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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e uma senhora lá de casa

rabiscado pela Gaffe, em 07.01.19

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A Gaffe reavalia seriamente o seu retorno ao facebook.

Esta rapariga perde constantemente o acesso ao que escalda e explode a cada passo no scroll das indignações desta rede social. Tem conhecimento dos factos com um atraso tão significativo que torna ressequida qualquer reacção mais comezinha.

Contudo, antes de reabrir a sua página, suplica a quem de direito que lhe defina, que clarifique, que torne facilmente perceptível e rigoroso o conceito de politicamente correcto.

 

Tudo porque a queridíssima Judite de Sousa publicou no Instagram uma foto - na apresentação da sua mais recente obra de bolso -, onde faz pose ao lado da mãe, da irmã e de uma senhora lá de casa.

A Gaffe não entende como se podem fazer cair em cima desta inocente legenda os pianos da maior dos choques e da mais temível das indignações. Não compreende como de imediato se concluiu que a senhora lá de casa era a senhora mulata. A Gaffe viu-se negra para admitir que sim, pois que no início tinha suposto que a senhora lá de casa era a idosa do lado esquerdo de Judite e, por exclusão de partes, a mãe e a irmã seriam as senhoras à direita da jornalista.

 

Depois, meus caros, não fica claro que Judite de Sousa tenha - ou não tenha -, sido politicamente correcta.

A legenda não permite concluir que a querida Judite tenha demonstrado resquícios de colonialismo ou esclavagismo, como foi dito algures num comentário mais ameno. É vertiginosamente precipitado - e bastante colonialista - concluir que a senhora lá de casa é a empregada doméstica. Ser-se mulata não está acoplado à condição de serviçal - a não ser nos manuais da Paula Bobone. A senhora lá de casa poderia perfeitamente ser a enfermeira que administra Xanax e Prozac a quem deles necessita, ou até a directora de imagem, responsável pelos outfits, da jornalista. Não é necessariamente a senhora das limpezas e afins e não tem de ser tratada como íntima da zona de novo-riquismo possidónio em que se move a nossa queridíssima vítima de linchamento faceboquiano.

 

Malgré tout, a D. Rosa, a senhora lá de casa, era mesmo a senhora mulata que faz limpezas e afins há mais de trinta anos nos passos e aposentos de Judite e que se tornou amicíssima da maravilhosa jornalista, pese embora não tenha sido nomeada simplesmente como tal, amiga do peito, ou de outra mais recatada região anatómica.

 

Não nos é permitido, contudo, acusar Judite de Sousa de falta ou de excesso daquilo que ainda não está bem definido - o politicamente correcto. Judite não se refere à D. Rosa como a preta doméstica que me faz a lida da casa pois que eu sou chique, ou a criada que até trouxe comigo, coitada, que trabalha como uma preta sem comer um croquete.

Não!

Chama-lhe a senhora lá de casa o que apesar de criar uma exagerada distância de segurança entre veículos de cores diferentes, não impede que se desloquem na mesma faixa rodoviária, se quisermos usar, só porque sim, uma metáfora com ligações ao trânsito - intestinal ou outro.

 

Judite de Sousa, meus amores, não é politicamente correcta, nem politicamente incorrecta. Fica a meia haste. É apenas o que se espera com uma previsibilidade desesperante de uma nova-rica com péssimo gosto para legendar no instagram.  

 

Se a Gaffe quisesse ser fotografada com a mãe e irmã, tendo Judite de Sousa como apêndice esporádico, a legenda poderia perfeitamente ser a Gaffe, com a mãe e irmã e com uma senhora que ninguém quer lá em casa. Não vem mal ao mundo, pese embora se continue a desconhecer se politicamente esta seria uma opção correcta ou se por incorrecta se tornaria digna de linchamento público.

 

Mais uma vez se realça que há que definir com precisão este conceito em nome de um mais profícuo e amistoso convívio faceboquiano. 

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A Gaffe escreve ao Manel Luís

rabiscado pela Gaffe, em 04.01.19

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Meu queridíssimo Goucha,

 

Antes de tudo quero desculpar-me por não retirar os óculos escuros enquanto a si me dirijo. Acredite que me sinto mais resguardada, não deixando nunca de perder a oportunidade de exibir o meu lado mais sombrio que contrabalança - sem ofuscar -, a sua esfuziante alegria. Uno este conforto à possibilidade de passar incógnita, irreconhecível, no seu programa matinal.

 

Escrevo para lhe expor a minha perplexidade, a minha curiosidade e o meu espanto. O menino surpreende. Não me refiro, é evidente, aos seus peculiares outfits, mas às manobras que executa para não se perceber o desespero que parece ter assolado a sua tilintante presença televisiva.

