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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe encarpada

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.18

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Foram decepadas as hortências. Em bisel, um golpe curto, quase rente ao chão.

A mágoa de as ver tolhidas pelo Inverno; a saudade dos globos de cor anil, azul-cobalto, enferrujados pelo frio e a tristeza do destino igual ao das sardinheiras de Espanha que eclodiram gigantes como astros de flores ensanguentadas, são amornecidas pelas promessas geométricas das Black Lace que pesam nas japoneiras, em segunda linha, de troncos retorcidos de tão velhos.

Em breve - o mais tardar, Fevereiro - serão o caminho da cisterna.

 

Agora não.

 

O caminho da cisterna é uma nudez entretecida de névoa e de gestos negros de raízes que rasgam a superfície da terra. É o parir do Inverno. Os dedos ríspidos de criaturas cegas pela geada das manhãs dos frios da terra que os gerou. Este estarrecido espanto de sentirmos o silêncio a abrir os interstícios deixados pela morte das pétalas.

O caminho da cisterna é labiríntico. Não pelo traçado que dele se fez, mas por estes dedos que se distendem e que se cravam depois nos lanços mais distantes.

 

Às vezes, há minúsculas passos de fantasmas nas águas que tombam nas ausências das sombras dos teixos. Às vezes, passa um pássaro enlouquecido pelos gritos dos pavões encharcados de frio. Às vezes, a casa é tão distante que nela não entramos sem ter os pés lanhados. Às vezes, a cisterna aberta em círculo cor de chumbo, estanca-nos a vida. Sentimos e há raízes, há dedos das raízes a crescer-nos nas veias, a trespassar-nos as veias, a seguir-nos nas veias.

Às vezes, acabamos por ser frio.

 

As carpas imóveis do lago longe, longe, tão longe daqui, abrem as guelras perto das asas do anjo de pedra.

 

Às vezes, abrem-se as pedras do lago do meu peito e dentro das raízes da cisterna voam carpas. 

 

Chega o Inverno. 

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A Gaffe coleccionadora

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.18

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No início das nossas adolescências, o meu avô perguntava-nos que colecção queríamos fazer.

Não se colocava a hipótese de não coleccionarmos o que quer que seja.

 

Sentava-se no cadeirão favorito, virado a Norte para ouvir o vento frio que uivava arrastado pelos socalcos, e tamborilando no braço de couro com os dedos finos e longuíssimos - um ruído seco, curto e confortável que nunca deixei de recordar -, inspeccionava as nossas escolhas, alterando alguns detalhes, aconselhando, guiando, e exaltando o coleccionismo como contributo para a selecção, estudo, organização, método, rigor, persistência e capacidade de preservação e mesmo de sobrevivência que, segundo o meu avô, deveriam pautar as nossas vidas futuras.  

Uma vez por mês, o meu avô fiscalizava o nosso trabalho. Ralhava-nos ou elogiava-nos, conforme o cuidado ou o desleixo do que tínhamos cuidado do obtido e fornecia-nos instrumentos que sustentavam e permitiam proteger o que tantas vezes nos desinteressava.  À medida que o tempo caminhava, estas vistorias iam rareando, até desaparecerem por completo, quando nos tornávamos maiorzinhos.  

 

A minha irmã escolheu coleccionar insectos.

Havia-os no jardim e foi fácil encontrar alguém que por ela os recolhia.

O meu avô sempre soube da pequena vigarice, mas, mesmo assim, tornava obrigatória a catalogação respectiva do espécime. Ofereceu-lhe a caixa de vidro onde era possível cravar os pobres bichos ainda vivos.

A minha irmã não se tornou uma entomóloga, mas adquiriu uma extraordinária mestria em alfinetar os outros.

 

O meu irmão, chegada a sua vez, escolheu coleccionar minerais.

A distinção entre estes e as rochas era difusa e muitas vezes complicada. O meu avô guiou-o e com a paciência dos sábios foi descobrindo com ele o sector onde, na biblioteca, morriam de tédio os volumes dedicados à mineralogia. A classificação e a catalogação eram igualmente obrigatórias e as caixas das amostras amontoam-se algures no sotão da casa.

O meu irmão não se tornou geólogo. É engenheiro físico o que significa que não sei o que faz. Suponho que é uma profissão que o obriga a viajar imenso e a apaixonar-se amiúde por nórdicas altíssimas, magras e ondulantes, sem qualquer rigidez ou característica mais rochosa do que as já esperadas.

 

Eu morria de medo.

Não sabia o que escolher. Não podia - e os deuses testemunham que não queria - repetir as preferências dos meus antecessores e nada havia que, ainda que vagamente, me interessasse, ou que estivesse logo ali à mão de semear.

 

O meu avô, tamborilando no braço de couro do cadeirão virado a Norte, na sala do vento Norte, com o Norte a uivar ameaças, declarou aberta a minha escolha e esperou quieto, atento, curioso, matreiro.

 

E eu escolhi.

