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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe atapetada

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.19

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Traz o avental com flores garridas na bainha. Um avental de peitilho branco, laçado nas costas de vestido negro. A luz sorrateira do amanhecer infiltra-se nas frinchas das janelas largas e enchem-na de sombras, prateando-lhe o cabelo preso num nó de trança enrolada.

A cozinha cheira a flores do avental garrido. A especiarias, a condimentos, a ervas aromáticas a enchidos, a fumo, a madeira, a lume, a forno quente, a pão e ao café que na cafeteira borbulha atingido pelo ferver da água.

 

 - Andam à procura dos caixilhos - matreira, a Jacinta. Vai mordendo o pão e bebericando o escaldar da malga de café – aflitinhos com os moldes do tapete de flores para o compasso. Dão cabo das plantas. Que procurem. Primeiro a marinada, depois a consoada – vai roendo, birrenta. - A menina não devia ter autorizado este desmando.

 

Perto da Jacinta há segurança. Há abrigo. Dentro da cozinha da Jacinta há santuário.

 

- Ajude, menina, que já fez asneiras que chegassem.

 

A cebola a cortar em rodelas - grossas, menina, podem ser grossas. Valha-me Deus, que isto não é no hospital -, os gomos intermináveis de alho a picar, as folhas de louro a quebrar estalidos, o pimentão aberto prenhe de perfume, a salsa - qual picar, qual quê! vai em rama que guarda o sabor -, o alecrim aos molhos que choram os meus olhos, o colorau cor quente e os limões cortados em meias-luas ácidas.

 

- A menina despeje o vinho no alguidar e deite-lhe um bocadinho daquele espumante que sobrou. Amolece a carne. Dá-lhe mais sabor. Não tanto, valha-me o Senhor dos Aflitos! Só um cheirinho! Agora deixe, que eu misturo tudo e ponho o anho. Chegue-me o paninho dali do armário para tapar a marinada. Vá, menina, que eu tenho de lhes dizer dos moldes que ainda me partem qualquer coisa.

 

Às vezes, tenho medo que me ralhe.

 

- Depois cortamos as tirinhas de toucinho e fazemos a grelha com os paus do loureiro para a boca do alguidar, está bem?

                                                           

Não estás zangada comigo, Jacinta?

- E como haveria eu de estar zangada? A culpa é da velhice resmungona que aqui anda. Vamos por isto no fresquinho e toca a dar-lhe os moldes para o tapete.

 

Os sacos de sarapilheira com as folhas e as folhas das camélias, as camélias toldadas e escurecidas que ficam bem no meio que disfarça, o jasmim, as campânulas amarelas, os lilases, as pétalas de rosas coloridas, margaridas – serão os malmequeres? -, hortênsias imaturas, e outras que não estão aqui que são precisas, o perfume das mãos que as separam em geometrias prévias de molde de madeira. A seiva, o espargir da água que lhes atrasa o apodrecer e a doçura curva das mulheres a espalhar no chão a Primavera.

 

 - Não entendo porque não usam Kilins - sai a minha prima da nuvem de perfume e o seu espanto é genuíno e espanta. - Não escorregam. Os nómadas fazem as cáfilas passar por cima deles, para os espalmar, suponho. Aqui, é o mesmo.

 

Atira e traça a voluptuosidade de pronúncia francesa carregada, arrasta e rola as sílabas que não consegue moldar em português, prende a seda do cabelo com a fita Cartier, depois de proteger as pérolas dos brincos, e descalça, que não tem calçado para pisar tapetes de folhas de camélias, desliza e evapora-se.

 

- Ensinas-me a fazer o arroz, Jacinta?

- Na manhã da Páscoa, menina. Venha ter comigo muito cedo. Depois vamos ajudar aquelas tolas.  

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A Gaffe simbiótica

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.19

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Sei que a minha vida depende da agenda dos outros.
Trata-se de uma relação mais simbiótica do que parasitária. Forneço a possibilidade de me controlarem a banalidade e, em troca, oferecem-me a capacidade de os manipular devagarinho, quando as questões me parecem vitais para o meu equilíbrio interior naturalmente instável.


Pode parecer cínico, mas é muito cómodo.


