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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe platinada

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.19

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No passado dia 01 de Junho Marilyn faria 93 anos.

Morreu a 5 de Agosto de 1962.

Demorei imenso tempo à procura de uma imagem fulgurante desta inacreditável e quase impossível mulher, mas todas, sem qualquer excepção, me deixaram deslumbrada.

É impraticável escolher uma única fotografia de Monroe, porque todas elas irradiam o magnetismo dos deuses.  

 

Do que dela disseram, escolhi a opinião de outro deslumbre no feminino.

Acabei por me render à evidência. Há muito pouca coisa mais saborosa do que um elogio de uma rival.

She sure registered on that screen. The minute the camera turned on her she became this incredible creature, and she was absolutely dazzling. She was-there’s no question about that. During our scenes she’d look at my forehead instead of my eyes. At the end of a take, she’d look to her coach for approval. If the headshake was no, she’d insist on another take. A scene often went to fifteen or more takes. Despite this I couldn’t dislike Marilyn. She had no meanness in her - no bitchery. She just had to concentrate on herself and the people who were there only for her… Fifty years on, we’re still watching her movies and talking about her. That’s not a dumb woman - trust me. - Lauren Bacall

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A Gaffe no carrinho de História

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.19

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A Gaffe considera despropositado o choque dos vetustos professores da Universidade de Coimbra que abominaram o tema do carro alegórico que no desfile da Queima das Fitas tentou cumprir a sua missão pelas avenidas da cidade, carregando cerveja.

 

Uns queridos exagerados.

 

Afinal, meus amorosos e escandalizados velhotes, os meninos e as meninas que tiveram a glamorosa ideia de baptizar o veículo de carga com a referência encapotada a um genocídio, pertencem ao curso de História.

Não há nada a recear.

O futuro dos petizes passa por umas calças pelos tornozelos, muitíssimo slim, de modo a esmagar os tintins sem muito alarde, por uns sapatos bicudos e por uma camisa coleante aliada a um casaquinho dois números abaixo do normal, para realçar a musculatura e atestar que se não se está interessado em arqueologias, pois que a empresa do pai é mais bolos e pasteis de bacalhau com queijo da Serra. Às meninas está destinado um bom casamento e unhas de gel. A ambos, caso não se concretizem estes desideratos, está assegurada a caixa de supermercado que não estiver ainda ocupada por licenciados em Filosofia. A Assembleia da República está fora de alcance, pois que já tem os advogados a preencher cadeiras.

 

Não é grave.

 

A Gaffe também não compreende muito bem a reacção dos piquenos.

Colar um papelão no carrinho com o que parece ser um irónico protesto contido no Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre, não é muito eficaz, porque é verdade.

 

Os meninos não podem fazer o que querem, exactamente porque vivem em liberdade, meus queridos. Não é?

 

Faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo, se pisassem com a miséria dos sapatos de plástico do traje académico as avenidas de um qualquer lugarejo onde a liberdade fosse mais um pedaço de porcaria incluída nas toneladas de lixo que deixaram para trás durante o desfile.

Assim, não.

A liberdade de que usufruem, embora vos deixe usar poliéster preto e não vos obrigue a lavar o cabelo, impede que forneçam asas a estropícios mentais com intuitos humorísticos.

 

Meus queridos, o nome que decidiram entregar ao vosso carrinho alegórico, não tem piada, não é sequer inteligente, não é bonito, não tem bom-gosto, não é palestiniano, não é anti-semita. É só parvo.

Se já é péssimo que desfilem vestidos com aquilo que torna impossível que não se cheire a suor - para além de vos realçar os cabelos maltratados, mal lavados, mal cortados -, permitir que aliem esta desgraça a uma demonstração de imbecilidade, seria catastrófico para a Academia em geral e para os futuros desempregados inscritos no curso de História em particular.

 

Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre não é, de todo, sarcasmo ou ironia, reveladores de repressão, ou de esmagamento dos vossos anseios, meus amores, e não o é por causa da treta irritante do A minha liberdade acaba, onde começa a do outro, porque tal não passa de uma tolice creditada pelos coleccionadores de frases do facebook que ignoram que a liberdade não acaba em lado nenhum e que jamais terá limites na vida do Outro, porque se multiplica, aumenta, se une a outras, se reproduz, adicionando-se às liberdades alheias que se cruzam com a nossa.   

 

É só mesmo por causa do mau gosto. Se tem de haver desfile, sejam elegantes. Já basta o traje académico e o resto da praxe.

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A Gaffe com uma história pequenina

rabiscado pela Gaffe, em 09.04.19

Corremos à procura das nossas histórias e esperamos que a maioria nos deslumbre como brilho das estrelas. Narramos os nossos mais pequenos acontecimentos com uma grandiloquência patega e, ufanos, respiramos fundo quando conseguimos, finalmente, fazer cintilar um pedacinho arrancado à ilusão de termos um diadema de brilhos imperiais a encimar-nos.

No entanto, as nossas histórias mais perfeitas são normalmente frágeis, pequeninas, fáceis de encontrar, fáceis de contar e fáceis de esquecer.