 

Como é lógico, lembrei-o numa entrevista sóbria que deu, de fato azul escuro, camisa de um alvura imaculada e gravata regimental, a uma senhora que me pareceu transtornada pela escolha – creio que Judite de Sousa. O menino primou pela verborreia e pelo desfilar impecável de todos os lugares-comuns que se possam enojar. Era o sambódromo da banalidade politicamente lavada e interminavelmente limpinha. Confesso que fiquei até ao fim à espera de ver surgir a pomba luminosa que aparentava habitar-lhe o coração. Foi uma desilusão ter vislumbrado apenas uma auréola pindérica colada à sua cabeça com saliva. Não convém, portanto, indicar o politicamente correcto como responsável pelo ruído que amanheceu consigo na TV e que posteriormente atingiu as redes sociais - mais uma vez de pavio curtíssimo.      

 

Admito que me irritou um bocadinho. Gosto mais do seu registo desafiador, irreverente e ousado e do seu histrionismo capaz de o levar a qualquer lado sem o menor escrúpulo e sem uma pontinha de ética para o apimentar, pese embora cubra estas misérias com um mal engendrado respeito pelo outro, acompanhado sempre por um lamento pio e solidário, uma revolta contra a injustiça e essas coisas todas boas e bonitas que tão bem sabe mimar. Suponho que estas características não lhe são impostas pelo dono de qualquer rubrica. O menino quer, o menino manda. Se o menino bate o pé, o menino tem.  

 

Repare, meu caro, que o considero um dos mais talentosos entertainers da televisão portuguesa o que é - mesmo que digam que cada estação tem o clima que merece e que cada público tem o que deseja -, façanha digna de registo e acredite que não sou uma velhinha entrevada e enfiada num lar apodrecido à espera de ouvir e ver relatos ilustrados e comentados de assassínios enquanto come a carcaça com manteiga e tenta esgotar a reforma nas chamadas de valor acrescentado que o menino não se cansa de sugerir. Sou uma petiza de boas famílias com um pecúlio razoável e, como tal, não quero deixar de o felicitar pela maravilhosa entrevista que fez a Mário Machado e pela sondagem da sua lavra que questiona se os seus leitores sentem a falta de Salazar - eu sinto. Há uns anos proibiram a colher de pau e o salazar corre perigo de extinção. A cozinha portuguesa fica cada vez mais depauperada. Estou consigo à volta dos tachos. Eu, e a Maria Vieira no facebook.

 

No entanto, meu caro Goucha, senti que o menino não se informou como deve ser acerca do moçoilo que tinha na frente. Mário Machado não é um rapazinho que fez apenas, há uns tempos, umas declarações polémicas. O menino teve um anjo protector por perto - provavelmente o mesmo que abençoa Teresa Guilherme -, logo ali em cima dos berloques da gravata. Foi um milagre não ter ocorrido um acidente e ter ficado com uma matraca ensanguentada enfiada no seu casamento.

 

Também não sou -  tal como diz que não é -, apologista do silenciar de vozes que arrastam perigos incontroláveis, eivados de populismo e de outros malefícios - que com certeza reconhece, porque provavelmente sofreu alguns durante a vida. Também não considerei bonito terem retirado o convite a Marine Le Pen para ser oradora naquela festa de finalistas de startups, mas convenhamos, meu caro Goucha, Marine Le Pen, apesar de tudo - e que se saiba -, não roubou, não tentou coagir ninguém, ameaçando gente - nem mesmo uma Procuradora da República! -, não detém armas ilegais, não provocou danos físicos a quem quer que seja, e sobretudo não esteve presa por se ter provado o seu envolvimento num assassinato. É só uma cabra de extrema-direita que pode balir livremente de forma a que se possa facilmente desmontar a bezoa.

 

Meu caro, não é de bom augúrio tentar lavar à força de lixívia o que deve permanecer porco e visível.

Marine Le Pen e o seu entrevistado - pese embora a afinidade e a proximidade -, são produtos para esgotos um bocadinho diferentes e temos de reconhecer que, nem o menino, nem a pobre Maria, aguentam as descargas de qualquer um destes intestinos sem um esbracejar patético, um nervozinho miúdo e pouqíssimo mais, ou mesmo nada.  

 

Caríssimo Goucha, retiro os óculos escuros finalmente. Serviram também para evitar o brilho das labaredas da fogueira que, mesmo ao longe, o pode queimar se continua a segurar um fósforo.   

 

Agora vá, meu caro. Tente controlar as audiências com outros meios, pois que se faz tarde e vai começar o programa gémeo do seu na estação rival.

 

Cartoon - G. Haderer   

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A Gaffe trabalhista

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.18

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Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista inglês, cuspiu em surdina, em plena Câmara, um stupid woman em direcção a Theresa May. Minutos mais tarde, mente, negando o sussurro e proclama que jamais quis ser sexista ou misógino.

 

A Gaffe não considera que o honrado cavalheiro tenha sido coisa tamanha.

Não foi.

Corbyn foi apenas grosseiro e mal-educado, aliando estes mimos ao facto de não cuidar da pele e da higiene dentária.

