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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe pinoqueiresca

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.18

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Estendida na cama, de barriga para o ar, perninha alçada e mãos a servir de almofada, repelta de glamour, hesitava eu em reflectir sobre a Teoria das Partículas e o aumento do PIB no 3º anel, quando o rapagão se vira, apoia a cabecinha numa das mãos e desata a observar-me.

 

Olhei de lado, procurando não fazer muito barulho. Podia ser que o rapaz tivesse petrificado. Seria bastante agradável, em todos os aspectos.

 

- Tens uns olhos gigantes - murmura.

Foi neste exacto instante que me lembrei do atarracado, rechonchudo e irritante Capuchinho Vermelho, a saltaricar pela floresta, prontinho a ser comido.

- Assim cabes todo dentro deles - rosnei eu, através de um sorrisinho amarelo pastel.

- A tua boca é tão perfeita - continuou, ainda com os bolinhos no cesto.

- É só porque tu a beijas - mostrei os dentes desta vez. Brancos de neve. 

- Amo-te  - saltitou o Bambi.

 

Virei-me e obriguei-o a mentir mais.

Prefiro o Pinóquio.

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A Gaffe de Pessoa

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

 

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

 

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

 

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.

Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

 

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

 

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.

Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

 

- O melhor do mundo são as crianças.

 

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

 

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

 

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.  

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A Gaffe nas batalhas

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.18

Laure

 

Sabendo-se que esta família caça em conjunto, fácil se torna concluir que nessa operação ela é por norma o isco, a manobra de diversão e o engodo.

 

A verdade é que nunca esse papel a incomodou, chegando mesmo a ser um deleite participar na montagem das armadilhas. Admite que não é de todo distinto ou elegante ser usada para que se atingirem objectivos que lhe são alheios, mas considera sempre divertido verificar que em todos existe uma etiqueta com um preço, que ela faz acreditar que é elevado, embora suspeite que - cada vez mais -, toda a gente é um saldo.

 

É angélica, suave, pestaneja, aparenta ser inofensiva e não tem nas patinhas as garras visíveis. É fácil fazer com que inclinem a jugular desprevenida. Depois é com os outros. A minha prima não gosta de vencidos.

 

Nunca ousou forçar uma queda, nunca se atreveu a desferir o golpe, mas não tem ilusões. Ninguém foge ao escrutínio. Todo o passageiro é revistado, mesmo que o bilhete seja apenas de ida. Tem o agradável defeito de, sempre que por si passam mortais, os pesar e repesar na balança do jogo da guerra.

 

Não é sangrenta, talvez seja apenas má pessoa.

 

Aprendeu a sobreviver neste vale de feras, consciente disto, com um rapaz de veludo que lhe foi apresentado demasiado cedo. Foi analisado ao pormenor e concluiu-se que o rapagão pertencia ao plano estratégico de caça familiar e que nos pratos da balança pesava mais do que seria de esperar. Foi insinuado que alguém devia distrair a vítima enquanto os bastidores se movimentavam. Aceitou contente. Falar de Genet, comentar Monet, criticar Stravinsky ou acarinhar Fellini, nunca foi complexo - se não sabe, inventa. Acrescentou a estes prazeres, o facto do rapaz respirar e se sentir o mundo a tremer. Sobretudo o hemisfério sul.

 

No entanto, sofreu um revés. O padecente confidenciou-lhe, logo ali na esquina de Darwin, a sua inabalável fidelidade ao espapaçado Amor da sua vida que longe dele sofria de igual modo.

Tornou-se intocável a alma do petiz.

O amor sempre lhe inspirou um desmesurado respeito e jamais se tornaria cúmplice do espoliar de alguém apaixonado.

 

Soube, pouco tempo depois da sua recusa em fazer de conta que seduzia o triste, que aquele amor eterno e inabalável se tinha escapado por minutos e que, com os melhores cumprimentos da eternidade, tinha tentado pousar no meu irmão. Apanhou-o deitado no chão, de pés levantados e pousados no peitoril da janela e, não tão subtilmente como seria de desejar, enfiou-lhe a mão dentro das calças. Abalado, o meu pobre irmão nunca foi o mesmo, recusando aproximar os pés seja do que for. Stress pós-traumático, dizem os sábios.

 

A partir desse instante, descobriu - para além de ficar a saber que a fidelidade é uma bicha muito subjectiva -, que nada, mesmo nada, a impediria de jogar. Gosta de jogar, o que não a torna excelsa companhia.

Enfraquece resistências, afrouxa cérebros, distrai argúcias, impede análises e faz tombar as paliçadas. Pérolas e perfumes são armas que conhece em demasia. Usa-as com perícia e destemor. Depois dos muros derrubados, perde o interesse.