 

Encontrei algures uma destas preciosidades. Não há referência ao autor. Reproduzo-a, traduzindo do inglês todas as legendas, sem qualquer interferência minha e sem macular com minha saracoteante e retorcida escrita o que é cristalino, límpido, e de uma pureza apenas visível no que há de essencial.

 

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Numa noite de temporal a minha namorada viu o que pensávamos ser um pardal morto na nossa varanda. Mal respirava, coberto de formigas e completamente cego.

 

Abrigamo-lo dentro de uma caixa. Depois de passar uma noite no nosso quarto, acordou-nos com um piar agudo.Tentamos alimentá-lo, mas sem sorte. Aproximamo-lo da nossa varanda. Continuou a piar sem parar, durante três horas.

 

Finalmente, o pai veio ao encontro deste piar e começou a alimentar o pobrezinho. Trazia-lhe insectos e pão a cada 10-15 minutos durante todo o dia, durante duas semanas seguidas.

 

O pardal estava a ficar maior a cada dia, mas ainda estava cego. Chamamos um veterinário que experimentou um colírio simples. Funcionou como por encanto! O pardalito até se começou a esconder de nós atrás das flores. O pai começou então a mostrar-lhe como voar pela janela.

 

Um dia acabou por sair. Sabíamos que esse dia chegaria eventualmente. Ficamos realmente preocupados porque naquela mesma noite, e nos dias que se seguiram, houve tempestade. No entanto, três dias depois, o pardal voltou e adormeceu num dos nossos vasos, ao abrigo das flores.

 

Brilha tanto, não brilha?!

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A Gaffe arejada

rabiscado pela Gaffe, em 12.03.19

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A Polícia Judiciária de Coimbra deteve uma funcionária da Segurança Social que inventou cerca de 100 grávidas para se apropriar do abono de família pré-natal. Com o esquema, a senhora ludibriou a maioria dos centros distritais da Segurança Social do país e, entre 2014 e 2018, deu um desfalque ao Estado de mais de meio milhão de euros.

 

A Gaffe acaba de saber que os cerca de 600.000 euros desviados são irrecuperáveis pois que foi tudo estourado em roupa.

 

A Gaffe considera absolutamente divinal ir atender pobres e desempregados, coisas incapazes que usufruem daquele estranhíssimo rendimento social de inserção e outras gentes que arrepiam só de pensar, de capeline Chanel, vestido Dior e sapatos Prada a fazer pendant com a carteira Louis Vuitton.   

 

A Gaffe acha maravilhoso ter de enrolar a manga do vison YSL quando há que carregar no botão do intercomunicador para numa voz Moschino murmurar:

 

- Número 599.999 ao único chic que existe na pocilga.

 

A Gaffe pensa ser deslumbrante desfilar pelos corredores pejados de gente miserável ofuscada pelo Valentino, Armani, Gucci, Micaela de Guimarães - uma pequena burla que vitimiza toda a gente, mas que se disfarça com um Cerruti em cima -, alternando o outfit como quem muda de Givenchy.    

 

A Gaffe considera admirável que num país onde os desfalques pindéricos de meio milhão de euros são utilizados para comprar chalets, Porsches, Macintoshes para os piquenos, toneladas de Bijou Brigitte, resmas de Parfois, milhões de Onofre, centenas de Bimba e Lola, T1 para as amantes, com piscina - os apartamentos e as amantes -, férias em Albufeira, fatos da H&M e saia-e-casaco da Massimo Dutti, haja alguém sensato, glamoroso e com um sentido de humor absolutamente ímpar, que esturrica tudo em altíssima costura e vai laurear a pevide para dentro de um guichet.

 

Uma autêntica lufada de ar fresco.

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Uma diva, meus senhores! 

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A Gaffe e uma senhora lá de casa

rabiscado pela Gaffe, em 07.01.19

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A Gaffe reavalia seriamente o seu retorno ao facebook.

Esta rapariga perde constantemente o acesso ao que escalda e explode a cada passo no scroll das indignações desta rede social. Tem conhecimento dos factos com um atraso tão significativo que torna ressequida qualquer reacção mais comezinha.

Contudo, antes de reabrir a sua página, suplica a quem de direito que lhe defina, que clarifique, que torne facilmente perceptível e rigoroso o conceito de politicamente correcto.

 

Tudo porque a queridíssima Judite de Sousa publicou no Instagram uma foto - na apresentação da sua mais recente obra de bolso -, onde faz pose ao lado da mãe, da irmã e de uma senhora lá de casa.

A Gaffe não entende como se podem fazer cair em cima desta inocente legenda os pianos da maior dos choques e da mais temível das indignações. Não compreende como de imediato se concluiu que a senhora lá de casa era a senhora mulata. A Gaffe viu-se negra para admitir que sim, pois que no início tinha suposto que a senhora lá de casa era a idosa do lado esquerdo de Judite e, por exclusão de partes, a mãe e a irmã seriam as senhoras à direita da jornalista.

 

Depois, meus caros, não fica claro que Judite de Sousa tenha - ou não tenha -, sido politicamente correcta.

