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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe confinada

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.20

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A Gaffe do Holandês

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.20

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Existia, para uso dos seus oradores encartados, uma lista de termos insultuosos destinados a classificar o inimigo capitalista, aprovada pela antiga Alemanha de Leste que incluía:

Bajuladores, paralíticos, estéries traidores da humanidade, servis imitadores de comedores de cadáveres, covardes e colaboradores, bando de assassinos de mulheres, turba degenerada de parasitas tradicionalistas, soldados boémios e janotas presunçosos.  

 

Felizmente que o muro de Berlim foi derrubado e a lista se perdeu debaixo das pedras.

 

Não há notícia de ali constar qualquer referência maldosa a ministros holandeses das finanças, como por exemplo:

Tulipas de sangue frio com complexos de superioridade; afectados e enfatuados com a mania que conquistaram terra ao mar, mas que ainda não perceberam que não devem ferver toda a comida - incluindo o pão; toiros metafóricos, inchados e insinuantes, de ossos gelatinosos, que carregam nos dorsos as suas colecções de porcelanas; chimpanzés pálidos e babões que tossem e espirram preconceitos cheios de egoísmo, de importância própria, de compaixão própria, de interesse próprio, ou seja, invadidos pelos aspectos mais negativos das aves de rapina diplomática que cheiram à distânica os cadáveres de ideais mortos.

 

Não há disto nota na lista abandonada.

Sentimo-nos tão felizes! 

 

Ficamos, no entanto, limitados ao que nos é dado observar.

Os holandeses são de dois tipos físicos bem distintos:

- Os pequenos, corpulentos e corados, como o queijo Edams;

- Os mais estreitos, pálidos e maiories como o queijo Goudas.

 

Estas características fazem da Holanda a cloaca de uma vacaria com o serviço do Hotel Ritz Carlton e da Europa a velha, gananciosa e senil vaqueira que empurra e afasta com o cajado quem se aproxima para lhe pedir ajuda.  

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A Gaffe profilática

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.20

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- É evidente que estou isolada! Seria aborrecidíssimo ter de olhar agora para as caras dos que me consideram uma cabra elitista por ter sempre defendido que o distanciamento social é absolutamente profilático seja em que circunstância for.

Mana

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Gavetas:

A Gaffe virulenta

rabiscado pela Gaffe, em 19.03.20

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- Tudo o que tivesse vindo da China deveria ter ficado em quarentena!

- Mas, minha cara, se assim fosse, a menina não teria o que vestir no dia seguinte.

 
Mana (e Fernando Vicente a ilustrar)

 

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Gavetas:

A Gaffe "heroína"

rabiscado pela Gaffe, em 19.03.20

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A enfermeira com olheiras permanentes e cantos da boca descaídos, antipática, rabugenta, impaciente e severa, diz-me, enquanto expira o fumo do cigarro mal fumado, que já tem quinze horas seguidas e duas maçãs de trabalho no lombo.

Veio só respirar um bocado, informa-me à laia de desculpa, como se aquele intervalo lhe pesasse na consciência e a tornasse culpada de negligência.

 

Das varandas dos apartamentos, do outro lado das ruas, longe, tão longe que adoece, batem palmas.

A enfermeira olha para mim. No meio de uma baforada, os seus olhos piscos de lágrimas. Encolhe os ombros.

- Somos heróis o carago. Borro-me de medo. Ando aqui toda apertadinha e, para ser sincera, só me apetece desandar daqui para fora. Cagões, é o que somos todos. Entende-se porque se esgota o papel higiénico.

 

O barulho das palmas afugenta o medo. O deles, que o nosso está aqui e não arreda um palmo.

Dizem que batem palmas aos heróis.

Dizem que nos batem palmas.

Falam-nos de guerra.

 

As metáforas bélicas ficam sempre bem nas intervenções institucionais em quarentena patética e nas exortações do facebook.

 

Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!

 

Alguém me disse um dia que um herói é o cagaço com armas nas mãos. A definição poderia ser forçadamente agustiniana, não fosse o pretenso vernáculo a macular o meio literário. Não fosse a inexistência das armas. Não fosse a pandemia do pânico que subverte e decompõe e desmuda e desordena a indiferença que cresce e que se instala ínvia nos habitáculos do tempo em que a paz é tida como certa.

 

Um país que precisa de heróis para sobreviver, talvez não mereça ser salvo.  

 

Das varandas dos apartamentos, do outro lado das ruas, longe, tão longe que adoece, batem palmas. É provável que no som dilatado de todas as palmas juntas se não descubra ainda o propósito da vida, que não se encontre a essencial pergunta e a imprescindível resposta.

 

A coroação do tão propagandeado estilo de vida ocidental - que se tenta expandir a Oriente - como inexorável modelo global com capacidade para se impor ao periclitante equilíbrio civilizacional, idolatrando a trepidação que ignora o sentir da terra, e a pesadíssima coacção que é exercida sobre aqueles que não conseguem encontrar a fuga dos paradigmas de consumo, de exigências mundanas, de êxitos financeiros e de todos os soberanos lobbies que esmagam e calcificam a alma, são colocados em causa por medo maior, mais evidente e lógico, ou pelo mais comezinho e patético que seja possível sentir, com origem num dos mais contagiosos vírus existentes no planeta.

 

A questão a formular deixa de ser a tradicional e esconsa viela sem retorno ou saída. Já não é possível perguntar quem somos, ou o que queremos, ou para onde vamos. Há que encontrar a resposta a uma das mais perturbadoras das perguntas, que é também aquela a que é possível dar final:

De que fugimos nós?

De que tentamos escapar quando somos confrontados com a nossa intrínseca debilidade, com a nossa implacável fragilidade, com a nossa humilhante condição de caça miúda perante um predador que de tão ínfimo nem sequer se vê?

 

De que fugimos quando em desespero desejamos tudo?

Quando soubermos responder, talvez então não se fale de heróis, por apenas haver gente.       

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Gavetas:



Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


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