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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nocturna

rabiscado pela Gaffe, em 04.02.19

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Recupero hoje uma memória.

Às vezes parece-me envelhecida, longínqua e atenuada pelo enrugar da espiral do tempo. Erro meu, que o amor é ardente e má é a fortuna.

Queria muito que fosse partilhada com o meu queridíssimo Fleuma, porque raros são os homens que me ensinam a chorar.

19-10-2014

 

Quando o meu avô morreu, a Lua chorou um choro baixo. Um fio fino e transparente de lágrimas que durou dois dias e duas noites só findo quando a minha avó lhe entregou a manta de lã que o meu avô usava para cobrir as pernas nas tardes do jardim mais frio.

A Bórgia foi arrastada para a jaula.

Não mais dormiu aos pés da cama. Deixou de entrar em casa, a não ser para farejar a cozinha à espera que alguém se comovesse com o olhar de súplica do monstro e lhe oferecesse a provar, à revelia de todos os conselhos, ordens e recomendações, um naco de carne que a Jacinta tempera com alho, vinho, cidra e ervas aromáticas.

Facilitou durante bastante tempo a entrada das visitas. Se antes se tornava um perigo tê-la solta quando na casa havia gente alheia aos seus domínios, era fácil depois fechar-lhe a porta e gradear o bicho.

 

Quando a Lua adoeceu, a Bórgia acordou prostrada. Chamaram-na e ela não veio.

Fomos esbaforidas e aflitas de encontro às velhas amigas.

 

- Deus nos valha, menina, que a cadela piorou tanto.

 

Bórgia.

A assassina doida que esfacelava móveis e esfarelava as carnes dos incautos, subitamente velha agora nos meus olhos, que velha é há tanto tempo aos olhos dos que a temem, perto da Lua entristecia. Ninguém a conseguiu retirar do lado da amiga.

 

Trouxemos o veterinário.

 

- Que tossiu sangue, Senhor Doutor. Piorou tanto!

 

O homem entrou para observar a Lua adoecida. Saiu depois inútil, desolado. Acompanhava-o a minha avó que em silêncio ouviu o veredicto. A minha querida Jacinta atrás, a tropeçar nas pedras e a amarfanhar com as mãos o avental e a dor.

 

Lua treme, inquieta. Tosse e cospe sangue.

Abre cavernas na minha garganta e faz o fel golfar enchendo tudo.

 

Eu ali de pé, ali cravada, muda, seca, hirta, ressequida?

Abro a porta e entro e de joelhos abraço a cadelinha, a beijo a soluçar.

A Bórgia a ganir muito de mansinho.  

Deixo de saber se é sangue ou se é o meu cabelo que se espalha na manta que foi do meu avô.

 

Lua morreu de manhãzinha.

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A Gaffe com lençóis brancos

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.19

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Eram brancos os jogos de lençóis que a Jacinta trazia todos os Sábados das arcas para os quartos de cima.

 

Brancos, sempre brancos, brancos que de tão brancos doíam.

Alguns tinham bordados a cheio na dobra que expunham. Flores ou frisos a ondular arabescos que as fronhas repetiam. Outros eram rendas. Entremeios urdidos à mão, brancos, brancos, no negrume de Inverno.

 

 - Vá brincar, menina. Vá apanhar sol e deixe trabalhar quem sabe.

 

A Jacinta abria as asas de lençóis sobre as camas como quem atira redes de pesca aos mares sossegados das manhãs de Sábado. Cheiravam bem essas manhãs. A linho lavado, a sabonete e a alfazema que a Jacinta guardava em saquinhos laçados com fitinhas de cetim nas arcas dos lençóis brancos a doer.

Ficava a ver aqueles pássaros largos de asas, a abrirem o breve voo sobre os ninhos. Fechava os olhos. Pelos olhos fechados aspirava o odor daquele esvoaçar lavado e de açucenas.

Quarto após quarto, após quarto, após quarto. Seguia-lhe os passos. Os lençóis brancos a dardejar bordados.

 

- Vá brincar lá para fora com os manos, menina!

 

A luz do lá fora pelas janelas. Reflectida no voo dos pássaros como penas. O cheiro a luz lavada e a saquinhos de alfazema.

 

- Ajude então com as fronhas, menina. Vá lá Deus saber porque é que o avozinho a deixa aqui, a andar atrás de mim - e sorria, parada por instantes, de mãos cruzadas no regaço de onde a ternura subia até aos olhos.  

 

Chorou neste Sábado.

Ouvi-lhe as lágrimas como lençóis abertos e doridos.

 

Entrei devagarinho no quarto e vi-a sentada na cama que foi da minha avó. De mãos em concha, uma por cima da outra, num abandono branco e envelhecido.

Tinha-se enganado. Foi sem querer. Nem sequer pensou. Não sabe como aconteceu aquilo. Foi o hábito. É a velhice, menina.

 

Chorava tanto.