A legenda não permite concluir que a querida Judite tenha demonstrado resquícios de colonialismo ou esclavagismo, como foi dito algures num comentário mais ameno. É vertiginosamente precipitado - e bastante colonialista - concluir que a senhora lá de casa é a empregada doméstica. Ser-se mulata não está acoplado à condição de serviçal - a não ser nos manuais da Paula Bobone. A senhora lá de casa poderia perfeitamente ser a enfermeira que administra Xanax e Prozac a quem deles necessita, ou até a directora de imagem, responsável pelos outfits, da jornalista. Não é necessariamente a senhora das limpezas e afins e não tem de ser tratada como íntima da zona de novo-riquismo possidónio em que se move a nossa queridíssima vítima de linchamento faceboquiano.

 

Malgré tout, a D. Rosa, a senhora lá de casa, era mesmo a senhora mulata que faz limpezas e afins há mais de trinta anos nos passos e aposentos de Judite e que se tornou amicíssima da maravilhosa jornalista, pese embora não tenha sido nomeada simplesmente como tal, amiga do peito, ou de outra mais recatada região anatómica.

 

Não nos é permitido, contudo, acusar Judite de Sousa de falta ou de excesso daquilo que ainda não está bem definido - o politicamente correcto. Judite não se refere à D. Rosa como a preta doméstica que me faz a lida da casa pois que eu sou chique, ou a criada que até trouxe comigo, coitada, que trabalha como uma preta sem comer um croquete.

Não!

Chama-lhe a senhora lá de casa o que apesar de criar uma exagerada distância de segurança entre veículos de cores diferentes, não impede que se desloquem na mesma faixa rodoviária, se quisermos usar, só porque sim, uma metáfora com ligações ao trânsito - intestinal ou outro.

 

Judite de Sousa, meus amores, não é politicamente correcta, nem politicamente incorrecta. Fica a meia haste. É apenas o que se espera com uma previsibilidade desesperante de uma nova-rica com péssimo gosto para legendar no instagram.  

 

Se a Gaffe quisesse ser fotografada com a mãe e irmã, tendo Judite de Sousa como apêndice esporádico, a legenda poderia perfeitamente ser a Gaffe, com a mãe e irmã e com uma senhora que ninguém quer lá em casa. Não vem mal ao mundo, pese embora se continue a desconhecer se politicamente esta seria uma opção correcta ou se por incorrecta se tornaria digna de linchamento público.

 

Mais uma vez se realça que há que definir com precisão este conceito em nome de um mais profícuo e amistoso convívio faceboquiano. 

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A Gaffe escreve ao Manel Luís

rabiscado pela Gaffe, em 04.01.19

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Meu queridíssimo Goucha,

 

Antes de tudo quero desculpar-me por não retirar os óculos escuros enquanto a si me dirijo. Acredite que me sinto mais resguardada, não deixando nunca de perder a oportunidade de exibir o meu lado mais sombrio que contrabalança - sem ofuscar -, a sua esfuziante alegria. Uno este conforto à possibilidade de passar incógnita, irreconhecível, no seu programa matinal.

 

Escrevo para lhe expor a minha perplexidade, a minha curiosidade e o meu espanto. O menino surpreende. Não me refiro, é evidente, aos seus peculiares outfits, mas às manobras que executa para não se perceber o desespero que parece ter assolado a sua tilintante presença televisiva.

 

Como é lógico, lembrei-o numa entrevista sóbria que deu, de fato azul escuro, camisa de um alvura imaculada e gravata regimental, a uma senhora que me pareceu transtornada pela escolha – creio que Judite de Sousa. O menino primou pela verborreia e pelo desfilar impecável de todos os lugares-comuns que se possam enojar. Era o sambódromo da banalidade politicamente lavada e interminavelmente limpinha. Confesso que fiquei até ao fim à espera de ver surgir a pomba luminosa que aparentava habitar-lhe o coração. Foi uma desilusão ter vislumbrado apenas uma auréola pindérica colada à sua cabeça com saliva. Não convém, portanto, indicar o politicamente correcto como responsável pelo ruído que amanheceu consigo na TV e que posteriormente atingiu as redes sociais - mais uma vez de pavio curtíssimo.      

 

Admito que me irritou um bocadinho. Gosto mais do seu registo desafiador, irreverente e ousado e do seu histrionismo capaz de o levar a qualquer lado sem o menor escrúpulo e sem uma pontinha de ética para o apimentar, pese embora cubra estas misérias com um mal engendrado respeito pelo outro, acompanhado sempre por um lamento pio e solidário, uma revolta contra a injustiça e essas coisas todas boas e bonitas que tão bem sabe mimar. Suponho que estas características não lhe são impostas pelo dono de qualquer rubrica. O menino quer, o menino manda. Se o menino bate o pé, o menino tem.  

