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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe trémula

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.19

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O dia começa acinzentado, quebradiço.

Abro a varanda e deixo que um trémulo frio breve entre e se abrigue.

 

Gosto de todos os sentidos abertos pelo arrepio da manhã na pele, mas sou caseira Caeiro incapaz de segurar as sensações que sinto, porque todas surgem como a tremer de frio na varanda aberta sobre um dia cinza e combalido.

 

Hoje vou sentir-me, só depois do tempo.

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A Gaffe avoenga

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.19

Robert Carsen’s Les Fêtes vénitiennes (André

O dilema de se ter vivido no meio de marés contrárias e contraditórias, resulta na instabilidade das respostas que damos às situações que nos consomem a quietude.

 

Quanto a minha avó materna se enervava, permanecia impávida e destruía o motivo de exaltação.

 

- Vou agora tomar o meu chá civilizado, porque tenho a certeza que a menina se quer ir embora.

 

Quando a minha avó paterna perdia as estribeiras e lhe aconselhavam a calma como lenitivo para o descontrolo, atirava a cabeça para trás, agitava o guizo cascavel das pulseiras, e com um cigarro nervoso entre os dedos, clamava:

 

- Não me irrite, sua parola, ou fica a saber como é estar enfiada até aos dentes numa ópera de Wagner!

 

O to be or not to be numa versão avoenga.

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A Gaffe do não

rabiscado pela Gaffe, em 09.07.19

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Não era um bom vento. Tresandava a podre e a doença. Dos casamentos não chegava nota, que a morte tinha arrastado os noivos, empurrando os corpos para o rio.

O tifo galgava os penedos, depois de tombar nas margens putrefactas e desatado em fúria abria terreno nos corpos dos novos, que os velhos caíam de choro e de fome.

Morria-se.

A gente do Douro usava panos amarrados na boca, com algodão em rama dentro. Para a proteger do febre, que nos socalcos e nas margens do rio a maleita é masculina, já que às mulheres foram entregues os dons curativos.

 

- Tombaram como os espanhóis. A morte é diferentemente igual em todo o lado.

 

A memória da Guerra Civil espanhola assombra o meu velho Domingos, tão tenro na altura que dessa tragédia apenas retém o terror do febre, o nauseabundo correr da água encharcada em corpos e o burburinho das rezas envolvidas em lenços pretos, em raízes e terços lacrimejantes. Pesada e seca memória, como trovoada em mês de Julho.

 

- P’ra lá do Marão, mandam os que lá estão, mas no Douro manda o não.

    

O não como matador da esperança. Para lá do não caído sobre a terra, já nada é fértil. O não como o fim do tempo, como se nada existisse depois do muro erguido pelo amontoar de corpos já negados.

As mulheres carpiam este não isento de revolta.

Urdiam um não confrangido, de lamento, de desilusão irreversível, de perda, de ausência de espera no contínuo de vida ainda por viver.

 

Ainda existe este não aqui no Douro. Solene de incenso e de tragédia, de final profundo, de sinal da cruz, mas ficou aguacento e já de poucas lágrimas, para fazer de conta que é talvez, esse estrondoso lugar de redenção da esperança.

 

De Espanha corria o não dizível. Veio no Douro a tremular na água e a terra o abrasou, comeu, tornou raiz. Regurgitou-o depois para mal do homens.  

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A Gaffe e o carteiro

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.19

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(Especialmente para si, de modo leve e breve.)

Nas manhãs em que a névoa se arrastava pelo chão, descida das copas cinzentas das árvores, cravando as garras húmidas nos troncos, pesada como um facto, como um fardo, a minha adolescência - de vestido branco em linho longo - esperava as agulhas do sol por entre os interstícios das folhas.

 

O meu vestido tinha corpete apertado e alças largas. Sem mangas. Um decote redondo. A saia era cortada em evasê, plein soleil – dizia a minha avó.

Era um dos meus vestidos favoritos.

Tinha visto Grace Kelly nas revistas. De vestido plein soleil, sentada nas escadas. Estampado nubente. As mãos cruzadas no regaço, o pescoço de pérolas, o sorriso quieto de princesa loira de ondas suaves.