 

Ajoelhei-me. De joelhos venero imagens santas.

Entrou ali para mudar lençóis que não se mudam, mudos os que ficaram inúteis como trapos, e ficou ali a desfraldar, a apalmar, a estender saudade.

 

- Faz-me tanta falta - treme. É frio.

 

Abro a gaveta. Retiro o xaile que a minha avó usava nos entardeceres mais ásperos de negritude em que as crianças não brincam lá fora.  

Sento-me na cama, pouso as minhas mãos na concha das mãos enrugadas da Jacinta e as duas cobertas pelo xaile, sorrimos baixinho, baixinho, baixinho, para não inquietar as lágrimas.

 

- Vá, Jacinta, anda. Eu ajudo com as fronhas.

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A Gaffe com alfinetes

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.19

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O camafeu de marfim está seguro ao ombro de forma desleal. O alfinete atravessa a alça do soutien nevado pelo tecido da camisa ténue.

A minha irmã usa os alfinetes de modo pérfido. Nunca se agarram ao que é mais evidente. Cravam-se na sombra. Espetam-se no escuro. Penetram o insuspeito.  


- Dizem que usas o poder de forma masculina - pico e só depois explico, socorrendo-me do que ouvi há muito tempo. 


Ergue os olhos pardos. Vejo cintilar as lâminas. Cruza as pernas demasiado altas, demasiado esguias, e faz rolar o silêncio devagar na baforada do fumo de um cigarro.  


- Ingénuas. Quando o poder é masculino, é também maricas. 

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A Gaffe pelo caminho

rabiscado pela Gaffe, em 03.01.19

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A manhã entra pelos interstícios das árvores e das pedras.

Madruga a neblina.

 

Era usual, de braço dado, caminhar com a minha avó pelos trilhos das camélias e dos bichos. Íamos postas em sossego. Às vezes, anotávamos as banalidades da terra. Uma flor que entretanto abrira, um pássaro que rasava a água, ou a gota de orvalho que gelava no cálice das mãos de uma estátua de pedra. Nada havia de transcendente nestes caminhares. Eramos terrenas e vulgares e era Inverno. Bastava.

 

Hoje caminhei com a minha mãe pelo trilho das camélias e dos bichos.

 

Há uma quase religiosidade na brandura com que a o braço me é dado, um milagre que filtra a decomposição do mundo, que revela apenas a luminosidade da floração do espaço, na forma tranquila, pacífica, provavelmente submissa, com que a minha mãe se move e me acompanha.

 

É nesta bonomia etérea que se revela a negação do poder. A minha mãe nunca possuiu a capacidade de subjugar, de exigir, de manipular ou de se edificar como matriarca. Nunca foi mais do que a senhora de um silêncio longo e apaziguador, nunca ambicionou ser mais do que a pausa no respirar de um texto e nesse cumprir de desiderato tornou-se a mais doce das criaturas que esvoaçam.

 

A imagem que retenho é a deste caminhar.

Um casaco de malha grossa, largo, de jacquard - cristais de neve beges e castanhos, sobrepostos, que a agasalham num cruzar deformador -, as calças cigarrete, os sapatos rasos, picotados, masculinos, de cordões, a camisola de gola alta – turtleneck, insiste -, o colar e o lenço de seda de cor queimada num nó desengonçado, alisam o conforto que reavemos depois das trovoadas.

 

Vou pelos interstícios das árvores e das pedras, como outrora de braço dado à minha avó. A mesma onda no cabelo, os mesmos brincos de pérolas, o mesmo olhar o voo dos pássaros a rasar a palma das estátuas.

 

Terrena e vulgar, então percebo que nunca caminhei tão perto da mais rara das origens do silêncio. O amor pelas coisas mais pequenas.  

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A Gaffe e o olhar de quem ama

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.19

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Gosto de olhar os olhos de quem amo.


Amo pouca gente, por isso não olho muitos olhares, mas quando vejo a textura secreta de uma íris amada, vejo galáxias inteiras de novos Universos.


A minha irmã tem os olhos grandes e rasgados, com uma cor indistinta, entre le chien et le loup diriam os franceses. Olha de soslaio quando está alerta e nos seus olhos há sempre uma chispa de lume atento e fulminante. São olhos luminosos, esperto e manhosos. Olhos de felino que ensaia o ataque. São olhos de traição que a conseguem trair inevitavelmente.

 

O meu irmão tem o olhar quase negro de tão azul profundo. Às vezes tenho dificuldade em distinguir a doçura de todos os contornos dos seus olhos cheios de ternura. São olhos tímidos e muitas vezes baixos. São olhos tão pacíficos que nos podemos banhar nus, lá dentro, sem qualquer receio. São olhos que se fecham, porque receiam brilhar demais e ofuscar quem entra. São olhos de alguém que se apaixona.