 

Repare, meu caro, que o considero um dos mais talentosos entertainers da televisão portuguesa o que é - mesmo que digam que cada estação tem o clima que merece e que cada público tem o que deseja -, façanha digna de registo e acredite que não sou uma velhinha entrevada e enfiada num lar apodrecido à espera de ouvir e ver relatos ilustrados e comentados de assassínios enquanto come a carcaça com manteiga e tenta esgotar a reforma nas chamadas de valor acrescentado que o menino não se cansa de sugerir. Sou uma petiza de boas famílias com um pecúlio razoável e, como tal, não quero deixar de o felicitar pela maravilhosa entrevista que fez a Mário Machado e pela sondagem da sua lavra que questiona se os seus leitores sentem a falta de Salazar - eu sinto. Há uns anos proibiram a colher de pau e o salazar corre perigo de extinção. A cozinha portuguesa fica cada vez mais depauperada. Estou consigo à volta dos tachos. Eu, e a Maria Vieira no facebook.

 

No entanto, meu caro Goucha, senti que o menino não se informou como deve ser acerca do moçoilo que tinha na frente. Mário Machado não é um rapazinho que fez apenas, há uns tempos, umas declarações polémicas. O menino teve um anjo protector por perto - provavelmente o mesmo que abençoa Teresa Guilherme -, logo ali em cima dos berloques da gravata. Foi um milagre não ter ocorrido um acidente e ter ficado com uma matraca ensanguentada enfiada no seu casamento.

 

Também não sou -  tal como diz que não é -, apologista do silenciar de vozes que arrastam perigos incontroláveis, eivados de populismo e de outros malefícios - que com certeza reconhece, porque provavelmente sofreu alguns durante a vida. Também não considerei bonito terem retirado o convite a Marine Le Pen para ser oradora naquela festa de finalistas de startups, mas convenhamos, meu caro Goucha, Marine Le Pen, apesar de tudo - e que se saiba -, não roubou, não tentou coagir ninguém, ameaçando gente - nem mesmo uma Procuradora da República! -, não detém armas ilegais, não provocou danos físicos a quem quer que seja, e sobretudo não esteve presa por se ter provado o seu envolvimento num assassinato. É só uma cabra de extrema-direita que pode balir livremente de forma a que se possa facilmente desmontar a bezoa.

 

Meu caro, não é de bom augúrio tentar lavar à força de lixívia o que deve permanecer porco e visível.

Marine Le Pen e o seu entrevistado - pese embora a afinidade e a proximidade -, são produtos para esgotos um bocadinho diferentes e temos de reconhecer que, nem o menino, nem a pobre Maria, aguentam as descargas de qualquer um destes intestinos sem um esbracejar patético, um nervozinho miúdo e pouqíssimo mais, ou mesmo nada.  

 

Caríssimo Goucha, retiro os óculos escuros finalmente. Serviram também para evitar o brilho das labaredas da fogueira que, mesmo ao longe, o pode queimar se continua a segurar um fósforo.   

 

Agora vá, meu caro. Tente controlar as audiências com outros meios, pois que se faz tarde e vai começar o programa gémeo do seu na estação rival.

 

Cartoon - G. Haderer   

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A Gaffe trabalhista

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.18

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Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista inglês, cuspiu em surdina, em plena Câmara, um stupid woman em direcção a Theresa May. Minutos mais tarde, mente, negando o sussurro e proclama que jamais quis ser sexista ou misógino.

 

A Gaffe não considera que o honrado cavalheiro tenha sido coisa tamanha.

Não foi.

Corbyn foi apenas grosseiro e mal-educado, aliando estes mimos ao facto de não cuidar da pele e da higiene dentária.

 

Os honrados cavalheiros que a Gaffe conhece - e conhece vários -, não são sexistas, misóginos ou machistas. São educadíssimos, cultos e letrados, lavam os dentes, cuidam da barba e da pele, são donos de um capital simbólico e de um carisma incontornáveis, consequência também do facto de não possuírem rasto de Jeremy Corbyn a toldar-lhes o discernimento e de serem genuinamente elegantes.

 

O sexismo, o machismo e a misoginia são apanágio de homens pobres.

 

A Gaffe considera, no entanto, que a tríade reúne conceitos hipervalorizados.

 

Uma rapariga esperta sabe que as manifestações do grotesco masculino podem e devem ser rentabilizas e reorganizadas a seu favor.

Apoiemo-nos num exemplo simplicíssimo. Um clássico:

É uma delícia termos a possibilidade de observar um matulão, um macho, um bigodaço, convencidíssimo que somos incapazes de mudar um pneu, a suar apoplético, tentando desapertar aquelas coisas que prendem a roda ao motor. Quanto mais parvas e deslumbradas parecemos, mais o homem se esforça. Quanto mais imbecis e frágeis nos mostramos, mais o rapagão se estimula. Quanto mais estereotipadamente femininas conseguimos ser, mais o papalvo nos trata como princesas inúteis de conto de fadas, dotadas apenas para o esvoaçar etéreo do não fazer nada.

 

É evidente que desconhece que uma rapariga esperta não muda um pneu. Troca de carro.