Escolhi o que me pareceu tão fácil.

 

Palavras.

 

Escolhi coleccionar palavras.

 

Todas os meses - uma vez por mês -, o caderno grosso de capa preta que me ofereceu, era revisto.

Todos os dias dos meses guardava as palavras que nunca tinha ouvido antes, que nunca tinha lido antes, mas que me soavam a respirar, a sabores, a cheiros, a gente a chorar, a risos de gente, a sinos, a borboletas, a azul e a cor-de-laranja, a rosas bravias, a tristeza, a árvores de Outono, a folhas, a cães a ladrar, a cancelas a abrir, a veludo, a vidro, a estradas, a grutas, a linho, a trigo, a chuva, a saudade, a pombas, a rio, a mãe, a mel e todas as outras que desciam lentas para o meu coração.

 

O meu avô nunca me ajudou a decifrar o que cada uma tinha dentro. Sorria, fechava o caderno e segredava-me, muito perto do ouvido para que nada fugisse, que eu tinha a colecção mais difícil de todas.

 

Nunca preenchi o caderno grosso de capa preta.

Sempre soube que não valia a pena tentar.

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A Gaffe de S. Martinho

rabiscado pela Gaffe, em 12.11.18

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Depois de quase uma década de esquecimento, os festejos da noite de S. Martinho, neste recanto do Douro, saltaram do escuro orvalhado das sombras há uns - poucos -, anos, autorizados e patrocinados pela minha avó.

 

A minha irmã, sem ainda ter reunido a coragem para os anular, deixa que mais uma vez se espalhem na eira secundária e desactivada que foi coberta de telas, longe da casa e perto dos fogos de risos coloridos e de alma em fogareiro fumegante.

O cheiro a castanhas assadas, jamais suportado pela minha irmã - o estômago da gentil senhora, de extremos histéricos, entra em convulsões frente a castanhas e a chouriço assado -, não se coaduna com o seu Dior creme, crème de la crème. Desce, sustendo a respiração e abanando a mão em frente do nariz. Encaixa as pernas, o charme e o glamour no carro que a levará aos grandes chefs de pequenas doses de mundos diferentes, com hábitos menos aromáticos, mas que a minha irmã prefere, tentando depois recuperar as forças nas receitas durienses e o ar nas varandas solitárias do Douro anoitecido.

 

Eu fico.

 

Não há nada como um oportuno pedido de ajuda no planear da festa para que uma tímida ruiva tenha o prazer de enfrentar uma inevitável carga de abraços e de sorrisos contaminados por olhares marotos.

 

Juntos, eu e o Douro, sentimos que o peso da coroa é menor e que há sempre a hipótese de um abdicar sem que ninguém sinta a falta de um ceptro.

 

A minha presença não é completamente aceite.

O Douro comigo hesita, oscila e bamboleia. Não sabe se me quer, se não me quer. Quer beijar-me a alma, já rendido, mas esperar que de joelhos eu rasteje.

Sorrio e sei que sou demasiado tonta e insignificante, exageradamente colorida.

Facilita o facto de eu sugerir inocência, achada num qualquer socalco de abandono citadino, enfiada num blusão de malha amarrotada, de manta a cobrir-me os ombros que faz frio, e com uns jeans que já viram melhores dias.

Há o notório despertar de uma muito vaga ternura solidária ou de uma solidariedade ternurenta assente no facto de parecer tão desprovida e despojada como este povo para quem a hospitalidade é decisão absolutamente pessoal e pautada por critérios pouco compreensíveis, porque pouco objectivos e muito pouco claros.

A aparência, aqui, é tida como nota capital - como pena capital? - e é um dos elementos responsáveis pelo ostracismo a que é votado o que é estranho ou pela sua aceitação eufórica e entusiasta. No Douro, a primeira impressão tem grande valia e deixa marcas indeléveis nos costados do incauto. Somos amados ou olhados com uma desencorajadora falta de confiança logo no primeiro lance do avistar. Errada ou não, é desta sensação primária que parte o julgamento inteiro que nos condena ou iliba.

Comigo o Douro hesita. Não sabe se há-de amar, se ser amado. Não pode adivinhar, o Douro, que a estrangeira não lhe vislumbra no desfiar da paisagem o mais pequeno fio, o mais pequeno elo da corrente que faz do desamor prisão perpétua.

Não sabe, não pode adivinhar. Por isso hesita.

É nessa hesitação que vou ficando. É nesse balançar que vou permanecendo ilesa e impune, evitando a agressão das pedras cor de cinza e da terra escura torcida pelas vinhas nos olhos do Douro e nos da sua gente.

 

Alguém escreveu, talvez numa noite de S. Martinho mais ousado e mais bebido, que a qualidade de vida de uma população, mesmo até o seu nível cultural e civilizacional - agora é tão moderno que se diga -, se reflectia no estado dos seus dentes.