 

Os olhos do meu pai são de amêndoa. Amêndoa amarga. Gostam de ficar fechados a ouvir Brahams e detestam ser interrompidos. Olham bem de frente os inimigos, embora, às vezes, confundam as trincheiras. São olhos altivos e orgulhosos. São olhos mandões, rufiões e desordeiros. Olhos que pensam que me enganam. São olhos de iceberg já derretido, pronto a chocar com o Titanic dos nossos.


Os olhos da minha avó eram olhos tristes e arrastavam um azul de cinza tão cansado! Eram olhos que se perdiam se nos distraíssemos. Exigiam atenção. Eram olhos de perder e de encontrar. Nunca entendi aquele olhar que partia facilmente para outro lugar onde não cabemos, onde não somos recebidos nunca. Às vezes eram cruéis de tão distantes. Às vezes havia uma implacável distância dentro deles. A minha avó estava inteira no olhar que tinha.

 

Os olhos do meu avô eram ninhos. Sabíamos dos pássaros que os habitavam, mas apenas conhecíamos os seus voos.  


A minha mãe tem os olhos azuis claros.

Os olhos azuis claros.
Olhos azuis claros.

Azuis claros.         

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A Gaffe enlutada

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.19


ShapiroEstou de luto.

O meu amigo voou para longe arrastando a minha pobre alma para as cavernas da saudade.

 

A minha saudade é da cor da laranja que é a cor que chega por pensarmos nela, mas que não se instalou, de manto traçado, ainda no peito.

Dir-se-ia que arrendo quartos dentro do coração.

Os inquilinos que tenho parecem estar sempre de saída que mesmo temporária, porque os sei perenes, abre na alma a porta laranja da desolação.

 

Sinto-me de luto, como um monge escarlate na varanda amarela da tristeza.  

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A Gaffe a postos

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.18

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Está tudo pronto.

 

Sinto-me finalmente tranquila e capaz de me deliciar com o único rasgo de talento publicitário que me seduziu. Longe de historietas de ratazanas, longe de narrativas de famílias felizes e de duendes de pacotilha, deixo-me seduzir pelo anúncio de um carro. Um Mercedes escarlate que segue na cauda de um leque de tantos outros prateados, guiado pelo Pai Natal que trava a comitiva para que um dos presentes, um cachorrinho, possa pudicamente levantar a patita atrás de uma árvore. Uma ternura narrada de forma excelente e capaz de tocar todos os públicos.

 

Finalmente sou capaz de serenar.  

 

Está tudo pronto.

As decorações de Natal restringiram-se ao máximo. Nas jarras há troncos belíssimos de azevinho cortados da árvore que endoideceu e se agigantou encostada à parede da casa. O presépio pousado de novo no móvel de laca preta e a coroa de Natal, poderosa, a pesar toneladas, a encabeçar a lareira da sala onde se jantará. Foi necessário usar o prego fortíssimo que sustinha o espelho. É uma coroa maciça de porcelana branca, enorme, construída de pinhas e de folhas de carvalho entrelaçadas. Disseram-me que os dois elementos representavam as Boas-vindas e a Fidelidade. Nem sempre estão unidos. A parede nacarada atenua-lhe o impacto, mas sei que o fogo, mais tarde, lhe entregará reflexos dourados, ruivos e azulados.

 

A ementa preparou-a a Jacinta. Ninguém - jamais - se atreve a invadir-lhe as decisões culinárias.

 

Na minha frente, o meu Amigo lê.

Tem pousado no braço do cadeirão um volume grosso que vai consultando à medida que o livro que vai folheando origina dúvidas.
Mancha sempre o soalho de madeira com as botas sujas de jardim. Deixei de lhe pedir para ter cuidado. Ouço-o sempre pedir desculpa e arrancar a esfregona das mãos de quem limpa para envergonhado suprimir a falha. Vai voltar a sujar tudo de novo e vai voltar a suplicar perdão agarrado àquilo. Comporta-se como o Natal. Entra e macula com as botas o soalho da casa, senta-se depois na minha frente e entrega-me a mais surpreendente das serenidades, apaziguando o espaço preso nas folhas. Nas folhas de uma coroa de porcelana branca.

 

Começaram a chegar desde ontem.

A casa está em sossego, apesar de tudo.

 

A minha irmã chegará mais tarde. Minutos antes da ceia.

Travará o carro, abrirá a porta e deixará o perfume sair para alçar a pata na árvore endoidecida de azevinho.  

 

Fotografia - Niilas Nordenswan

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A Gaffe de granito

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.18

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Hoje não chove.

Há frio como granito.

 

Levanto a gola do casaco – longe do mar, marinheiro, de um azul grosso de fazenda em terra – e sento-me na pedra do banco que foi do meu avô, naquelas tardes de gelo em que apenas ficava a ouvir os passos dos fantasmas que o Domingos dizia haver nas pedras.

 

- Ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras. Sentimos latejar quando as tocamos.

 

Esta condescendência da morte alonga o tempo da memória e entrega ao inamovível a nitidez da presença do passado.

