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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de granito

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.18

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Hoje não chove.

Há frio como granito.

 

Levanto a gola do casaco – longe do mar, marinheiro, de um azul grosso de fazenda em terra – e sento-me na pedra do banco que foi do meu avô, naquelas tardes de gelo em que apenas ficava a ouvir os passos dos fantasmas que o Domingos dizia haver nas pedras.

 

- Ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras. Sentimos latejar quando as tocamos.

 

Esta condescendência da morte alonga o tempo da memória e entrega ao inamovível a nitidez da presença do passado.

Olho, ao abrigo de um casaco sem moldura ou tempo, os rostos que vivem nas pedras e acredito no Domingos que é velho, velhíssimo, criança de tão sábio, e me diz que o tiritar das árvores é o som das palavras das pedras que trepam às copas, porque ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras e são as pedras que tecem o meu casaco azul de terra audível.    

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Gavetas:

A Gaffe na sua vez

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.18

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Às vezes, apercebo-me que dentro dos seus olhos azulados existe um espeto. Um prego de saudade de algures, ou de alguém que não nomeia. Às vezes, encontro-lhe no silêncio que desenha com o dedo na superfície dos móveis, a brandura e a ausência de gente dentro do peito. Às vezes, descubro-lhe no cabelo de trigo limpo a trança destroçada da tristeza meiga que sem voz aprende a deslizar pelo chão como um cachorrinho amedrontado. Às vezes, vislumbro-lhe o brilho desmesurado, solto daquele orgulho infantil capaz de trucidar os frágeis, os pequenos, pequeninos. Às vezes, apercebo-me daquela melancolia não sei de onde vem, ou para onde vai.

 

Às vezes, faz lembrar hortênsias.

 

A minha sobrinha chega dentro de dias - o ciclo inicia-se -, para passar as férias do Natal no Douro. Antes dela, eu; antes de mim, a minha mãe; antes da minha mãe, a minha avó; antes da minha avó, o passado que é eterno e o passado antes deste, que assim é construída a casa de que sou reflexo.

 

Sei que fico à espera.

Ficaram à minha espera.

 

Agora é a minha vez de a ensinar a perscrutar a terra, a tocar o caule das hortênsias, a aflorar a água do lago, a deixar que as carpas brinquem com os dedos que ao de leve tocam nas escamas das asas do anjo de pedra debruçada; de lhe ensinar a ouvir o virar das páginas das árvores; de lhe ensinar a podar as sardinheiras – em bisel, meu amor, e sempre rente ao chão, que o chão as reconhece; de a fazer repousar nas almofadas das romãs e das maçãs abertas; de permitir que acaricie com a lentidão das patas dos insectos as black lace ainda em embrião; de a fazer entrar em casa como quem entra num corpo; de lhe contar dos avós, do bisavô, da bisavó e de mansinho tentar que a minha comoção se torne nevoeiro na cisterna.  

 

É a minha vez de lhe dizer que uma japoneira morre se ousarmos o transplante. É como viver dentro de um coração. Para de bater, se o desocupamos. É urgente que saiba que não se podem deslocar as árvores das camélias.

 

Depois, e só depois, deixar que a minha irmã lhe ensine como exigir que as jarras as recolham mortas.

 

Fotografia - orgulhosamente minha

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A Gaffe russa

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.18

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A esmagadora percepção da minha absurda leviandade, da minha tonta irresponsabilidade, do meu fútil viver e da minha vazia insignificância, chega de repente e deixa-me sozinha, inútil.

 

Tenho na mão o fino livro que retirei do móvel e a tempestade desabou, sem freio, destelhando a choupana que habito, rainha destronada de mim, senhora exilada de timbre no envelope, princesa imbecil de poentes desenhados.

A implacável certeza da minha incapacidade de me elevar ao patamar destas mulheres. Uma depois de outra, há tanto tempo.

 

O livro que se espera - pois que se olhou para os outros -, reflexos do pensado por senhores, perucas brancas empoadas e alma desbravadas de poeiras, varandas debruçadas sobre iluminismos, saltitos de gazela sobre palcos, sonetos de intricados versos ou tão somente a história de algum santo - tudo francês -, é a subliminar mensagem que - estou certa - se destina a mim, que gracejo, zombo e escarneço do que é meu, profundamente meu, sem eu saber, sem eu cuidar, sem eu de joelhos respeitar.

 

La mort de Ivan Ilitch de Lev Tolstói.

A estilhaçar a redoma de certezas do meu mundo.  