 

O resto é dos abutres.

 

Não se comove. Nunca se comoveu com a chacina. Os que tombam são sempre os mais idiotas, os que acreditam no Poder e desconhecem que é exactamente nele que se encontra esconsa a mais potente ameaça de derrota. Estão vencidos, porque não sabem que se trava uma batalha, porque cegaram com o brilho das próprias armaduras, ou porque não entendem que às vezes - muitas vezes - a maior vitória não exige luta.

 

Agrada-lhe sentir que pertence aqui, ao grupo dos carrascos, daqueles que executam imbecis.

 

Não é aconselhável aceitar o seu convite para o chá.

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A Gaffe recepcionista

rabiscado pela Gaffe, em 07.02.18

ha! ah! ah!Está na minha frente, sentado de perna cruzada e tronco balofo e atarracado.

Bate com o maço de tabaco, acabado de comprar, na palma da mão. Vira-o e volta a desancar. Repete a actividade até perceber que me irrita, porque não consigo deixar de olhar para aquele movimento seco que me parece inútil.

Oferece-me um cigarro depois de cuidadoso ter rasgado um lado e ter puxado um deles que aparece erguido sobre os outros, como se tivesse havido uma eleição.

Não fumo.

- Mas havemos de beber um copo juntos - promete enquanto procura no bolso o isqueiro de plástico.

Não bebo.

Torna-se sinistro. Olha de soslaio e sibila, manhoso:

- Aposto que aquela, com um corpinho daqueles, faz o que falta dizer.

Sorrio e deixo escapar uma centelha de suspeição propositada que lhe aflora e queima a superfície da atenção.

Desconfia. Semicerra os olhos. A primeira baforada do cigarro, preso nos anéis, tolda-lhe os contornos da cara e fá-lo tossir de forma seca.

- Oh! Com aquela figura não acredito que sinta muita a falta de aquecimento central - escalda o homem e arrepia.

- Toda alta, toda fria, toda elegante e de nariz empinado, já aqueceu muitas noitinhas…  - escancara num sorriso nicotina. 

A ilusão do Poder, quando alimentada por estranhos, transforma-se em areia movediça, por isso não o paro. Começo a acalentar a esperança de sentir a atarracada criatura esfumar-me no que se vislumbra por entre a névoa do engano.

 

Espero.

 

Digo-lhe que será recebido por ela. Sou apenas um percalço. Um erro de casting. Uma gaffe na recepção.

- Que venha a mulher! - arreganha os dentes já babados - mesmo com aquele tamanho, posso bem com ela. É magrita. Domesticam-se bem, as magritas - desta vez a alarvidade traz o riso.

 

E ela entra.

 

- Tenho a certeza que não se conhecem. - Sou tão amável! - A minha irmã. - Apresento e tenho um orgasmo mui discreto. Continuo:

- Este senhor acaba de me confessar que te acha muito elegante. Creio que entre os dois se vão estabelecer óptimas relações.
O homem baba enquanto aperta a mão esguia, prolongamento do sorriso claro e do olhar atento que detecta o proibido prazer do que mantenho oculto.

- Sou muito empática - rosna a minha irmã.

- Mas magrita. És um potro, um puro-sangue, mas fácil de domar - esquiço e espero os olhinhos do homem que se abrem em franqueado embaraço.

A minha irmã estanca. Detectou o jogo e a mesa onde é lançado o dado.

- Hipismo é no teu departamento. - Faíscas e setas no meu peito, Sebastião no feminino, nem Santa e já sem reino.

- Esqueceram-se de o informar que é apenas a minha irmã que se diverte com as cavalgaduras - acrescenta.

Entala-se o homem com fumo e aperto.

- Mas, maninha, este senhor é um jockey.

- Tenho a certeza que sim. Não se quer sentar?! - Pergunta tenebrosa, porque o achatado já está sentado.

- Vamos então tratar do seu estábulo - ordena a minha irmã já com a segurança de um projecto ganho.

 

Os erros cometidos pelos outros, contra nós, dos mais banais aos mais sofisticados, devem ser usados para reverter situações adversas, transmutando o desacerto em arma a usar contra aquele que falhou.

A falta cometida pelo incauto, transforma-se nas mãos da minha irmã em forja que subverte o que lhe desagrada e que convence o imprudente a acatar, sem discussão possível, o que este puro-sangue decidir.

 

Eu?! Oh!, eu só me divirto, pacífica, a olhar um punhal cravado na testa do anão.