Olho, ao abrigo de um casaco sem moldura ou tempo, os rostos que vivem nas pedras e acredito no Domingos que é velho, velhíssimo, criança de tão sábio, e me diz que o tiritar das árvores é o som das palavras das pedras que trepam às copas, porque ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras e são as pedras que tecem o meu casaco azul de terra audível.    

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A Gaffe na sua vez

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.18

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Às vezes, apercebo-me que dentro dos seus olhos azulados existe um espeto. Um prego de saudade de algures, ou de alguém que não nomeia. Às vezes, encontro-lhe no silêncio que desenha com o dedo na superfície dos móveis, a brandura e a ausência de gente dentro do peito. Às vezes, descubro-lhe no cabelo de trigo limpo a trança destroçada da tristeza meiga que sem voz aprende a deslizar pelo chão como um cachorrinho amedrontado. Às vezes, vislumbro-lhe o brilho desmesurado, solto daquele orgulho infantil capaz de trucidar os frágeis, os pequenos, pequeninos. Às vezes, apercebo-me daquela melancolia não sei de onde vem, ou para onde vai.

 

Às vezes, faz lembrar hortênsias.

 

A minha sobrinha chega dentro de dias - o ciclo inicia-se -, para passar as férias do Natal no Douro. Antes dela, eu; antes de mim, a minha mãe; antes da minha mãe, a minha avó; antes da minha avó, o passado que é eterno e o passado antes deste, que assim é construída a casa de que sou reflexo.

 

Sei que fico à espera.

Ficaram à minha espera.

 

Agora é a minha vez de a ensinar a perscrutar a terra, a tocar o caule das hortênsias, a aflorar a água do lago, a deixar que as carpas brinquem com os dedos que ao de leve tocam nas escamas das asas do anjo de pedra debruçada; de lhe ensinar a ouvir o virar das páginas das árvores; de lhe ensinar a podar as sardinheiras – em bisel, meu amor, e sempre rente ao chão, que o chão as reconhece; de a fazer repousar nas almofadas das romãs e das maçãs abertas; de permitir que acaricie com a lentidão das patas dos insectos as black lace ainda em embrião; de a fazer entrar em casa como quem entra num corpo; de lhe contar dos avós, do bisavô, da bisavó e de mansinho tentar que a minha comoção se torne nevoeiro na cisterna.  

 

É a minha vez de lhe dizer que uma japoneira morre se ousarmos o transplante. É como viver dentro de um coração. Para de bater, se o desocupamos. É urgente que saiba que não se podem deslocar as árvores das camélias.

 

Depois, e só depois, deixar que a minha irmã lhe ensine como exigir que as jarras as recolham mortas.

 

Fotografia - orgulhosamente minha

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A Gaffe russa

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.18

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A esmagadora percepção da minha absurda leviandade, da minha tonta irresponsabilidade, do meu fútil viver e da minha vazia insignificância, chega de repente e deixa-me sozinha, inútil.

 

Tenho na mão o fino livro que retirei do móvel e a tempestade desabou, sem freio, destelhando a choupana que habito, rainha destronada de mim, senhora exilada de timbre no envelope, princesa imbecil de poentes desenhados.

A implacável certeza da minha incapacidade de me elevar ao patamar destas mulheres. Uma depois de outra, há tanto tempo.

 

O livro que se espera - pois que se olhou para os outros -, reflexos do pensado por senhores, perucas brancas empoadas e alma desbravadas de poeiras, varandas debruçadas sobre iluminismos, saltitos de gazela sobre palcos, sonetos de intricados versos ou tão somente a história de algum santo - tudo francês -, é a subliminar mensagem que - estou certa - se destina a mim, que gracejo, zombo e escarneço do que é meu, profundamente meu, sem eu saber, sem eu cuidar, sem eu de joelhos respeitar.

 

La mort de Ivan Ilitch de Lev Tolstói.

A estilhaçar a redoma de certezas do meu mundo.  

 

Imagem - Carolus-Duran

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A Gaffe da trisavó

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.18

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A sala está à desamão. Talvez por isso tenha lesmado incólume.

 

A situação não é a mais favorável - como se habitar fosse conjuntura -, cravada num recanto da casa que ninguém pisa, voltada para um jardim que ninguém quer e que se vai matando em castanhos queimados de folhas inúteis. Duas árvores por servilizar arranham os vidros com os pregos dos troncos retorcidos e existe - já ninguém sabe onde - a imagem de pedra de um fauno que por trepadeiro pudor foi resguardado com mantos de silvas.

As portas nunca se fecharam, porque ninguém as quis abertas. Permaneceram todo o tempo numa espécie de limbo, por onde rastejava a pouca luz que emagrecia nas janelas entreabertas.

É uma sala feia que, embora espaçosa, parece mirrada pela quantidade de acicates, manigâncias e minúcias que retém e que nos confundem.    

 

Era a sala da minha trisavó.