 

Imagem - Carolus-Duran

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A Gaffe da trisavó

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.18

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A sala está à desamão. Talvez por isso tenha lesmado incólume.

 

A situação não é a mais favorável - como se habitar fosse conjuntura -, cravada num recanto da casa que ninguém pisa, voltada para um jardim que ninguém quer e que se vai matando em castanhos queimados de folhas inúteis. Duas árvores por servilizar arranham os vidros com os pregos dos troncos retorcidos e existe - já ninguém sabe onde - a imagem de pedra de um fauno que por trepadeiro pudor foi resguardado com mantos de silvas.

As portas nunca se fecharam, porque ninguém as quis abertas. Permaneceram todo o tempo numa espécie de limbo, por onde rastejava a pouca luz que emagrecia nas janelas entreabertas.

É uma sala feia que, embora espaçosa, parece mirrada pela quantidade de acicates, manigâncias e minúcias que retém e que nos confundem.    

 

Era a sala da minha trisavó.

 

Existe numa das paredes, condenado, um retrato de meio corpo da senhora, da autoria de um pintor menor, francês, sem história de arte, de provável metro e meio - o quadro, que do pintor não resta medição. O tempo fez estalar na tela arredondadas e distorcidas células, unindo-as num tecido invasor de um exército maldoso de linhas estrategas.

 

A retratada usa um vestido de saia de seda pesada escura esverdeada, corpo de mangas estreitas, com punhos de renda bege que lhe tocam as falanges e gola subida no mesmo entretecido. Uma mantilha azul enegrecido, bordada em tons de cobre, espalha-se no regaço. É uma mulher de cerca de trinta anos, de rosto redondo, olhos cinzentos, plácidos, amortecidos pela inabilidade do artista e cabeleira ruiva, densa, presa por adereços, ganchos e travessas que lhe escravizam os caracóis. Dizem que sou assustadoramente parecida com ela e talvez por isso a mantenham prisioneira na sala que ninguém quer ver ou habitar. Não consigo julgar.

 

Fomos eu e o meu Amigo, invadir - porque o meu gigante descobriu que a pequena biblioteca da sala se mantinha inviolada desde o desaparecimento da dona - a sonolência do espaço eivado de detalhes femininos, que sobrevoam a escolha dos móveis, pequenos, trabalhados, minuciosos, pormenorizados, quase rocambolescos, até ao poiso nos ramos de desbotadas flores que murcham nos padrões das almofadas e estofos de cadeiras.

A senhora olhou-nos e voltei a pasmar perante a clareza com que me atrevo a parecer-me com ela. Se o pobre e esquecido pintor me tivesse como modelo, no presente, ganharia alguns cobres livres de canseira, pois que podia exibir o retrato antigo, clamando ser o meu.  

Estupefacto, o meu bom Amigo petrifica.

- És tu. Até as mãos são as tuas!  

 

A mão esquerda maculada pelos dedos da raiz do envelhecer da tela toca o colo espartilhado e aflora o colar de pérolas que pertence à minha irmã, agora. A direita, pousado no regaço, segura um livro pequeno de capa de couro. A página está marcada por um dedo anelado e por, ao mesmo tempo, um marcador em ouro, punhal pequeno e fino que serviria para rasgar as folhas ainda unidas. Uma dobra da seda do vestido esconde parte do título do que lia. Livro de Horas, uma hagiografia, um romance permitido às senhoras mais letradas?

 

Mais do que esperado, foi o livro pintado o foco de toda a atenção do meu Gigante. Que livro seria? O que lia aquela mulher? Que obra escolheu para ser incluída no retrato? Foi escolha aleatória, ou teve propósito?

 

A lombada do livro estava escondida por uma onda de seda do vestido e a tela tinha estalado no lugar que provavelmente nos indicaria a pista mais certa, mas se o realismo do retrato tivesse sido completo, como assim se fez com o cenário que identifica a sala, a exígua biblioteca privada da senhora guardaria ainda a obra retratada.

O móvel vidrado contém um número de obras limitado, mas muito heterogéneo. Os livros foram claramente eleitos usando-se o critério traçado pelo coração.   

Os sonetos de Petrarca, os de Camões. Os de Shakespeare. Os sermões do Padre António Vieira. A Odisseia. Ovídio. Virgílio. Madame de Staël. Molière, Racine e Diderot ao lado de vários romances franceses sem qualquer valor e pouco mais, que ler era para homens.

A obra retratada estava ali. Minúscula e sufocada entre Encyclopédie de d’Alembert e Voltaire, Rousseau, e Montesquieu que deitados se sobrepunham.