 

Os honrados cavalheiros que a Gaffe conhece - e conhece vários -, não são sexistas, misóginos ou machistas. São educadíssimos, cultos e letrados, lavam os dentes, cuidam da barba e da pele, são donos de um capital simbólico e de um carisma incontornáveis, consequência também do facto de não possuírem rasto de Jeremy Corbyn a toldar-lhes o discernimento e de serem genuinamente elegantes.

 

O sexismo, o machismo e a misoginia são apanágio de homens pobres.

 

A Gaffe considera, no entanto, que a tríade reúne conceitos hipervalorizados.

 

Uma rapariga esperta sabe que as manifestações do grotesco masculino podem e devem ser rentabilizas e reorganizadas a seu favor.

Apoiemo-nos num exemplo simplicíssimo. Um clássico:

É uma delícia termos a possibilidade de observar um matulão, um macho, um bigodaço, convencidíssimo que somos incapazes de mudar um pneu, a suar apoplético, tentando desapertar aquelas coisas que prendem a roda ao motor. Quanto mais parvas e deslumbradas parecemos, mais o homem se esforça. Quanto mais imbecis e frágeis nos mostramos, mais o rapagão se estimula. Quanto mais estereotipadamente femininas conseguimos ser, mais o papalvo nos trata como princesas inúteis de conto de fadas, dotadas apenas para o esvoaçar etéreo do não fazer nada.

 

É evidente que desconhece que uma rapariga esperta não muda um pneu. Troca de carro.

 

Theresa May é - não duvidemos, pese embora dela possamos discordar -, uma rapariga espertíssima. O facto de ter sido apanhada a dançar para inglês ver, não o atesta, mas o sinistro ocorreu quando a moçoila tentou, infeliz, imitar os seus congéneres todos machos e muito propensos a bailar com o povo quando querem muito ser depois maestros. May perante a deselegância, a grosseria e a má educação do opositor - permitindo que o olhassem como sexista e misógino -, resolveu ler em silêncio, assistindo do meio das folhas à derrota do seu adversário. Percebeu naquele instante que o homem tinha alterado drasticamente o foco do debate onde corria perigo.

 

É que ler ajuda imenso. 

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A Gaffe encanecida

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.18

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Adolfo Dominguez é um dos mais prestigiados criadores de trapos capaz de produzir fortunas com peças suficientemente básicas e inteligentes que acabam a agradar a públicos diversos. Embora não seja - nem de longe, nem de perto -, um dos meus favoritos, é responsável por uma campanha admirável que visa a valorização da idade, a durabilidade, a qualidade e a longevidade - das peças e das pessoas.

 

Sé más viejo

 

O elogio da velhice, a promoção da sabedoria que advém da experiência e da capacidade de racionalizar - e relativizar -, o que se consome, está aliada ao enaltecimento daqueles que ostentam orgulhosamente as cãs que entregam o charme e a beleza inconfundível a quem sabe envelhecer.

 

É lógico que a campanha teve em consideração o facto de vivermos num planeta habitado por gente cada vez mais velha e necessariamente alvo de maior atenção dos publicitários ao serviço do consumo, mas é também verdade que a ainda lenta valorização do envelhecimento assumido sem artifícios, nos vai mostrado a extraordinária beleza das mulheres e dos homens que se vão afastando do ideal de excelência que entroniza a juventude, que lhe entrega a única e derradeira forma de se ser perfeito.

 

Cada um destes velhos nos prova, em todos os momentos, que envelhecer é somente uma outra forma de se ser magnífico.     

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A Gaffe a meio do mês

rabiscado pela Gaffe, em 03.10.18

 

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A Gaffe suspeita que este andar de lá para cá e de cá para lá, com coisas pesadíssimas que as empregadas carregam para a mala do carro, a está a cansar imenso e a confundir a visão.

Na autoestrada, a Gaffe sobe o mavioso olhar para um letreio luminoso que a deixa perplexa.

Em letras desenhadas a amarelo, sobre um fundo negro, esta rapariga lê:

 

  Até 15 de Outubro é proibido fazer queixinhas  

 

A Gaffe pensou recuar para reler o espanto, mas um psicopata qualquer que seguia logo atrás decidiu de repente desatar a buzinar como se lhe tivessem rompido as águas. Há gente que não merece que se lhe altere a morada fiscal para Pedrogão. Gente que não sabe relaxar, não deve ter casa de férias. Monstros que podem perfeitamente provocar estragos, assustando as pessoas giras com as cornetas do Apocalipse.   

A Gaffe ficou irritadíssima, desistindo mesmo de confirmar o absurdo que tinha acabado de ler.

 

Foi intrigada o resto do caminho.

