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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe quieta

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.19

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O primeiro nevoeiro entrançado nas rendas dos ramos das árvores, azula o amanhecer. As folhas movem-se no colo do primeiro vento. O som das folhas é como o bater das asas dos anjos de encontro às grades da eternidade, ou como a descida dos vermes ao útero da terra.

O berro do pavão estilhaça o vidro da água. Um peixe torce o rumo do silêncio. As pedras respiram as horas demoradas de dourado e o azevinho move os dedos recortados numa agonia de súplica, verde escura, como um grito.

Os homens vão chegando para pisar as uvas. De bocas nuas, chegam cobertos de azul maduro. Calados. Trazem pão nos olhos. Vinho aos pés. Migalhas de palavras. Toalhas de tristeza.

O tempo no lagar escorre.

Fecundada pelas primeiras mortes, a terra estanca.

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Gavetas:

A Gaffe num encontro

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

Vou ao encontro da minha irmã.


Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos tapados por óculos de sol quadrados e grandes, um pouco vintage, um pouco da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.

 

Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da gola redonda do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor estranha.


Quantos vidros terei de partir para lhe chegar?
Quantos vidros somos, antes de chegarmos?


No reflexo, a mulher despe os olhos e repara em mim.  

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Gavetas:

A Gaffe sem asas

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.19

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Quando era criança, há muito pouco tempo, tinha a certeza que a inteligência encarnava nos corpos que escolhia à toa, transformando-os numa espécie de anjos com asas dentro.

Não acreditava que os que tocavam a genialidade, ainda que de forma imponderável e etérea, tivessem corpo físico sujeito às exigências mais violentas da carne. Eram insuspeitos, impolutos, intocáveis, isentos de terra e de lama, envoltos em poeira de conto medieval com a consistência do ferro de armadura e até o vertiginoso abismo que se abre de súbito quando um corpo nu e desejado se torna bracelete, anel, colar no nosso corpo, não despertava neles atracção.  


Assexuava-os, divinizando-os.  
Não lhes negava o corpo, mas via asas dentro, longe de mim, que era um terreno bicho, verme, insecto a mirar estrelas.

 
Agora espio a minha irmã.  


Tem o cabelo tratado por um cabeleireiro das estrelas, loiro, quase em demasia. Reflecte a luz, como se fossem penas duma ave ao sol as madeixas lisas sobrepostas. Os olhos pardos, descobertos poços de lâminas abertas. A boca desenhada a prumo, obediente às regras do perfeito. O corpo esguio, flexível, modulado, alto, muto alto pois que  

- saiu ao pai! -  dizem os homens curtos, habituados a resumos dentro.  


Está atenta ao que lê, de sobrancelhas erguidas, escarninhas. Os dedos longos nas páginas são corta-papel e o baloiço do pé faz compassar o tempo.  


Detém todo o poder que lhe foi dado como se houvesse memória de batalhas naquilo que decide e a inteligência à flor da pele veste-a melhor do que Dior faria. Fica-lhe bem, como um perfume fiel há tanto tempo que deixa de se fazer sentir a quem o usa. 


Olho a minha irmã como o bicho pequeno e terreno que segue o rasto dos cometas, mas sei que a mulher que espreito do chão da minha lura, é ténue, frágil como eu, e não tem asas.  


Longe, há pouco tempo ainda, era criança. As certezas tinham asas e às vezes coração. Agora sou igual a toda a gente.

 

Ilustração - Olga Esther

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A Gaffe manual

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.19

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Tenho as mãos feias.

Sempre tive consciência do tamanho das minhas mãos. Dos ossos demasiado longos, finos, dos dedos com nós salientes, da fealdade dos seus movimentos deselegantes, da impossibilidade de as adornar.

Escondia as minhas mãos, era criança. Matava-as nos bolsos dos bibes e das batas e dos casacos ou mantinha-as muito fechadas de forma a que aqueles bichos não ocupassem o espaço dos outros.

As minhas mãos envergonhavam-me.

Comparava-as com a lisura, com a harmonia, com os diáfanos voos e com a perfeita forma das mãos da minha irmã e sentia-me bruta e torpe e grosseira.

Permitiram, os dois bichos, entregar alternativas aos meninos da escolinha. Era o fósforo ou a mãos-de-tesoura. Nunca entendi qual o que cortava primeiro, nunca soube se era o aço a cortar o fogo ou se era o contrário. Nunca gostei do jogo.