 

O punhal, apenas de lata, sinaliza ainda a página que marcava no quadro.  

 

Eis a escolha da minha trisavó, com a lombada voltada para a madeira.

 

Durante todo o fim-de-semana procuramos a chave que abre a pequena biblioteca.

Encontramo-la ontem, já noite cerrada, numa das gavetas da secretária da biblioteca do meu avô, presa a uma etiqueta em papel amarelecido onde está escrito, em letra velha e gasta, apenas um nome: Claire.

 

Hoje, vamos abrir o que foi escurecido.

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A Gaffe à entrada da casa

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.18

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Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia uma alameda de vinhas despidas e um caminho de pedra calcada que teria de percorrer até chegar. Ao longe, e o longe era profundo, a minha avó parecia mais pequena do que realmente era. De casaco cinzento, comprido e tubular e lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, de seda, liso e limpo, que, emergindo do antracite do conjunto, a fazia parecer um archote. Permaneci quieta por momentos e depois comecei a andar com passinhos decididos.

 

Aproximava-se. Aproximava-me. 

 

Primeiro foram os seus olhos. Cinzentos, agudos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que eu. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O olhar da minha avó tinha dentro a minúcia de um exame que sabia que reprovaria. Era quase um olhar predador e eu julguei ser a caça. Antes da minha avó ter chegado completa - e era eu que andava -, já me tinha escondido dentro de mim.

 

No entanto, o seu amor absoluto foi-me entregue todo.

 

A sua capacidade para domar ou dominar todas as situações tornaram-na imprescindível e as suas certezas, os seus aforismos, as suas certeiras observações e as provas irrefutáveis da sua competência, fizeram com que a idolatrasse. Deslizava pela casa fora, muitas vezes dura, pronunciando apenas as palavras necessárias que inevitavelmente traduziam ordens, quase sempre meiga como a alvura do seu cabelo de ondas presas por travessões de tartaruga.  

 

Há dois dias, no lugar da minha avó, à entrada da casa, ao fundo da alameda agora abafada por mimosas, eu, de antracite e lenço de seda liso e limpo, amarelo queimado, vi-o chegar.

 

Aproximava-se o meu Amigo.

 

Primeiro os seus olhos, negros, densos, maciços e aguados, pesados de uma tristeza infinda que ninguém explica, como se sentissem sempre saudade dos archotes de outrora, de um tempo findo numa outra Era. Um olhar de sombras que nunca sabemos se são das pestanas ou das árvores que lhe crescem nas palavras.

Um olhar que o esconde dentro.

 

A sua capacidade para domar ou dominar é ínfima. Fragiliza-o, entrega-lhe uma ternura que advém da mais profunda compreensão do mundo e da pureza indiscritível dos eleitos, dos que deslizam pelo mundo com a alvura impossível dos cabelos negros como corvos.

 

À entrada da casa, existimos suspensos no tempo que passa a pensar. 

Eu, lá longe. Ele, agora. 

 

Heathcliff is me!    

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A Gaffe encarpada

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.18

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Foram decepadas as hortênsias. Em bisel, um golpe curto, quase rente ao chão.

A mágoa de as ver tolhidas pelo Inverno; a saudade dos globos de cor anil, azul-cobalto, enferrujados pelo frio e a tristeza do destino igual ao das sardinheiras de Espanha que eclodiram gigantes como astros de flores ensanguentadas, são amornecidas pelas promessas geométricas das Black Lace que pesam nas japoneiras, em segunda linha, de troncos retorcidos de tão velhos.

Em breve - o mais tardar, Fevereiro - serão o caminho da cisterna.

 

Agora não.

 

O caminho da cisterna é uma nudez entretecida de névoa e de gestos negros de raízes que rasgam a superfície da terra. É o parir do Inverno. Os dedos ríspidos de criaturas cegas pela geada das manhãs dos frios da terra que os gerou. Este estarrecido espanto de sentirmos o silêncio a abrir os interstícios deixados pela morte das pétalas.

O caminho da cisterna é labiríntico. Não pelo traçado que dele se fez, mas por estes dedos que se distendem e que se cravam depois nos lanços mais distantes.

 

Às vezes, há minúsculas passos de fantasmas nas águas que tombam nas ausências das sombras dos teixos. Às vezes, passa um pássaro enlouquecido pelos gritos dos pavões encharcados de frio. Às vezes, a casa é tão distante que nela não entramos sem ter os pés lanhados. Às vezes, a cisterna aberta em círculo cor de chumbo, estanca-nos a vida. Sentimos e há raízes, há dedos das raízes a crescer-nos nas veias, a trespassar-nos as veias, a seguir-nos nas veias.