 

Será que é uma pitada de humor daquelas pessoas que gerem as ruas em que uma pessoa não paga portagem, porque pode usar a via-verde? Toda a gente sabe que são criaturas com um sentido de graça retorcido e ligeiramente parvo - basta para o provar o facto de a deixarem passar naquelas cabinas estreitíssimas e sem ar condicionado, logo ali nas entradas e saídas, com umas pessoas dentro não se sabe bem a fazer o quê, sem um pau que a impeça, apenas porque tem uma caixinha colado no vidro. Há gente que não merece o aumento do ordenado mínimo. Vadios!

 

Será que é uma indirecta à mulher que acusou Cristiano Ronaldo de abuso sexual, de violação, depois de acordar receber do rapaz uma ligeira fortuna para que não abrisse a boca - deixando-a confusa, pois que tinha recebido ordem contrária, algures no mato da festarola do menino d'oiro? Uma prostituta, uma tipa que sabe para onde vai - a Gaffe já ouviu, mais uma vez, esta referência criminosa, mais outra vez, a ilibar um criminoso -, pode perfeitamente ser violada. O menino é apenas vítima de bullying. Mais uma vez, não é?

 

Será que as pessoas que gerem as ruas onde está o letreiro - pervertidos que espreitam por imensas câmaras que fazem um carro apitar de repente como se fosse uma ambulância fanhosa e deprimida -, sabem que a Gaffe morre de amores por guardas prisionais altos, morenos, barbudos, musculados, suados, fardados e com imenso casse-tête, mas que depois do 15 de Outubro já não pode ser apanhada pelas malhas da Lei, por se encontrar desde a véspera num paraíso que não tem aquela maçuda possibilidade de extradição sabem os deuses para onde. Maldosos!

 

As hipóteses espalham-se pelo lugar do morto, onde morrem de tédio.

 

A Gaffe, chega ao destino pronta a engolir um Vallium, tão nervosa que estava, e, envergonhada pela mana, descobre que existe no cérebro um dispositivo nojento que decide apressar a leitura de uma palavra que se adivinha, não se chegando a acabar de ler.

 

O letreio afinal proibia queimadas. O M foi lido como X - as rodinhas gordinhas e amarelinhas sempre foram rabisqueiras -, e o resto foi suposto de imediato.

 

Afinal, pelo menos até dia 15, a Gaffe está livre do fogo. Depois Santa Joana das fogueiras francesas poderá ser queimada em nome dela.  

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A Gaffe no primeiro beijo

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.18

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De corpos imóveis se faz este beijo.

Nenhuma superfície de pele será tocada. A nudez não tem lugar a não ser a do silêncio e a da lentidão das bocas. O primeiro beijo é a um abeiramento, não é uma invasão. Exige a contenção das árvores que adivinham o momento de cortar a vida às folhas, a segurança das raízes que reconhecem o húmus e a estabilidade da seiva que corre de acordo com o batimento do Universo.

 

O primeiro beijo constrói-se primeiro nos olhos. É do olhar que parte a boca.

 

Abeira-te do que será beijado. Que o teu corpo iniba todo movimento de modo que a imobilidade seja comum aos dois. Percebe então a pele do que se prepara caminhando-lhe pelos caminhos do rosto. Aquece os teus olhos na curva do nariz do que vai ser beijado, no dealbar dos lábios, no início das pestanas e no sulco nasal onde poderás deixar as tuas íris. Sente-lhe o morno sopro das narinas e quando sentires sem ver o latejar da boca que te espera, aproxima a tua devagar. Não cegues. O primeiro beijo é sempre um beijo aberto para o visível. Nunca penetra nos jardins fechados e caóticos do negro em paroxismo. É um beijo de jardim geométrico e fatal.

 

Os teus lábios afloram o espaço que pertence aos lábios do beijado. Ao milimétrico espaço de um suspiro. A tua boca vai mimar o voo de um insecto que hesita no pousar, que ronda as duas pétalas e que receia a morte naquela flor carnívora.

 

Roda o teu rosto, mas mantém a boca o centro fixo do inclinar que oscila. Os teus olhos devem perceber as estrias dos lábios que te esperam e a tua língua antever as labaredas. Não toques. Procura os batimentos do peito no latejar dos olhos daquele que te quer. Permanece na busca das linhas húmidas da boca do outro.

 

Saberás do beijo quando no oscilar lento dos teus lábios encontras o desistir dos olhos do beijado.

 

Nunca percas a consciência da fragilidade do insecto. A força de um voo em fuga depende da envergadura das asas, por isso teme o encarnado que carnívoro vibra à tua espera. Lembra-te que quando a flor se abrir terá de estar rendida. Benévola será então na tua língua.

Quando adivinhares o pulsar do húmido que te chega aos lábios, a tua língua tocará no bolear da boca do beijado. É a pata de um insecto. Tem disso consciência.

 

Se aquele que beijares tremer e desistir da vida para ta entregar coberta de saliva, saberás então que aprendeste e todas as outras lições já podem começar.

