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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe encoberta

25 de Abril de 2020

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.20

René Magritte -1958

(A Abril)

A casa encoberta enche-se de navalhas de luz por esta altura.


Lanhos luminosos que se estilhaçam nos ladrilhos, que surpreendem as esquinas dos móveis e se estiram devagar prolongando o brilho dos tampos das mesas e dos corrimãos.


No Douro há esta casa oculta que permite a luz, que deixa que os clarões do sol invadam o sossego e que consente a enganosa sensação de ser habitada pela claridade mais límpida, pela imaculada cor do sol que se mistura nela.


No Douro, esta casa medonha enclausurou a melancolia dos distúrbios do sol no chão e nas paredes e as infantilidades luminosas que trepam os degraus e se dependuram nos umbrais das portas e janelas.


A casa trespassada pela luz, como se a luz não fosse mais do que um punhal.


Gosto da luz desta casa encoberta que me redime e deixa extenuada, porque se derrama e propaga como nenhuma outra claridade o faz dentro de nós que a autorizamos a entrar, porque me lava e limpa e me deixa dentro dissipada, por ser a única, a última, que dentro das paredes da clausura me permite, dentro da cegueira, olhar e ver a escuridão passada.

 

Imagem - René Magritte

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A Gaffe sem regressos

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.20

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Deitava-me no chão de madeira encerada e permanecia horas inteiras a aflorar as tábuas do soalho com a polpa dos dedos.

Com a cabeça tombada num dos braços que me servia de almofada, pousava o insecto de uma das minhas mãos na pele do chão e traçava labirintos de jardins inventados.

Tudo era simples, como o silêncio que me apaziguava. Ficava pousada no chão como um inevitável facto e entre o soalho e o meu corpo havia um lençol de plumas estendido que impedia a mácula, atenuando o encontro agressivo com o chão.

 

Estas minhas ausências despertaram a indignação da minha avó que me proibiu aquelas imobilidades suspeitas, evocando vestidos que se sujam - o meu vestido de linho azul com miosótis bordados a cheio pela Jacinta -, ou entraves à contradança das empregadas.

 

As tardes de mapas no soalho tornaram-se mais espaçadas e de certo modo diferentes. Deixou de existir um manso toque para passar a haver um risco rígido, um raspar nas frinchas deixadas pelas uniões das tábuas ou nos lanhos que a madeira antiga deixava irremediavelmente por curar. Tentava escavacar o chão, procurando lancetar ou aprofundar as feridas da madeira. A cera quinzenal colocava compressas nestes rasgos, mas nas tardes distraídas da minha avó voltava a abrir aquela solidão de madeira. Quando o sol deixava as sombras soltas pelo chão, acabava pertença do soalho. Os reflexos de luz toldavam-me os olhos, sentia a pele misturada com brilhos dourados e os fios do meu cabelo enganavam os veios da madeira.

 

A memória dessas tardes chega hoje como lenços a acenar, isenta de som, com se a mudez daqueles momentos contaminasse as recordações que deles tenho. Talvez a responsabilidade desta ausência de ruído não seja minha. Talvez o silêncio fosse um erro exterior a mim.

 

Agora o soalho não é encerado de quinze em quinze dias e mesmo o ranger das tábuas parece diluído.

 

Pesa de perfume o ar que não respiro agora, mas que me entra baço nas narinas e há escuro desperto nas rajadas de luz que entram pelas janelas. Não há vento e sinto as folhas esbaforidas a rodopiar lá fora. Estou aqui e sinto frio, como se tivessem aberto as portas todas e as correntes do ar enfurecidas viessem galopar o meu espaço.

 

Onde fiquei? É mesmo aqui que existo ou estou perdida nas folhas do meu álbum? Vou pairar, tenho a certeza, voar ou levitar e chegar ali, à minha infância, e, contudo, calco o chão agora como se dele nunca tivesse erguido os pés.

 

Atravesso a sala. Desvio-me dos móveis. Sei-os de cor. Os meus dedos esbarram nas esquinas e escorregam depois na pele de vidro da jarra onde matavam as mimosas. Não tenho medo. Agora não há perigo. Posso quebrar tudo o que quiser sem temer que escondam o meu erro. Já não fico com segredos repartidos e com o medonho medo dos meus cúmplices que ganhavam o poder de me moldar ou arrastar para culpas divididas.