O meu avô gostava das minhas mãos.

 

-  São como as grades do portão. Fecham o que quiseres dentro de ti.

 

As minhas mãos tornaram-se ágeis de tão feias. Aprenderam a escapar, a desaparecer, a espreitar, a surripiar silêncios e a mover com uma perícia e rapidez inusitada minúsculos objectos, detalhes, pormenores e nadas que, em mãos diferentes e perfeitas, se partiam no tempo da tarefa.

Guardava dentro delas os meus mundos. 

Assim aconteceu.

 

Tenho as mãos feias, mas é Outono.

Os dedos das árvores são medonhos, mas são meus.  

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A Gaffe telegráfica

rabiscado pela Gaffe, em 17.09.19

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- Não, meu caro, do sítio onde estou não lhe posso mandar um fax.

- Ah! ... ... mas está onde?

- No século XXI.

Mana

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A Gaffe alcoólica

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.19

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- Se a menina acha o que o seu copo está meio vazio, verta o que tem num copo mais pequeno e deixe de ser cabra.

Mana

 

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A Gaffe trémula

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.19

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O dia começa acinzentado, quebradiço.

Abro a varanda e deixo que um trémulo frio breve entre e se abrigue.

 

Gosto de todos os sentidos abertos pelo arrepio da manhã na pele, mas sou caseira Caeiro incapaz de segurar as sensações que sinto, porque todas surgem como a tremer de frio na varanda aberta sobre um dia cinza e combalido.

 

Hoje vou sentir-me, só depois do tempo.

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A Gaffe avoenga

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.19

Robert Carsen’s Les Fêtes vénitiennes (André

O dilema de se ter vivido no meio de marés contrárias e contraditórias, resulta na instabilidade das respostas que damos às situações que nos consomem a quietude.

 

Quanto a minha avó materna se enervava, permanecia impávida e destruía o motivo de exaltação.

 

- Vou agora tomar o meu chá civilizado, porque tenho a certeza que a menina se quer ir embora.

 

Quando a minha avó paterna perdia as estribeiras e lhe aconselhavam a calma como lenitivo para o descontrolo, atirava a cabeça para trás, agitava o guizo cascavel das pulseiras, e com um cigarro nervoso entre os dedos, clamava:

 

- Não me irrite, sua parola, ou fica a saber como é estar enfiada até aos dentes numa ópera de Wagner!

 

O to be or not to be numa versão avoenga.

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A Gaffe do não

rabiscado pela Gaffe, em 09.07.19

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Não era um bom vento. Tresandava a podre e a doença. Dos casamentos não chegava nota, que a morte tinha arrastado os noivos, empurrando os corpos para o rio.

O tifo galgava os penedos, depois de tombar nas margens putrefactas e desatado em fúria abria terreno nos corpos dos novos, que os velhos caíam de choro e de fome.

Morria-se.

A gente do Douro usava panos amarrados na boca, com algodão em rama dentro. Para a proteger do febre, que nos socalcos e nas margens do rio a maleita é masculina, já que às mulheres foram entregues os dons curativos.

 

- Tombaram como os espanhóis. A morte é diferentemente igual em todo o lado.

 

A memória da Guerra Civil espanhola assombra o meu velho Domingos, tão tenro na altura que dessa tragédia apenas retém o terror do febre, o nauseabundo correr da água encharcada em corpos e o burburinho das rezas envolvidas em lenços pretos, em raízes e terços lacrimejantes. Pesada e seca memória, como trovoada em mês de Julho.

 

- P’ra lá do Marão, mandam os que lá estão, mas no Douro manda o não.

    

O não como matador da esperança. Para lá do não caído sobre a terra, já nada é fértil. O não como o fim do tempo, como se nada existisse depois do muro erguido pelo amontoar de corpos já negados.

As mulheres carpiam este não isento de revolta.

Urdiam um não confrangido, de lamento, de desilusão irreversível, de perda, de ausência de espera no contínuo de vida ainda por viver.

 

Ainda existe este não aqui no Douro. Solene de incenso e de tragédia, de final profundo, de sinal da cruz, mas ficou aguacento e já de poucas lágrimas, para fazer de conta que é talvez, esse estrondoso lugar de redenção da esperança.

 

De Espanha corria o não dizível. Veio no Douro a tremular na água e a terra o abrasou, comeu, tornou raiz. Regurgitou-o depois para mal do homens.  