Queria tanto ser como Grace Kelly! Imitava-lhe a pose de vestido plein soleil, renegando o meu ruivo revolto que denunciava a distância e a minha pele picotada pela canícula.

 

Quando o sol tocava nas tintas do arvoredo, sentava-me nas escadas. Espalhava o vestido nos degraus, cruzava as mãos no regaço e permanecia quieta a ser Grace Kelly.

 

Gostava muito do vaso de granito que encimava a coluna que terminava a escadaria. Atravessada pela luz, a transparência das pétalas das flores que continha, estampava no branco do meu vestido plein soleil uma paisagem floral difusa e movediça de cinzas e de negros. Ondulava a paisagem como as ondas do loiro da princesa, ao som da brisa que arrefecia a pedra.

 

A meio da manhã, as duas raparigas, pouco mais velhas do que eu, corriam para os portões de ferro forjado e fechado. Acotovelavam-se, sussurravam, davam risadinhas maliciosas e sacudiam as saias como quem sacode o sol que queima as cores.

Lembro-me da Cecília. Bonita. Meridional. Baloiçava as ancas poderosas como éguas e fazia oscilar o peito opulento, numa provocação quase erótica, quase territorial pela insinuação animalesca que continha. É agora dona de um talho. Casou. Tem dois filhos que apinoca para a catequese dos Domingos e comunhão apensa e passa por mim sem me ver, cavalgando o mundo, num faz-de-conta que deixou de me intrigar por não lhe encontrar razão passível de palpar como o seu rabo que alargou e se tornou bovino.

A outra perdi-a. Não guardo memória. Era, grande, possante, roliça e loira, redonda. Talvez minhota de olhos azuis e trigo no cabelo. Imaginei sempre o Minho repleto de valquírias.

A meio da manhã, duas vezes por semana, as duas raparigas, pouco mais velhas do que eu, corriam para os portões de ferro forjado e fechado.

Ouviam a motoreta do carteiro e corriam ao encontro do som do bicho rouquenho. Às Terças e às Sextas.

 

Longe, em pose de princesa fria, invejava a plebeia canícula do corpo daquelas mulheres, mas nunca me atrevi a suar com elas. Por causa das pérolas. Por causa das sombras estampadas no meu vestido plein soleil. Por causa do desdém com que as carnais corredoras miravam de soslaio a minha imobilidade de pechisbeque caro. Por causa do medo que sentia de afugentar a neblina libidinosa que envolvia aquele percurso térreo.

 

Nunca cheguei a ver com clareza o carteiro. Escondia-se nos atrás dos pilares de pedra dos portões, de forma que de dentro não escapasse o ralhete da Jacinta e o enxotar das raparigas com a vassoura do quintal.

Minutos largos depois de cochichos e risinhos, trejeitos e saltinhos, as duas mulheres regressavam no ronco grosseiro da motoreta que partia. Traziam nas mãos os embrulhos com livros recentes encomendados pelo meu avô com a cumplicidade da sua velha livraria Bertrand que o alertava, ou os novíssimos tecidos, cortes seleccionados a dedo e a tesoura de mestre, dos antigos armazéns Cunha Rodrigues, na Rua Passos Manuel.   

 

O estampado de sombras ondulado pelas perrices do sol no meu vestido branco de linho, atenuava-se, tocado pela névoa de nunca ter recebido uma carta de Amor.

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A Gaffe com tigres

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

Rudolf Dührkoop, Gertrude und Ursula Falke, 1906

Este últimos dois dias foram absorventes.

São as noites que os balançam.

Arrastamos o candeeiro - que velas, nem pensar! - para a varanda, com um esforço eléctrico de noviças enredadas nos terços das extensões e nas hóstias das tomadas, agarramos em mantas - à noite, meninas, faz frio - e, sentadas nas cadeiras pejadas de almofadas - eu, de chá de jasmin do Vietname e ela, mais complexa, mais exuberante, luxuriante, carnal e muito mais labiríntica, o de canela, gengibre, cravo, cardomomo e pimenta -, beberricamos a cumplicidade que nunca foi tida como tendo início, porque sempre se alojou na alma das duas, sem que disso fosse dada nota digna de saber consciente.