É-me indiferente o facto de, ontem ao fim da tarde, me terem arrancado do Porto, com uma mala desordenada e aborrecida, me terem enfiado no carro e me terem informado, finalmente, que iria passar uns repousantes dias no Douro, antes de partir para sempre.

 

- Desta vez não haverá mais florinhas para regar aqui. A priminha garantirá que restarão apenas as da tua cabeça.

 

Aprendi que se torna muito mais saudável se me deixar levar em vez de espernear e me debater em nome de causas que não afectam o que realmente desejo.


A maior parte das vezes, o controlo que pensamos exercer sobre a vida dos outros, não passa de uma forma subtil de sermos manipulados por eles.


Acordei hoje com os latidos furibundos da sucessora de Bórgia, a cadela Cartier, e com o chilrear de umas coisas com penas e com bicos, a minha Jacinta trouxe-me o pequeno-almoço e na bandeja havia beijos e ternura para barrar o pão quente e a minha prima, futura agente dupla, está no jardim a cantar desenfreada Singing in the rain.


Tudo está correcto. Tenho apenas de verificar a consistência dos fios dos fantoches.     

 

Ilustração - Catrin Welz-Stein

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A Gaffe ao jantar

rabiscado pela Gaffe, em 01.04.19

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A partir do mar, subimos a rua do Padrão.
O meu rapagão cabisbaixo e amuado por não ter cedido ao seu desejo de jantar íntimo e eu pronto a flutar na música suave e na luminosiadade macia de um dos meus restaurantes favoritos. 
Encosto o meu ombro ao dele e aperto-lhe a mão. 
Ninguém na Praça de Liège. Ninguém nos caminhos do Passeio Alegre. Ninguém nos telhados do Hotel BoaVista. Ninguém nas ruas e nos becos.


Sobretudo ninguém na rua do Padrão. 

 

Sopa de mexilhões com açafrão e “croutons” de alho. 
Ovos com salmão fumado e caviar.

 

O rapagão tem os olhos pousados na toalha. Se os levantar, sei que milhares de pestanas negras farão sombra na ternura desse olhar. Está perdido, porque usa jeans demasiado gastos e puídos - e logo num dos meus restaurantes de eleição!
Tem uma boca carnuda, com lábios macios e quentes, ligeiramente salgados, e dentes perfeitos. 

 

Pato fumado fumado com ovos de codorniz. 
Caesar com salmão fumado.

 

O meu rapagão tem um imenso corpo moreno, quase chocolate brando, que gosto de fazer ondular. Tem peitorais longos, largos e fortes e que são de ferro se eu lhes tocar. Tem um traço de pêlo, uma estradinha, uma serpente, que nasce no umbigo e desce até me dizer onde começa o paraíso.

 

Robalo com algas e molho holandês. 
“Magret” de pato salpicado com vinagrete morno de hortelã.

 

A minha perna toca na dele. Olha para mim e tenta afastar-se, embaraçado. Durante todo o jantar procurou manter-se discreto, despercebido. Empurro a minha perna de modo a que ela encaixe no meio das pernas dele. O meu rapagão aperta os joelhos, aprisionando-me. Sorri, malicioso. 

 

“Tarte tatin” quente com natas batidas. 
Bolo de chocolate amanteigado.

 

A minha mão desce. Debaixo da mesa, no abrigo branco da toalha, toco-lhe na coxa. 
Pousado o guardanapo, o rapagão agarra-me nos dedos, domina-os e obriga-me a fechá-los ... em redor da conta. 

 

Bebemos àgua. 

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A Gaffe com saudades

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.19

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Lembro-me, era eu minúscula, de ver a minha Jacinta a tricotar.

 

Usava agulhas grossas e a lã era Dralon 5, resistente e duradoira.

Matizava, torcia, entrançava e entrelaçava pontos que inventava com os que tinha herdado. Como um maestro de duas batutas, construía melodias mansas e mornas que usávamos durante os Invernos.

Lembro-me que as peças tricotadas mantinham um vago aroma de gardénia, quase nada, quase tudo, e que as cores que povoavam, este perfume e estas peças, eram quase sempre densas, sólidas, luminosas, quentes e imprevistas, como se um pedaço de Verão se tivesse perdido no entretecer da malha.