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A Gaffe melómana

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.17

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Foi-me entregue pelo meu avô, como o choro mais belo do universo, O Lamento de Dido, em Dido e Eneias de Purcell.

Segredou-me ao som deste lamento:

Nunca tentes domar a Tristeza atravessando-a com uma luz imperfeita. Deixa que a Tristeza se canse até que a luz que traz, quebre por dentro.

 

A minha vida não tem banda sonora de grande contemporaneidade.

Creio que foi ocupada pelas obras que o meu queridíssimo melómano me foi fazendo compreender.

Mas são outras as notas da memória que voltam desta vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas resguardadas, mas não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, e contudo é vivo na minha alma e no centro da minha vida o soar de Dvoräk. Lembro-me que o meu avô como que orava através do Stabat Mater num ritual quase pagão que envolvia penumbras e luminárias e que, contagiadas, as empregadas se benziam estarrecidas. De mãos cerradas, a boca crispada e os olhos como facas cravadas no tempo, fazia erguer os abismos e as ascensões, os turbilhões e as fúrias, o negro desenfreado e a claridade imensurável. Os coros apunhalavam e eu, minúscula, sentia que cedo ou tarde o meu corpo cederia ao medo do troar do Quando Corpus Morietur que o meu avô fazia repetir incessantemente. Imobilizava-me, onde quer que estivesse, ao soar o primeiro acorde e esperava que o coração sossegasse o galope, que as agulhas no meu corpo deixassem  de ferir, que o medo de não conseguir respirar abrandasse ou que a morte viesse e me lancetasse de vez. O meu avô forçava-se a ser levada até Deus através daquele envolvimento poderoso. Caminhava desse modo, erguido pelos acordes do Stabat Mater e deparava com Deus vestida de coros. O seu modo de chorar era este e alastrava pela casa fora até tocar o espaço das mimosas e das suspensas beladonas encerradas que continuavam a verter o aroma sobre mim.

 

Ainda o ouço.

 

Mas não é desta memória que quero falar.

Dizia-me o meu avô que o passar do tempo se incumbia de carregar de sons as obras dos génios. Purcell é menos sonoro que Albioni, Bach é mais discreto do que Händel, Rosetti é menos trovejante do que Mozart e este menos brutal que Beethoven, Hoffmanm mais frágil do que Berlioz, Schumann mais frágil do que Debussy, ou Bartók menos duro que Shostakovich. Mentia-me, sorrindo, à espera que o contradissesse. Misturava períodos e tempos, obras inteiras e pequenos excertos, sempre a aguardar que detectasse o propositado erro nesta hipotética procura de calar o silêncio, preenchendo-o de sons e de fúrias, sabendo que o tempo que avança não procura a exclusão do silêncio, pois que é o silêncio que avança a retroceder o tempo.

 

Aprendi nesses instantes, que a Tristeza não se cala com tempos imperfeitos. Cansa-se apenas com os sons que quebram em nós a luz que traz por dentro.

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A Gaffe de pois

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.17

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Atentemos pois na imagem da mulher sentada que outra não conheço ou conheci denunciando o que é no que se vê.

 

Antes de o fazermos, é de conveniência considerar a luz de Inverno temerosa que na janela de guilhotina fechada desce o parapeito, encosta-se ao soalho, procura o tampo da secretária em mogno, ilumina a lâmpada do candeeiro apagado em abat-jour de sombra, distrai uma caneta, dois livros, a escultura de um mocho grande e negro e segue a ferocidade do azevinho na jarra gigante em colossais canos cortados da árvore que por imprevidência se deixou desumana na terra encostada a um muro da casa. Como um detalhe, um pormenor discreto ou amedrontado, vai tocar em risco o lóbulo da orelha da mulher, o brinco de pérola, o cabelo loiro de palidez imóvel, para se perder depois, pois que já não conta.

 

É de conveniência, o digo pois, atentar na luz, pois que a mulher é isenta de detalhes e é nosso desejo encontrar alguns na figura esguia sentada na poltrona. A luz é pois o pormenor em falta na camisola canelada e de malha fina, gola alta, em que a cor de ferrugem se abre no riscado luminoso que alaranja o tom e que amansa ao mesmo tempo a densidade anil das calças tubulares e atenua o desenho picotado dos conservadores sapatos masculinos.

 

Ignoremos, na parede atrás desta mulher sentada, o retrato antigo de outra mulher sentada, loira ela também, quieta no interior do bulício do vestido de seda pesada de azul de saia ampla de metros de tecido, que toca enluvada um colar de pérolas que quase flutua no seu pescoço afunilado para desaguar no colo descoberto branco e manso onde pousou sem desvelo uma mantilha de renda que abre sombras perfuradas nos laços do espartilho.