Se assim visto, o nível referente à qualidade de vida, se assim pensados os estados, ou estádios, culturais e civilizacionais, depressa concluímos que esta gente é a negação de qualquer dentista.

Não há dentes e mesmo quando enegrecidos vestígios se vislumbram, estão cravados em gengivas magoadas que por pouco tempo mais suportarão os tocos e mesmo quando na boca de alguns mais novos, adquirem colorações estranhas, como se os donos mascassem folhas de tabaco a toda a hora.

 

Mas os velhos cantam mesmo assim e há raparigas que riem risos brancos enquanto soltam canções tilintantes e rapazes que estalam a língua e abrem a boca de espanto luminoso enquanto penduram luminárias por entre os ramos das árvores mais baixas que abrigaram da chuva.

As raparigas, de rechonchudas curvaturas tigresse, sobretudos loiras oxigenadas, de nails arco-íris, cruzam os braços encaixando-os entre a barriga e as mamas. Cochicham, tilintam, retinem, coradas e ansiosas, com as pernas vagamente abertas, roliças, mornas, nervosas, suadas. Sorriem, descaradamente tímidas, e esperam os olhos dos rapazes que, sempre aos pares, dividem a coragem da aproximação. Não há subtis manobras. Os jovens machos, de narinas trémulas, de parietais rapados e occipitais escanhoados, com melenas lustrosas no topo da cabeça, de Adidas brancas a cintilar nos pés, de calças justas que acabam nos tornozelos e Kispos enfolados, sorvem os cheiros distinguindo o das fêmeas e seguem a pista. Alguns não vão saber nunca o poder que trazem nos corpos morenos e duros. Mostram o capado, mas de forma explícita, que de tão nua e crua, perde toda a força e reduz-se ao exibir dos músculos moldados pela força do trabalhar a terra. Não há inteligência na forma de usar os corpos forçados e tesos e fortes.

 

As condições estão mantidas:

- Nada mais soará para além da música com sabor a terra.

- O rancho bailará só até às duas da manhã.

- Nada de foguetes.

- Não se darão asas gigantes à multidão que se adivinha a voar picado.

- Haverá rígido controlo sobre os desmandos do vinho que escorrer e um domínio claro sobre a euforia tonta que toca aflitiva as raias do histérico quando a noite avança e dança demais.

 

Que se baile então, obedecendo. O frio é da terra e a terra é de noite cantando fogueiras. Que baile esta gente, bailando no meio das quadras brejeiras. Quadrados, quadrículas marcadas no chão - não vá ser pisado pudor ou decência - com os aguçados lápis azuis dos olhos das velhas que sentadas vão roendo a carne que sabe a castanhas e sorvendo o vinho como a terra água.

Que se baile então debaixo de lâmpadas fracas de cores bem vistosas suspensas por fios cruzados, confusos, comigo perdida nos traços que fazem na palma da noite.

Que baile este povo sisudo e fechado em frente a uma ruiva de olhos pasmados que morre de inveja por não saber ser a festa na aldeia quando o pulsar é terra que dança; uma ruiva que se esgota numa dança de manta nos ombros a tiritar de frio, sem luz e sem brilho de rua em Paris.

 

Que baile este povo por saber que o Inverno é o baile que gela uma terra escura, mas que é também a dança que se quer largada, porque é uma espera do tempo do colorir das uvas.

 

Foto - Piotr Kowalik

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A Gaffe no banco de trás

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.18

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Até à auto-estrada o caminho é de buracos e curvas apertadas e estreitas.

 

A mulher ao lado do condutor acomoda-se no banco de forma a minorar o transtorno dos solavancos. Usa o cabelo apanhado por um lenço de seda. Na terra havia apenas um cabeleireiro, um hair stylist, chamado Vitinho, que levava quatro euros e meio por lavar e pentear. Jamais a indignada cabeleira seria entregue a manápulas que, segundo lhe reza a história dos outros, de tão baratas não podem ser perfeitas.

Está em silêncio. O condutor olha-a de soslaio. Vê-a retirar da carteira a cigarrilha.

 

- Não podes fumar aqui - diz o rapaz.

- Vamos ultrapassar a Sharon Stone e abrir a janela do teu lado.

 

Acende o cigarro e espalha o fumo do primeiro travo como se fosse urgente o nevoeiro para disfarçar imperfeições que não existem.

- A tua agressividade é de uma inutilidade confrangedora.

A mulher permanece calada. O fumo do cigarro a esvair-se.

 

- Que foi agora?

- Estou a imaginar a tua frase dita pela Eunice Munoz vestida de freira, encenada pelo Diogo Infante.

- Viste a peça? Sempre achei que fosses mais Ionesco.

- No máximo Brecht.

 

Calam-se.

 

São cúmplices há demasiado tempo e o silêncio é permito sem constrangimentos entre os dois. Ambos reconhecem o que é inútil e o rapaz percebeu há muito tempo que a mulher manipula as decisões do clã de forma insuspeita, mas irrepreensivelmente eficaz. Ela sabe que o homem que agora tossica de forma irritante repleto de fumo, resiste às investidas do touro que é solto quando nas arenas o público o exige.