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A Gaffe e o carteiro

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.19

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(Especialmente para si, de modo leve e breve.)

Nas manhãs em que a névoa se arrastava pelo chão, descida das copas cinzentas das árvores, cravando as garras húmidas nos troncos, pesada como um facto, como um fardo, a minha adolescência - de vestido branco em linho longo - esperava as agulhas do sol por entre os interstícios das folhas.

 

O meu vestido tinha corpete apertado e alças largas. Sem mangas. Um decote redondo. A saia era cortada em evasê, plein soleil – dizia a minha avó.

Era um dos meus vestidos favoritos.

Tinha visto Grace Kelly nas revistas. De vestido plein soleil, sentada nas escadas. Estampado nubente. As mãos cruzadas no regaço, o pescoço de pérolas, o sorriso quieto de princesa loira de ondas suaves.

Queria tanto ser como Grace Kelly! Imitava-lhe a pose de vestido plein soleil, renegando o meu ruivo revolto que denunciava a distância e a minha pele picotada pela canícula.

 

Quando o sol tocava nas tintas do arvoredo, sentava-me nas escadas. Espalhava o vestido nos degraus, cruzava as mãos no regaço e permanecia quieta a ser Grace Kelly.

 

Gostava muito do vaso de granito que encimava a coluna que terminava a escadaria. Atravessada pela luz, a transparência das pétalas das flores que continha, estampava no branco do meu vestido plein soleil uma paisagem floral difusa e movediça de cinzas e de negros. Ondulava a paisagem como as ondas do loiro da princesa, ao som da brisa que arrefecia a pedra.

 

A meio da manhã, as duas raparigas, pouco mais velhas do que eu, corriam para os portões de ferro forjado e fechado. Acotovelavam-se, sussurravam, davam risadinhas maliciosas e sacudiam as saias como quem sacode o sol que queima as cores.

Lembro-me da Cecília. Bonita. Meridional. Baloiçava as ancas poderosas como éguas e fazia oscilar o peito opulento, numa provocação quase erótica, quase territorial pela insinuação animalesca que continha. É agora dona de um talho. Casou. Tem dois filhos que apinoca para a catequese dos Domingos e comunhão apensa e passa por mim sem me ver, cavalgando o mundo, num faz-de-conta que deixou de me intrigar por não lhe encontrar razão passível de palpar como o seu rabo que alargou e se tornou bovino.

A outra perdi-a. Não guardo memória. Era, grande, possante, roliça e loira, redonda. Talvez minhota de olhos azuis e trigo no cabelo. Imaginei sempre o Minho repleto de valquírias.

A meio da manhã, duas vezes por semana, as duas raparigas, pouco mais velhas do que eu, corriam para os portões de ferro forjado e fechado.

Ouviam a motoreta do carteiro e corriam ao encontro do som do bicho rouquenho. Às Terças e às Sextas.

 

Longe, em pose de princesa fria, invejava a plebeia canícula do corpo daquelas mulheres, mas nunca me atrevi a suar com elas. Por causa das pérolas. Por causa das sombras estampadas no meu vestido plein soleil. Por causa do desdém com que as carnais corredoras miravam de soslaio a minha imobilidade de pechisbeque caro. Por causa do medo que sentia de afugentar a neblina libidinosa que envolvia aquele percurso térreo.

 

Nunca cheguei a ver com clareza o carteiro. Escondia-se nos atrás dos pilares de pedra dos portões, de forma que de dentro não escapasse o ralhete da Jacinta e o enxotar das raparigas com a vassoura do quintal.

Minutos largos depois de cochichos e risinhos, trejeitos e saltinhos, as duas mulheres regressavam no ronco grosseiro da motoreta que partia. Traziam nas mãos os embrulhos com livros recentes encomendados pelo meu avô com a cumplicidade da sua velha livraria Bertrand que o alertava, ou os novíssimos tecidos, cortes seleccionados a dedo e a tesoura de mestre, dos antigos armazéns Cunha Rodrigues, na Rua Passos Manuel.   

 

O estampado de sombras ondulado pelas perrices do sol no meu vestido branco de linho, atenuava-se, tocado pela névoa de nunca ter recebido uma carta de Amor.

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A Gaffe com tigres

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

Rudolf Dührkoop, Gertrude und Ursula Falke, 1906

Este últimos dois dias foram absorventes.