 

Atentemos pois na mulher sentada quieta, atenta, de mãos esguias e unhas ovaladas que atravessam a folha do que lê, com detalhes de luz por sobre o corpo magro, nu de pormenores, isento de desvios e não na mulher do quadro detalhada, pois se atentarmos na mulher sentada na poltrona, intuímos a outra, a do retrato.

 

Unem espaços.

 

A mulher sentada na poltrona é a lapidação do corpo dos lugares, a abolição do tempo que nos mata. O corolário de uma permanência que só os raros conseguem entender, pois que o entendimento dos símbolos escapa pelas fendas do agora e do presente.

A luz que risca o brinco da mulher sentada, é a mesma luz que toca as pérolas do quadro. A luz é a mesma, derrogaram-se apenas os detalhes.

 

É deste entendimento que o depois é feito, pois que o depois se existe, tem passado.

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A Gaffe castanha

rabiscado pela Gaffe, em 22.11.17

Ana C.

As mãos do velho Domingos que agora seguram o abanador de palha com que espevita as brasas que assam castanhas, são as mesmas que me guiaram no caminho das nogueiras, dos álamos, dos plátanos e dos áceres, com os pés molhados de folhas mortas e céu coberto por estilhaços de bronze, escarlate, doirado e castanho, para ver o carvalho plantado pela primeira mulher desta casa.

 

Lembro-me da textura de tronco de videira das mãos do Domingos, de sentir que era o Outono que me segurava os dedos, de ter a certeza que cheirava a pão e a frio, a mantas e a cães. Lembro-me dos sons do quebrar do chão como uma porta que range e temos medo. Lembro-me do trigo da luz nos braços de uma poeira extenuada. Lembro-me da lonjura do caminho e de ter sentido que a terra tinha recolhido o choro das árvores e de o enferrujar com o suor caído dos homens. Lembro-me de ter adivinhado no meio dos gritos queimados da luz por entre ramos, a negrura animalesca do carvalho na sombra pousada no caminho que estalava. Lembro-me de ter tido medo do retorcido casco, dos braços de cotovelos pousados na terra, do latejar do monstro que enfurecido emudecia o latir das folhas e da ardência que dos meus olhos tocava as margens das palavras. Lembro-me das labaredas cegas e negras que de lume a lume, de gume a lança, golpeavam o espaço com adagas de troncos que desciam pela entristecida solidão da árvore. Lembro-me das agulhas do sol amortecidas a picar os pássaros parados, da luz cansada de ferro que se espetava nos ninhos.

 

Um golpe no pulso da terra. Uma cicatriz de espera. A árvore a pesar como uma chaga.

 

Havia ferrugem nos cabelos. Roxos de frio.

 

As mãos do velho Domingos seguram agora o abanador de palha com que atiça o lume a assar castanhas, e eu queimo as feridas da memória com os dedos do silêncio até tudo parecer polido como os lagos impolutos da inocência.

 

O Outono é esta árvore e tem a alma em sépia.  

 

Foto - Ana Ciolaçu

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A Gaffe por um fio

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.17

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Nas manhãs sem chuva, tenho medo.

Vou de pés atados pelo caminho estreito das mimosas de outrora.

A bruma regressa no retrocesso do tempo e na inversão dos pássaros que se debatem ainda nos fios da rede destes dias frios.

A sombra dos teixos a crescer nas pedras e nas tranças de água dos olhos dos peixes. Uma sombra a estilhaçar os vidros da memória.

Levo uma pedra cega de sono sobre a boca, uma clara mordida antiga de poeira branca ou luz de porcelana.

As manhãs frias parecem nomeáveis, presas pelo fio de água que tomba na cisterna, povoado de maçãs vermelhas e orvalhadas colhidas noutras manhãs cheias de frio.

 

As manhãs frias ficam só manhãs, até perder a conta, sem pele nem poros. Só com nome. Manhãs em que se veste a tristeza que na véspera havíamos dobrado e pousado nas costas da cadeira, arranjado o vinco, sacudido o pó e desfeito a prega, trocando as voltas à dor, à cor que fica bem, para que não se note muito que estamos a usar a mesma roupa de ontem.

 

Nas manhãs sem chuva, tenho medo e vou pelo peito da alvorada olhar o fio de água fria que tomba na cisterna. É dentro do frio fio da água da cisterna que há luz de linho branco, o vislumbre afogado do corpo de penas do estilhaçar das nuvens.   