 

Falamos do tempo das quimeras e dos homens que nelas se alojaram.

Falamos do primeiro, num Verão qualquer saído breve da adolescência. Não o temos na memória, ao homem. Tímido, quase medroso.

- E loiro! – isso lembra.

Era bonito, temos a certeza, mas a beleza sozinha depressa apaga o rasto que subitamente se tornaria perene se aliado à inteligência. Mas bonito bastava-nos na altura.        

Quando a minha prima o viu, depressa o considerou seu, sem qualquer vestígio de consideração por mim, que o olhei primeiro e primeiro lhe detectei inúmeras potencialidades.

 

É evidente que o disputamos.


Eu, rondando como um tigre manso e pronto a obedecer ao chicote daquele domador, enterrava as garras na almofada da sedução. Estirava-me, esticava-me depois. Delongava o amanhecer nas minhas pálpebras e fazia rebolar na pele a luz raiada, oiro e sombra, que se alongava nos jardins. A minha prima pestanejando e esvoaçando em redor do rapaz, como andorinha tonta, pérfida, de voo armadilhado, que descobre que um grande predador é também o que amanhecido aguarda, esvoaçando, por quem na inocência breve adivinha não poder nunca domar um tigrezinho sonolento à espera que lhe pouse sob a almofada das patas o requinte de um acepipe da cor das folhas quentes onde preguiçoso se alonga a ronronar.


Quem perdesse a aposta deveria lamber as pedras do muro ainda por arranjar e comprovar o beijo - pois que de apenas um beijo constava a aposta - de forma inequívoca.


A minha prima, dias depois, entrou no meu quarto, esbaforida, de sorriso que lhe abria o rosto todo inteiro e pequenas queimaduras da barba que raspou no rosto.


Ganhou! O beijo foi dela.

O resto? Suponho que mentiu. Acreditei. Acredito muito, acredito sempre, mesmo sabendo que não existe nada de absolutamente credível, de fiável, neste animal. Ronrona, como gata enroscada nas pernas da vida. Subitamente, larga-nos aos pés um rato agonizante. 

Fotografia - Rudolf Dührkoop - Gertrude und Ursula Falke, 1906

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A Gaffe na montanha-russa

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

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Esvoaçam folhas e pauzinhos. Rodopiam esbaforidas as sebes pelo ar. Abrem-se vendavais no pátio levantando pedras. Correm e voam esgrouviados pássaros depenados e histéricos. Os cães ao longe uivam doridos adivinhando perigo e as portas batem assoladas. Desarranjam-se as simetrias do jardim e as águas turvam-se confusas ensandecendo os peixes que se afogam. Enlouquecem as nuvens, remoinhos, tufões e corrupios, roda-viva, ciclones e tornados e torvelinhos de montanha-russa.

Atira a multidão de caracóis para trás. Sopra naquele que teima em resistir. Perfume a vaguear pelos espaços. Bâton esboroado. Dior esfarrapado. Carteira pelo ar. Pernas trancadas por tacões agulha e olhos cobertos por negros óculos, verdes, negros.

 

- Quero álcool! Quero beber qualquer coisa que mate!

 

Inclina-se e desaba no sofá. Pé nu, sapato projectado no corredor imenso.

 

- Perdi-me outra vez. Apanhei com um camionista a buzinar atrás de mim, como se eu fosse gorda! Demorei quatro horas a chegar aqui aos solavancos! Parei numa tasca para perguntar onde porcaria estava eu e fui quase violada por um homem de bigode! Não fiz xixi porque tive medo de ser atacada por esquilos ou desaparecer num buraco qualquer no meio das ervas! Há árvores por todo o lado! Não há semáforos nem sinalética! As couves batem no tejadilho do carro e aquelas coisas das hortas estão vivas! Fui perseguida por uma galinha aos urros e acabei de calcar bosta de vaca!

- São hortênsias.

- Quem?

- As couves que bateram no carro, são hortênsias. Abriste o portão, calcaste piso enlameado, e entraste por onde não devem, nem podem passar carros. A galinha que te urrou provavelmente foi um ganso. São agressivos e muito territoriais. As coisas das hortas são buchos e não há vacas no meio do jardim.