 

Se olho agora o que nas ruas encarna o glamour que é o retorno assumido a um tempo tricotado, sei que, se abrir as gavetas da velha arca de mogno liso ao canto do quarto em que foi urdida a minha infância, o vago aroma a gardénia voltará a tremer nas minhas eternas malhas Dralon 5.

 

Mas é Primavera e há um ninho nas árvores. 

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A Gaffe das camélias

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.19

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As camélias começam a tombar.

Floresceram mordidas pela morte. Um rebordo decomposto, uma unha pisada podre em cada pétala, a cor de carne viva amortecida pelo quarto crescente da mordida.

 

A minha avó ao longe. Ao fundo da alameda. Ao longe branca nas ondas onduladas do cabelo. As camélias soltavam pétalas vermelhas no vestido preto da senhora.  

O meu avô ao lado.

Às vezes o braço pousava no vestido negro da senhora e havia pétalas vermelhas a tombar no gesto. A camélia no peito do meu avô não tinha rebordo morto. Floresceu num ápice, antes do voo do vento e do estancar da seiva.

 

Às vezes a minha avó sorria. Às vezes pousava a cabeça na camélia que o meu avô tinha pousada no ombro. Igual a que trazia no peito. Vermelha como um coração sem rebordo.

 

- Ah, menina! Gostavam tanto um do outro como se não tivessem as almas para salvar.  

 

As camélias mortas.

 

Às vezes a minha avó debruçada na alma que não tinha de salvar por amar tanto a dele que não tinha de ser salva.

Às vezes o gesto que corrigia a assimetria das pérolas no pescoço. Os dedos a aflorar o curvo das pérolas e as pétalas no chão, sem simetrias.

 

Às vezes o silêncio.

 

A alameda coberta de camélias e os meus avós ao longe de mãos dadas e o medo de não poderem morrer juntos.  

 

As camélias começaram a tombar.  

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A Gaffe nocturna

rabiscado pela Gaffe, em 04.02.19

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Recupero hoje uma memória.

Às vezes parece-me envelhecida, longínqua e atenuada pelo enrugar da espiral do tempo. Erro meu, que o amor é ardente e má é a fortuna.

Queria muito que fosse partilhada com o meu queridíssimo Fleuma, porque raros são os homens que me ensinam a chorar.

19-10-2014

 

Quando o meu avô morreu, a Lua chorou um choro baixo. Um fio fino e transparente de lágrimas que durou dois dias e duas noites só findo quando a minha avó lhe entregou a manta de lã que o meu avô usava para cobrir as pernas nas tardes do jardim mais frio.

A Bórgia foi arrastada para a jaula.

Não mais dormiu aos pés da cama. Deixou de entrar em casa, a não ser para farejar a cozinha à espera que alguém se comovesse com o olhar de súplica do monstro e lhe oferecesse a provar, à revelia de todos os conselhos, ordens e recomendações, um naco de carne que a Jacinta tempera com alho, vinho, cidra e ervas aromáticas.

Facilitou durante bastante tempo a entrada das visitas. Se antes se tornava um perigo tê-la solta quando na casa havia gente alheia aos seus domínios, era fácil depois fechar-lhe a porta e gradear o bicho.

 

Quando a Lua adoeceu, a Bórgia acordou prostrada. Chamaram-na e ela não veio.

Fomos esbaforidas e aflitas de encontro às velhas amigas.

 

- Deus nos valha, menina, que a cadela piorou tanto.

 

Bórgia.

A assassina doida que esfacelava móveis e esfarelava as carnes dos incautos, subitamente velha agora nos meus olhos, que velha é há tanto tempo aos olhos dos que a temem, perto da Lua entristecia. Ninguém a conseguiu retirar do lado da amiga.

 

Trouxemos o veterinário.

 

- Que tossiu sangue, Senhor Doutor. Piorou tanto!

 

O homem entrou para observar a Lua adoecida. Saiu depois inútil, desolado. Acompanhava-o a minha avó que em silêncio ouviu o veredicto. A minha querida Jacinta atrás, a tropeçar nas pedras e a amarfanhar com as mãos o avental e a dor.

