o andor que levo não tem peso ou tem o peso que os meus ombros dizem.

Sou menina despida que passa nua pelas avenidas sem ter o rapazinho que anuncia a ausência das capas de veludo.

 

Paris? Paris envelheceu à espera das vadias.

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A Gaffe e um conforto

rabiscado pela Gaffe, em 03.08.19

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Às vezes penso no que será o conforto aquecido por um travo antigo preso no elástico lasso de um velho moleskine onde se riscam pedaços curtos de nada, porque há cadernos onde o nada é quase toda a vida.

 

Não encontro este conforto separado de uma maturidade ganha com a força dos punhos e da consciência da simplicidade e da segurança de uma cor de nevoeiro, unidas a texturas macias de fazendas de lã que forram as almas.

 

Há gente que nos povoa a ambição de termos um lugar de abrigo, um santuário quase medievo, onde podemos desfolhar as páginas de um velho moleskine e percebermos que é nosso, inteiramente nosso, os riscos lá traçados.

 

Rara esta gente. Geralmente imperceptível, porque simples. Traz no rosto a invisibilidade daquilo que é, só para nós, o essencial.

 

Imagem - Joe Coffey

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A Gaffe elementar

rabiscado pela Gaffe, em 02.08.19

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Ocultamo-nos como conseguimos no meio das chamas. O desequilíbrio faz-nos tombar sobre a lâmina e o interior do lume corrói as pedras que amontoamos em castelos de cartas.

Todo o abismo deve ser atravessado com um salto apenas. Não há lugar para dois passos pequenos, mas existe a lâmina, a falha das sandálias de Mercúrio ou o calcanhar do herói que ninguém é.

Protegemo-nos, ou com o corpo, erguendo dele e nele a fortaleza que suplicamos no interior de nós que seja inabalável, ou escudamo-nos com o Pensamento erguido pelos Sábios, construindo nele o pensamento nosso, como se nele e dele houvesse salvação.

Podemos encontrar o poço mais fresco do deserto e mesmo assim a sua água não nos matar a sede.

 

Mas quando um peixe se move, turvam-se as águas. Quando um pássaro voa, uma pena. A erva cresce e não damos por isso. Colhemos flores e as nossas mãos ficam perfumadas.

Mas basta a nossa mão de terra em concha recolhendo a água para que a lua nos tombe nos dedos.

 

Porque somos a água, o ar e a terra sobre o fio de uma espada.

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A Gaffe nas limpezas

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.19

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A Gaffe veste uma coisita dos seus ilusórios tempos de Jean-Paul Gaultier e decide levar a bom porto a pesadíssima tarefa que iniciou algures Antes de Cristo. Limpar os detalhes dos seus artifícios que, abandonados ao patine das horas que passam, se tornaram lixo.

 

Não tendo facebook para excluir amigos, não possuindo twitter para passarinhar com o pano, opta por ir debicando, aqui e ali, os grãos de pó que se depositaram nos interstícios da sua barroca – rococó, quiçá? - fraseologia.  

 

É evidente que fica exausta ao fim de alguns segundos.

os detalhes empoeirados são em demasia e para tão curto amor, tão longa a vida. Abandonemos, pois, o árduo trabalho e esperemos em sossego imóvel que o algodão se engane.

 

Pese embora a súbita inércia que a avassala, a Gaffe reconhece que uma mulher é capaz encontrar erros e falhas minúsculos, perdidos  nas pequenas fissuras conspurcadas e nas sombras esconsas das esculturas talhadas por homens que de tão sólidos rivalizam com a obra.

 

Somos absolutamente perfeccionistas quando se trata de descobrir poeiras adversas pousadas nas construções masculinas. Somos obsessivas-compulsivas quando nos relacionamos com a magnitude que se diz perfeita dos que nos povoam a vida e nos saltam para a cama. Somos heroínas de Agatha Christie se as provas do delito de imperfeição se encontram cobertas por camadas intermináveis de alibis.

 

Os homens conseguem, durante um breve período de tempo muito inteligente, enganar-nos nas grandes coisas, mas jamais nos conseguirão ludibriar nas pequeníssimas.

 

Meus queridos rapagões, convém que não se iludam.

Somos capazes, na limpeza dos detalhes, de trepar a todos os cantos e esquinas dos lugares, precipícios e falésias, onde acreditais que as vertigens nos convencem a deixar desapurado um grão de pó. Nem que para tal se tenha de chamar a senhora lá de casa

 

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A Gaffe de terceiro grau

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.19

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A prova irrefutável de que os homens vivem num planeta distante com difíceis pontos de proximidade com aquele que habitamos é o modo como atribuem aos objectos capacidade de se tornarem autónomos e de desempenharem tarefas corriqueiras, mas essenciais, sem intervenção humana.

 

É mais do que usual ouvir um rapagão dizer, depois de chegado a casa, sapato marujo ao vento, beijinho fofinho ao lado:

- Vou espreitar o futebol enquanto as batatas se fritam.

Ou então:

- Vou ler um pedacinho do Expresso enquanto a salada se lava.