 

Foto - Christer Strömholm- 1960

 

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A Gaffe digitalizada

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.17

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Quando dei por finda a minha página no facebook  - uma belíssima página, devo acrescentar, com um maravilhoso tratamento de imagem e inúmeros macaquinhos -, disseram-me de olhos esbugalhados pelo espanto, que se não alimentasse aquele cantinho, assassinando desta forma uma quantidade de likes e de amigos, não existia.

Naquele momento, confesso que atribui a desfaçatez do dito à instabilidade hormonal da autora que à data tentava enfurecida dominar a oleosidade da pele. No entanto, fui posta há dias perante as imagens de uma agressão bárbara às portas de uma coisa nocturna, o Urban Beach, e soltou-se no cérebro o eco borbulhento do que me haviam dito.

Aliei esta experiência de cariz paranormal, à visão de duas crianças de pouco mais de quatro anos que almoçavam com a família no mesmo restaurante que esta rapariga aparentemente inexistente e à de uma adolescente na mesa do canto sorvendo a sopa ao lado dos pais.

As crianças, que revelavam um comportamento irrepreensível, mimoso, fofinho e adorável, foram colocadas na frente de um monitor onde de imediato colaram os olhos e calaram todos os movimentos e sinais vitais, dando oportunidade à mãe de lhes ir enfiando o garfo nas bocas sem perder pitada da alegre, embora discreta, discussão erguida pelo tão saudável convívio familiar. A adolescente levava a colher à boca curvada sobre o telemóvel onde se adivinhavam a cor e o grafismo das páginas facebookianas, enquanto os pais miravam em silêncio a paisagem urbana e as minhas pernas quando entrei. O resto da refeição foi constantemente intervalado com uma consulta exaustiva às novidades dos murais.

 

Esta aliança da visão de uma passividade inumana das testemunhas da agressão numa coisa nocturna e três criaturinhas suspensas num monitor, foi perniciosa.

Percebi que aquilo que ecoava no meu cérebro, vindo dos confins do esquecido, consubstanciava uma verdade incontornável. Sentimos no Facebook, estamos no Instagram, indignamo-nos no Twitter, passeamos no Pinterest e trocamos de insanindades no youtube.

Somos o que para nós olha através de um vidro, somos o objecto inanimado que vai produzindo digitalmente uma individualidade, um indivíduo com um código binário em vez do outro, um algoritmo que absorve todas as nossas emoções, revoltas, indignações, frustrações, empatias, conquistas, alegrias, erros, quedas, vitórias e tudo o que mais há capaz de nos tornar donos daquilo que nos enforma a alma que vai deixando desta forma de mensurar o mundo pelo pulsar do coração, medindo-o pela quantidade de cliques que visualiza.

 

A desumanização do real e o galopante apagar do real fora de um visor, não se confinam a estes factos, mas estes factos originam indubitavelmente a ausência de resposta à barbárie. Não vemos a maior das abjecções e não reagimos aos mais escabrosos atentados à dignidade humana e não impedimos o opróbio e a infâmia, porque vai deixando de existir o tempo real, o tempo da empatia do instante e do instante de empatia, o tempo do acontecimento testemunhado pelo nosso corpo presente e pela nossa capacidade de condenação imediata do erro imundo cometido perante os nossos olhos sem artefactos digitais.

Sentimos depois através do teclado, ou libertamo-nos através do indivíduo que somos digitalmente e é da mesma forma que arriscamos todas as outras emoções de natureza e verdade mais solares, porque permitimos que surjam no monitor vividas pelo indivíduo que ali somos e morremos digitalmente se negarmos a entrega do que resta a um login e a uma password. Morremos duplamente, pois que já não somos sem as redes sociais.

 

As duas crianças continuam sem ver e sem ouvir o barulho da vida fora dos seus bonecos animados e a adolescente fotografou a sobremesa. Possivelmente aplicou um filtro ao doce da casa antes de o comer no facebook. Não existe o que tem à frente.

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A Gaffe passeriforme

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.17

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 Trump é divertido.

Trump é um manancial de boas piadas e de trocadilhos bem-humorados. A delícia dos comediantes e uma fonte copiosa de notícias engraçadas que a comunicação social não se cansa de explorar atirando holofotes e lupas às facetas caricatas do presidente da maior potencia do planeta.

 

O serão é bem mais pândego quando, no aconchego do lar, passamos em revista as peripécias que protagoniza e que vão desde as sapatadas de Melania na manápula do homem, ao empurrão no senhor de gravata em riste que se vê de repente ultrapassado e impingido para um segundo plano da fotografia, até se chegar ao maravilhoso covfefe que se vai tornando um clássico da imbecilidade. Pelo caminho o rasto de tolice a raiar a imaturidade patológica é visível a olho nu e a gargalhada solta.

 

A comunicação social vicia-se nestes pequenos truques e malabarismos, nestes minúsculos incidentes patetas, nestas manigâncias tolas de um egocêntrico cravado num tweet, apostada em nos fazer ver a tragicomédia em que se torna uma eleição que faz vencedor um irresponsável mal preparado, populista, homofóbico, preconceituoso, misógino, com tiques de ditador de circo e tudo o que se quiser que Trump alinha.