- Não via aquela galinha há muito tempo. Pensei que podia ter crescido.  E os solavancos, mademoiselle Holmes?! Tive medo de cegar sempre que as mamas me batiam nos olhos quando apanhava poços de ar.

- Não devias ter entrado pelo portão lateral. Sabes tão bem como eu que está vedado aos carros.

- Meu amor, a tua irmã é uma homicida. Teve um surto psicótico quando decidiu bloquear o caminho mais curto para entrar neste mausoléu. Foram quatro horas! Quatro horas até conseguir ver casas ao longe! O Douro aumentou?! Se aqui chegasse e fosse obrigada a andar às voltas mais um minuto, só porque a tua mana acha que sim, que é mais lindo e, ai, que bem que fica, juro-te que não encontravam ninguém vivo. Desesperada, sou como o tarado da Coreia, mas em alto. Engordo ou mato.   

- Oh, tens de admitir que é mais lógica esta organização do espaço. É fácil e habituamo-nos depressa.

-  Também é mais lógico ser sempre eu encarregada pela tua maninha de te arrancar daqui. Jurei-lhe que conseguia, mas descansa. É fácil mandar a tua irmã à merda. Habituamo-nos depressa. Por mim podes apodrecer enfiada no meio do mato.  

 

Se nos sentarmos muito quietos, se tivermos um copo com água por perto, se mantivermos a tranquilidade, a calma e uma atitude bucólica, romântica, cor-de-rosa, repleta de unicórnios e laços de cetim, conseguimos ser absorvidos pela maravilha da descoberta desta mulher estupenda. Nada, rigorosamente nada, é tão genuíno, tão real, tão isento de farsa, tão pouco fantasioso ou disfarçado, como esta histriónica criatura extraordinária. É fascinante olhar o seu poderoso egoísmo, as suas inabaláveis certezas, o seu ego desmesurado e a sua capacidade de embalar estes terrores no maior encanto e sedução que nos deixam rendidos e que nos fazem aceitar o temporal, como se a tempestade ocorresse apenas no copo com água que temos por perto.      

  

- Tragam-me álcool ou cravo o tacão que me resta no meio das vossas pernas.

 

A minha prima chegou, desta vez até muito pacífica, ao meu pobre Douro.

 

Fotografia - Kurt Hutton

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A Gaffe no jardim

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.19

 

jardim

E na voragem endoidecida do aroma das tílias, na fome dos fetos e das heras, nas rajadas dos teixos que fazem pender as sombras sobre os lagos, abdicam das cores as hortênsias como no fim de um baile uma orquestra se despe e nua de sons expira sozinha.  

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A Gaffe fora de tempo

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.19

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Num tempo perdido, o meu avô ensinou-me a cuidar dos livros.

A biblioteca continua a exalar um aroma a couro antigo. As sombras espalhadas de renda no chão, depois da luz ter atravessado as partículas de pólen doirado que as janelas autorizam, acabam longas lâminas, línguas, de silêncio. O lago baila no tecto, vindo lá de fora.

É a minha vez de abrir a caixa de madeira de cedro.

É a minha vez de lhe ensinar o modo de catalogar os livros, de lhe ensinar a manusear as fichas que lhe permitirão encontrar a obra desejada.

 

Entra esguia como o caule de um lírio.

Aproxima-se da adolescência, mas a proporcionalidade do seu corpo não sofreu dano. Talvez porque desliza. Talvez porque o tempo ainda breve e leve tema tocar tenaz na fragilidade presa nos fios loiros do cabelo, na densidade efémera do azul dos olhos, no quase imperceptível mover dos dedos finos como facas, na intangibilidade das ancas púberes, nos seios a aflorar dentro do segredo, no silêncio que a persegue com lábios de sombra triste, na ausência de sorriso, no sussurro de secura que parece já a ter envelhecido sem a ajuda dos dedos dos dias a passar.

Senta-se na cadeira do meu avô. Cruza as mãos indiferentes. Suspira. Espera.