 

Theresa May é - não duvidemos, pese embora dela possamos discordar -, uma rapariga espertíssima. O facto de ter sido apanhada a dançar para inglês ver, não o atesta, mas o sinistro ocorreu quando a moçoila tentou, infeliz, imitar os seus congéneres todos machos e muito propensos a bailar com o povo quando querem muito ser depois maestros. May perante a deselegância, a grosseria e a má educação do opositor - permitindo que o olhassem como sexista e misógino -, resolveu ler em silêncio, assistindo do meio das folhas à derrota do seu adversário. Percebeu naquele instante que o homem tinha alterado drasticamente o foco do debate onde corria perigo.

 

É que ler ajuda imenso. 

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A Gaffe encanecida

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.18

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Adolfo Dominguez é um dos mais prestigiados criadores de trapos capaz de produzir fortunas com peças suficientemente básicas e inteligentes que acabam a agradar a públicos diversos. Embora não seja - nem de longe, nem de perto -, um dos meus favoritos, é responsável por uma campanha admirável que visa a valorização da idade, a durabilidade, a qualidade e a longevidade - das peças e das pessoas.

 

Sé más viejo

 

O elogio da velhice, a promoção da sabedoria que advém da experiência e da capacidade de racionalizar - e relativizar -, o que se consome, está aliada ao enaltecimento daqueles que ostentam orgulhosamente as cãs que entregam o charme e a beleza inconfundível a quem sabe envelhecer.

 

É lógico que a campanha teve em consideração o facto de vivermos num planeta habitado por gente cada vez mais velha e necessariamente alvo de maior atenção dos publicitários ao serviço do consumo, mas é também verdade que a ainda lenta valorização do envelhecimento assumido sem artifícios, nos vai mostrado a extraordinária beleza das mulheres e dos homens que se vão afastando do ideal de excelência que entroniza a juventude, que lhe entrega a única e derradeira forma de se ser perfeito.

 

Cada um destes velhos nos prova, em todos os momentos, que envelhecer é somente uma outra forma de se ser magnífico.     

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A Gaffe a meio do mês

rabiscado pela Gaffe, em 03.10.18

 

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A Gaffe suspeita que este andar de lá para cá e de cá para lá, com coisas pesadíssimas que as empregadas carregam para a mala do carro, a está a cansar imenso e a confundir a visão.

Na autoestrada, a Gaffe sobe o mavioso olhar para um letreio luminoso que a deixa perplexa.

Em letras desenhadas a amarelo, sobre um fundo negro, esta rapariga lê:

 

  Até 15 de Outubro é proibido fazer queixinhas  

 

A Gaffe pensou recuar para reler o espanto, mas um psicopata qualquer que seguia logo atrás decidiu de repente desatar a buzinar como se lhe tivessem rompido as águas. Há gente que não merece que se lhe altere a morada fiscal para Pedrogão. Gente que não sabe relaxar, não deve ter casa de férias. Monstros que podem perfeitamente provocar estragos, assustando as pessoas giras com as cornetas do Apocalipse.   

A Gaffe ficou irritadíssima, desistindo mesmo de confirmar o absurdo que tinha acabado de ler.

 

Foi intrigada o resto do caminho.

 

Será que é uma pitada de humor daquelas pessoas que gerem as ruas em que uma pessoa não paga portagem, porque pode usar a via-verde? Toda a gente sabe que são criaturas com um sentido de graça retorcido e ligeiramente parvo - basta para o provar o facto de a deixarem passar naquelas cabinas estreitíssimas e sem ar condicionado, logo ali nas entradas e saídas, com umas pessoas dentro não se sabe bem a fazer o quê, sem um pau que a impeça, apenas porque tem uma caixinha colado no vidro. Há gente que não merece o aumento do ordenado mínimo. Vadios!

 

Será que é uma indirecta à mulher que acusou Cristiano Ronaldo de abuso sexual, de violação, depois de acordar receber do rapaz uma ligeira fortuna para que não abrisse a boca - deixando-a confusa, pois que tinha recebido ordem contrária, algures no mato da festarola do menino d'oiro? Uma prostituta, uma tipa que sabe para onde vai - a Gaffe já ouviu, mais uma vez, esta referência criminosa, mais outra vez, a ilibar um criminoso -, pode perfeitamente ser violada. O menino é apenas vítima de bullying. Mais uma vez, não é?

 

Será que as pessoas que gerem as ruas onde está o letreiro - pervertidos que espreitam por imensas câmaras que fazem um carro apitar de repente como se fosse uma ambulância fanhosa e deprimida -, sabem que a Gaffe morre de amores por guardas prisionais altos, morenos, barbudos, musculados, suados, fardados e com imenso casse-tête, mas que depois do 15 de Outubro já não pode ser apanhada pelas malhas da Lei, por se encontrar desde a véspera num paraíso que não tem aquela maçuda possibilidade de extradição sabem os deuses para onde. Maldosos!

 

As hipóteses espalham-se pelo lugar do morto, onde morrem de tédio.

 

A Gaffe, chega ao destino pronta a engolir um Vallium, tão nervosa que estava, e, envergonhada pela mana, descobre que existe no cérebro um dispositivo nojento que decide apressar a leitura de uma palavra que se adivinha, não se chegando a acabar de ler.