 

Neste arraial de foguetes mal lançados, as ínvias e mais perigosas - porque não noticiadas - alterações à legislação americana, são vomitadas em surdina por uma administração composta por sinistros, bem preparados - maldosos, gananciosos, implacáveis, racistas, silenciosos e tudo o que se quiser, que tudo serve -, magnatas da desumanidade. Não são notícia. Não consubstanciam alertas. Não merecem o rodapé das televisões. Não nos dizem respeito. Não são susceptíveis de nos fazer rir. Não nos fazem sentir mais inteligentes, mais diplomatas, mais honestos, mais cultos, mais bonitos, mais respeitáveis, mais humanos - e tudo o que se quiser, que sabe bem -, que o homem mais poderoso do planeta.

 

Olhamos Trump já com uma certa complacência, já como uma espécie de sábios observadores da arena da idiotice, porque o que nos diverte, o que é imbecil e age como tal, nos deixa na boca um certo travo de superioridade intelectual, fazendo parecer que pertencemos àquela elite culta e democrática capaz de denunciar e ridicularizar o ridículo, de mostrar ao mundo o que jamais se faz numa cerimónia oficial e que é maravilhoso compreender as implicações do Acordo de Paris.     

 

A comunicação social é responsável directa por este amortecer do conhecimento daquilo que os manipuladores do espantalho vão urdindo pela calada da noite, à luz do dia. Preferem noticiar os solavancos e as torções que os fios manipulados vão imprimindo ao corpo do boneco, enquanto os donos do títere vão devorando o milho.

 

É assustador pensar que quando olharmos finalmente para o campo, depois de termos perdido o medo ao espantalho tolo, reste apenas um ninho de corvos e a terra espetada pelos bicos que a sorvem.     

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A Gaffe carteirista

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.17

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Há um jogo qualquer que nos pede que enumeremos o conteúdo da nossa carteira.

 

Não seriam brilhantes as minhas respostas. Não transporto muita coisa. A minha carteira não ilustra o estereótipo.  

Trago um bloco pequeno de capa esgotada que deixei de usar há muito tempo, mas que no medo de perder o passado riscado que contém, se tornou imprescindível; uma esferográfica que pertenceu ao meu avô, preta, polida, quente; a tradicional, mas frugal, parafernália feminina, composta por instrumentos de beleza que se misturam com outros mais técnicos, mais profissionais; um protector solar quase blindado e alguns documentos fechados, muito ordenados, numa pasta pequena de couro antigo.

 

Ao lado, mesmo ao lado do batom, trago sempre um adeus.

Nunca sabemos quando o devemos usar, não sabemos sequer a frequência com que o gastaremos, mas, seja como for, quando o adeus é usado convém-nos estar sempre com os lábios retocados. 

 

Foto - Jason Langer

 

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A Gaffe com filtros

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.17

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Ouvi dizer que a forma de percebermos que deixamos de ser amados é sentir que o nosso beijo deixou de ter qualquer significado para aquele ou aquela que beijamos, sobretudo quando já significou tudo.

 

É uma formulação bastante poética e os poetas raramente se enganam.

 

Há no entanto um dispositivo escondido dentro de nós que detecta o fim de um amor sem qualquer necessidade de ler desta forma osculatória os sentimentos do outro.

 

A erosão do amor faz-se de forma lenta, mas perceptível. 

 

Tem a ver com o nosso regresso à banalidade. O desamor é o confronto com a banalidade. Daí sentirmos que a solidão nos volta a preencher os dias. Nada é mais deserto do que nos descobrimos apenas mais um ponto acrescentado à multidão de pontos que nos são iguais.

 

Deixarmos de ser amados é voltar a saber que os rabiscos que fazemos nas páginas do caderno de apontamentos não rivalizam com os esboços de da Vinci; que os traços que deixamos arrastando palavras pelo papel não são cometas; que numa gare de partida – e raras são as gares onde chegamos – somos aquele casaco que se esqueceu no braço de uma cadeira e que ninguém guarda com receio da aproximação do dono; que não pisamos nuvens quando andamos, nem os nossos gestos fazem deslizar os rios com brandura, porque caminhamos para o emprego e temos nos braços os documentos que preenchemos na véspera; que não nos alimentamos do perfume das rosas, porque temos arroz de bacalhau para o jantar e o cadáver da loiça do almoço a apodrecer na banca; que não contemos universos mágicos no peito e que a único truque de ilusionista que conseguimos fazer consiste em arranjar tempo para retirar o verniz das unhas escaqueiradas ou aparar a barba antes do horário do autocarro; que não temos a eloquência de um senador romano e que os nossos discursos são como os sopros com que se enchem balões; que não somos Charlie todos os dias que passam, porque não nos pomos a jeito; que não espargimos luz quando aparecemos, porque a lâmpada da casa de banho está outra vez fundida e não nos apetece voltar a trocá-la; que não somos passarinhos que debicam grãos de orvalho, porque a alheira nos fez azia e não há anti-ácido em casa e que a porcaria do gato que não queríamos em casa nos rasgou as cortinas e não temos os véus dos olhos de quem quer que seja como abrigo.