Como se soubesse agora do que tenho a culpa.

 

Toco nas paredes, encosto-me de manso, de modo que os meus ombros se misturem com a surpresa de me ver aqui, com esta espécie de ondular que sinto e que é memória ainda do berço que baloiçava nos braços da minha avó.

Caminho devagar.

É grande, a sala, mas tudo é tão pequeno. O modo de eu a olhar é tão diferente! Mesmo a poeira batida pela luz não tem doirados e não fica presa nas patas do tempo. Tomba como uma sonâmbula no soalho e nada resta para esvoaçar depois. A minha escala é outra. Já cresci. Os meus olhos antigos não os uso agora e não consigo inventar estradas para deixar passar as tribos que inventava, entre a porta grande - grande, grande, imensa, enorme, que se abria para a minha avó entrar em contraluz - e o esconderijo do meu peito.

 

Nada tem a dimensão da infância.

 

Nada fica igual, quando da porta ao quarto se cavam pesadelos e as distâncias se traçam no interior da vida. Nada permanece, a não ser o ido.

Não há regressos. Não há normalidade.

 

Deito-me no chão. Ergo os braços, estendo as mãos para o tecto. Deixo-as tombar depois vazias e adormeço.

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Gavetas:

A Gaffe sem Primavera

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.20

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Esta casa foi adquirindo uma entidade própria e uma determinação indómita. Foi, enquanto o tempo envelhecia, sobrepondo o desejo das pedras à vontade do dono de modo que se deixou de perceber quem domina quem. Como no poema, o senhor tornou-se servo, por amor.

Esta casa vai construindo as ordens, vai solidificando o poder da pedra sobre a carne, vai erguendo o seu esmagador domínio sobre quem a deixou de ter, porque ela o tem. Decide quem entra, escolhe quem será expulso e responde agressiva àqueles que sem o seu consentimento se atrevem a passar. Não passam se forem ameaça. Não passam se lhe causarem ciúmes. Não são acolhidos se arriscam o amor daqueles que são dela. Não permite a invasão da mais ínfima partícula de almas estranhas. Impede a luminosidade dos pássaros e a cumplicidade dos amantes.

Esta casa contém o interdito e cuida dos fantasmas.

 

É a ela a que chego agora. É dentro dela que retorno a mim, que me sinto dentro, por dentro. É dentro dela que fico em mim, a sentir o partir dos outros, dos que ficam a latejar nas pedras presas nas solidões que tombam como gotas grossas das águas das árvores depois de chover, em silêncio.  

 

É nesta casa que me recolho em mim e que reaprendo os pequenos passos, os mais breves gestos. Pormenores.

É nesta casa que toco nas pequenas, pequenas, pequenas, coisas. Nas toalhas de linho com monogramas bordados. No perfume de hortelã dos aventais da Jacinta agora morta. Na jarra de porcelana com peixes no dorso. Na cigarreira de prata sobre a escrivaninha. No papel de carta opalino pousado perto da imagem de marfim de um deus antigo. No constrangido marcador do livro que ninguém acaba. Nas folhas secas de tília mal florida que esperam por tisanas de abandono e de anoitecer. Na abóbada das mãos erguidas da imagem da Virgem do Amparo secular - que o seu santo manto nos cubra e nos porteja, hoje e para todo o sempre. Na tristeza que entardece este silêncio de gato enroscado no chão quente das cozinhas. No peso dos cortinados que se fecham sobre a luz cinzenta das copas de chuva dos candeeiros de mesa. Nos murmúrios das madeiras nocturnas e sozinhas.

É nesta casa que me deito dentro da sombra onde isolo a minha vida, no toque das pequenas coisas descobertas e neste poder da pedra sobre mim, sobre uma Primavera desgrenhada que emerge espantada e por iluminar.

 

É nesta casa que afloro as mais pequenas coisas esquecidas e é dentro delas que pressinto a urgência da memória para nos salvar a vida.  

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Gavetas:

A Gaffe dos silêncios

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.19

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A tarde disposta ao silêncio, espalhada no chão.