Nas manhãs frias sem chuva, volto ao cerco dos braços da cisterna e o fio de água é pulseira no meu punho, arco em meu redor, enxames de abelhas no regaço do tempo, amor pousado na cintura da cama dos sossegos mútuos, medalha de marfim no pescoço de um cego, fenda do rochedo onde apascento o rebanho dos meus dedos.

 

Cedro ou madeira de cipreste ou um ramo de açucenas pousado no meu peito.

 

Frente aos meus olhos escorre a placidez da seiva descerrada, o entrançar das arrecadas da manhã nos pingentes de prata da luz de mandrágora e no frio das folhas que tombam nas deslumbradas manhãs das conchas de água dos fios das casas que eu habito.

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A Gaffe deambulante

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.17

Verlaine.jpgAs casas parecem maiores na ausência das gentes a que pertenceram. Crescem à medida que se esvaziam. Os corredores são mais longos, as escadas mais altas, há divisões que dobram de tamanho, há mais divisões, mais pisos, mais janelas para fechar, mais ruídos, mais chão, mais pedras, mais árvores, mais anoitecer.

As casas crescem na ausência das gentes que as amaram, ou adquirem as dimensões que sempre possuíram, mas que foram deformadas pelo amor. O amor diminui as casas. Aperta-as.

 

Lá fora, a copa das árvores grita de pardais. Floretes de luz chispam na terra. O pranto do lago treme quando a carpa morde os dedos do anjo de pedra eterno nesse aflorar da pele da água. O vento breve empurra as folhas de ferrugem contra as pedras. Rolam as folhas queimadas com um queixume enrouquecido. Redondo como o pátio. Um pássaro preto esvoaça e pousa no varandim de ferro. Olha oblíquo a tenacidade do tempo parado e depois para mim, que vagueio há dias por esta casa enorme. Inclina o pescoço, abre o bico, as garras apertam o meu medo súbito de ter por companhia o crocitar da memória e levanta voo embrulhado nos panos das asas.

 

Olho para dentro.

 

- Valha-me Deus! A menina parece uma alma penada!

 

A cadeira da minha avó. A jarra que o tempo marfinou, com as flores azuis no corpo a diluir fronteiras, esbatendo os limites como o fim de uma aguarela. A jarra onde se esqueciam braçadas de mimosas, onde as hortênsias secavam num silêncio anil enferrujado. A cigarreira em prata onde falta o monograma. O corta-papel de cabo trabalhado por Lalique. O minúsculo esboço de Amadeo fechado em vidro. O mocho talhado em pau-brasil, de órbitas vazias, onde o meu avô pousava agendas. A página dobrada do livro de Verlaine.

 

Os objectos deles. Dos que deixaram a casa crescer desmesuradamente. Todas as tardes deambulo por entre os objectos. Toco-os, bordo-lhes a pele, com a solenidade devida à majestade que provém da evidência de terem sido amados. À majestade do inútil. Não existe, em nenhum deles, a memória dos que lhes tocaram. Nenhum deles me traz presença alguma.

 

Os mortos estão em nós, no objecto que somos.

 

Os restos são coisa que cresce e que é inútil, como as folhas - cada vez  mais, cada vez mais -, que o vento empurra contra as pedras num queixume enrouquecido, e, no entanto, ao tocá-los, ao abrir-lhes a página que lhes foi marcada, os meus dedos ouvem o sussurrar de um poeta.

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A Gaffe dos homens tristes

rabiscado pela Gaffe, em 04.10.17

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No Douro, os homens amadurecem a dor. Amadurecem a tristeza.

No Douro, a tristeza dos homens - daqueles que conheço -, vai envelhecendo com eles. Pacifica-os. Entrega-lhes uma benevolência calma e uma tranquilidade benévola, que são metamorfoses da indiferença.

 

Ao contrário dos homens, as mulheres do Douro param na tristeza. Urdem casulos pretos onde escolhem esconder a vida que estancou. Fechadas dentro da alma, espiam de negro amargo o voltear das estações, assistem enlutadas ao inexorável oxidar do tempo, detêm-se hirtas na demora da morte da memória.

Ficam só elas.

 

A tristeza dos homens, aqui no Douro, é um corpo a envelhecer ao lado deles, com o sossego do inevitável, com a delicadeza do silêncio que acompanha o paradoxo que é ter, ao mesmo tempo, uma espécie de cortesia oriental, dócil, delicada, emudecida, translúcida, submissa, e a combatividade dos retorcidos troncos das videiras.

A tristeza dos homens do Douro, usa mantos tatuados com dragões coloridos, sobreposições de sedas e de cores. Faixas pacientes. Tem cabelos lisos, pretos, presos por travessas de jade trabalhado, olhos de pálpebras fechadas, pés impalpáveis com passos delgados e mãos de chá puro de ritual antigo.