Às vezes, acabamos por ser frio.

 

As carpas imóveis do lago longe, longe, tão longe daqui, abrem as guelras perto das asas do anjo de pedra.

 

Às vezes, abrem-se as pedras do lago do meu peito e dentro das raízes da cisterna voam carpas. 

 

Chega o Inverno. 

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A Gaffe coleccionadora

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.18

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No início das nossas adolescências, o meu avô perguntava-nos que colecção queríamos fazer.

Não se colocava a hipótese de não coleccionarmos o que quer que seja.

 

Sentava-se no cadeirão favorito, virado a Norte para ouvir o vento frio que uivava arrastado pelos socalcos, e tamborilando no braço de couro com os dedos finos e longuíssimos - um ruído seco, curto e confortável que nunca deixei de recordar -, inspeccionava as nossas escolhas, alterando alguns detalhes, aconselhando, guiando, e exaltando o coleccionismo como contributo para a selecção, estudo, organização, método, rigor, persistência e capacidade de preservação e mesmo de sobrevivência que, segundo o meu avô, deveriam pautar as nossas vidas futuras.  

Uma vez por mês, o meu avô fiscalizava o nosso trabalho. Ralhava-nos ou elogiava-nos, conforme o cuidado ou o desleixo do que tínhamos cuidado do obtido e fornecia-nos instrumentos que sustentavam e permitiam proteger o que tantas vezes nos desinteressava.  À medida que o tempo caminhava, estas vistorias iam rareando, até desaparecerem por completo, quando nos tornávamos maiorzinhos.  

 

A minha irmã escolheu coleccionar insectos.

Havia-os no jardim e foi fácil encontrar alguém que por ela os recolhia.

O meu avô sempre soube da pequena vigarice, mas, mesmo assim, tornava obrigatória a catalogação respectiva do espécime. Ofereceu-lhe a caixa de vidro onde era possível cravar os pobres bichos ainda vivos.

A minha irmã não se tornou uma entomóloga, mas adquiriu uma extraordinária mestria em alfinetar os outros.

 

O meu irmão, chegada a sua vez, escolheu coleccionar minerais.

A distinção entre estes e as rochas era difusa e muitas vezes complicada. O meu avô guiou-o e com a paciência dos sábios foi descobrindo com ele o sector onde, na biblioteca, morriam de tédio os volumes dedicados à mineralogia. A classificação e a catalogação eram igualmente obrigatórias e as caixas das amostras amontoam-se algures no sotão da casa.

O meu irmão não se tornou geólogo. É engenheiro físico o que significa que não sei o que faz. Suponho que é uma profissão que o obriga a viajar imenso e a apaixonar-se amiúde por nórdicas altíssimas, magras e ondulantes, sem qualquer rigidez ou característica mais rochosa do que as já esperadas.

 

Eu morria de medo.

Não sabia o que escolher. Não podia - e os deuses testemunham que não queria - repetir as preferências dos meus antecessores e nada havia que, ainda que vagamente, me interessasse, ou que estivesse logo ali à mão de semear.

 

O meu avô, tamborilando no braço de couro do cadeirão virado a Norte, na sala do vento Norte, com o Norte a uivar ameaças, declarou aberta a minha escolha e esperou quieto, atento, curioso, matreiro.

 

E eu escolhi.

Escolhi o que me pareceu tão fácil.

 

Palavras.

 

Escolhi coleccionar palavras.

 

Todas os meses - uma vez por mês -, o caderno grosso de capa preta que me ofereceu, era revisto.

Todos os dias dos meses guardava as palavras que nunca tinha ouvido antes, que nunca tinha lido antes, mas que me soavam a respirar, a sabores, a cheiros, a gente a chorar, a risos de gente, a sinos, a borboletas, a azul e a cor-de-laranja, a rosas bravias, a tristeza, a árvores de Outono, a folhas, a cães a ladrar, a cancelas a abrir, a veludo, a vidro, a estradas, a grutas, a linho, a trigo, a chuva, a saudade, a pombas, a rio, a mãe, a mel e todas as outras que desciam lentas para o meu coração.

 

O meu avô nunca me ajudou a decifrar o que cada uma tinha dentro. Sorria, fechava o caderno e segredava-me, muito perto do ouvido para que nada fugisse, que eu tinha a colecção mais difícil de todas.