O meu corpo na penumbra, de vigia. Os meus olhos na sombra, os meus sentidos no escuro.

Escondida na obscuridade de um murmúrio, há na minha boca o sabor da transgressão. Um sabor rugoso de madeira ressequida. Tenho o direito de tentar compreender a minha ausência nos universos velhos femininos desta casa. Quero saber do ritual benéfico e do feitiço maldito, da prática secreta, da velha e encoberta fórmula de encantar.

 

Nesta tarde que se deita sobre a cama. Tarde de menina morta de olhos fechados, de caracóis pousados na almofada e colar de pérolas tombado, vestido azul escuro, enfolado, com pequenas flores, raminhos bordados.

 

Um fio de voz imperceptível, o fio de uma aranha, um fio de navalha. O fio ténuo e fino e perdido da voz da tarde a desfiar as feridas, a traçar os mapas e as marcas da dor, a descrever as mágoas. No corpo da tarde pousam as palavras, os dedos e os medos sussurrados das mulheres. Em cada palavra que não quer ser dita tudo parece consumado e o silêncio é maior que o resto.

O entardecer é colocado no lugar habitual empurrado com um gesto dócil.

É o momento dos desertos em que a solidão ondula e a dor prevalece como um cardo.

 

A casa inteira anoitece devagar.

 

No Douro há sempre tempo para tudo e dentro deste tempo compreendo o ritual diário destas mulheres, aquela quase dança de ternura e de deslumbre, aquele quase crime, aquela quase entrega de desmesurado amor. São estas mulheres que trazem encarcerado o corpo da casa. Ficam à espera que o silêncio chegue, ainda que fugaz, e nos conte, contando no corpo da casa, das marcas sofridas nos corpos de carne.

Depois de novo o silêncio.

As mulheres do Douro são silêncios.

 

Aqui é bom o silêncio. É bom estar calado. É bom não dizer. É bom não ter corpo. É bom não pensar.

É bom ser só casa.

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Gavetas:

A Gaffe no início

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.19

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O risco era traçado a lápis sobre papel vegetal, cosido depois com pontos largos no linho. Era lento o processo de cobrir o desenho com os fios desfiados, retirados do pano, ou com os que sobravam da feitura da peça em teares caseiros, pequenos, sem largura, que impediam a construção de toalhas de mesa.

Só de rosto.

O desenho vegetal era coberto lento. Folhas de carvalho entrançadas em flores desconhecidas. Rosas trespassadas por ramos de oliveira. Malmequeres abertos sobre tulipas tombadas em cálices pálidos que se raiavam de cinza do lápis que indicava a rota.

Depois de retirado do interior com o bico da agulha os restos macerados de papel, era lavado o bordado findo, e, ainda húmido, passado a ferro. Do avesso, sobre uma tábua almofadada, para que o bordado a cheio não espalmasse.

- Nunca me ensinaste a bordar a cheio, Jacinta.

Baixo relevo.

A toalha que procuro nas gavetas largas, muito finas, quase rasas, do móvel com margens de madeira canforada, onde em papel vegetal dobrado adormeceram princesas de linho e renda e fios de seda com jardins picados lentamente ao longo da lonjura das agulhas dos tempos perdidos, é maçã de outras eras.

- A dos baptizados foi bordada por mim que a que embrulhou a mãe da menina estava num fio. Serviu toda a gente desta casa.

A dos baptizados dos meninos. De linho grosso, caseiro, de tear estreito que só dá para o rosto, tem os monogramas a cheio dos que protegeu, que os meninos da casa são baptizados nus.

- Foi a avó que fez todos os riscos.  As iniciais da menina estão aqui. Bordei-as eu com os fios que arranquei à peça de linho que deu a toalha, que nada sobrou em novelo depois dos dois primeiros.

As iniciais do meu nome - ao lado dos inícios da minha irmã, do meu irmão -, em linho caseiro. Grosso, rude e agreste, rugoso e rígido princípio. Nu, a cheio que nada sobrou depois dos primeiros.

- A avó da menina quis assim e que se lhe há-de fazer? Nem um froco, nem um remate bonito. Só as letras a cheio. Esfiapa com o tempo. Não parece de baptizado, assim tão áspera.