 

Existe numa das paredes, condenado, um retrato de meio corpo da senhora, da autoria de um pintor menor, francês, sem história de arte, de provável metro e meio - o quadro, que do pintor não resta medição. O tempo fez estalar na tela arredondadas e distorcidas células, unindo-as num tecido invasor de um exército maldoso de linhas estrategas.

 

A retratada usa um vestido de saia de seda pesada escura esverdeada, corpo de mangas estreitas, com punhos de renda bege que lhe tocam as falanges e gola subida no mesmo entretecido. Uma mantilha azul enegrecido, bordada em tons de cobre, espalha-se no regaço. É uma mulher de cerca de trinta anos, de rosto redondo, olhos cinzentos, plácidos, amortecidos pela inabilidade do artista e cabeleira ruiva, densa, presa por adereços, ganchos e travessas que lhe escravizam os caracóis. Dizem que sou assustadoramente parecida com ela e talvez por isso a mantenham prisioneira na sala que ninguém quer ver ou habitar. Não consigo julgar.

 

Fomos eu e o meu Amigo, invadir - porque o meu gigante descobriu que a pequena biblioteca da sala se mantinha inviolada desde o desaparecimento da dona - a sonolência do espaço eivado de detalhes femininos, que sobrevoam a escolha dos móveis, pequenos, trabalhados, minuciosos, pormenorizados, quase rocambolescos, até ao poiso nos ramos de desbotadas flores que murcham nos padrões das almofadas e estofos de cadeiras.

A senhora olhou-nos e voltei a pasmar perante a clareza com que me atrevo a parecer-me com ela. Se o pobre e esquecido pintor me tivesse como modelo, no presente, ganharia alguns cobres livres de canseira, pois que podia exibir o retrato antigo, clamando ser o meu.  

Estupefacto, o meu bom Amigo petrifica.

- És tu. Até as mãos são as tuas!  

 

A mão esquerda maculada pelos dedos da raiz do envelhecer da tela toca o colo espartilhado e aflora o colar de pérolas que pertence à minha irmã, agora. A direita, pousado no regaço, segura um livro pequeno de capa de couro. A página está marcada por um dedo anelado e por, ao mesmo tempo, um marcador em ouro, punhal pequeno e fino que serviria para rasgar as folhas ainda unidas. Uma dobra da seda do vestido esconde parte do título do que lia. Livro de Horas, uma hagiografia, um romance permitido às senhoras mais letradas?

 

Mais do que esperado, foi o livro pintado o foco de toda a atenção do meu Gigante. Que livro seria? O que lia aquela mulher? Que obra escolheu para ser incluída no retrato? Foi escolha aleatória, ou teve propósito?

 

A lombada do livro estava escondida por uma onda de seda do vestido e a tela tinha estalado no lugar que provavelmente nos indicaria a pista mais certa, mas se o realismo do retrato tivesse sido completo, como assim se fez com o cenário que identifica a sala, a exígua biblioteca privada da senhora guardaria ainda a obra retratada.

O móvel vidrado contém um número de obras limitado, mas muito heterogéneo. Os livros foram claramente eleitos usando-se o critério traçado pelo coração.   

Os sonetos de Petrarca, os de Camões. Os de Shakespeare. Os sermões do Padre António Vieira. A Odisseia. Ovídio. Virgílio. Madame de Staël. Molière, Racine e Diderot ao lado de vários romances franceses sem qualquer valor e pouco mais, que ler era para homens.

A obra retratada estava ali. Minúscula e sufocada entre Encyclopédie de d’Alembert e Voltaire, Rousseau, e Montesquieu que deitados se sobrepunham.

 

O punhal, apenas de lata, sinaliza ainda a página que marcava no quadro.  

 

Eis a escolha da minha trisavó, com a lombada voltada para a madeira.

 

Durante todo o fim-de-semana procuramos a chave que abre a pequena biblioteca.

Encontramo-la ontem, já noite cerrada, numa das gavetas da secretária da biblioteca do meu avô, presa a uma etiqueta em papel amarelecido onde está escrito, em letra velha e gasta, apenas um nome: Claire.

 

Hoje, vamos abrir o que foi escurecido.

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A Gaffe à entrada da casa

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.18

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Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia uma alameda de vinhas despidas e um caminho de pedra calcada que teria de percorrer até chegar. Ao longe, e o longe era profundo, a minha avó parecia mais pequena do que realmente era. De casaco cinzento, comprido e tubular e lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, de seda, liso e limpo, que, emergindo do antracite do conjunto, a fazia parecer um archote. Permaneci quieta por momentos e depois comecei a andar com passinhos decididos.

 

Aproximava-se. Aproximava-me. 

 

Primeiro foram os seus olhos. Cinzentos, agudos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que eu. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O olhar da minha avó tinha dentro a minúcia de um exame que sabia que reprovaria. Era quase um olhar predador e eu julguei ser a caça. Antes da minha avó ter chegado completa - e era eu que andava -, já me tinha escondido dentro de mim.