 

Seduzem os dois da mesma forma. Espiando a vítima. Preparando o lugar da emboscada e conseguem suportar a espera, aninhados contra o vento, rasteiros, rasando o traiçoeiro, atentos a mais ínfima distracção daqueles que desejam e, na altura certa, escolhem o lugar exacto, o desacautelado movimento, o mais desprevenido gesto, o sítio, a veia, a artéria, o órgão onde cravar as garras.

 

Usam, os dois, um egoísmo exacerbado como arma, incontrolável e indomado.

 

É a força que provém desse egoísmo que os torna insensíveis à dor dos seduzidos e lhes apaga, anula e incapacita a urgência que é sentir o padecer dos outros como se deles fosse e os tocasse. São dois animais unidos pela única vontade de possuir por inteiro o que desejam. Esta é razão da indiferença absurda com que olham as vidas dos que não lhes acicatam apetites.

 

Nenhuma bandeira, pendão ou insígnia, nenhuma causa, partido ou revolta os irá motivar. São criaturas ímpias, sem nada que os force a erguer barricadas e a içar a voz, em forma de espada, em nome de alguém.

O rapaz entra na derradeira curva.

Vê o mar.

 

- Devíamos ser amantes.

A mulher hesita. Desvia o olhar e acende outro cigarro.

- Seria incesto, creio eu.

- Eu gosto do pecado. Até a palavra me seduz.

- Eu gosto de pecar, mas é mais sedutor ficar a desejar-te.

 

Ao longe, no banco de trás, assim narrados, os meus irmãos são bem mais fáceis de entender.

 

Na foto - Bozena Jelcic

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A Gaffe de mantilha

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.18

 

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Nas tardes vagarosas de frio de Outono, íamos devagar, de braço dado devagar, pelo trilho da cisterna.

 

A minha avó cruzava a mantilha, protegendo o pescoço do assobio frágil da corrente de ar e recomendava cautela com os resfriados, enquanto retocava as ondas brancas do cabelo seguras por marés de tartaruga que a brisa breve descida das árvores ia maculando de brilhos e de invisíveis movimentos.

Caminhávamos pelo trilho estreito atapetado de ruivas e ferruginosas réstias da estação perdida, ladeadas por novelos de hortênsias bojudas que anilavam em agonias densas toldando o caminho de tombadas hastes dignas a morrer caladas. A minha avó pedia que as lancetassem para acabar de vez com a dor daquele fim. O Domingos suportava-lhes depois os corpos defuntos, trasladando-os para os cemitérios das jarras.

 

O caminho era longo, como que lavado em lágrimas.

 

Os dois teixos velhos retorcidos recitavam os sons da água. Só depois de sentirmos os olhos que deles pesavam sobre nós, avaliando o que  perturbava a doçura do fio de água vigiado, é que autorizadas estávamos a ouvir o estalar do chão de folhas, o arrepio dos pássaros, o estremecimento das agulhas dos pinheiros mansos, o último voo dos últimos insectos e as patas das formigas a preparar a sonolência de rainhas.

 

O círculo de água abria-se então. De uma palidez imensa. Quieta. Com céus dentro. Céus enferrujados pelas sombras da ruiva paisagem moribunda que se refletia na brandura impávida da cisterna, óxido de prata.

Sentávamo-nos no banco de pedra e esperávamos.

Emudecíamos. Era infinito.

O tempo oscilava na cisterna. O fio de água afilado era o tempo que escorria sem ruído. Esperávamos a ténue teia das ondas do encontro do tempo com a pele polida da cisterna.

A minha avó pousava as mãos nas minhas.

 

- Agora vamos, minha querida. Já fizemos demasiado barulho.

 

Vou agora sozinha pelo trilho da cisterna.

Ladeada por novelos de hortênsias que o Domingos entregará à morte arroxeada presa às jarras.

Retoco o meu cabelo ruivo seguro pelas marés das folhas que tombaram e pouso as minhas mãos na memória das mãos da minha avó.

O tempo oscila na mantilha no pescoço de água da cisterna.

 

Agora vamos, avó. Ainda há tempo para o silêncio.     

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A Gaffe sombria

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Via-os passar iluminados pelo calor.

Ficava parada a observar-lhes as sombras que se contorciam nas pedras, mais maleáveis ainda que os corpos que as deixavam escapar. Sempre me pareceram mais frescas, as sombras, mas talvez fosse dos vidros frios onde me fechava para as ver atravessar. Talvez a dependência da luz as arrefecesse. Talvez a percepção da inexistência daquelas manchas na ausência do brilho gerador, me fizesse acreditar que não me afligiam, escaldando como os corpos.

Inspiravam-me confiança, aquelas sombras.

 

Dependo de sombras.

Dependo demasiado daqueles que me asseguram um frio de abrigo quando a luz se enfurece.