 

- São teus, os livros? Leste-os todos?

- Não os li todos.

- Tens de assinalar os que já leste. Quero ler os outros, os que tia leu. Não fizeram um bom trabalho aqueles que escolheste. A outra tia leu os certos.

 

Era a minha vez de abrir a caixa de madeira de cedro. Não lhe toquei.

Fechei a biblioteca e pedi que cobrissem com panos brancos todos os espelhos. Não quero que a menina veja neles reflectido um monstro. Ainda é cedo.

 

Talvez haja tempo.

 

Imagem - Titti Garelli

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A Gaffe atapetada

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.19

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Traz o avental com flores garridas na bainha. Um avental de peitilho branco, laçado nas costas de vestido negro. A luz sorrateira do amanhecer infiltra-se nas frinchas das janelas largas e enchem-na de sombras, prateando-lhe o cabelo preso num nó de trança enrolada.

A cozinha cheira a flores do avental garrido. A especiarias, a condimentos, a ervas aromáticas a enchidos, a fumo, a madeira, a lume, a forno quente, a pão e ao café que na cafeteira borbulha atingido pelo ferver da água.

 

 - Andam à procura dos caixilhos - matreira, a Jacinta. Vai mordendo o pão e bebericando o escaldar da malga de café – aflitinhos com os moldes do tapete de flores para o compasso. Dão cabo das plantas. Que procurem. Primeiro a marinada, depois a consoada – vai roendo, birrenta. - A menina não devia ter autorizado este desmando.

 

Perto da Jacinta há segurança. Há abrigo. Dentro da cozinha da Jacinta há santuário.

 

- Ajude, menina, que já fez asneiras que chegassem.

 

A cebola a cortar em rodelas - grossas, menina, podem ser grossas. Valha-me Deus, que isto não é no hospital -, os gomos intermináveis de alho a picar, as folhas de louro a quebrar estalidos, o pimentão aberto prenhe de perfume, a salsa - qual picar, qual quê! vai em rama que guarda o sabor -, o alecrim aos molhos que choram os meus olhos, o colorau cor quente e os limões cortados em meias-luas ácidas.

 

- A menina despeje o vinho no alguidar e deite-lhe um bocadinho daquele espumante que sobrou. Amolece a carne. Dá-lhe mais sabor. Não tanto, valha-me o Senhor dos Aflitos! Só um cheirinho! Agora deixe, que eu misturo tudo e ponho o anho. Chegue-me o paninho dali do armário para tapar a marinada. Vá, menina, que eu tenho de lhes dizer dos moldes que ainda me partem qualquer coisa.

 

Às vezes, tenho medo que me ralhe.

 

- Depois cortamos as tirinhas de toucinho e fazemos a grelha com os paus do loureiro para a boca do alguidar, está bem?

                                                           

Não estás zangada comigo, Jacinta?

- E como haveria eu de estar zangada? A culpa é da velhice resmungona que aqui anda. Vamos por isto no fresquinho e toca a dar-lhe os moldes para o tapete.

 

Os sacos de sarapilheira com as folhas e as folhas das camélias, as camélias toldadas e escurecidas que ficam bem no meio que disfarça, o jasmim, as campânulas amarelas, os lilases, as pétalas de rosas coloridas, margaridas – serão os malmequeres? -, hortênsias imaturas, e outras que não estão aqui que são precisas, o perfume das mãos que as separam em geometrias prévias de molde de madeira. A seiva, o espargir da água que lhes atrasa o apodrecer e a doçura curva das mulheres a espalhar no chão a Primavera.

 

 - Não entendo porque não usam Kilins - sai a minha prima da nuvem de perfume e o seu espanto é genuíno e espanta. - Não escorregam. Os nómadas fazem as cáfilas passar por cima deles, para os espalmar, suponho. Aqui, é o mesmo.

 

Atira e traça a voluptuosidade de pronúncia francesa carregada, arrasta e rola as sílabas que não consegue moldar em português, prende a seda do cabelo com a fita Cartier, depois de proteger as pérolas dos brincos, e descalça, que não tem calçado para pisar tapetes de folhas de camélias, desliza e evapora-se.