 

Nunca preenchi o caderno grosso de capa preta.

Sempre soube que não valia a pena tentar.

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A Gaffe de S. Martinho

rabiscado pela Gaffe, em 12.11.18

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Depois de quase uma década de esquecimento, os festejos da noite de S. Martinho, neste recanto do Douro, saltaram do escuro orvalhado das sombras há uns - poucos -, anos, autorizados e patrocinados pela minha avó.

 

A minha irmã, sem ainda ter reunido a coragem para os anular, deixa que mais uma vez se espalhem na eira secundária e desactivada que foi coberta de telas, longe da casa e perto dos fogos de risos coloridos e de alma em fogareiro fumegante.

O cheiro a castanhas assadas, jamais suportado pela minha irmã - o estômago da gentil senhora, de extremos histéricos, entra em convulsões frente a castanhas e a chouriço assado -, não se coaduna com o seu Dior creme, crème de la crème. Desce, sustendo a respiração e abanando a mão em frente do nariz. Encaixa as pernas, o charme e o glamour no carro que a levará aos grandes chefs de pequenas doses de mundos diferentes, com hábitos menos aromáticos, mas que a minha irmã prefere, tentando depois recuperar as forças nas receitas durienses e o ar nas varandas solitárias do Douro anoitecido.

 

Eu fico.

 

Não há nada como um oportuno pedido de ajuda no planear da festa para que uma tímida ruiva tenha o prazer de enfrentar uma inevitável carga de abraços e de sorrisos contaminados por olhares marotos.

 

Juntos, eu e o Douro, sentimos que o peso da coroa é menor e que há sempre a hipótese de um abdicar sem que ninguém sinta a falta de um ceptro.

 

A minha presença não é completamente aceite.

O Douro comigo hesita, oscila e bamboleia. Não sabe se me quer, se não me quer. Quer beijar-me a alma, já rendido, mas esperar que de joelhos eu rasteje.

Sorrio e sei que sou demasiado tonta e insignificante, exageradamente colorida.

Facilita o facto de eu sugerir inocência, achada num qualquer socalco de abandono citadino, enfiada num blusão de malha amarrotada, de manta a cobrir-me os ombros que faz frio, e com uns jeans que já viram melhores dias.

Há o notório despertar de uma muito vaga ternura solidária ou de uma solidariedade ternurenta assente no facto de parecer tão desprovida e despojada como este povo para quem a hospitalidade é decisão absolutamente pessoal e pautada por critérios pouco compreensíveis, porque pouco objectivos e muito pouco claros.

A aparência, aqui, é tida como nota capital - como pena capital? - e é um dos elementos responsáveis pelo ostracismo a que é votado o que é estranho ou pela sua aceitação eufórica e entusiasta. No Douro, a primeira impressão tem grande valia e deixa marcas indeléveis nos costados do incauto. Somos amados ou olhados com uma desencorajadora falta de confiança logo no primeiro lance do avistar. Errada ou não, é desta sensação primária que parte o julgamento inteiro que nos condena ou iliba.

Comigo o Douro hesita. Não sabe se há-de amar, se ser amado. Não pode adivinhar, o Douro, que a estrangeira não lhe vislumbra no desfiar da paisagem o mais pequeno fio, o mais pequeno elo da corrente que faz do desamor prisão perpétua.

Não sabe, não pode adivinhar. Por isso hesita.

É nessa hesitação que vou ficando. É nesse balançar que vou permanecendo ilesa e impune, evitando a agressão das pedras cor de cinza e da terra escura torcida pelas vinhas nos olhos do Douro e nos da sua gente.

 

Alguém escreveu, talvez numa noite de S. Martinho mais ousado e mais bebido, que a qualidade de vida de uma população, mesmo até o seu nível cultural e civilizacional - agora é tão moderno que se diga -, se reflectia no estado dos seus dentes.

Se assim visto, o nível referente à qualidade de vida, se assim pensados os estados, ou estádios, culturais e civilizacionais, depressa concluímos que esta gente é a negação de qualquer dentista.

Não há dentes e mesmo quando enegrecidos vestígios se vislumbram, estão cravados em gengivas magoadas que por pouco tempo mais suportarão os tocos e mesmo quando na boca de alguns mais novos, adquirem colorações estranhas, como se os donos mascassem folhas de tabaco a toda a hora.

 

Mas os velhos cantam mesmo assim e há raparigas que riem risos brancos enquanto soltam canções tilintantes e rapazes que estalam a língua e abrem a boca de espanto luminoso enquanto penduram luminárias por entre os ramos das árvores mais baixas que abrigaram da chuva.