 

Lua treme, inquieta. Tosse e cospe sangue.

Abre cavernas na minha garganta e faz o fel golfar enchendo tudo.

 

Eu ali de pé, ali cravada, muda, seca, hirta, ressequida?

Abro a porta e entro e de joelhos abraço a cadelinha, a beijo a soluçar.

A Bórgia a ganir muito de mansinho.  

Deixo de saber se é sangue ou se é o meu cabelo que se espalha na manta que foi do meu avô.

 

Lua morreu de manhãzinha.

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A Gaffe com lençóis brancos

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.19

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Eram brancos os jogos de lençóis que a Jacinta trazia todos os Sábados das arcas para os quartos de cima.

 

Brancos, sempre brancos, brancos que de tão brancos doíam.

Alguns tinham bordados a cheio na dobra que expunham. Flores ou frisos a ondular arabescos que as fronhas repetiam. Outros eram rendas. Entremeios urdidos à mão, brancos, brancos, no negrume de Inverno.

 

 - Vá brincar, menina. Vá apanhar sol e deixe trabalhar quem sabe.

 

A Jacinta abria as asas de lençóis sobre as camas como quem atira redes de pesca aos mares sossegados das manhãs de Sábado. Cheiravam bem essas manhãs. A linho lavado, a sabonete e a alfazema que a Jacinta guardava em saquinhos laçados com fitinhas de cetim nas arcas dos lençóis brancos a doer.

Ficava a ver aqueles pássaros largos de asas, a abrirem o breve voo sobre os ninhos. Fechava os olhos. Pelos olhos fechados aspirava o odor daquele esvoaçar lavado e de açucenas.

Quarto após quarto, após quarto, após quarto. Seguia-lhe os passos. Os lençóis brancos a dardejar bordados.

 

- Vá brincar lá para fora com os manos, menina!

 

A luz do lá fora pelas janelas. Reflectida no voo dos pássaros como penas. O cheiro a luz lavada e a saquinhos de alfazema.

 

- Ajude então com as fronhas, menina. Vá lá Deus saber porque é que o avozinho a deixa aqui, a andar atrás de mim - e sorria, parada por instantes, de mãos cruzadas no regaço de onde a ternura subia até aos olhos.  

 

Chorou neste Sábado.

Ouvi-lhe as lágrimas como lençóis abertos e doridos.

 

Entrei devagarinho no quarto e vi-a sentada na cama que foi da minha avó. De mãos em concha, uma por cima da outra, num abandono branco e envelhecido.

Tinha-se enganado. Foi sem querer. Nem sequer pensou. Não sabe como aconteceu aquilo. Foi o hábito. É a velhice, menina.

 

Chorava tanto.

 

Ajoelhei-me. De joelhos venero imagens santas.

Entrou ali para mudar lençóis que não se mudam, mudos os que ficaram inúteis como trapos, e ficou ali a desfraldar, a apalmar, a estender saudade.

 

- Faz-me tanta falta - treme. É frio.

 

Abro a gaveta. Retiro o xaile que a minha avó usava nos entardeceres mais ásperos de negritude em que as crianças não brincam lá fora.  

Sento-me na cama, pouso as minhas mãos na concha das mãos enrugadas da Jacinta e as duas cobertas pelo xaile, sorrimos baixinho, baixinho, baixinho, para não inquietar as lágrimas.

 

- Vá, Jacinta, anda. Eu ajudo com as fronhas.

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A Gaffe com alfinetes

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.19

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O camafeu de marfim está seguro ao ombro de forma desleal. O alfinete atravessa a alça do soutien nevado pelo tecido da camisa ténue.

A minha irmã usa os alfinetes de modo pérfido. Nunca se agarram ao que é mais evidente. Cravam-se na sombra. Espetam-se no escuro. Penetram o insuspeito.  


- Dizem que usas o poder de forma masculina - pico e só depois explico, socorrendo-me do que ouvi há muito tempo. 


Ergue os olhos pardos. Vejo cintilar as lâminas. Cruza as pernas demasiado altas, demasiado esguias, e faz rolar o silêncio devagar na baforada do fumo de um cigarro.  