São as noites que os balançam.

Arrastamos o candeeiro - que velas, nem pensar! - para a varanda, com um esforço eléctrico de noviças enredadas nos terços das extensões e nas hóstias das tomadas, agarramos em mantas - à noite, meninas, faz frio - e, sentadas nas cadeiras pejadas de almofadas - eu, de chá de jasmin do Vietname e ela, mais complexa, mais exuberante, luxuriante, carnal e muito mais labiríntica, o de canela, gengibre, cravo, cardomomo e pimenta -, beberricamos a cumplicidade que nunca foi tida como tendo início, porque sempre se alojou na alma das duas, sem que disso fosse dada nota digna de saber consciente.

 

Falamos do tempo das quimeras e dos homens que nelas se alojaram.

Falamos do primeiro, num Verão qualquer saído breve da adolescência. Não o temos na memória, ao homem. Tímido, quase medroso.

- E loiro! – isso lembra.

Era bonito, temos a certeza, mas a beleza sozinha depressa apaga o rasto que subitamente se tornaria perene se aliado à inteligência. Mas bonito bastava-nos na altura.        

Quando a minha prima o viu, depressa o considerou seu, sem qualquer vestígio de consideração por mim, que o olhei primeiro e primeiro lhe detectei inúmeras potencialidades.

 

É evidente que o disputamos.


Eu, rondando como um tigre manso e pronto a obedecer ao chicote daquele domador, enterrava as garras na almofada da sedução. Estirava-me, esticava-me depois. Delongava o amanhecer nas minhas pálpebras e fazia rebolar na pele a luz raiada, oiro e sombra, que se alongava nos jardins. A minha prima pestanejando e esvoaçando em redor do rapaz, como andorinha tonta, pérfida, de voo armadilhado, que descobre que um grande predador é também o que amanhecido aguarda, esvoaçando, por quem na inocência breve adivinha não poder nunca domar um tigrezinho sonolento à espera que lhe pouse sob a almofada das patas o requinte de um acepipe da cor das folhas quentes onde preguiçoso se alonga a ronronar.


Quem perdesse a aposta deveria lamber as pedras do muro ainda por arranjar e comprovar o beijo - pois que de apenas um beijo constava a aposta - de forma inequívoca.


A minha prima, dias depois, entrou no meu quarto, esbaforida, de sorriso que lhe abria o rosto todo inteiro e pequenas queimaduras da barba que raspou no rosto.


Ganhou! O beijo foi dela.

O resto? Suponho que mentiu. Acreditei. Acredito muito, acredito sempre, mesmo sabendo que não existe nada de absolutamente credível, de fiável, neste animal. Ronrona, como gata enroscada nas pernas da vida. Subitamente, larga-nos aos pés um rato agonizante. 

Fotografia - Rudolf Dührkoop - Gertrude und Ursula Falke, 1906

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A Gaffe na montanha-russa

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

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Esvoaçam folhas e pauzinhos. Rodopiam esbaforidas as sebes pelo ar. Abrem-se vendavais no pátio levantando pedras. Correm e voam esgrouviados pássaros depenados e histéricos. Os cães ao longe uivam doridos adivinhando perigo e as portas batem assoladas. Desarranjam-se as simetrias do jardim e as águas turvam-se confusas ensandecendo os peixes que se afogam. Enlouquecem as nuvens, remoinhos, tufões e corrupios, roda-viva, ciclones e tornados e torvelinhos de montanha-russa.

Atira a multidão de caracóis para trás. Sopra naquele que teima em resistir. Perfume a vaguear pelos espaços. Bâton esboroado. Dior esfarrapado. Carteira pelo ar. Pernas trancadas por tacões agulha e olhos cobertos por negros óculos, verdes, negros.

 

- Quero álcool! Quero beber qualquer coisa que mate!

 

Inclina-se e desaba no sofá. Pé nu, sapato projectado no corredor imenso.

 

- Perdi-me outra vez. Apanhei com um camionista a buzinar atrás de mim, como se eu fosse gorda! Demorei quatro horas a chegar aqui aos solavancos! Parei numa tasca para perguntar onde porcaria estava eu e fui quase violada por um homem de bigode! Não fiz xixi porque tive medo de ser atacada por esquilos ou desaparecer num buraco qualquer no meio das ervas! Há árvores por todo o lado! Não há semáforos nem sinalética! As couves batem no tejadilho do carro e aquelas coisas das hortas estão vivas! Fui perseguida por uma galinha aos urros e acabei de calcar bosta de vaca!