 

Deixarmos de ser amados é regressarmos ao que somos sem qualquer filtro. Somos banais, quotidianos, comuns, vulgares, habituais e corriqueiros, mesmo sabendo que as palavras são sinónimos.

 

Deixarmos de ser amados - ou deixarmos de amar, que também serve -, mostra-nos uma realidade que nos é adversa, a única que descobrimos ser a nossa.

Não precisamos de um beijo para nos apercebermos disto.

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A Gaffe com perguntas

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.17

Suponho que quando Lobo Antunes declara que o que se deve esperar de um livro é que nos modifique a vida, não se refere apenas àqueles de cujo abalo temos consciência, mas também aos que de modo imperceptível nos vão moldando a vida.

 

É evidente que sentimos as dores de uma metamorfose íntima quando nos encontramos com o Cavaleiro da Triste Figura, ou quando tocamos os sete andamentos de Proust, ou ainda quando o desassossego nos entra devagar pelo cantos escuros da alma, mas são as mais subtis alterações que se operam aquando do embate com obras mais discretas que alicerçam as que ocorrem quando o encontro se dá com as mais nítidas.  

 

Há uma espécie de fusão entre a maturidade de um homem e a fragilidade titubeante de uma criança no livro que me encontrou e que produz alterações sucessivas de cada vez que o abro.

 

São setenta e quatro pequenas perguntas que permitem que sejam escritas sete vezes setenta e quatro eternidades.   

 

Porque é que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?

Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco nocturno de farinha?

 

Diz-me, a rosa está nua,
ou só tem esse vestido?

Porque é que as árvores escondem 
o esplendor das suas raízes?

Haverá algo mais triste no mundo 
que um comboio imóvel na chuva?

 

Porque se suicidam as folhas 
quando se sentem amarelas?


O Livro das Perguntas - Pablo Neruda

 

Ouvi Garcia Márquez dizer que um livro deve conter tudo o que quer dizer no primeiro parágrafo. O primeiro parágrafo tem de render o leitor.

 

No Livro das Perguntas todos os poemas são primeiros parágrafos. 

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A Gaffe d'O

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.17
 

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A polémica foi medíocre, mas acabou por despertar a nossa atenção.


Michelle Obama.


Independentemente da sua tão invocada elegância, discutível como é normal, porque a noção de elegância é de tal forma subjectiva que a atribuição do estatuto é contestável, a senhora Obama assustava um pouco.
Dizem as más-línguas, que como sabemos são demasiado interessantes e interesseiras para nos podermos dar ao luxo de as ignorar, que esta mulher foi uma primeira-dama reservada, seca no trato, prepotente e dominadora.


Seja.


O facto de parte do mundo cor-de-rosa a ter começado a tratar por Michelle O, por analogia com outra O, não há motivo ou razão lógica para a aproximar da famigerada e elegantíssima Jackie.
Michelle foi e é incontestavelmente diferente.
Não teve como é evidente o allure francês que foi mantido durante toda a vida pela Kennedy-Onassis mas em contrapartida manteve um gabinete seu - muito capaz e de importância capital -, na Casa Branca.


Entre uma elegância compulsivamente consumista, uma fotogénica oscilação entre a depressão e a discreta euforia própria dos neuróticos bem controlados, e uma elegância que advém da notória inteligência de quem acompanha, impulsiona, fortalece e até mesmo substitui o seu Presidente, nós, raparigas espertas, por muito que nos custe, escolhemos a segunda, mesmo que isso assuste os cor-de-rosa pouco habituados a ver o topo do mundo ocupado por uma mulher de cores diferentes.

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A Gaffe com roseiras

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.16

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No Douro é uso plantar roseiras perto das vides.

São vermelhos sinais de perigo e de maleitas. A morte agarra primeiro o veludo indefeso das pétalas e entrega aos homens, alertados, o tempo de salvaguardar as vinhas.

Nada há para troca. 

 

Lembro-me que ia pelo condenado ardor destas roseiras bravas ao mais alto dos socalcos.
Queria ver as nuvens como bandeiras mortas desabarem.
Queria encharcada de frio, de corpo líquido e de coração de enxurrada, ouvir os queixumes das folhas e a inquietude parada dos pardais. Queria ser maior do que eu e não ser nada. Queria ir de nuvem a escorrer-me pela boca, a entrar-me nos olhos para me secar a sede. Queria ver a minha terra de encardida lama. Terra que se lateja no coração das casas. Terra de abismos a cheirar a púrpura. Terra de socalcos prestes a parir. Terra que nos vem lamber as mãos e morde de repente a latir roseiras bravas.