 

O rosto de alabastro.

 

A tristeza dos homens tristes, aqui no Douro, vem e vai, sempre atrás deles.

Acorda-os com o som do Shamisen. Vê-os brutais comer, despedaçando a carne ensanguentada, e toca os alimentos com a brandura dócil da deferência. Canta-lhes como cantavam as Goze, enquanto suam curvos pelas vinhas.

A tristeza dorme sempre aos pés dos homens tristes ou fica acordada a guiar o vento para lhes amainar os corpos destroçados.

 

Ao contrário das mulheres, aqui no Douro, os homens tristes nunca ficam sós.       

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A Gaffe de corpo inteiro

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.17

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A minha irmã vive num apartamento amplo e luminoso que os mais ilustres podem, num vislumbre, considerar minimalista. No entanto, a ausência quase total de objectos não se relaciona com qualquer opção estética. A minha irmã compra, porque o escolhido se lhe afigura de importância capital para o seu conceito de conforto que inclui o inquieto, o que impede o desarmar da vontade ou o impulso criativo.

As paredes derrubadas deram primazia à luz branca, asséptica, metálica, que gela os corpos e entrega aos móveis, cuja existência se deve ao facto de nenhum poder ser movido, a geometria da perenidade. Há tarefas definidas para cada um dos objectos e porque a única preocupação na compra é a função que cada um tem de exercer, todos são limpos e puros como as obras-de-arte.

 

Parece frio, incomplacente e demasiado branco. Um espaço de racional inflexibilidade. Mais pragmático do que minimal. A minha irmã suporta mal a cor à sua volta. Admite breves tons de cinza, muitas vezes chumbo, muitas vezes quase nada, o preto, o metal, mas recusa frequentemente outras paletas.

 

Sempre me pareceu um apartamento vazio - provavelmente pelas ausências longas e frequentes da dona -, como se estivesse eternamente à espera do habitante, até ter encontrado ontem, numa moldura lisa e perfeita, uma fotografia minha, a chispar de cores e riso aberto, grande e de corpo inteiro.

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A Gaffe tatuada

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.17

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O nome dos outros em mim como tatuadas gentilezas.

No meu corpo nu a morrer de frio consigo ler o nome dos outros a pena escritos na pele ou desenhados ténues, indeléveis, corrompendo a macia superfície. Como se a cada nome fosse entregue um espaço meu, do meu corpo nu que treme precipitado pelo frio. Como se a minha memória fosse este lugar despido e nada mais houvesse a não ser o risco que em cada nome no meu corpo nu se misturou na pele.

 

O do meu irmão, perto do lugar de onde respiro. O da minha irmã, junto dos olhos com que vejo sem ver, cega de tudo. Os nomes dos meus avós, nas minhas mãos que fazem e desfazem. Os dos meus pais, no centro dos meus braços.

 

De todos os nomes no meu corpo aquele que eu consumo, gasto, esbato, adoço e esvaeço, tem a cor do afago no lado esquerdo de todos os sentidos. O do meu Amigo.

 

Deixo que pousem devagar no coração.

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A Gaffe sacrificada

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.17

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De forma a aproveitarmos a presença breve da minha prima por terras lusas, fomos as três muito unidas rumo à confeitaria/leitaria Quinta do Paço onde uma pequena esplanadita nos faculta umas mantas vermelhas bastante ranhosas, mas muito quentes - que, digam lá o que disserem, o fim de tarde já arrefece - e uns éclairs recheados - chantilly ou chocolate - de morrer ali todos diabéticos.

As duas mulheres desprevenidas enroscaram-se nas mantas transformando-se em índias Cheroqueques, muito felizes. A perfeição da minha irmã recusou o allure, porque tinha trazido casaco e um objectivo. Já que ali estava - e suspeito que estávamos ali por isso - tinha marcado encontro com o arquitecto italiano que a substituirá durante uns dias. Queria que o homem visse in loco uns detalhes nos edifícios em frente. Os pormenores estudados seriam reproduzidos aquando da recuperação de um mamarracho qualquer, algures de onde o homem veio.

 

Vimos o rapaz chegar de sorriso aberto.

 

Muito agradável à vista desarmada, em excelente forma física, moreno e luminoso, de olhos pretos e negra madeixa ao vento, o descontraído rapaz trazia vestida uma t-shirt arrepiada, um casaco desleixado e umas calças de malha fina que são um cruzamento entre um fato de treino e umas ceroulas, mas que parecem ser consideradas um must pelos musculados concorrentes do Big Brother mais guna – ouvi na Ribeira e não sei o que significa, mas acho que fica bem aqui -  e pelos artistas mais boémios que citam Sartre e entendem Miró até ao âmago - o que une extremos consideráveis.  