 

O letreio afinal proibia queimadas. O M foi lido como X - as rodinhas gordinhas e amarelinhas sempre foram rabisqueiras -, e o resto foi suposto de imediato.

 

Afinal, pelo menos até dia 15, a Gaffe está livre do fogo. Depois Santa Joana das fogueiras francesas poderá ser queimada em nome dela.  

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A Gaffe no primeiro beijo

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.18

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De corpos imóveis se faz este beijo.

Nenhuma superfície de pele será tocada. A nudez não tem lugar a não ser a do silêncio e a da lentidão das bocas. O primeiro beijo é a um abeiramento, não é uma invasão. Exige a contenção das árvores que adivinham o momento de cortar a vida às folhas, a segurança das raízes que reconhecem o húmus e a estabilidade da seiva que corre de acordo com o batimento do Universo.

 

O primeiro beijo constrói-se primeiro nos olhos. É do olhar que parte a boca.

 

Abeira-te do que será beijado. Que o teu corpo iniba todo movimento de modo que a imobilidade seja comum aos dois. Percebe então a pele do que se prepara caminhando-lhe pelos caminhos do rosto. Aquece os teus olhos na curva do nariz do que vai ser beijado, no dealbar dos lábios, no início das pestanas e no sulco nasal onde poderás deixar as tuas íris. Sente-lhe o morno sopro das narinas e quando sentires sem ver o latejar da boca que te espera, aproxima a tua devagar. Não cegues. O primeiro beijo é sempre um beijo aberto para o visível. Nunca penetra nos jardins fechados e caóticos do negro em paroxismo. É um beijo de jardim geométrico e fatal.

 

Os teus lábios afloram o espaço que pertence aos lábios do beijado. Ao milimétrico espaço de um suspiro. A tua boca vai mimar o voo de um insecto que hesita no pousar, que ronda as duas pétalas e que receia a morte naquela flor carnívora.

 

Roda o teu rosto, mas mantém a boca o centro fixo do inclinar que oscila. Os teus olhos devem perceber as estrias dos lábios que te esperam e a tua língua antever as labaredas. Não toques. Procura os batimentos do peito no latejar dos olhos daquele que te quer. Permanece na busca das linhas húmidas da boca do outro.

 

Saberás do beijo quando no oscilar lento dos teus lábios encontras o desistir dos olhos do beijado.

 

Nunca percas a consciência da fragilidade do insecto. A força de um voo em fuga depende da envergadura das asas, por isso teme o encarnado que carnívoro vibra à tua espera. Lembra-te que quando a flor se abrir terá de estar rendida. Benévola será então na tua língua.

Quando adivinhares o pulsar do húmido que te chega aos lábios, a tua língua tocará no bolear da boca do beijado. É a pata de um insecto. Tem disso consciência.

 

Se aquele que beijares tremer e desistir da vida para ta entregar coberta de saliva, saberás então que aprendeste e todas as outras lições já podem começar.

 

Foto - Christer Strömholm- 1960

 

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A Gaffe digitalizada

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.17

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Quando dei por finda a minha página no facebook  - uma belíssima página, devo acrescentar, com um maravilhoso tratamento de imagem e inúmeros macaquinhos -, disseram-me de olhos esbugalhados pelo espanto, que se não alimentasse aquele cantinho, assassinando desta forma uma quantidade de likes e de amigos, não existia.

Naquele momento, confesso que atribui a desfaçatez do dito à instabilidade hormonal da autora que à data tentava enfurecida dominar a oleosidade da pele. No entanto, fui posta há dias perante as imagens de uma agressão bárbara às portas de uma coisa nocturna, o Urban Beach, e soltou-se no cérebro o eco borbulhento do que me haviam dito.

Aliei esta experiência de cariz paranormal, à visão de duas crianças de pouco mais de quatro anos que almoçavam com a família no mesmo restaurante que esta rapariga aparentemente inexistente e à de uma adolescente na mesa do canto sorvendo a sopa ao lado dos pais.

As crianças, que revelavam um comportamento irrepreensível, mimoso, fofinho e adorável, foram colocadas na frente de um monitor onde de imediato colaram os olhos e calaram todos os movimentos e sinais vitais, dando oportunidade à mãe de lhes ir enfiando o garfo nas bocas sem perder pitada da alegre, embora discreta, discussão erguida pelo tão saudável convívio familiar. A adolescente levava a colher à boca curvada sobre o telemóvel onde se adivinhavam a cor e o grafismo das páginas facebookianas, enquanto os pais miravam em silêncio a paisagem urbana e as minhas pernas quando entrei. O resto da refeição foi constantemente intervalado com uma consulta exaustiva às novidades dos murais.

 

Esta aliança da visão de uma passividade inumana das testemunhas da agressão numa coisa nocturna e três criaturinhas suspensas num monitor, foi perniciosa.

Percebi que aquilo que ecoava no meu cérebro, vindo dos confins do esquecido, consubstanciava uma verdade incontornável. Sentimos no Facebook, estamos no Instagram, indignamo-nos no Twitter, passeamos no Pinterest e trocamos de insanindades no youtube.