As raparigas, de rechonchudas curvaturas tigresse, sobretudos loiras oxigenadas, de nails arco-íris, cruzam os braços encaixando-os entre a barriga e as mamas. Cochicham, tilintam, retinem, coradas e ansiosas, com as pernas vagamente abertas, roliças, mornas, nervosas, suadas. Sorriem, descaradamente tímidas, e esperam os olhos dos rapazes que, sempre aos pares, dividem a coragem da aproximação. Não há subtis manobras. Os jovens machos, de narinas trémulas, de parietais rapados e occipitais escanhoados, com melenas lustrosas no topo da cabeça, de Adidas brancas a cintilar nos pés, de calças justas que acabam nos tornozelos e Kispos enfolados, sorvem os cheiros distinguindo o das fêmeas e seguem a pista. Alguns não vão saber nunca o poder que trazem nos corpos morenos e duros. Mostram o capado, mas de forma explícita, que de tão nua e crua, perde toda a força e reduz-se ao exibir dos músculos moldados pela força do trabalhar a terra. Não há inteligência na forma de usar os corpos forçados e tesos e fortes.

 

As condições estão mantidas:

- Nada mais soará para além da música com sabor a terra.

- O rancho bailará só até às duas da manhã.

- Nada de foguetes.

- Não se darão asas gigantes à multidão que se adivinha a voar picado.

- Haverá rígido controlo sobre os desmandos do vinho que escorrer e um domínio claro sobre a euforia tonta que toca aflitiva as raias do histérico quando a noite avança e dança demais.

 

Que se baile então, obedecendo. O frio é da terra e a terra é de noite cantando fogueiras. Que baile esta gente, bailando no meio das quadras brejeiras. Quadrados, quadrículas marcadas no chão - não vá ser pisado pudor ou decência - com os aguçados lápis azuis dos olhos das velhas que sentadas vão roendo a carne que sabe a castanhas e sorvendo o vinho como a terra água.

Que se baile então debaixo de lâmpadas fracas de cores bem vistosas suspensas por fios cruzados, confusos, comigo perdida nos traços que fazem na palma da noite.

Que baile este povo sisudo e fechado em frente a uma ruiva de olhos pasmados que morre de inveja por não saber ser a festa na aldeia quando o pulsar é terra que dança; uma ruiva que se esgota numa dança de manta nos ombros a tiritar de frio, sem luz e sem brilho de rua em Paris.

 

Que baile este povo por saber que o Inverno é o baile que gela uma terra escura, mas que é também a dança que se quer largada, porque é uma espera do tempo do colorir das uvas.

 

Foto - Piotr Kowalik

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A Gaffe no banco de trás

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.18

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Até à auto-estrada o caminho é de buracos e curvas apertadas e estreitas.

 

A mulher ao lado do condutor acomoda-se no banco de forma a minorar o transtorno dos solavancos. Usa o cabelo apanhado por um lenço de seda. Na terra havia apenas um cabeleireiro, um hair stylist, chamado Vitinho, que levava quatro euros e meio por lavar e pentear. Jamais a indignada cabeleira seria entregue a manápulas que, segundo lhe reza a história dos outros, de tão baratas não podem ser perfeitas.

Está em silêncio. O condutor olha-a de soslaio. Vê-a retirar da carteira a cigarrilha.

 

- Não podes fumar aqui - diz o rapaz.

- Vamos ultrapassar a Sharon Stone e abrir a janela do teu lado.

 

Acende o cigarro e espalha o fumo do primeiro travo como se fosse urgente o nevoeiro para disfarçar imperfeições que não existem.

- A tua agressividade é de uma inutilidade confrangedora.

A mulher permanece calada. O fumo do cigarro a esvair-se.

 

- Que foi agora?

- Estou a imaginar a tua frase dita pela Eunice Munoz vestida de freira, encenada pelo Diogo Infante.

- Viste a peça? Sempre achei que fosses mais Ionesco.

- No máximo Brecht.

 

Calam-se.

 

São cúmplices há demasiado tempo e o silêncio é permito sem constrangimentos entre os dois. Ambos reconhecem o que é inútil e o rapaz percebeu há muito tempo que a mulher manipula as decisões do clã de forma insuspeita, mas irrepreensivelmente eficaz. Ela sabe que o homem que agora tossica de forma irritante repleto de fumo, resiste às investidas do touro que é solto quando nas arenas o público o exige.