 

- Ensinas-me a fazer o arroz, Jacinta?

- Na manhã da Páscoa, menina. Venha ter comigo muito cedo. Depois vamos ajudar aquelas tolas.  

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A Gaffe simbiótica

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.19

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Sei que a minha vida depende da agenda dos outros.
Trata-se de uma relação mais simbiótica do que parasitária. Forneço a possibilidade de me controlarem a banalidade e, em troca, oferecem-me a capacidade de os manipular devagarinho, quando as questões me parecem vitais para o meu equilíbrio interior naturalmente instável.


Pode parecer cínico, mas é muito cómodo.


É-me indiferente o facto de, ontem ao fim da tarde, me terem arrancado do Porto, com uma mala desordenada e aborrecida, me terem enfiado no carro e me terem informado, finalmente, que iria passar uns repousantes dias no Douro, antes de partir para sempre.

 

- Desta vez não haverá mais florinhas para regar aqui. A priminha garantirá que restarão apenas as da tua cabeça.

 

Aprendi que se torna muito mais saudável se me deixar levar em vez de espernear e me debater em nome de causas que não afectam o que realmente desejo.


A maior parte das vezes, o controlo que pensamos exercer sobre a vida dos outros, não passa de uma forma subtil de sermos manipulados por eles.


Acordei hoje com os latidos furibundos da sucessora de Bórgia, a cadela Cartier, e com o chilrear de umas coisas com penas e com bicos, a minha Jacinta trouxe-me o pequeno-almoço e na bandeja havia beijos e ternura para barrar o pão quente e a minha prima, futura agente dupla, está no jardim a cantar desenfreada Singing in the rain.


Tudo está correcto. Tenho apenas de verificar a consistência dos fios dos fantoches.     

 

Ilustração - Catrin Welz-Stein

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A Gaffe ao jantar

rabiscado pela Gaffe, em 01.04.19

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A partir do mar, subimos a rua do Padrão.
O meu rapagão cabisbaixo e amuado por não ter cedido ao seu desejo de jantar íntimo e eu pronto a flutar na música suave e na luminosiadade macia de um dos meus restaurantes favoritos. 
Encosto o meu ombro ao dele e aperto-lhe a mão. 
Ninguém na Praça de Liège. Ninguém nos caminhos do Passeio Alegre. Ninguém nos telhados do Hotel BoaVista. Ninguém nas ruas e nos becos.


Sobretudo ninguém na rua do Padrão. 

 

Sopa de mexilhões com açafrão e “croutons” de alho. 
Ovos com salmão fumado e caviar.

 

O rapagão tem os olhos pousados na toalha. Se os levantar, sei que milhares de pestanas negras farão sombra na ternura desse olhar. Está perdido, porque usa jeans demasiado gastos e puídos - e logo num dos meus restaurantes de eleição!
Tem uma boca carnuda, com lábios macios e quentes, ligeiramente salgados, e dentes perfeitos. 

 

Pato fumado fumado com ovos de codorniz. 
Caesar com salmão fumado.

 

O meu rapagão tem um imenso corpo moreno, quase chocolate brando, que gosto de fazer ondular. Tem peitorais longos, largos e fortes e que são de ferro se eu lhes tocar. Tem um traço de pêlo, uma estradinha, uma serpente, que nasce no umbigo e desce até me dizer onde começa o paraíso.

 

Robalo com algas e molho holandês. 
“Magret” de pato salpicado com vinagrete morno de hortelã.

 

A minha perna toca na dele. Olha para mim e tenta afastar-se, embaraçado. Durante todo o jantar procurou manter-se discreto, despercebido. Empurro a minha perna de modo a que ela encaixe no meio das pernas dele. O meu rapagão aperta os joelhos, aprisionando-me. Sorri, malicioso. 

 

“Tarte tatin” quente com natas batidas. 
Bolo de chocolate amanteigado.

 

A minha mão desce. Debaixo da mesa, no abrigo branco da toalha, toco-lhe na coxa. 
Pousado o guardanapo, o rapagão agarra-me nos dedos, domina-os e obriga-me a fechá-los ... em redor da conta. 

 

Bebemos àgua. 