- Ingénuas. Quando o poder é masculino, é também maricas. 

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A Gaffe pelo caminho

rabiscado pela Gaffe, em 03.01.19

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A manhã entra pelos interstícios das árvores e das pedras.

Madruga a neblina.

 

Era usual, de braço dado, caminhar com a minha avó pelos trilhos das camélias e dos bichos. Íamos postas em sossego. Às vezes, anotávamos as banalidades da terra. Uma flor que entretanto abrira, um pássaro que rasava a água, ou a gota de orvalho que gelava no cálice das mãos de uma estátua de pedra. Nada havia de transcendente nestes caminhares. Eramos terrenas e vulgares e era Inverno. Bastava.

 

Hoje caminhei com a minha mãe pelo trilho das camélias e dos bichos.

 

Há uma quase religiosidade na brandura com que a o braço me é dado, um milagre que filtra a decomposição do mundo, que revela apenas a luminosidade da floração do espaço, na forma tranquila, pacífica, provavelmente submissa, com que a minha mãe se move e me acompanha.

 

É nesta bonomia etérea que se revela a negação do poder. A minha mãe nunca possuiu a capacidade de subjugar, de exigir, de manipular ou de se edificar como matriarca. Nunca foi mais do que a senhora de um silêncio longo e apaziguador, nunca ambicionou ser mais do que a pausa no respirar de um texto e nesse cumprir de desiderato tornou-se a mais doce das criaturas que esvoaçam.

 

A imagem que retenho é a deste caminhar.

Um casaco de malha grossa, largo, de jacquard - cristais de neve beges e castanhos, sobrepostos, que a agasalham num cruzar deformador -, as calças cigarrete, os sapatos rasos, picotados, masculinos, de cordões, a camisola de gola alta – turtleneck, insiste -, o colar e o lenço de seda de cor queimada num nó desengonçado, alisam o conforto que reavemos depois das trovoadas.

 

Vou pelos interstícios das árvores e das pedras, como outrora de braço dado à minha avó. A mesma onda no cabelo, os mesmos brincos de pérolas, o mesmo olhar o voo dos pássaros a rasar a palma das estátuas.

 

Terrena e vulgar, então percebo que nunca caminhei tão perto da mais rara das origens do silêncio. O amor pelas coisas mais pequenas.  

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A Gaffe e o olhar de quem ama

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.19

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Gosto de olhar os olhos de quem amo.


Amo pouca gente, por isso não olho muitos olhares, mas quando vejo a textura secreta de uma íris amada, vejo galáxias inteiras de novos Universos.


A minha irmã tem os olhos grandes e rasgados, com uma cor indistinta, entre le chien et le loup diriam os franceses. Olha de soslaio quando está alerta e nos seus olhos há sempre uma chispa de lume atento e fulminante. São olhos luminosos, esperto e manhosos. Olhos de felino que ensaia o ataque. São olhos de traição que a conseguem trair inevitavelmente.

 

O meu irmão tem o olhar quase negro de tão azul profundo. Às vezes tenho dificuldade em distinguir a doçura de todos os contornos dos seus olhos cheios de ternura. São olhos tímidos e muitas vezes baixos. São olhos tão pacíficos que nos podemos banhar nus, lá dentro, sem qualquer receio. São olhos que se fecham, porque receiam brilhar demais e ofuscar quem entra. São olhos de alguém que se apaixona.

 

Os olhos do meu pai são de amêndoa. Amêndoa amarga. Gostam de ficar fechados a ouvir Brahams e detestam ser interrompidos. Olham bem de frente os inimigos, embora, às vezes, confundam as trincheiras. São olhos altivos e orgulhosos. São olhos mandões, rufiões e desordeiros. Olhos que pensam que me enganam. São olhos de iceberg já derretido, pronto a chocar com o Titanic dos nossos.


Os olhos da minha avó eram olhos tristes e arrastavam um azul de cinza tão cansado! Eram olhos que se perdiam se nos distraíssemos. Exigiam atenção. Eram olhos de perder e de encontrar. Nunca entendi aquele olhar que partia facilmente para outro lugar onde não cabemos, onde não somos recebidos nunca. Às vezes eram cruéis de tão distantes. Às vezes havia uma implacável distância dentro deles. A minha avó estava inteira no olhar que tinha.