 

Seduzem os dois da mesma forma. Espiando a vítima. Preparando o lugar da emboscada e conseguem suportar a espera, aninhados contra o vento, rasteiros, rasando o traiçoeiro, atentos a mais ínfima distracção daqueles que desejam e, na altura certa, escolhem o lugar exacto, o desacautelado movimento, o mais desprevenido gesto, o sítio, a veia, a artéria, o órgão onde cravar as garras.

 

Usam, os dois, um egoísmo exacerbado como arma, incontrolável e indomado.

 

É a força que provém desse egoísmo que os torna insensíveis à dor dos seduzidos e lhes apaga, anula e incapacita a urgência que é sentir o padecer dos outros como se deles fosse e os tocasse. São dois animais unidos pela única vontade de possuir por inteiro o que desejam. Esta é razão da indiferença absurda com que olham as vidas dos que não lhes acicatam apetites.

 

Nenhuma bandeira, pendão ou insígnia, nenhuma causa, partido ou revolta os irá motivar. São criaturas ímpias, sem nada que os force a erguer barricadas e a içar a voz, em forma de espada, em nome de alguém.

O rapaz entra na derradeira curva.

Vê o mar.

 

- Devíamos ser amantes.

A mulher hesita. Desvia o olhar e acende outro cigarro.

- Seria incesto, creio eu.

- Eu gosto do pecado. Até a palavra me seduz.

- Eu gosto de pecar, mas é mais sedutor ficar a desejar-te.

 

Ao longe, no banco de trás, assim narrados, os meus irmãos são bem mais fáceis de entender.

 

Na foto - Bozena Jelcic

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A Gaffe de mantilha

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.18

 

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Nas tardes vagarosas de frio de Outono, íamos devagar, de braço dado devagar, pelo trilho da cisterna.

 

A minha avó cruzava a mantilha, protegendo o pescoço do assobio frágil da corrente de ar e recomendava cautela com os resfriados, enquanto retocava as ondas brancas do cabelo seguras por marés de tartaruga que a brisa breve descida das árvores ia maculando de brilhos e de invisíveis movimentos.

Caminhávamos pelo trilho estreito atapetado de ruivas e ferruginosas réstias da estação perdida, ladeadas por novelos de hortênsias bojudas que anilavam em agonias densas toldando o caminho de tombadas hastes dignas a morrer caladas. A minha avó pedia que as lancetassem para acabar de vez com a dor daquele fim. O Domingos suportava-lhes depois os corpos defuntos, trasladando-os para os cemitérios das jarras.

 

O caminho era longo, como que lavado em lágrimas.

 

Os dois teixos velhos retorcidos recitavam os sons da água. Só depois de sentirmos os olhos que deles pesavam sobre nós, avaliando o que  perturbava a doçura do fio de água vigiado, é que autorizadas estávamos a ouvir o estalar do chão de folhas, o arrepio dos pássaros, o estremecimento das agulhas dos pinheiros mansos, o último voo dos últimos insectos e as patas das formigas a preparar a sonolência de rainhas.

 

O círculo de água abria-se então. De uma palidez imensa. Quieta. Com céus dentro. Céus enferrujados pelas sombras da ruiva paisagem moribunda que se refletia na brandura impávida da cisterna, óxido de prata.

Sentávamo-nos no banco de pedra e esperávamos.

Emudecíamos. Era infinito.

O tempo oscilava na cisterna. O fio de água afilado era o tempo que escorria sem ruído. Esperávamos a ténue teia das ondas do encontro do tempo com a pele polida da cisterna.

A minha avó pousava as mãos nas minhas.

 

- Agora vamos, minha querida. Já fizemos demasiado barulho.

 

Vou agora sozinha pelo trilho da cisterna.

Ladeada por novelos de hortênsias que o Domingos entregará à morte arroxeada presa às jarras.

Retoco o meu cabelo ruivo seguro pelas marés das folhas que tombaram e pouso as minhas mãos na memória das mãos da minha avó.

O tempo oscila na mantilha no pescoço de água da cisterna.

 

Agora vamos, avó. Ainda há tempo para o silêncio.     

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A Gaffe sombria

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Via-os passar iluminados pelo calor.

Ficava parada a observar-lhes as sombras que se contorciam nas pedras, mais maleáveis ainda que os corpos que as deixavam escapar. Sempre me pareceram mais frescas, as sombras, mas talvez fosse dos vidros frios onde me fechava para as ver atravessar. Talvez a dependência da luz as arrefecesse. Talvez a percepção da inexistência daquelas manchas na ausência do brilho gerador, me fizesse acreditar que não me afligiam, escaldando como os corpos.