Mais frequentemente:

- Vou descansar um bocado enquanto os bifes se grelham.

Ainda com maior frequência:

- Vou ali num instantinho ler os mails enquanto a mesa se põe.

 

A salada toma banho de forma muito independente; os bifes atiram-se sozinhos para o grelhador e procuram não esturricar, exactamente como os banhistas ao sol do meio-dia no Algarve; as batatas descascam-se e nuas, magras - uns palitos! –, decidem ficar loiras e a mesa veste-se sem dar satisfações a ninguém para receber estes convidados, qual Carmen Miranda caseirinha.  

Depois a loiça lava-se enquanto o moço saboreia um Chivas Regal Royal Salute esparramado na poltrona enquanto o café se tira.

Esta extraordinária esperança masculina de ver as coisas a acontecer sem intervenção humana é claramente extraterrestre.

Se os não podemos vencer mandando-os para o planeta que os pariu ou, em alternativa, para a pata que os pôs, podemos acompanhar a sua visão do universo, aproximando-nos do modo de comunicar desta espécie. É uma excelente forma de aculturar estas criaturas, adaptando-nos a elas, e ao mesmo tempo saborear as vantagens que nos traz e que reconhecemos num instante.

 

O ideal é trabalhar nos verbos.

Há que evitar o singular. Usemos o primeiro verbo na primeria pessoa do plural sempre que uma tarefa nos pareça problemática e, se possível, façamos com que a restante frase siga os parâmetros usados pelo alienígena.  

- Temos de dar banho ao Rottweiler.

- Hoje saímos sem cuecas, porque a máquina não se ligou.

- Vamos pagar uma multa, porque o carro ficou no lugar das grávidas.  

- Não podemos evitar a reunião do condomínio, porque a convocatória se abriu.

- Temos de ir comprar frango de churrasco, porque o jantar não se fez.

 - Vamos espancar o vizinho que ouve o Roberto Leal a gritar que vai, que vai, que vai lá para a terra da Maria.

- Houston we have a problem.  

 

Se acabarmos a cantar hit the road Jack com o volume nos píncaros para que dentro da nave os radares que o avisam do perigo se avariem com a vibração, estamos então muito próximas de o mandar para casa da mãe onde o fogão cozinha sempre muito melhor que o nosso.

 

Seja como for, alteramos-lhe o planeta.  

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A Gaffe de Rutger Hauer

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.19

 

Há momentos raros em que é revelado o encontro entre universos aparentemente desligados.

 

O solilóquio de Batty, protagonizado por Rutger Hauer, em Balde Runner - obra maior de Ridley Scott, escolhida para preservação no National Film Registry, da Biblioteca do Congresso, como sendo cultural, histórica ou esteticamente significante - é indiscutivelmente um breve, mas potentíssimo, abraçar do Cinema e da Literatura.

É um extraordinário solilóquio que, ao contrário do pensado, não foi da inteira responsabilidade de Philip K. Dick, já que foi reescrito pelo actor que lhe acrescentou o imenso e comovente fim que aproxima a chuva das lágrimas nela diluídas.

É extraordinária a beleza que surge na escolha de uma série muito curta, breve, simples, de palavras que unidas produzem as frases eternas.

 

I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched c-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

 

Soberbo, Rutger Hauer é neste exacto momento o filme inteiro.

 

Sou incompetente a discorrer sobre o estupendo Blade Runner. Outros já o fizeram, tornando-me incapaz de acrescentar o que quer que seja que retenha interesse, mas é este pedaço de humanidade, de impressionante mortalidade, de desalentador e desesperante sentido de nos sentirmos já vividos, que me convence que nascer e morrer são momentos vácuos, sem história, ocos, indignos de registo.

 

Mesmo a chover, só o que temos entre o nascer e o morrer é a eternidade.

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A Gaffe artesanal

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.19

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Na mão dele havia o traço negro das gôndolas e um abandono, ao frio, de estandartes.

Na mão dela ficava o mapa do corpo que era o dele, reencontrado, e o lento arrasto da euforia dos trajectos.

Na mão dele havia um peregrino. Outrora as mãos peregrinavam e no encontro com as mãos dela ouviam-se rezas pagãs nas catedrais.

As mãos dele, divinas.

As mãos dela comédias, saltimbancos súbitos que assustavam prendendo pássaros aos dedos.

 

A mão dele agora no flanco dela, como o esboço morto de um poeta, deixou de ser tudo.

São mortas as baladas que ecoavam por entre os dedos brandos da mão dele.

Talvez a noite aquática das praças tenha desfeito o que ele entrançava na varanda dos seus dedos, ou talvez seja ela a ir-se embora.

 

Porque o fim do amor é artesanal.

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A Gaffe num desencontro

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.19

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Há quem afirme que crescemos desenvolvendo algumas características perfeitamente vincadas e indeléveis transportadas em pormenores com sabor a fado e a destino, impressos no nome que nos dão, ou no da rua em que nascemos, no número da porta em que vivemos, ou nas estrelas mais esconsas que nos regem.