As ausências da minha irmã e do meu irmão provocam-me uma sensação de desabrigo e de falta de ar que controlo mal.
O meu irmão tem olhos com paisagens retiradas do rio, mas tem também obscuridades de fúria e desalmamento que se estendem pelas ruas como negritudes. Os abismos da sua alma, que surgem subitamente e subitamente aos nossos pés se abrem, dão-me a sensação angustiante de queda e de abandono, mas, em simultâneo, abrigam-me e turvam ameaças.
A minha irmã tem alma veneziana. Canais de pedras húmidas e praças sombreadas. Há gôndolas e palácios de claridades entrançadas, mas o escuro afunda os alicerces e é neles que encontro o meu esconderijo.


Dependo destas sombras de praças deitadas sobre a luz que passa.


A minha irmã e o meu irmão e a sombra das águas quando os dois se juntam para me abrigar.

Nada mais é meu. 

 

Fotografia - Alair Gomes

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A Gaffe apaziguada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.18

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O calor desabou.

 

Há duas semanas que sentia que poderia se me calasse passar despercebida e escapar às labaredas.

Sentava-se num dos bancos de pedra que rodeiam a cisterna e ficava quieta a ouvir a sombra a trepar pelas árvores frias. Começava a erguer-se do chão, tingindo-o de cinzento. Alastrava até encher a água de chumbo picotado pelo vermelho das carpas asfixiadas que vinham abrir a boca à superfície. Depois, como bicho insidioso, a sombra enlaçava os troncos dos teixos. Sentia o barulho rumorejante desse trepar irreversível.

As mãos da sombra são frias. Tocavam-me nos pés, nas mãos, na boca, e imobilizavam as palavras e os gestos e mesmo o toque ínfimo do fio de água que alimenta a cisterna se estilhaçava na pele líquida com a invisibilidade da finitude. Mergulhava nesta descoloração com a beatitude dos que desistem, com a aceitação dos suicidas e deixava que a consciência da minha morte crescesse indolor.

 

Dentro de mim, a morte vai crescendo igual à sombra da cisterna e a placidez deste facto tranquiliza-me, como me apazigua a sombra a crescer nos teixos frios.   

   

Agora o calor desabou e um pavão destrói a obscuridade com o grito de jóias estridentes.  

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A Gaffe com sotaque

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18

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- Como é possível que ajuizes alguém de modo tão negativo apenas porque tem sotaque?! - acuso muito indignada a superficialidade da minha irmã que recusou sem apelo nem agravo e sem dados de maior, a não ser o seu sotaque cerrado - fantochado de modo bastante cruel -, a candidatura de um jovem arquitecto portuense.

 

- Não. Erro teu, minha cara, eu faça julgamentos muito antes de eles abrirem a boca.

És tu que o condenas dessa forma ao pensares que fui capaz dessa tolice.

 

Imagem - Melchior-Paul von Deschwanden

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A Gaffe pinoqueiresca

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.18

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Estendida na cama, de barriga para o ar, perninha alçada e mãos a servir de almofada, repelta de glamour, hesitava eu em reflectir sobre a Teoria das Partículas e o aumento do PIB no 3º anel, quando o rapagão se vira, apoia a cabecinha numa das mãos e desata a observar-me.

 

Olhei de lado, procurando não fazer muito barulho. Podia ser que o rapaz tivesse petrificado. Seria bastante agradável, em todos os aspectos.

 

- Tens uns olhos gigantes - murmura.

Foi neste exacto instante que me lembrei do atarracado, rechonchudo e irritante Capuchinho Vermelho, a saltaricar pela floresta, prontinho a ser comido.

- Assim cabes todo dentro deles - rosnei eu, através de um sorrisinho amarelo pastel.

- A tua boca é tão perfeita - continuou, ainda com os bolinhos no cesto.

- É só porque tu a beijas - mostrei os dentes desta vez. Brancos de neve. 

- Amo-te  - saltitou o Bambi.

 

Virei-me e obriguei-o a mentir mais.

Prefiro o Pinóquio.

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A Gaffe de Pessoa

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

 

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

 

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

 

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.

Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

 

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

 

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.

Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

 

- O melhor do mundo são as crianças.

 

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

 

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

 

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.  

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A Gaffe nas batalhas

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.18

Laure

 

Sabendo-se que esta família caça em conjunto, fácil se torna concluir que nessa operação ela é por norma o isco, a manobra de diversão e o engodo.

 

A verdade é que nunca esse papel a incomodou, chegando mesmo a ser um deleite participar na montagem das armadilhas. Admite que não é de todo distinto ou elegante ser usada para que se atingirem objectivos que lhe são alheios, mas considera sempre divertido verificar que em todos existe uma etiqueta com um preço, que ela faz acreditar que é elevado, embora suspeite que - cada vez mais -, toda a gente é um saldo.

 

É angélica, suave, pestaneja, aparenta ser inofensiva e não tem nas patinhas as garras visíveis. É fácil fazer com que inclinem a jugular desprevenida. Depois é com os outros. A minha prima não gosta de vencidos.