 

Os olhos do meu avô eram ninhos. Sabíamos dos pássaros que os habitavam, mas apenas conhecíamos os seus voos.  


A minha mãe tem os olhos azuis claros.

Os olhos azuis claros.
Olhos azuis claros.

Azuis claros.         

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A Gaffe enlutada

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.19


ShapiroEstou de luto.

O meu amigo voou para longe arrastando a minha pobre alma para as cavernas da saudade.

 

A minha saudade é da cor da laranja que é a cor que chega por pensarmos nela, mas que não se instalou, de manto traçado, ainda no peito.

Dir-se-ia que arrendo quartos dentro do coração.

Os inquilinos que tenho parecem estar sempre de saída que mesmo temporária, porque os sei perenes, abre na alma a porta laranja da desolação.

 

Sinto-me de luto, como um monge escarlate na varanda amarela da tristeza.  

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A Gaffe a postos

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.18

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Está tudo pronto.

 

Sinto-me finalmente tranquila e capaz de me deliciar com o único rasgo de talento publicitário que me seduziu. Longe de historietas de ratazanas, longe de narrativas de famílias felizes e de duendes de pacotilha, deixo-me seduzir pelo anúncio de um carro. Um Mercedes escarlate que segue na cauda de um leque de tantos outros prateados, guiado pelo Pai Natal que trava a comitiva para que um dos presentes, um cachorrinho, possa pudicamente levantar a patita atrás de uma árvore. Uma ternura narrada de forma excelente e capaz de tocar todos os públicos.

 

Finalmente sou capaz de serenar.  

 

Está tudo pronto.

As decorações de Natal restringiram-se ao máximo. Nas jarras há troncos belíssimos de azevinho cortados da árvore que endoideceu e se agigantou encostada à parede da casa. O presépio pousado de novo no móvel de laca preta e a coroa de Natal, poderosa, a pesar toneladas, a encabeçar a lareira da sala onde se jantará. Foi necessário usar o prego fortíssimo que sustinha o espelho. É uma coroa maciça de porcelana branca, enorme, construída de pinhas e de folhas de carvalho entrelaçadas. Disseram-me que os dois elementos representavam as Boas-vindas e a Fidelidade. Nem sempre estão unidos. A parede nacarada atenua-lhe o impacto, mas sei que o fogo, mais tarde, lhe entregará reflexos dourados, ruivos e azulados.

 

A ementa preparou-a a Jacinta. Ninguém - jamais - se atreve a invadir-lhe as decisões culinárias.

 

Na minha frente, o meu Amigo lê.

Tem pousado no braço do cadeirão um volume grosso que vai consultando à medida que o livro que vai folheando origina dúvidas.
Mancha sempre o soalho de madeira com as botas sujas de jardim. Deixei de lhe pedir para ter cuidado. Ouço-o sempre pedir desculpa e arrancar a esfregona das mãos de quem limpa para envergonhado suprimir a falha. Vai voltar a sujar tudo de novo e vai voltar a suplicar perdão agarrado àquilo. Comporta-se como o Natal. Entra e macula com as botas o soalho da casa, senta-se depois na minha frente e entrega-me a mais surpreendente das serenidades, apaziguando o espaço preso nas folhas. Nas folhas de uma coroa de porcelana branca.

 

Começaram a chegar desde ontem.

A casa está em sossego, apesar de tudo.

 

A minha irmã chegará mais tarde. Minutos antes da ceia.

Travará o carro, abrirá a porta e deixará o perfume sair para alçar a pata na árvore endoidecida de azevinho.  

 

Fotografia - Niilas Nordenswan

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A Gaffe de granito

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.18

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Hoje não chove.

Há frio como granito.

 

Levanto a gola do casaco – longe do mar, marinheiro, de um azul grosso de fazenda em terra – e sento-me na pedra do banco que foi do meu avô, naquelas tardes de gelo em que apenas ficava a ouvir os passos dos fantasmas que o Domingos dizia haver nas pedras.