 

Gosto de acreditar que pode ser verdade. É quase fantasia, é quase uma história de embalar que nos contam, é quase uma poeira que cintila fora do real.

 

Há, no entanto, um detalhe deslumbrante neste correr de fado e de cantigas.

Há gente que nasceu para obedecer a determinada imagem, definida e única. Não existe, ou existe com menor vontade e maior esquecimento, se quebra ou subverte a vincada representação de si nos outros.

 

Não há forma de se reproduzir esta espécie subtil de um carisma que não passa de inteligência à flor da pele. Nasce como um signo que encontra definição e corpo no corpo de quem percebe ou sente esta particularidade. O duplo, o imitador, carece de certezas ou de vida própria. Fica sempre aquém daquilo que se quer.

O confronto do sujeito com a imagem que o reproduz na perfeição é raro e imperceptível. Reconhecemo-lo quando percebemos que, depois de o vislumbrar nos outros, não conseguimos deixar de admitir que há, algures, um encontro a que faltamos.

 

Na foto - Mikhail Alexandrovitch Romanov

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A Gaffe do não

rabiscado pela Gaffe, em 09.07.19

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Não era um bom vento. Tresandava a podre e a doença. Dos casamentos não chegava nota, que a morte tinha arrastado os noivos, empurrando os corpos para o rio.

O tifo galgava os penedos, depois de tombar nas margens putrefactas e desatado em fúria abria terreno nos corpos dos novos, que os velhos caíam de choro e de fome.

Morria-se.

A gente do Douro usava panos amarrados na boca, com algodão em rama dentro. Para a proteger do febre, que nos socalcos e nas margens do rio a maleita é masculina, já que às mulheres foram entregues os dons curativos.

 

- Tombaram como os espanhóis. A morte é diferentemente igual em todo o lado.

 

A memória da Guerra Civil espanhola assombra o meu velho Domingos, tão tenro na altura que dessa tragédia apenas retém o terror do febre, o nauseabundo correr da água encharcada em corpos e o burburinho das rezas envolvidas em lenços pretos, em raízes e terços lacrimejantes. Pesada e seca memória, como trovoada em mês de Julho.

 

- P’ra lá do Marão, mandam os que lá estão, mas no Douro manda o não.

    

O não como matador da esperança. Para lá do não caído sobre a terra, já nada é fértil. O não como o fim do tempo, como se nada existisse depois do muro erguido pelo amontoar de corpos já negados.

As mulheres carpiam este não isento de revolta.

Urdiam um não confrangido, de lamento, de desilusão irreversível, de perda, de ausência de espera no contínuo de vida ainda por viver.

 

Ainda existe este não aqui no Douro. Solene de incenso e de tragédia, de final profundo, de sinal da cruz, mas ficou aguacento e já de poucas lágrimas, para fazer de conta que é talvez, esse estrondoso lugar de redenção da esperança.

 

De Espanha corria o não dizível. Veio no Douro a tremular na água e a terra o abrasou, comeu, tornou raiz. Regurgitou-o depois para mal do homens.  

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A Gaffe sem encanto

rabiscado pela Gaffe, em 02.07.19

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Vou tomando consciência do facto de quase todos os meus rabiscos ficarem sem nexo, sem sentido, sem qualquer ponta por onde se lhes pegar, sem o auxílio das figurinhas que escolhi para os ilustrar.

Esta ligação ou simbiose, como se lhes queira chamar, é uma miserável metáfora para outras uniões que grassam por todo o lado e que são incomparavelmente mais dignas e mais importantes do que as que vou fazendo levianamente por aqui.

 

Há alianças que fustigam os dias com os brilhos de promessas encantadas, uniões que afiançam a eternidade de uma fábula, elos que trazem a garantia do encanto e da magia de uma história de fadas, laços de seda, de veludo e de cetim que adornam a solidez do reino onde se pode ser feliz para todo o sempre, que, de modo subtil, se vão esfumando ou estilhaçando em silêncio de encontro ao tempo que passa.

 

Subitamente, percebemos que atingimos o limite concedido para alojar pedaços que supomos ser os que nos são mais queridos, que esgotamos a nossa capacidade de acumular sentimentos ou imagens de um sentir que não é nosso, que todos os retalhos de felicidade que fomos reunindo são substituídos pela cinza de um aviso breve e cru.

 

Não nos é permitido mais.

 

As adornadas vedações que nos impediam de ver o que chegava lento e sem ruído para minar a nossa etérea ilusão de felicidade, acabam por fazer desaparecer o que retínhamos na alma e que nos fazia acreditar que éramos heróis e heroínas de contos infantis.

Ficamos com os abismos da desilusão nos braços.

 

É claro que há remédio!

Levantamos o rabinho da rocha magmática, enegrecida e bruta, em que se transformou a vida e vamos substituindo, com a coragem dos que se sentem sós, pedaço a pedaço, as imagens perdidas, retocando sempre que podermos o ilusório acumulado outrora com a consciência, exacta como um bisturi, de que nem sempre os sapos trazem príncipes dentro.

 

Imagem - Dina Goldstein

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