 

Nunca ousou forçar uma queda, nunca se atreveu a desferir o golpe, mas não tem ilusões. Ninguém foge ao escrutínio. Todo o passageiro é revistado, mesmo que o bilhete seja apenas de ida. Tem o agradável defeito de, sempre que por si passam mortais, os pesar e repesar na balança do jogo da guerra.

 

Não é sangrenta, talvez seja apenas má pessoa.

 

Aprendeu a sobreviver neste vale de feras, consciente disto, com um rapaz de veludo que lhe foi apresentado demasiado cedo. Foi analisado ao pormenor e concluiu-se que o rapagão pertencia ao plano estratégico de caça familiar e que nos pratos da balança pesava mais do que seria de esperar. Foi insinuado que alguém devia distrair a vítima enquanto os bastidores se movimentavam. Aceitou contente. Falar de Genet, comentar Monet, criticar Stravinsky ou acarinhar Fellini, nunca foi complexo - se não sabe, inventa. Acrescentou a estes prazeres, o facto do rapaz respirar e se sentir o mundo a tremer. Sobretudo o hemisfério sul.

 

No entanto, sofreu um revés. O padecente confidenciou-lhe, logo ali na esquina de Darwin, a sua inabalável fidelidade ao espapaçado Amor da sua vida que longe dele sofria de igual modo.

Tornou-se intocável a alma do petiz.

O amor sempre lhe inspirou um desmesurado respeito e jamais se tornaria cúmplice do espoliar de alguém apaixonado.

 

Soube, pouco tempo depois da sua recusa em fazer de conta que seduzia o triste, que aquele amor eterno e inabalável se tinha escapado por minutos e que, com os melhores cumprimentos da eternidade, tinha tentado pousar no meu irmão. Apanhou-o deitado no chão, de pés levantados e pousados no peitoril da janela e, não tão subtilmente como seria de desejar, enfiou-lhe a mão dentro das calças. Abalado, o meu pobre irmão nunca foi o mesmo, recusando aproximar os pés seja do que for. Stress pós-traumático, dizem os sábios.

 

A partir desse instante, descobriu - para além de ficar a saber que a fidelidade é uma bicha muito subjectiva -, que nada, mesmo nada, a impediria de jogar. Gosta de jogar, o que não a torna excelsa companhia.

Enfraquece resistências, afrouxa cérebros, distrai argúcias, impede análises e faz tombar as paliçadas. Pérolas e perfumes são armas que conhece em demasia. Usa-as com perícia e destemor. Depois dos muros derrubados, perde o interesse.

 

O resto é dos abutres.

 

Não se comove. Nunca se comoveu com a chacina. Os que tombam são sempre os mais idiotas, os que acreditam no Poder e desconhecem que é exactamente nele que se encontra esconsa a mais potente ameaça de derrota. Estão vencidos, porque não sabem que se trava uma batalha, porque cegaram com o brilho das próprias armaduras, ou porque não entendem que às vezes - muitas vezes - a maior vitória não exige luta.

 

Agrada-lhe sentir que pertence aqui, ao grupo dos carrascos, daqueles que executam imbecis.

 

Não é aconselhável aceitar o seu convite para o chá.

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A Gaffe recepcionista

rabiscado pela Gaffe, em 07.02.18

ha! ah! ah!Está na minha frente, sentado de perna cruzada e tronco balofo e atarracado.

Bate com o maço de tabaco, acabado de comprar, na palma da mão. Vira-o e volta a desancar. Repete a actividade até perceber que me irrita, porque não consigo deixar de olhar para aquele movimento seco que me parece inútil.

Oferece-me um cigarro depois de cuidadoso ter rasgado um lado e ter puxado um deles que aparece erguido sobre os outros, como se tivesse havido uma eleição.

Não fumo.

- Mas havemos de beber um copo juntos - promete enquanto procura no bolso o isqueiro de plástico.

Não bebo.

Torna-se sinistro. Olha de soslaio e sibila, manhoso:

- Aposto que aquela, com um corpinho daqueles, faz o que falta dizer.

Sorrio e deixo escapar uma centelha de suspeição propositada que lhe aflora e queima a superfície da atenção.

Desconfia. Semicerra os olhos. A primeira baforada do cigarro, preso nos anéis, tolda-lhe os contornos da cara e fá-lo tossir de forma seca.

- Oh! Com aquela figura não acredito que sinta muita a falta de aquecimento central - escalda o homem e arrepia.

- Toda alta, toda fria, toda elegante e de nariz empinado, já aqueceu muitas noitinhas…  - escancara num sorriso nicotina. 

A ilusão do Poder, quando alimentada por estranhos, transforma-se em areia movediça, por isso não o paro. Começo a acalentar a esperança de sentir a atarracada criatura esfumar-me no que se vislumbra por entre a névoa do engano.

 

Espero.