 

No entanto, o seu amor absoluto foi-me entregue todo.

 

A sua capacidade para domar ou dominar todas as situações tornaram-na imprescindível e as suas certezas, os seus aforismos, as suas certeiras observações e as provas irrefutáveis da sua competência, fizeram com que a idolatrasse. Deslizava pela casa fora, muitas vezes dura, pronunciando apenas as palavras necessárias que inevitavelmente traduziam ordens, quase sempre meiga como a alvura do seu cabelo de ondas presas por travessões de tartaruga.  

 

Há dois dias, no lugar da minha avó, à entrada da casa, ao fundo da alameda agora abafada por mimosas, eu, de antracite e lenço de seda liso e limpo, amarelo queimado, vi-o chegar.

 

Aproximava-se o meu Amigo.

 

Primeiro os seus olhos, negros, densos, maciços e aguados, pesados de uma tristeza infinda que ninguém explica, como se sentissem sempre saudade dos archotes de outrora, de um tempo findo numa outra Era. Um olhar de sombras que nunca sabemos se são das pestanas ou das árvores que lhe crescem nas palavras.

Um olhar que o esconde dentro.

 

A sua capacidade para domar ou dominar é ínfima. Fragiliza-o, entrega-lhe uma ternura que advém da mais profunda compreensão do mundo e da pureza indiscritível dos eleitos, dos que deslizam pelo mundo com a alvura impossível dos cabelos negros como corvos.

 

À entrada da casa, existimos suspensos no tempo que passa a pensar. 

Eu, lá longe. Ele, agora. 

 

Heathcliff is me!    

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A Gaffe encarpada

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.18

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Foram decepadas as hortênsias. Em bisel, um golpe curto, quase rente ao chão.

A mágoa de as ver tolhidas pelo Inverno; a saudade dos globos de cor anil, azul-cobalto, enferrujados pelo frio e a tristeza do destino igual ao das sardinheiras de Espanha que eclodiram gigantes como astros de flores ensanguentadas, são amornecidas pelas promessas geométricas das Black Lace que pesam nas japoneiras, em segunda linha, de troncos retorcidos de tão velhos.

Em breve - o mais tardar, Fevereiro - serão o caminho da cisterna.

 

Agora não.

 

O caminho da cisterna é uma nudez entretecida de névoa e de gestos negros de raízes que rasgam a superfície da terra. É o parir do Inverno. Os dedos ríspidos de criaturas cegas pela geada das manhãs dos frios da terra que os gerou. Este estarrecido espanto de sentirmos o silêncio a abrir os interstícios deixados pela morte das pétalas.

O caminho da cisterna é labiríntico. Não pelo traçado que dele se fez, mas por estes dedos que se distendem e que se cravam depois nos lanços mais distantes.

 

Às vezes, há minúsculas passos de fantasmas nas águas que tombam nas ausências das sombras dos teixos. Às vezes, passa um pássaro enlouquecido pelos gritos dos pavões encharcados de frio. Às vezes, a casa é tão distante que nela não entramos sem ter os pés lanhados. Às vezes, a cisterna aberta em círculo cor de chumbo, estanca-nos a vida. Sentimos e há raízes, há dedos das raízes a crescer-nos nas veias, a trespassar-nos as veias, a seguir-nos nas veias.

Às vezes, acabamos por ser frio.

 

As carpas imóveis do lago longe, longe, tão longe daqui, abrem as guelras perto das asas do anjo de pedra.

 

Às vezes, abrem-se as pedras do lago do meu peito e dentro das raízes da cisterna voam carpas. 

 

Chega o Inverno. 

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A Gaffe coleccionadora

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.18

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No início das nossas adolescências, o meu avô perguntava-nos que colecção queríamos fazer.

Não se colocava a hipótese de não coleccionarmos o que quer que seja.

 

Sentava-se no cadeirão favorito, virado a Norte para ouvir o vento frio que uivava arrastado pelos socalcos, e tamborilando no braço de couro com os dedos finos e longuíssimos - um ruído seco, curto e confortável que nunca deixei de recordar -, inspeccionava as nossas escolhas, alterando alguns detalhes, aconselhando, guiando, e exaltando o coleccionismo como contributo para a selecção, estudo, organização, método, rigor, persistência e capacidade de preservação e mesmo de sobrevivência que, segundo o meu avô, deveriam pautar as nossas vidas futuras.  

Uma vez por mês, o meu avô fiscalizava o nosso trabalho. Ralhava-nos ou elogiava-nos, conforme o cuidado ou o desleixo do que tínhamos cuidado do obtido e fornecia-nos instrumentos que sustentavam e permitiam proteger o que tantas vezes nos desinteressava.  À medida que o tempo caminhava, estas vistorias iam rareando, até desaparecerem por completo, quando nos tornávamos maiorzinhos.  

 

A minha irmã escolheu coleccionar insectos.

Havia-os no jardim e foi fácil encontrar alguém que por ela os recolhia.