- São hortênsias.

- Quem?

- As couves que bateram no carro, são hortênsias. Abriste o portão, calcaste piso enlameado, e entraste por onde não devem, nem podem passar carros. A galinha que te urrou provavelmente foi um ganso. São agressivos e muito territoriais. As coisas das hortas são buchos e não há vacas no meio do jardim.

- Não via aquela galinha há muito tempo. Pensei que podia ter crescido.  E os solavancos, mademoiselle Holmes?! Tive medo de cegar sempre que as mamas me batiam nos olhos quando apanhava poços de ar.

- Não devias ter entrado pelo portão lateral. Sabes tão bem como eu que está vedado aos carros.

- Meu amor, a tua irmã é uma homicida. Teve um surto psicótico quando decidiu bloquear o caminho mais curto para entrar neste mausoléu. Foram quatro horas! Quatro horas até conseguir ver casas ao longe! O Douro aumentou?! Se aqui chegasse e fosse obrigada a andar às voltas mais um minuto, só porque a tua mana acha que sim, que é mais lindo e, ai, que bem que fica, juro-te que não encontravam ninguém vivo. Desesperada, sou como o tarado da Coreia, mas em alto. Engordo ou mato.   

- Oh, tens de admitir que é mais lógica esta organização do espaço. É fácil e habituamo-nos depressa.

-  Também é mais lógico ser sempre eu encarregada pela tua maninha de te arrancar daqui. Jurei-lhe que conseguia, mas descansa. É fácil mandar a tua irmã à merda. Habituamo-nos depressa. Por mim podes apodrecer enfiada no meio do mato.  

 

Se nos sentarmos muito quietos, se tivermos um copo com água por perto, se mantivermos a tranquilidade, a calma e uma atitude bucólica, romântica, cor-de-rosa, repleta de unicórnios e laços de cetim, conseguimos ser absorvidos pela maravilha da descoberta desta mulher estupenda. Nada, rigorosamente nada, é tão genuíno, tão real, tão isento de farsa, tão pouco fantasioso ou disfarçado, como esta histriónica criatura extraordinária. É fascinante olhar o seu poderoso egoísmo, as suas inabaláveis certezas, o seu ego desmesurado e a sua capacidade de embalar estes terrores no maior encanto e sedução que nos deixam rendidos e que nos fazem aceitar o temporal, como se a tempestade ocorresse apenas no copo com água que temos por perto.      

  

- Tragam-me álcool ou cravo o tacão que me resta no meio das vossas pernas.

 

A minha prima chegou, desta vez até muito pacífica, ao meu pobre Douro.

 

Fotografia - Kurt Hutton

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A Gaffe no jardim

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.19

 

jardim

E na voragem endoidecida do aroma das tílias, na fome dos fetos e das heras, nas rajadas dos teixos que fazem pender as sombras sobre os lagos, abdicam das cores as hortênsias como no fim de um baile uma orquestra se despe e nua de sons expira sozinha.  

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A Gaffe fora de tempo

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.19

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Num tempo perdido, o meu avô ensinou-me a cuidar dos livros.

A biblioteca continua a exalar um aroma a couro antigo. As sombras espalhadas de renda no chão, depois da luz ter atravessado as partículas de pólen doirado que as janelas autorizam, acabam longas lâminas, línguas, de silêncio. O lago baila no tecto, vindo lá de fora.

É a minha vez de abrir a caixa de madeira de cedro.

É a minha vez de lhe ensinar o modo de catalogar os livros, de lhe ensinar a manusear as fichas que lhe permitirão encontrar a obra desejada.

 

Entra esguia como o caule de um lírio.

Aproxima-se da adolescência, mas a proporcionalidade do seu corpo não sofreu dano. Talvez porque desliza. Talvez porque o tempo ainda breve e leve tema tocar tenaz na fragilidade presa nos fios loiros do cabelo, na densidade efémera do azul dos olhos, no quase imperceptível mover dos dedos finos como facas, na intangibilidade das ancas púberes, nos seios a aflorar dentro do segredo, no silêncio que a persegue com lábios de sombra triste, na ausência de sorriso, no sussurro de secura que parece já a ter envelhecido sem a ajuda dos dedos dos dias a passar.