 

- Ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras. Sentimos latejar quando as tocamos.

 

Esta condescendência da morte alonga o tempo da memória e entrega ao inamovível a nitidez da presença do passado.

Olho, ao abrigo de um casaco sem moldura ou tempo, os rostos que vivem nas pedras e acredito no Domingos que é velho, velhíssimo, criança de tão sábio, e me diz que o tiritar das árvores é o som das palavras das pedras que trepam às copas, porque ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras e são as pedras que tecem o meu casaco azul de terra audível.    

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A Gaffe na sua vez

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.18

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Às vezes, apercebo-me que dentro dos seus olhos azulados existe um espeto. Um prego de saudade de algures, ou de alguém que não nomeia. Às vezes, encontro-lhe no silêncio que desenha com o dedo na superfície dos móveis, a brandura e a ausência de gente dentro do peito. Às vezes, descubro-lhe no cabelo de trigo limpo a trança destroçada da tristeza meiga que sem voz aprende a deslizar pelo chão como um cachorrinho amedrontado. Às vezes, vislumbro-lhe o brilho desmesurado, solto daquele orgulho infantil capaz de trucidar os frágeis, os pequenos, pequeninos. Às vezes, apercebo-me daquela melancolia não sei de onde vem, ou para onde vai.

 

Às vezes, faz lembrar hortênsias.

 

A minha sobrinha chega dentro de dias - o ciclo inicia-se -, para passar as férias do Natal no Douro. Antes dela, eu; antes de mim, a minha mãe; antes da minha mãe, a minha avó; antes da minha avó, o passado que é eterno e o passado antes deste, que assim é construída a casa de que sou reflexo.

 

Sei que fico à espera.

Ficaram à minha espera.

 

Agora é a minha vez de a ensinar a perscrutar a terra, a tocar o caule das hortênsias, a aflorar a água do lago, a deixar que as carpas brinquem com os dedos que ao de leve tocam nas escamas das asas do anjo de pedra debruçada; de lhe ensinar a ouvir o virar das páginas das árvores; de lhe ensinar a podar as sardinheiras – em bisel, meu amor, e sempre rente ao chão, que o chão as reconhece; de a fazer repousar nas almofadas das romãs e das maçãs abertas; de permitir que acaricie com a lentidão das patas dos insectos as black lace ainda em embrião; de a fazer entrar em casa como quem entra num corpo; de lhe contar dos avós, do bisavô, da bisavó e de mansinho tentar que a minha comoção se torne nevoeiro na cisterna.  

 

É a minha vez de lhe dizer que uma japoneira morre se ousarmos o transplante. É como viver dentro de um coração. Para de bater, se o desocupamos. É urgente que saiba que não se podem deslocar as árvores das camélias.

 

Depois, e só depois, deixar que a minha irmã lhe ensine como exigir que as jarras as recolham mortas.

 

Fotografia - orgulhosamente minha

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A Gaffe russa

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.18

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A esmagadora percepção da minha absurda leviandade, da minha tonta irresponsabilidade, do meu fútil viver e da minha vazia insignificância, chega de repente e deixa-me sozinha, inútil.

 

Tenho na mão o fino livro que retirei do móvel e a tempestade desabou, sem freio, destelhando a choupana que habito, rainha destronada de mim, senhora exilada de timbre no envelope, princesa imbecil de poentes desenhados.

A implacável certeza da minha incapacidade de me elevar ao patamar destas mulheres. Uma depois de outra, há tanto tempo.

 

O livro que se espera - pois que se olhou para os outros -, reflexos do pensado por senhores, perucas brancas empoadas e alma desbravadas de poeiras, varandas debruçadas sobre iluminismos, saltitos de gazela sobre palcos, sonetos de intricados versos ou tão somente a história de algum santo - tudo francês -, é a subliminar mensagem que - estou certa - se destina a mim, que gracejo, zombo e escarneço do que é meu, profundamente meu, sem eu saber, sem eu cuidar, sem eu de joelhos respeitar.

 

La mort de Ivan Ilitch de Lev Tolstói.

A estilhaçar a redoma de certezas do meu mundo.  

 

Imagem - Carolus-Duran

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