O meu avô sempre soube da pequena vigarice, mas, mesmo assim, tornava obrigatória a catalogação respectiva do espécime. Ofereceu-lhe a caixa de vidro onde era possível cravar os pobres bichos ainda vivos.

A minha irmã não se tornou uma entomóloga, mas adquiriu uma extraordinária mestria em alfinetar os outros.

 

O meu irmão, chegada a sua vez, escolheu coleccionar minerais.

A distinção entre estes e as rochas era difusa e muitas vezes complicada. O meu avô guiou-o e com a paciência dos sábios foi descobrindo com ele o sector onde, na biblioteca, morriam de tédio os volumes dedicados à mineralogia. A classificação e a catalogação eram igualmente obrigatórias e as caixas das amostras amontoam-se algures no sotão da casa.

O meu irmão não se tornou geólogo. É engenheiro físico o que significa que não sei o que faz. Suponho que é uma profissão que o obriga a viajar imenso e a apaixonar-se amiúde por nórdicas altíssimas, magras e ondulantes, sem qualquer rigidez ou característica mais rochosa do que as já esperadas.

 

Eu morria de medo.

Não sabia o que escolher. Não podia - e os deuses testemunham que não queria - repetir as preferências dos meus antecessores e nada havia que, ainda que vagamente, me interessasse, ou que estivesse logo ali à mão de semear.

 

O meu avô, tamborilando no braço de couro do cadeirão virado a Norte, na sala do vento Norte, com o Norte a uivar ameaças, declarou aberta a minha escolha e esperou quieto, atento, curioso, matreiro.

 

E eu escolhi.

Escolhi o que me pareceu tão fácil.

 

Palavras.

 

Escolhi coleccionar palavras.

 

Todas os meses - uma vez por mês -, o caderno grosso de capa preta que me ofereceu, era revisto.

Todos os dias dos meses guardava as palavras que nunca tinha ouvido antes, que nunca tinha lido antes, mas que me soavam a respirar, a sabores, a cheiros, a gente a chorar, a risos de gente, a sinos, a borboletas, a azul e a cor-de-laranja, a rosas bravias, a tristeza, a árvores de Outono, a folhas, a cães a ladrar, a cancelas a abrir, a veludo, a vidro, a estradas, a grutas, a linho, a trigo, a chuva, a saudade, a pombas, a rio, a mãe, a mel e todas as outras que desciam lentas para o meu coração.

 

O meu avô nunca me ajudou a decifrar o que cada uma tinha dentro. Sorria, fechava o caderno e segredava-me, muito perto do ouvido para que nada fugisse, que eu tinha a colecção mais difícil de todas.

 

Nunca preenchi o caderno grosso de capa preta.

Sempre soube que não valia a pena tentar.

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A Gaffe de S. Martinho

rabiscado pela Gaffe, em 12.11.18

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Depois de quase uma década de esquecimento, os festejos da noite de S. Martinho, neste recanto do Douro, saltaram do escuro orvalhado das sombras há uns - poucos -, anos, autorizados e patrocinados pela minha avó.

 

A minha irmã, sem ainda ter reunido a coragem para os anular, deixa que mais uma vez se espalhem na eira secundária e desactivada que foi coberta de telas, longe da casa e perto dos fogos de risos coloridos e de alma em fogareiro fumegante.

O cheiro a castanhas assadas, jamais suportado pela minha irmã - o estômago da gentil senhora, de extremos histéricos, entra em convulsões frente a castanhas e a chouriço assado -, não se coaduna com o seu Dior creme, crème de la crème. Desce, sustendo a respiração e abanando a mão em frente do nariz. Encaixa as pernas, o charme e o glamour no carro que a levará aos grandes chefs de pequenas doses de mundos diferentes, com hábitos menos aromáticos, mas que a minha irmã prefere, tentando depois recuperar as forças nas receitas durienses e o ar nas varandas solitárias do Douro anoitecido.

 

Eu fico.

 

Não há nada como um oportuno pedido de ajuda no planear da festa para que uma tímida ruiva tenha o prazer de enfrentar uma inevitável carga de abraços e de sorrisos contaminados por olhares marotos.

 

Juntos, eu e o Douro, sentimos que o peso da coroa é menor e que há sempre a hipótese de um abdicar sem que ninguém sinta a falta de um ceptro.

 

A minha presença não é completamente aceite.

O Douro comigo hesita, oscila e bamboleia. Não sabe se me quer, se não me quer. Quer beijar-me a alma, já rendido, mas esperar que de joelhos eu rasteje.

Sorrio e sei que sou demasiado tonta e insignificante, exageradamente colorida.

Facilita o facto de eu sugerir inocência, achada num qualquer socalco de abandono citadino, enfiada num blusão de malha amarrotada, de manta a cobrir-me os ombros que faz frio, e com uns jeans que já viram melhores dias.