Senta-se na cadeira do meu avô. Cruza as mãos indiferentes. Suspira. Espera.

 

- São teus, os livros? Leste-os todos?

- Não os li todos.

- Tens de assinalar os que já leste. Quero ler os outros, os que tia leu. Não fizeram um bom trabalho aqueles que escolheste. A outra tia leu os certos.

 

Era a minha vez de abrir a caixa de madeira de cedro. Não lhe toquei.

Fechei a biblioteca e pedi que cobrissem com panos brancos todos os espelhos. Não quero que a menina veja neles reflectido um monstro. Ainda é cedo.

 

Talvez haja tempo.

 

Imagem - Titti Garelli

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A Gaffe atapetada

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.19

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Traz o avental com flores garridas na bainha. Um avental de peitilho branco, laçado nas costas de vestido negro. A luz sorrateira do amanhecer infiltra-se nas frinchas das janelas largas e enchem-na de sombras, prateando-lhe o cabelo preso num nó de trança enrolada.

A cozinha cheira a flores do avental garrido. A especiarias, a condimentos, a ervas aromáticas a enchidos, a fumo, a madeira, a lume, a forno quente, a pão e ao café que na cafeteira borbulha atingido pelo ferver da água.

 

 - Andam à procura dos caixilhos - matreira, a Jacinta. Vai mordendo o pão e bebericando o escaldar da malga de café – aflitinhos com os moldes do tapete de flores para o compasso. Dão cabo das plantas. Que procurem. Primeiro a marinada, depois a consoada – vai roendo, birrenta. - A menina não devia ter autorizado este desmando.

 

Perto da Jacinta há segurança. Há abrigo. Dentro da cozinha da Jacinta há santuário.

 

- Ajude, menina, que já fez asneiras que chegassem.

 

A cebola a cortar em rodelas - grossas, menina, podem ser grossas. Valha-me Deus, que isto não é no hospital -, os gomos intermináveis de alho a picar, as folhas de louro a quebrar estalidos, o pimentão aberto prenhe de perfume, a salsa - qual picar, qual quê! vai em rama que guarda o sabor -, o alecrim aos molhos que choram os meus olhos, o colorau cor quente e os limões cortados em meias-luas ácidas.

 

- A menina despeje o vinho no alguidar e deite-lhe um bocadinho daquele espumante que sobrou. Amolece a carne. Dá-lhe mais sabor. Não tanto, valha-me o Senhor dos Aflitos! Só um cheirinho! Agora deixe, que eu misturo tudo e ponho o anho. Chegue-me o paninho dali do armário para tapar a marinada. Vá, menina, que eu tenho de lhes dizer dos moldes que ainda me partem qualquer coisa.

 

Às vezes, tenho medo que me ralhe.

 

- Depois cortamos as tirinhas de toucinho e fazemos a grelha com os paus do loureiro para a boca do alguidar, está bem?

                                                           

Não estás zangada comigo, Jacinta?

- E como haveria eu de estar zangada? A culpa é da velhice resmungona que aqui anda. Vamos por isto no fresquinho e toca a dar-lhe os moldes para o tapete.

 

Os sacos de sarapilheira com as folhas e as folhas das camélias, as camélias toldadas e escurecidas que ficam bem no meio que disfarça, o jasmim, as campânulas amarelas, os lilases, as pétalas de rosas coloridas, margaridas – serão os malmequeres? -, hortênsias imaturas, e outras que não estão aqui que são precisas, o perfume das mãos que as separam em geometrias prévias de molde de madeira. A seiva, o espargir da água que lhes atrasa o apodrecer e a doçura curva das mulheres a espalhar no chão a Primavera.

 

 - Não entendo porque não usam Kilins - sai a minha prima da nuvem de perfume e o seu espanto é genuíno e espanta. - Não escorregam. Os nómadas fazem as cáfilas passar por cima deles, para os espalmar, suponho. Aqui, é o mesmo.

 

Atira e traça a voluptuosidade de pronúncia francesa carregada, arrasta e rola as sílabas que não consegue moldar em português, prende a seda do cabelo com a fita Cartier, depois de proteger as pérolas dos brincos, e descalça, que não tem calçado para pisar tapetes de folhas de camélias, desliza e evapora-se.

 

- Ensinas-me a fazer o arroz, Jacinta?

- Na manhã da Páscoa, menina. Venha ter comigo muito cedo. Depois vamos ajudar aquelas tolas.  

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