Somos o que para nós olha através de um vidro, somos o objecto inanimado que vai produzindo digitalmente uma individualidade, um indivíduo com um código binário em vez do outro, um algoritmo que absorve todas as nossas emoções, revoltas, indignações, frustrações, empatias, conquistas, alegrias, erros, quedas, vitórias e tudo o que mais há capaz de nos tornar donos daquilo que nos enforma a alma que vai deixando desta forma de mensurar o mundo pelo pulsar do coração, medindo-o pela quantidade de cliques que visualiza.

 

A desumanização do real e o galopante apagar do real fora de um visor, não se confinam a estes factos, mas estes factos originam indubitavelmente a ausência de resposta à barbárie. Não vemos a maior das abjecções e não reagimos aos mais escabrosos atentados à dignidade humana e não impedimos o opróbio e a infâmia, porque vai deixando de existir o tempo real, o tempo da empatia do instante e do instante de empatia, o tempo do acontecimento testemunhado pelo nosso corpo presente e pela nossa capacidade de condenação imediata do erro imundo cometido perante os nossos olhos sem artefactos digitais.

Sentimos depois através do teclado, ou libertamo-nos através do indivíduo que somos digitalmente e é da mesma forma que arriscamos todas as outras emoções de natureza e verdade mais solares, porque permitimos que surjam no monitor vividas pelo indivíduo que ali somos e morremos digitalmente se negarmos a entrega do que resta a um login e a uma password. Morremos duplamente, pois que já não somos sem as redes sociais.

 

As duas crianças continuam sem ver e sem ouvir o barulho da vida fora dos seus bonecos animados e a adolescente fotografou a sobremesa. Possivelmente aplicou um filtro ao doce da casa antes de o comer no facebook. Não existe o que tem à frente.

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A Gaffe passeriforme

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.17

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 Trump é divertido.

Trump é um manancial de boas piadas e de trocadilhos bem-humorados. A delícia dos comediantes e uma fonte copiosa de notícias engraçadas que a comunicação social não se cansa de explorar atirando holofotes e lupas às facetas caricatas do presidente da maior potencia do planeta.

 

O serão é bem mais pândego quando, no aconchego do lar, passamos em revista as peripécias que protagoniza e que vão desde as sapatadas de Melania na manápula do homem, ao empurrão no senhor de gravata em riste que se vê de repente ultrapassado e impingido para um segundo plano da fotografia, até se chegar ao maravilhoso covfefe que se vai tornando um clássico da imbecilidade. Pelo caminho o rasto de tolice a raiar a imaturidade patológica é visível a olho nu e a gargalhada solta.

 

A comunicação social vicia-se nestes pequenos truques e malabarismos, nestes minúsculos incidentes patetas, nestas manigâncias tolas de um egocêntrico cravado num tweet, apostada em nos fazer ver a tragicomédia em que se torna uma eleição que faz vencedor um irresponsável mal preparado, populista, homofóbico, preconceituoso, misógino, com tiques de ditador de circo e tudo o que se quiser que Trump alinha.

 

Neste arraial de foguetes mal lançados, as ínvias e mais perigosas - porque não noticiadas - alterações à legislação americana, são vomitadas em surdina por uma administração composta por sinistros, bem preparados - maldosos, gananciosos, implacáveis, racistas, silenciosos e tudo o que se quiser, que tudo serve -, magnatas da desumanidade. Não são notícia. Não consubstanciam alertas. Não merecem o rodapé das televisões. Não nos dizem respeito. Não são susceptíveis de nos fazer rir. Não nos fazem sentir mais inteligentes, mais diplomatas, mais honestos, mais cultos, mais bonitos, mais respeitáveis, mais humanos - e tudo o que se quiser, que sabe bem -, que o homem mais poderoso do planeta.

 

Olhamos Trump já com uma certa complacência, já como uma espécie de sábios observadores da arena da idiotice, porque o que nos diverte, o que é imbecil e age como tal, nos deixa na boca um certo travo de superioridade intelectual, fazendo parecer que pertencemos àquela elite culta e democrática capaz de denunciar e ridicularizar o ridículo, de mostrar ao mundo o que jamais se faz numa cerimónia oficial e que é maravilhoso compreender as implicações do Acordo de Paris.     

 

A comunicação social é responsável directa por este amortecer do conhecimento daquilo que os manipuladores do espantalho vão urdindo pela calada da noite, à luz do dia. Preferem noticiar os solavancos e as torções que os fios manipulados vão imprimindo ao corpo do boneco, enquanto os donos do títere vão devorando o milho.

 

É assustador pensar que quando olharmos finalmente para o campo, depois de termos perdido o medo ao espantalho tolo, reste apenas um ninho de corvos e a terra espetada pelos bicos que a sorvem.     

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A Gaffe carteirista

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.17

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Há um jogo qualquer que nos pede que enumeremos o conteúdo da nossa carteira.

 

Não seriam brilhantes as minhas respostas. Não transporto muita coisa. A minha carteira não ilustra o estereótipo.  