 

Princesa fugida do inquebrável reino, queria ver a minha terra e na enxurrada dos socalcos via rosas bravas vermelhas mortas no peito da terra. Bocados de espuma a tombar na ara de lama.

Tinha ciúmes dos retorcidos e negros troncos das videiras, dos nodosos ramos grossos de silêncio protegidos pela ardência do sacrifício das rosas vigilantes. Via a impoluta indiferença rude e tosca das videiras perante a queda, que anunciava o perigo, das rosas bravas vermelhas, moribundas.

 

Demorei todos estes anos a perceber que há rosas bravias mesmo ao nosso lado. Ignoradas rosas que morrem para evitar o pedaço da dor que nos é destinado. Rosas que se calam e que nos escudam. 

 

Gente que não vemos.

 

Em 2017 vou cuidar das rosas.         

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A Gaffe livresca

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.16
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Sinto sempre uma certa tristeza quando olho para aquilo que outrora foi acarinhado por mim como relíquia a conservar pela vida fora e que agora, embalado e atado, é apenas importante porque o foi no passado.
 
Vou levar comigo livros velhos de histórias menores, com capa de couro, lombadas com letras douradas e rebuscadas, folhas carcomidas e cheiro a mofo.

Pertenciam à minha gente. Gente que nunca poderia conhecer. Pessoas que morreram antes do meu avô ter nascido.

Há uma imensidão deles, colocados nos pesados armários do sótão, exactamente como os tinha guardado quando os descobri, já lá vão dez anos. Na altura, pensei que tinha encontrado, não um acervo valioso, mas belíssimos pedaços de memórias que se inscreviam nas margens das folhas pelos donos destes livros. Lembro-me das anotações a tinta, numa letra tombada e toda floreada, num livro de receitas de alguém que me parece ter dominado a cozinha em tempos idos.

Esse não vai.

Vão os que trazem pequenas anotações acerca de Voltaire, de Diderot, de Balzac e um ou outro de autores menores, mas que mereceram apontamentos extraordinários, mais outro que sublinha e comenta os soneto de Camões - tão mal amado e tão mal interpretado por Voltaire.

 

Isto de ter de escolher pedaços de memória é doloroso.

 

Sei que os livros que ficarem se vão deteriorar irreversivelmente. Custa-me deixar para trás os volumes que foram importantes e acarinhados por alguém, um dia, no passado. Parece-me que os desrespeito, aos livros e aos antigos donos, mas há memórias que devemos embalar e levar connosco e outras que, por muito que lamentemos, devemos deixar ficar ao abandono.

 

Até nestas decisões derradeiras as bibliotecas são parecidas com a vida.

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A Gaffe em liberdade

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.16

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Todos os clichés, frases feitas, máximas arrancadas a contextos, são, diz o meu sábio amigo, brevíssimos resumos de raciocínios complexos, sínteses ou sinopses mais ou menos enviesadas do pensamento, ou breves lantejoulas arrancadas de um tecido vasto onde por acaso cintilaram.

São insuficientes, normalmente erradas, muitas vezes fomentam preconceitos, embora não deixam de ser representações enfezadas do raciocínio que as originou.

 

Uma das mais patetas frases feitas que giram e rolam pelos cantos todos deste circo, é a famosa a minha liberdade termina quando começa a do outro. É citada, repetida, transformada em paradigma da mais sentida humanidade e tida como monumento representativo do mais elevado sentido cívico das gentes.

 

No entanto, A minha liberdade acaba quando começa a do outro não é frase digna de ser repescada ou capaz de entronizar o autor.

 

Implica uma noção e um conceito medíocres de liberdade. Circunscreve-a. Divide-a, reparte-a em bocados enclasurados em compartimentos distintos uns dos outros. Insinua a existência de um possível limite, de uma fronteira que não é possível atravessar, porque embate com o terreno que lhe é alheio e - o que acaba por se tornar mais grave -, inclui, embora sublimada, a possibilidade de acção ou atitude menos pacíficas, porque é uso tentarmos aniquilar o que nos limita ou castra. Se a liberdade do outro destrói a nossa, é espectável que a tentemos reduzir ou, igualmente violento, que sejamos obrigados a diminuir a nossa.

 

O encontro com a liberdade do outro não é, não pode ser, sinónimo do fim ou da redução daquela que é nossa, porque é exactamente deste embate que surge o local de cruzamento - mesmo de opostos -, de ligação e de crescimento. Não diminui o que quer que seja. Multiplica.

O que é nosso entrança com o que do alheio e é nesse cruzar de liberdade - ou de liberdades, como se queira -, que advém a nossa estrondosa capacidade de ampliar a vida.

 

Quando a minha liberdade acaba quando começa a do outro, estamos seguramente a falar de dois pechisbeques que não fazem conjuntinho.

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