 

Apercebemo-nos, talvez devido à luz de Outono que tombava devagar, que havia qualquer coisa estranha no andar do moço, mas, como se diz no velho Douro, nem fun nem fanforreira partilhamos, guardando cada uma a estranheza no mais íntimo da alma. 

 

A minha irmã levanta-se, o homem sorri-nos – ciao! - e desatam os dois a apontar as pedras e as varandas, com a anfitriã a rabiscar explicativos riscos no bloco que tinha tirado da carteira.

 

As duas índias Cheroqueques, sentadas, quietas, caladas como ratas, de éclair parado e perplexo, tinham avistado a razão da anomalia no andar do homem.

As calças largas de malha fina tinham-se colado, tinham-se grudado, à pila do moço!

Aquilo ou era electricidade estática ou então tinha chovido na véspera e encharcado uma anaconda da Amazónia. Contornos, desenhos, protuberâncias, trilhos, volumes, escavações, bossas, saliências e arredores, tudo ali mesmo à mão de semear tempestades e colher a ventania que deve aquilo fazer ao abanar.  

                                                                                                                                                    

Se tivesse aparecido nu da cinta para baixo, seria mais discreto, valha-nos Deus!

 

O homem pousava o peso na perna esquerda e a piloca acompanhava toda elegante o movimento, o homem pousava o peso na perna direita e o monstro lá estava, pronto para se aninhar noutras paragens.

 

Olhei de soslaio para a minha prima.

A rapariga estava com o nariz franzido, com os cantos da boca repuxados e os olhos transformados em frestas orvalhadas por onde se escapava um riso destravado. O queixo termia um bocadinho, mas nada que indicasse epilepsia. 

Bastava que o meu joelho tocasse o dela, avisando que também testemunhava os movimentos de Loch Ness, para termos foguetório.

A minha irmã pousou o bloco na mesa e desembainhou as armas brancas dos olhos. Percebemos que bastava um nosso inocente e simples risinho parvo e totó para sermos atingidas na jugular pela lapiseira encharcada em cicuta. 

 

Quietinhas. Caladinhas. A tentar não nos esbardalharmos, nem fazer ruir os edifícios. 

 

A minha prima olhava para os transeuntes, evitando cruzar manigâncias comigo e com o que oscilava ali na frente. Ouviam-se uns ruídos surdos que soltava pelo nariz, acompanhados por esquivos solavancos nos ombros e no peito. Eu, muitíssimo mais controlada nestas ocasiões - é nestas e nos terramotos. Foi ver-me no de 1755! -, procurava encontrar forma de lhe causar a perdição completa.

Peguei no bloco e escrevi:

 

O homem não traz cuecas!!!

 

 Estendi o bloco e a lapiseira. A minha prima leu e com os queixos a tremer, com as maminhas a saltar e os ombros a abanar, conseguiu os riscos:

 

Ou traz o fio dental ao contrário.    

 

Voltei à carga:

 

Não é italiano. Está a mentir.

 

A minha prima ficou curiosa. Beberricou o sumo de laranja para acalmar, franziu as sobrancelhas e já muito séria inquiriu - com os olhos, porque qualquer palavra dita, por imbecil que fosse e a ano-luz de ter piada, provocaria o descalabro.

 

É de Mirandela. Traz o fumeiro dentro das calças.

 

Desastre absoluto.

A mulher esbardalha-se sem dó nem piedade e até pelo nariz. O sumo de laranja disparado num borrifo imenso atinge a prima Cheroqueque que fica com o cabelo como se tivesse atravessado o furacão Maria e sofrido em seguida uma tempestade tropical, pois que até das pestanas o sumo pingava. 

Já nada nos trava. Depois de chorar desalmadamente, ensopando as gargalhadas, e depois de sentir o ar a fugir, o riso abrandou.

Olhamos as duas para a morte que se perfilava.

A minha irmã tinha na mão o bloco e tentava salvar e limpar os gatafunhos. Tinha lido as nossas angelicais considerações.

Havia explicações a dar.

Vira-se devagar para o homem atónito e sussurra com um perfeito sotaque spaghettiano.

 

- Questionaram a tua nacionalidade. Uma tolice, já que trazes a Torre de Pisa enfiada na porcaria das calças.