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A Gaffe com saudades

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.19

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Lembro-me, era eu minúscula, de ver a minha Jacinta a tricotar.

 

Usava agulhas grossas e a lã era Dralon 5, resistente e duradoira.

Matizava, torcia, entrançava e entrelaçava pontos que inventava com os que tinha herdado. Como um maestro de duas batutas, construía melodias mansas e mornas que usávamos durante os Invernos.

Lembro-me que as peças tricotadas mantinham um vago aroma de gardénia, quase nada, quase tudo, e que as cores que povoavam, este perfume e estas peças, eram quase sempre densas, sólidas, luminosas, quentes e imprevistas, como se um pedaço de Verão se tivesse perdido no entretecer da malha.

 

Se olho agora o que nas ruas encarna o glamour que é o retorno assumido a um tempo tricotado, sei que, se abrir as gavetas da velha arca de mogno liso ao canto do quarto em que foi urdida a minha infância, o vago aroma a gardénia voltará a tremer nas minhas eternas malhas Dralon 5.

 

Mas é Primavera e há um ninho nas árvores. 

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A Gaffe das camélias

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.19

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As camélias começam a tombar.

Floresceram mordidas pela morte. Um rebordo decomposto, uma unha pisada podre em cada pétala, a cor de carne viva amortecida pelo quarto crescente da mordida.

 

A minha avó ao longe. Ao fundo da alameda. Ao longe branca nas ondas onduladas do cabelo. As camélias soltavam pétalas vermelhas no vestido preto da senhora.  

O meu avô ao lado.

Às vezes o braço pousava no vestido negro da senhora e havia pétalas vermelhas a tombar no gesto. A camélia no peito do meu avô não tinha rebordo morto. Floresceu num ápice, antes do voo do vento e do estancar da seiva.

 

Às vezes a minha avó sorria. Às vezes pousava a cabeça na camélia que o meu avô tinha pousada no ombro. Igual a que trazia no peito. Vermelha como um coração sem rebordo.

 

- Ah, menina! Gostavam tanto um do outro como se não tivessem as almas para salvar.  

 

As camélias mortas.

 

Às vezes a minha avó debruçada na alma que não tinha de salvar por amar tanto a dele que não tinha de ser salva.

Às vezes o gesto que corrigia a assimetria das pérolas no pescoço. Os dedos a aflorar o curvo das pérolas e as pétalas no chão, sem simetrias.

 

Às vezes o silêncio.

 

A alameda coberta de camélias e os meus avós ao longe de mãos dadas e o medo de não poderem morrer juntos.  

 

As camélias começaram a tombar.  

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A Gaffe nocturna

rabiscado pela Gaffe, em 04.02.19

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Recupero hoje uma memória.

Às vezes parece-me envelhecida, longínqua e atenuada pelo enrugar da espiral do tempo. Erro meu, que o amor é ardente e má é a fortuna.

Queria muito que fosse partilhada com o meu queridíssimo Fleuma, porque raros são os homens que me ensinam a chorar.

19-10-2014

 

Quando o meu avô morreu, a Lua chorou um choro baixo. Um fio fino e transparente de lágrimas que durou dois dias e duas noites só findo quando a minha avó lhe entregou a manta de lã que o meu avô usava para cobrir as pernas nas tardes do jardim mais frio.

A Bórgia foi arrastada para a jaula.

Não mais dormiu aos pés da cama. Deixou de entrar em casa, a não ser para farejar a cozinha à espera que alguém se comovesse com o olhar de súplica do monstro e lhe oferecesse a provar, à revelia de todos os conselhos, ordens e recomendações, um naco de carne que a Jacinta tempera com alho, vinho, cidra e ervas aromáticas.

Facilitou durante bastante tempo a entrada das visitas. Se antes se tornava um perigo tê-la solta quando na casa havia gente alheia aos seus domínios, era fácil depois fechar-lhe a porta e gradear o bicho.

 

Quando a Lua adoeceu, a Bórgia acordou prostrada. Chamaram-na e ela não veio.

Fomos esbaforidas e aflitas de encontro às velhas amigas.