 

Digo-lhe que será recebido por ela. Sou apenas um percalço. Um erro de casting. Uma gaffe na recepção.

- Que venha a mulher! - arreganha os dentes já babados - mesmo com aquele tamanho, posso bem com ela. É magrita. Domesticam-se bem, as magritas - desta vez a alarvidade traz o riso.

 

E ela entra.

 

- Tenho a certeza que não se conhecem. - Sou tão amável! - A minha irmã. - Apresento e tenho um orgasmo mui discreto. Continuo:

- Este senhor acaba de me confessar que te acha muito elegante. Creio que entre os dois se vão estabelecer óptimas relações.
O homem baba enquanto aperta a mão esguia, prolongamento do sorriso claro e do olhar atento que detecta o proibido prazer do que mantenho oculto.

- Sou muito empática - rosna a minha irmã.

- Mas magrita. És um potro, um puro-sangue, mas fácil de domar - esquiço e espero os olhinhos do homem que se abrem em franqueado embaraço.

A minha irmã estanca. Detectou o jogo e a mesa onde é lançado o dado.

- Hipismo é no teu departamento. - Faíscas e setas no meu peito, Sebastião no feminino, nem Santa e já sem reino.

- Esqueceram-se de o informar que é apenas a minha irmã que se diverte com as cavalgaduras - acrescenta.

Entala-se o homem com fumo e aperto.

- Mas, maninha, este senhor é um jockey.

- Tenho a certeza que sim. Não se quer sentar?! - Pergunta tenebrosa, porque o achatado já está sentado.

- Vamos então tratar do seu estábulo - ordena a minha irmã já com a segurança de um projecto ganho.

 

Os erros cometidos pelos outros, contra nós, dos mais banais aos mais sofisticados, devem ser usados para reverter situações adversas, transmutando o desacerto em arma a usar contra aquele que falhou.

A falta cometida pelo incauto, transforma-se nas mãos da minha irmã em forja que subverte o que lhe desagrada e que convence o imprudente a acatar, sem discussão possível, o que este puro-sangue decidir.

 

Eu?! Oh!, eu só me divirto, pacífica, a olhar um punhal cravado na testa do anão.

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A Gaffe melómana

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.17

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Foi-me entregue pelo meu avô, como o choro mais belo do universo, O Lamento de Dido, em Dido e Eneias de Purcell.

Segredou-me ao som deste lamento:

Nunca tentes domar a Tristeza atravessando-a com uma luz imperfeita. Deixa que a Tristeza se canse até que a luz que traz, quebre por dentro.

 

A minha vida não tem banda sonora de grande contemporaneidade.

Creio que foi ocupada pelas obras que o meu queridíssimo melómano me foi fazendo compreender.

Mas são outras as notas da memória que voltam desta vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas resguardadas, mas não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, e contudo é vivo na minha alma e no centro da minha vida o soar de Dvoräk. Lembro-me que o meu avô como que orava através do Stabat Mater num ritual quase pagão que envolvia penumbras e luminárias e que, contagiadas, as empregadas se benziam estarrecidas. De mãos cerradas, a boca crispada e os olhos como facas cravadas no tempo, fazia erguer os abismos e as ascensões, os turbilhões e as fúrias, o negro desenfreado e a claridade imensurável. Os coros apunhalavam e eu, minúscula, sentia que cedo ou tarde o meu corpo cederia ao medo do troar do Quando Corpus Morietur que o meu avô fazia repetir incessantemente. Imobilizava-me, onde quer que estivesse, ao soar o primeiro acorde e esperava que o coração sossegasse o galope, que as agulhas no meu corpo deixassem  de ferir, que o medo de não conseguir respirar abrandasse ou que a morte viesse e me lancetasse de vez. O meu avô forçava-se a ser levada até Deus através daquele envolvimento poderoso. Caminhava desse modo, erguido pelos acordes do Stabat Mater e deparava com Deus vestida de coros. O seu modo de chorar era este e alastrava pela casa fora até tocar o espaço das mimosas e das suspensas beladonas encerradas que continuavam a verter o aroma sobre mim.

 

Ainda o ouço.

 

Mas não é desta memória que quero falar.

Dizia-me o meu avô que o passar do tempo se incumbia de carregar de sons as obras dos génios. Purcell é menos sonoro que Albioni, Bach é mais discreto do que Händel, Rosetti é menos trovejante do que Mozart e este menos brutal que Beethoven, Hoffmanm mais frágil do que Berlioz, Schumann mais frágil do que Debussy, ou Bartók menos duro que Shostakovich. Mentia-me, sorrindo, à espera que o contradissesse. Misturava períodos e tempos, obras inteiras e pequenos excertos, sempre a aguardar que detectasse o propositado erro nesta hipotética procura de calar o silêncio, preenchendo-o de sons e de fúrias, sabendo que o tempo que avança não procura a exclusão do silêncio, pois que é o silêncio que avança a retroceder o tempo.