Há o notório despertar de uma muito vaga ternura solidária ou de uma solidariedade ternurenta assente no facto de parecer tão desprovida e despojada como este povo para quem a hospitalidade é decisão absolutamente pessoal e pautada por critérios pouco compreensíveis, porque pouco objectivos e muito pouco claros.

A aparência, aqui, é tida como nota capital - como pena capital? - e é um dos elementos responsáveis pelo ostracismo a que é votado o que é estranho ou pela sua aceitação eufórica e entusiasta. No Douro, a primeira impressão tem grande valia e deixa marcas indeléveis nos costados do incauto. Somos amados ou olhados com uma desencorajadora falta de confiança logo no primeiro lance do avistar. Errada ou não, é desta sensação primária que parte o julgamento inteiro que nos condena ou iliba.

Comigo o Douro hesita. Não sabe se há-de amar, se ser amado. Não pode adivinhar, o Douro, que a estrangeira não lhe vislumbra no desfiar da paisagem o mais pequeno fio, o mais pequeno elo da corrente que faz do desamor prisão perpétua.

Não sabe, não pode adivinhar. Por isso hesita.

É nessa hesitação que vou ficando. É nesse balançar que vou permanecendo ilesa e impune, evitando a agressão das pedras cor de cinza e da terra escura torcida pelas vinhas nos olhos do Douro e nos da sua gente.

 

Alguém escreveu, talvez numa noite de S. Martinho mais ousado e mais bebido, que a qualidade de vida de uma população, mesmo até o seu nível cultural e civilizacional - agora é tão moderno que se diga -, se reflectia no estado dos seus dentes.

Se assim visto, o nível referente à qualidade de vida, se assim pensados os estados, ou estádios, culturais e civilizacionais, depressa concluímos que esta gente é a negação de qualquer dentista.

Não há dentes e mesmo quando enegrecidos vestígios se vislumbram, estão cravados em gengivas magoadas que por pouco tempo mais suportarão os tocos e mesmo quando na boca de alguns mais novos, adquirem colorações estranhas, como se os donos mascassem folhas de tabaco a toda a hora.

 

Mas os velhos cantam mesmo assim e há raparigas que riem risos brancos enquanto soltam canções tilintantes e rapazes que estalam a língua e abrem a boca de espanto luminoso enquanto penduram luminárias por entre os ramos das árvores mais baixas que abrigaram da chuva.

As raparigas, de rechonchudas curvaturas tigresse, sobretudos loiras oxigenadas, de nails arco-íris, cruzam os braços encaixando-os entre a barriga e as mamas. Cochicham, tilintam, retinem, coradas e ansiosas, com as pernas vagamente abertas, roliças, mornas, nervosas, suadas. Sorriem, descaradamente tímidas, e esperam os olhos dos rapazes que, sempre aos pares, dividem a coragem da aproximação. Não há subtis manobras. Os jovens machos, de narinas trémulas, de parietais rapados e occipitais escanhoados, com melenas lustrosas no topo da cabeça, de Adidas brancas a cintilar nos pés, de calças justas que acabam nos tornozelos e Kispos enfolados, sorvem os cheiros distinguindo o das fêmeas e seguem a pista. Alguns não vão saber nunca o poder que trazem nos corpos morenos e duros. Mostram o capado, mas de forma explícita, que de tão nua e crua, perde toda a força e reduz-se ao exibir dos músculos moldados pela força do trabalhar a terra. Não há inteligência na forma de usar os corpos forçados e tesos e fortes.

 

As condições estão mantidas:

- Nada mais soará para além da música com sabor a terra.

- O rancho bailará só até às duas da manhã.

- Nada de foguetes.

- Não se darão asas gigantes à multidão que se adivinha a voar picado.

- Haverá rígido controlo sobre os desmandos do vinho que escorrer e um domínio claro sobre a euforia tonta que toca aflitiva as raias do histérico quando a noite avança e dança demais.

 

Que se baile então, obedecendo. O frio é da terra e a terra é de noite cantando fogueiras. Que baile esta gente, bailando no meio das quadras brejeiras. Quadrados, quadrículas marcadas no chão - não vá ser pisado pudor ou decência - com os aguçados lápis azuis dos olhos das velhas que sentadas vão roendo a carne que sabe a castanhas e sorvendo o vinho como a terra água.

Que se baile então debaixo de lâmpadas fracas de cores bem vistosas suspensas por fios cruzados, confusos, comigo perdida nos traços que fazem na palma da noite.

Que baile este povo sisudo e fechado em frente a uma ruiva de olhos pasmados que morre de inveja por não saber ser a festa na aldeia quando o pulsar é terra que dança; uma ruiva que se esgota numa dança de manta nos ombros a tiritar de frio, sem luz e sem brilho de rua em Paris.

 

Que baile este povo por saber que o Inverno é o baile que gela uma terra escura, mas que é também a dança que se quer largada, porque é uma espera do tempo do colorir das uvas.

 

Foto - Piotr Kowalik

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