 

- Deus nos valha, menina, que a cadela piorou tanto.

 

Bórgia.

A assassina doida que esfacelava móveis e esfarelava as carnes dos incautos, subitamente velha agora nos meus olhos, que velha é há tanto tempo aos olhos dos que a temem, perto da Lua entristecia. Ninguém a conseguiu retirar do lado da amiga.

 

Trouxemos o veterinário.

 

- Que tossiu sangue, Senhor Doutor. Piorou tanto!

 

O homem entrou para observar a Lua adoecida. Saiu depois inútil, desolado. Acompanhava-o a minha avó que em silêncio ouviu o veredicto. A minha querida Jacinta atrás, a tropeçar nas pedras e a amarfanhar com as mãos o avental e a dor.

 

Lua treme, inquieta. Tosse e cospe sangue.

Abre cavernas na minha garganta e faz o fel golfar enchendo tudo.

 

Eu ali de pé, ali cravada, muda, seca, hirta, ressequida?

Abro a porta e entro e de joelhos abraço a cadelinha, a beijo a soluçar.

A Bórgia a ganir muito de mansinho.  

Deixo de saber se é sangue ou se é o meu cabelo que se espalha na manta que foi do meu avô.

 

Lua morreu de manhãzinha.

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A Gaffe com lençóis brancos

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.19

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Eram brancos os jogos de lençóis que a Jacinta trazia todos os Sábados das arcas para os quartos de cima.

 

Brancos, sempre brancos, brancos que de tão brancos doíam.

Alguns tinham bordados a cheio na dobra que expunham. Flores ou frisos a ondular arabescos que as fronhas repetiam. Outros eram rendas. Entremeios urdidos à mão, brancos, brancos, no negrume de Inverno.

 

 - Vá brincar, menina. Vá apanhar sol e deixe trabalhar quem sabe.

 

A Jacinta abria as asas de lençóis sobre as camas como quem atira redes de pesca aos mares sossegados das manhãs de Sábado. Cheiravam bem essas manhãs. A linho lavado, a sabonete e a alfazema que a Jacinta guardava em saquinhos laçados com fitinhas de cetim nas arcas dos lençóis brancos a doer.

Ficava a ver aqueles pássaros largos de asas, a abrirem o breve voo sobre os ninhos. Fechava os olhos. Pelos olhos fechados aspirava o odor daquele esvoaçar lavado e de açucenas.

Quarto após quarto, após quarto, após quarto. Seguia-lhe os passos. Os lençóis brancos a dardejar bordados.

 

- Vá brincar lá para fora com os manos, menina!

 

A luz do lá fora pelas janelas. Reflectida no voo dos pássaros como penas. O cheiro a luz lavada e a saquinhos de alfazema.

 

- Ajude então com as fronhas, menina. Vá lá Deus saber porque é que o avozinho a deixa aqui, a andar atrás de mim - e sorria, parada por instantes, de mãos cruzadas no regaço de onde a ternura subia até aos olhos.  

 

Chorou neste Sábado.

Ouvi-lhe as lágrimas como lençóis abertos e doridos.

 

Entrei devagarinho no quarto e vi-a sentada na cama que foi da minha avó. De mãos em concha, uma por cima da outra, num abandono branco e envelhecido.

Tinha-se enganado. Foi sem querer. Nem sequer pensou. Não sabe como aconteceu aquilo. Foi o hábito. É a velhice, menina.

 

Chorava tanto.

 

Ajoelhei-me. De joelhos venero imagens santas.

Entrou ali para mudar lençóis que não se mudam, mudos os que ficaram inúteis como trapos, e ficou ali a desfraldar, a apalmar, a estender saudade.

 

- Faz-me tanta falta - treme. É frio.

 

Abro a gaveta. Retiro o xaile que a minha avó usava nos entardeceres mais ásperos de negritude em que as crianças não brincam lá fora.  

Sento-me na cama, pouso as minhas mãos na concha das mãos enrugadas da Jacinta e as duas cobertas pelo xaile, sorrimos baixinho, baixinho, baixinho, para não inquietar as lágrimas.

 

- Vá, Jacinta, anda. Eu ajudo com as fronhas.

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