 

Aprendi nesses instantes, que a Tristeza não se cala com tempos imperfeitos. Cansa-se apenas com os sons que quebram em nós a luz que traz por dentro.

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A Gaffe de pois

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.17

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Atentemos pois na imagem da mulher sentada que outra não conheço ou conheci denunciando o que é no que se vê.

 

Antes de o fazermos, é de conveniência considerar a luz de Inverno temerosa que na janela de guilhotina fechada desce o parapeito, encosta-se ao soalho, procura o tampo da secretária em mogno, ilumina a lâmpada do candeeiro apagado em abat-jour de sombra, distrai uma caneta, dois livros, a escultura de um mocho grande e negro e segue a ferocidade do azevinho na jarra gigante em colossais canos cortados da árvore que por imprevidência se deixou desumana na terra encostada a um muro da casa. Como um detalhe, um pormenor discreto ou amedrontado, vai tocar em risco o lóbulo da orelha da mulher, o brinco de pérola, o cabelo loiro de palidez imóvel, para se perder depois, pois que já não conta.

 

É de conveniência, o digo pois, atentar na luz, pois que a mulher é isenta de detalhes e é nosso desejo encontrar alguns na figura esguia sentada na poltrona. A luz é pois o pormenor em falta na camisola canelada e de malha fina, gola alta, em que a cor de ferrugem se abre no riscado luminoso que alaranja o tom e que amansa ao mesmo tempo a densidade anil das calças tubulares e atenua o desenho picotado dos conservadores sapatos masculinos.

 

Ignoremos, na parede atrás desta mulher sentada, o retrato antigo de outra mulher sentada, loira ela também, quieta no interior do bulício do vestido de seda pesada de azul de saia ampla de metros de tecido, que toca enluvada um colar de pérolas que quase flutua no seu pescoço afunilado para desaguar no colo descoberto branco e manso onde pousou sem desvelo uma mantilha de renda que abre sombras perfuradas nos laços do espartilho.

 

Atentemos pois na mulher sentada quieta, atenta, de mãos esguias e unhas ovaladas que atravessam a folha do que lê, com detalhes de luz por sobre o corpo magro, nu de pormenores, isento de desvios e não na mulher do quadro detalhada, pois se atentarmos na mulher sentada na poltrona, intuímos a outra, a do retrato.

 

Unem espaços.

 

A mulher sentada na poltrona é a lapidação do corpo dos lugares, a abolição do tempo que nos mata. O corolário de uma permanência que só os raros conseguem entender, pois que o entendimento dos símbolos escapa pelas fendas do agora e do presente.

A luz que risca o brinco da mulher sentada, é a mesma luz que toca as pérolas do quadro. A luz é a mesma, derrogaram-se apenas os detalhes.

 

É deste entendimento que o depois é feito, pois que o depois se existe, tem passado.

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A Gaffe castanha

rabiscado pela Gaffe, em 22.11.17

Ana C.

As mãos do velho Domingos que agora seguram o abanador de palha com que espevita as brasas que assam castanhas, são as mesmas que me guiaram no caminho das nogueiras, dos álamos, dos plátanos e dos áceres, com os pés molhados de folhas mortas e céu coberto por estilhaços de bronze, escarlate, doirado e castanho, para ver o carvalho plantado pela primeira mulher desta casa.

 

Lembro-me da textura de tronco de videira das mãos do Domingos, de sentir que era o Outono que me segurava os dedos, de ter a certeza que cheirava a pão e a frio, a mantas e a cães. Lembro-me dos sons do quebrar do chão como uma porta que range e temos medo. Lembro-me do trigo da luz nos braços de uma poeira extenuada. Lembro-me da lonjura do caminho e de ter sentido que a terra tinha recolhido o choro das árvores e de o enferrujar com o suor caído dos homens. Lembro-me de ter adivinhado no meio dos gritos queimados da luz por entre ramos, a negrura animalesca do carvalho na sombra pousada no caminho que estalava. Lembro-me de ter tido medo do retorcido casco, dos braços de cotovelos pousados na terra, do latejar do monstro que enfurecido emudecia o latir das folhas e da ardência que dos meus olhos tocava as margens das palavras. Lembro-me das labaredas cegas e negras que de lume a lume, de gume a lança, golpeavam o espaço com adagas de troncos que desciam pela entristecida solidão da árvore. Lembro-me das agulhas do sol amortecidas a picar os pássaros parados, da luz cansada de ferro que se espetava nos ninhos.

 

Um golpe no pulso da terra. Uma cicatriz de espera. A árvore a pesar como uma chaga.

 

Havia ferrugem nos cabelos. Roxos de frio.

 

As mãos do velho Domingos seguram agora o abanador de palha com que atiça o lume a assar castanhas, e eu queimo as feridas da memória com os dedos do silêncio até tudo parecer polido como os lagos impolutos da inocência.

 

O Outono é esta árvore e tem a alma em sépia.  

 

Foto - Ana Ciolaçu

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