Trago um bloco pequeno de capa esgotada que deixei de usar há muito tempo, mas que no medo de perder o passado riscado que contém, se tornou imprescindível; uma esferográfica que pertenceu ao meu avô, preta, polida, quente; a tradicional, mas frugal, parafernália feminina, composta por instrumentos de beleza que se misturam com outros mais técnicos, mais profissionais; um protector solar quase blindado e alguns documentos fechados, muito ordenados, numa pasta pequena de couro antigo.

 

Ao lado, mesmo ao lado do batom, trago sempre um adeus.

Nunca sabemos quando o devemos usar, não sabemos sequer a frequência com que o gastaremos, mas, seja como for, quando o adeus é usado convém-nos estar sempre com os lábios retocados. 

 

Foto - Jason Langer

 

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A Gaffe com filtros

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.17

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Ouvi dizer que a forma de percebermos que deixamos de ser amados é sentir que o nosso beijo deixou de ter qualquer significado para aquele ou aquela que beijamos, sobretudo quando já significou tudo.

 

É uma formulação bastante poética e os poetas raramente se enganam.

 

Há no entanto um dispositivo escondido dentro de nós que detecta o fim de um amor sem qualquer necessidade de ler desta forma osculatória os sentimentos do outro.

 

A erosão do amor faz-se de forma lenta, mas perceptível. 

 

Tem a ver com o nosso regresso à banalidade. O desamor é o confronto com a banalidade. Daí sentirmos que a solidão nos volta a preencher os dias. Nada é mais deserto do que nos descobrimos apenas mais um ponto acrescentado à multidão de pontos que nos são iguais.

 

Deixarmos de ser amados é voltar a saber que os rabiscos que fazemos nas páginas do caderno de apontamentos não rivalizam com os esboços de da Vinci; que os traços que deixamos arrastando palavras pelo papel não são cometas; que numa gare de partida – e raras são as gares onde chegamos – somos aquele casaco que se esqueceu no braço de uma cadeira e que ninguém guarda com receio da aproximação do dono; que não pisamos nuvens quando andamos, nem os nossos gestos fazem deslizar os rios com brandura, porque caminhamos para o emprego e temos nos braços os documentos que preenchemos na véspera; que não nos alimentamos do perfume das rosas, porque temos arroz de bacalhau para o jantar e o cadáver da loiça do almoço a apodrecer na banca; que não contemos universos mágicos no peito e que a único truque de ilusionista que conseguimos fazer consiste em arranjar tempo para retirar o verniz das unhas escaqueiradas ou aparar a barba antes do horário do autocarro; que não temos a eloquência de um senador romano e que os nossos discursos são como os sopros com que se enchem balões; que não somos Charlie todos os dias que passam, porque não nos pomos a jeito; que não espargimos luz quando aparecemos, porque a lâmpada da casa de banho está outra vez fundida e não nos apetece voltar a trocá-la; que não somos passarinhos que debicam grãos de orvalho, porque a alheira nos fez azia e não há anti-ácido em casa e que a porcaria do gato que não queríamos em casa nos rasgou as cortinas e não temos os véus dos olhos de quem quer que seja como abrigo.

 

Deixarmos de ser amados é regressarmos ao que somos sem qualquer filtro. Somos banais, quotidianos, comuns, vulgares, habituais e corriqueiros, mesmo sabendo que as palavras são sinónimos.

 

Deixarmos de ser amados - ou deixarmos de amar, que também serve -, mostra-nos uma realidade que nos é adversa, a única que descobrimos ser a nossa.

Não precisamos de um beijo para nos apercebermos disto.

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A Gaffe com perguntas

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.17

Suponho que quando Lobo Antunes declara que o que se deve esperar de um livro é que nos modifique a vida, não se refere apenas àqueles de cujo abalo temos consciência, mas também aos que de modo imperceptível nos vão moldando a vida.

 

É evidente que sentimos as dores de uma metamorfose íntima quando nos encontramos com o Cavaleiro da Triste Figura, ou quando tocamos os sete andamentos de Proust, ou ainda quando o desassossego nos entra devagar pelo cantos escuros da alma, mas são as mais subtis alterações que se operam aquando do embate com obras mais discretas que alicerçam as que ocorrem quando o encontro se dá com as mais nítidas.  

 

Há uma espécie de fusão entre a maturidade de um homem e a fragilidade titubeante de uma criança no livro que me encontrou e que produz alterações sucessivas de cada vez que o abro.

 

São setenta e quatro pequenas perguntas que permitem que sejam escritas sete vezes setenta e quatro eternidades.   

 

Porque é que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?

Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco nocturno de farinha?

 

Diz-me, a rosa está nua,
ou só tem esse vestido?

Porque é que as árvores escondem 
o esplendor das suas raízes?

Haverá algo mais triste no mundo 
que um comboio imóvel na chuva?

 

Porque se suicidam as folhas 
quando se sentem amarelas?


O Livro das Perguntas - Pablo Neruda

 

Ouvi Garcia Márquez dizer que um livro deve conter tudo o que quer dizer no primeiro parágrafo. O primeiro parágrafo tem de render o leitor.

 

No Livro das Perguntas todos os poemas são primeiros parágrafos. 

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