- Tu sabes que sim, Jacinta.

- Sei, mas ao menos uma renda, um entremeio. Dava mais leveza, dava mais vida. Às vezes, basta um pedacinho de luz a meio do caminho.  

 

Imagem - François Morellet

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Gavetas:

A Gaffe voltada a Norte

rabiscado pela Gaffe, em 19.11.19

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A varanda voltada a Norte precipita-se sobre o rio como se o uivo do vento por entre as garras de ferro se tivesse unido ao silvo do chicote da água, em baixo, serpente a rastejar.

O meu céu é este.

Lanhos de rio erguidos nos socalcos. Chumbo e prata a pesar no granito de frio que trepa os troncos das árvores e as rugas do espaço permitido suportar pela saudade.

O meu céu é este rio cinzento que brilha como um fio de prata no pescoço da terra.

O meu céu pulsa como corre o rio.

Trago os pés gelados para pisar o céu. Todos os céus são rios que descalça toco, que descalça troco, porque a inversão da paisagem existe na lâmina da varanda voltada a Norte que duplica o frio dos meus pés que pisam água e céu e terra, tudo junto.

Trago vestido o ar que vem do Norte.

O meu céu é este rio cinzento dos socalcos e o precipício da varanda onde me debruço sobre a nudez da terra e emudeço no uivo do vento nos ferros e no silvo da água que caminha sobre o meu vestido.

 

Imagem - Il Trionfo della Divina Provvidenza de Pietro da Cortona

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Gavetas:

A Gaffe sem argumentos

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.19

Our Lady of Good Counsel, Bartolomé Pérez, c. 16

Uma das maiores inutilidades que entopem as nossas vidas é despejarmos tempo nas sarjetas a argumentar com quem nos detesta seja como for.

É apenas importante verificar se pronunciam bem o nosso sobrenome.

Mana

Imagem - Nossa Senhora do Bom Conselho - Bartolomé Pérez, c. 1680

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A Gaffe num cálice de Douro

rabiscado pela Gaffe, em 18.10.19

(Com saudade)

A elegância apenas amadurece como um vinho de eleição, ganhando corpo, paladar, textura, aroma e personalidade inconfundível, se, para além de o fazer em cascos de qualidade única, traz os taninos da inteligência incutidos na história do chão donde proveio.  

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A Gaffe quieta

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.19

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O primeiro nevoeiro entrançado nas rendas dos ramos das árvores, azula o amanhecer. As folhas movem-se no colo do primeiro vento. O som das folhas é como o bater das asas dos anjos de encontro às grades da eternidade, ou como a descida dos vermes ao útero da terra.

O berro do pavão estilhaça o vidro da água. Um peixe torce o rumo do silêncio. As pedras respiram as horas demoradas de dourado e o azevinho move os dedos recortados numa agonia de súplica, verde escura, como um grito.

Os homens vão chegando para pisar as uvas. De bocas nuas, chegam cobertos de azul maduro. Calados. Trazem pão nos olhos. Vinho aos pés. Migalhas de palavras. Toalhas de tristeza.

O tempo no lagar escorre.

Fecundada pelas primeiras mortes, a terra estanca.

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Gavetas:

A Gaffe num encontro

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

Vou ao encontro da minha irmã.


Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos tapados por óculos de sol quadrados e grandes, um pouco vintage, um pouco da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.

 

Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da gola redonda do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor estranha.


Quantos vidros terei de partir para lhe chegar?
Quantos vidros somos, antes de chegarmos?


No reflexo, a mulher despe os olhos e repara em mim.  

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Gavetas:

A Gaffe sem asas

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.19

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Quando era criança, há muito pouco tempo, tinha a certeza que a inteligência encarnava nos corpos que escolhia à toa, transformando-os numa espécie de anjos com asas dentro.

Não acreditava que os que tocavam a genialidade, ainda que de forma imponderável e etérea, tivessem corpo físico sujeito às exigências mais violentas da carne. Eram insuspeitos, impolutos, intocáveis, isentos de terra e de lama, envoltos em poeira de conto medieval com a consistência do ferro de armadura e até o vertiginoso abismo que se abre de súbito quando um corpo nu e desejado se torna bracelete, anel, colar no nosso corpo, não despertava neles atracção.  