Inspiravam-me confiança, aquelas sombras.

 

Dependo de sombras.

Dependo demasiado daqueles que me asseguram um frio de abrigo quando a luz se enfurece.


As ausências da minha irmã e do meu irmão provocam-me uma sensação de desabrigo e de falta de ar que controlo mal.
O meu irmão tem olhos com paisagens retiradas do rio, mas tem também obscuridades de fúria e desalmamento que se estendem pelas ruas como negritudes. Os abismos da sua alma, que surgem subitamente e subitamente aos nossos pés se abrem, dão-me a sensação angustiante de queda e de abandono, mas, em simultâneo, abrigam-me e turvam ameaças.
A minha irmã tem alma veneziana. Canais de pedras húmidas e praças sombreadas. Há gôndolas e palácios de claridades entrançadas, mas o escuro afunda os alicerces e é neles que encontro o meu esconderijo.


Dependo destas sombras de praças deitadas sobre a luz que passa.


A minha irmã e o meu irmão e a sombra das águas quando os dois se juntam para me abrigar.

Nada mais é meu. 

 

Fotografia - Alair Gomes

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A Gaffe apaziguada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.18

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O calor desabou.

 

Há duas semanas que sentia que poderia se me calasse passar despercebida e escapar às labaredas.

Sentava-se num dos bancos de pedra que rodeiam a cisterna e ficava quieta a ouvir a sombra a trepar pelas árvores frias. Começava a erguer-se do chão, tingindo-o de cinzento. Alastrava até encher a água de chumbo picotado pelo vermelho das carpas asfixiadas que vinham abrir a boca à superfície. Depois, como bicho insidioso, a sombra enlaçava os troncos dos teixos. Sentia o barulho rumorejante desse trepar irreversível.

As mãos da sombra são frias. Tocavam-me nos pés, nas mãos, na boca, e imobilizavam as palavras e os gestos e mesmo o toque ínfimo do fio de água que alimenta a cisterna se estilhaçava na pele líquida com a invisibilidade da finitude. Mergulhava nesta descoloração com a beatitude dos que desistem, com a aceitação dos suicidas e deixava que a consciência da minha morte crescesse indolor.

 

Dentro de mim, a morte vai crescendo igual à sombra da cisterna e a placidez deste facto tranquiliza-me, como me apazigua a sombra a crescer nos teixos frios.   

   

Agora o calor desabou e um pavão destrói a obscuridade com o grito de jóias estridentes.  

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A Gaffe com sotaque

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18

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- Como é possível que ajuizes alguém de modo tão negativo apenas porque tem sotaque?! - acuso muito indignada a superficialidade da minha irmã que recusou sem apelo nem agravo e sem dados de maior, a não ser o seu sotaque cerrado - fantochado de modo bastante cruel -, a candidatura de um jovem arquitecto portuense.

 

- Não. Erro teu, minha cara, eu faça julgamentos muito antes de eles abrirem a boca.

És tu que o condenas dessa forma ao pensares que fui capaz dessa tolice.

 

Imagem - Melchior-Paul von Deschwanden

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A Gaffe pinoqueiresca

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.18

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Estendida na cama, de barriga para o ar, perninha alçada e mãos a servir de almofada, repelta de glamour, hesitava eu em reflectir sobre a Teoria das Partículas e o aumento do PIB no 3º anel, quando o rapagão se vira, apoia a cabecinha numa das mãos e desata a observar-me.

 

Olhei de lado, procurando não fazer muito barulho. Podia ser que o rapaz tivesse petrificado. Seria bastante agradável, em todos os aspectos.

 

- Tens uns olhos gigantes - murmura.

Foi neste exacto instante que me lembrei do atarracado, rechonchudo e irritante Capuchinho Vermelho, a saltaricar pela floresta, prontinho a ser comido.

- Assim cabes todo dentro deles - rosnei eu, através de um sorrisinho amarelo pastel.

- A tua boca é tão perfeita - continuou, ainda com os bolinhos no cesto.

- É só porque tu a beijas - mostrei os dentes desta vez. Brancos de neve. 

- Amo-te  - saltitou o Bambi.

 

Virei-me e obriguei-o a mentir mais.

Prefiro o Pinóquio.

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A Gaffe de Pessoa

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

 

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

 

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

 

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.

Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

 

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

 

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.

Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

 

- O melhor do mundo são as crianças.

 

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

 

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

 

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.  

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