 

Apesar de, pela primeira vez, a minha irmã ter conseguido ser brejeira - há inesperados que abanam pesados no meio das mais sólidas convicções -, estas duas primas Cheroqueques vão morrer em breve; quiçá abrasadas pelo rubor incandescente que assolou o pobre do rapaz; quiçá vítimas de facas embebidas em curare, atiradas pela grande sacerdotisa - cuja mira é falacciosa -; quiçá sacrificadas em rituais tribais onde são trespassadas por alheiras do tamanho de anacondas.

 

A minha prima admite que a última hipótese é a que prefere.

 

Ilustração - Sérgio Martinez

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A Gaffe sem facebook

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.17

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A revista concentrada que folheava impedia a chamada cumplicidade de mulherio. Só o barulhinho do virar da página indicava que talvez fosse possível introduzir uma palavra dita nos domínios do papel lustroso.

Cruzou as pernas e deixou que no meio da imobilidade posterior ao instante lhe analisasse em detalhe os J’Adior que se exibiam agudos e aveludados nos pés pequenos para tamanha altura.

 

- A fita podia ser menos apelativa  - começo descontraída crítica.

- Hummm - e vira a página.

- Não sei se gosto da ostentação patega da marca - continuo muito inteligente.

- Hummm - e vira a página.

- Mas o laço é tão bonito! - sorrio com a mimosa descoberta.

- Hummm - e vira a página.

- Os calços são feios - desaprovo.

- Hummm - e vira a página.

- Parece que os partiste - aponto eu.

- Hummm - e vira a página.

- A fita branca talvez seja um bocadinho exibicionista - acrescento.

- Hummm - e vira a página.

- Talvez se fossem os de couro não parecessem tão miquinhas - juro que não sei onde fui encontrar esta expressão.

 

A minha irmã levanta-se. Fecha a revista e antes de sair recomenda:

- Controla-te. Não estás no facebook.

 

E viro a página.

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A Gaffe quase de férias

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

M.S.

 

Aproximam-se as minhas férias. Três dias mais e parto.

É assombrosa a quantidade de trabalho que tenho de deixar em ordem. Planear a minha ausência deixa-me nervosa, porque não sei entregar tudo o que é da minha responsabilidade à pobre criatura que me vai substituir.

 

Não sei para onde vou e suspeito que não sei se não vou por aí.  

Os planos de férias foram entregues à minha irmã que sempre cuidou dos pormenores com a minúcia dos obcecados. Saberei o destino apenas no instante de partida.

 

Não tem a mínima importância. É-me indiferente o local para onde me levam. Estou demasiado cansada para implicar com destinos e revoltar-me contra o destino. Aceito pacificamente os traçados de viagem e as inevitáveis exigências da mulher que é capaz de alterar o dispositivo de funcionamento do serviço de quartos de um hotel apenas porque não lhe agradou a forma como lhe foi servido o pequeno-almoço.

Enfurecia-me, há alguns anos, a prepotência quase infantil com que esta criatura se movia e fazia com que os outros se movessem. Irritava-me a sua forma de se sentir em casa, fosse onde fosse, e o modo como agia em consonância, alfinetando ordens, apontando direcções ou aguilhoando críticas com ácido. Invejava a capacidade de se manter ilesa a todas as variações do tempo, como se fosse transportada numa redoma invisível capaz de tornar constante uma determinada temperatura. Temia as suas reacções soberbas, as farpas subtis e as queimaduras infligidas aos incautos que se atreviam a tocar a superfície das escolhas desta mulher, contrariando, levemente, os seus desígnios ou as suas mais incipientes decisões.

 

Agora não.

 

Adapto-me. Talvez tenha aprendido a ser indiferente. Já não me agoniza de vergonha a forma quase desumana com que esta mulher vislumbra o mundo. Já não me choca o facto de parecer que os outros - todos - são para ela elos de um colar que vai crescendo e que é relaxante enrolar nos dedos.   

O meu cansaço atenua a minha culpa. Acomodo-me e entorpeço. Narcotizo a necessidade que sentia de voltar para trás e abraçar as vítimas. Compensar de qualquer modo os danos que foram causados. Anular as distâncias.

Já não quero saber e sinto-me calma. Destrutivamente calma, como se tivesse perdido um órgão e percebesse que não há dor, que não era vital, que sem ele sobrevivo embora mutilada.  

Desisti. Creio que desisti. Sei que por indução, por errada conclusão de similitude, não me vão tocar estranhos e que os mais próximos vão descobrindo que pode ser letal sobrevoar rasando as garras que se estendem ao sopro mais subtil.

A sugestão funciona.

 

Não sei por onde vou e não sei sequer se não vou por aí.

Sei apenas que seja onde for, é mais fácil viver quando ao nosso lado está deitado um tigre.

 

Foto - Melvin Sokolsky (1933)

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