Assexuava-os, divinizando-os.  
Não lhes negava o corpo, mas via asas dentro, longe de mim, que era um terreno bicho, verme, insecto a mirar estrelas.

 
Agora espio a minha irmã.  


Tem o cabelo tratado por um cabeleireiro das estrelas, loiro, quase em demasia. Reflecte a luz, como se fossem penas duma ave ao sol as madeixas lisas sobrepostas. Os olhos pardos, descobertos poços de lâminas abertas. A boca desenhada a prumo, obediente às regras do perfeito. O corpo esguio, flexível, modulado, alto, muto alto pois que  

- saiu ao pai! -  dizem os homens curtos, habituados a resumos dentro.  


Está atenta ao que lê, de sobrancelhas erguidas, escarninhas. Os dedos longos nas páginas são corta-papel e o baloiço do pé faz compassar o tempo.  


Detém todo o poder que lhe foi dado como se houvesse memória de batalhas naquilo que decide e a inteligência à flor da pele veste-a melhor do que Dior faria. Fica-lhe bem, como um perfume fiel há tanto tempo que deixa de se fazer sentir a quem o usa. 


Olho a minha irmã como o bicho pequeno e terreno que segue o rasto dos cometas, mas sei que a mulher que espreito do chão da minha lura, é ténue, frágil como eu, e não tem asas.  


Longe, há pouco tempo ainda, era criança. As certezas tinham asas e às vezes coração. Agora sou igual a toda a gente.

 

Ilustração - Olga Esther

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A Gaffe manual

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.19

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Tenho as mãos feias.

Sempre tive consciência do tamanho das minhas mãos. Dos ossos demasiado longos, finos, dos dedos com nós salientes, da fealdade dos seus movimentos deselegantes, da impossibilidade de as adornar.

Escondia as minhas mãos, era criança. Matava-as nos bolsos dos bibes e das batas e dos casacos ou mantinha-as muito fechadas de forma a que aqueles bichos não ocupassem o espaço dos outros.

As minhas mãos envergonhavam-me.

Comparava-as com a lisura, com a harmonia, com os diáfanos voos e com a perfeita forma das mãos da minha irmã e sentia-me bruta e torpe e grosseira.

Permitiram, os dois bichos, entregar alternativas aos meninos da escolinha. Era o fósforo ou a mãos-de-tesoura. Nunca entendi qual o que cortava primeiro, nunca soube se era o aço a cortar o fogo ou se era o contrário. Nunca gostei do jogo.

O meu avô gostava das minhas mãos.

 

-  São como as grades do portão. Fecham o que quiseres dentro de ti.

 

As minhas mãos tornaram-se ágeis de tão feias. Aprenderam a escapar, a desaparecer, a espreitar, a surripiar silêncios e a mover com uma perícia e rapidez inusitada minúsculos objectos, detalhes, pormenores e nadas que, em mãos diferentes e perfeitas, se partiam no tempo da tarefa.

Guardava dentro delas os meus mundos. 

Assim aconteceu.

 

Tenho as mãos feias, mas é Outono.

Os dedos das árvores são medonhos, mas são meus.  

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A Gaffe telegráfica

rabiscado pela Gaffe, em 17.09.19

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- Não, meu caro, do sítio onde estou não lhe posso mandar um fax.

- Ah! ... ... mas está onde?

- No século XXI.

Mana

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A Gaffe alcoólica

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.19

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- Se a menina acha o que o seu copo está meio vazio, verta o que tem num copo mais pequeno e deixe de ser cabra.

Mana

 

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A Gaffe trémula

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.19

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O dia começa acinzentado, quebradiço.

Abro a varanda e deixo que um trémulo frio breve entre e se abrigue.

 

Gosto de todos os sentidos abertos pelo arrepio da manhã na pele, mas sou caseira Caeiro incapaz de segurar as sensações que sinto, porque todas surgem como a tremer de frio na varanda aberta sobre um dia cinza e combalido.

 

Hoje vou sentir-me, só depois do tempo.

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Gavetas:




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