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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do príncipe encantado

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.19

Fernando Vicente.jpgDe acordo com a perplexidade masculina, as mulheres apaixonam-se por um homem exactamente como ele é, por ele ser como é, e num instante desatam a querer modificá-lo.

 

Esta característica para além de fazer parte do nosso encanto, pertence, aos olhos do macho, ao insondável mistério da alma feminina, embora seja constrangedoramente fácil de explicar.

 

A culpa não está nas estrelas, mas próxima delas.

 

Somos todas herdeiras das aristocratas dos contos de fadas. Desde o princípio que convivemos com Princesas encantadas e desde o início que as sublimamos. Temos os genes desta nobreza encantatória que nos são transmitidos pelas narrativas da infância e somos portadoras, mais ou menos conscientes, de um imaginário palaciano em que nos movemos ao som diáfano de histórias antigas de dragões e cavaleiros.

 

Esta miscelânea de coroas encantadas de que somos feitas torna-nos capazes de acordar como a sofisticada e fria - muito Grace Kelly -, Princesa Aurora para logo a seguir, tornarmo-nos a dona de casa suburbana vivida por Branca de Neve, passando nos intervalos pela sopeira consumista que sonha desalmadamente com sapatos, não descurando encarnar, caso for necessário, Maléfica ou mesmo a Bruxa Má, cujos únicos erros são desconhecer por completo Yves-Saint-Laurent e não tratar da pele.

 

Este largo número de Princesas que somos em simultâneo contrasta com a simplicidade dos Príncipes que connosco contracenam.

 

Ao contrário dos homens que, pese embora o dito e redito, são todos diferentes - não valia a pena traí-los se fossem todos iguais -, os Príncipes encantados são idênticos. Uma pobreza que nos leva a acreditar que o rapagão que lambuza o sono de Aurora é exactamente o mesmo que nos revela o maroto fetiche por sapatos.

 

Conhecemos de cor as suas funções e reconhecemos as suas capacidades militares, mas, convenhamos, Branca de Neve pede um Príncipe caseirinho e paciente, disposto a adoptar os sete pequeninos, enquanto Aurora exige a sofisticação palaciana de um Príncipe diplomata e bailarino e Cinderela merece um fashion victim ligeiramente masoquista.

 

A uniformidade principesca é uma maçada.

 

As várias Princesas encantadas que somos - ao mesmo tempo - não deixam nunca de sonhar ver surgir o seu amado irreal e, em consequência, adaptam o real cavaleiro que as encontrou, tentando moldar o barro que lhe chega às mãos sem nunca deixar de amar as formas incompletas com que iniciam a tarefa.

 

Rapazes, tentar modificar-vos é altamente lisonjeiro! Resulta da certeza de termos encontrado um Príncipe diferente e da vontade imensa de o vermos perfeito exactamente como sabemos que sóis ou podeis ser para cada uma das nossas Infantas encantadas.

 

Não dói se aprenderdes a sempre olhar para nós como Princesas.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe com desodorizante

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.19

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A Gaffe debicava o seu iogurte, como a linda Inês posta em sossego, saltitando ao mesmo tempo de canal em canal, comando em riste e em equilíbrio, quando foi surpreendida pela publicidade a um desodorizante masculino.

 

Pensou perplexa que o que vislumbrou talvez tivesse sido impressão dela.

 

Voltou ao iogurte.

O anúncio regressou passados instantes.

O rapaz em excelente forma física tinha sido substituído por um da mesma espécie - como não podia deixar de ser, tendo em conta que fazer surgir Marques Mendes em todo o seu esplendor, de tronco nu, seria contraproducente - e o cenário divergia.

O rapazola borrifa o desodorizante nas axilas. Esquerda, direita. Esquerda, direita. Tudo muito aventureiro.

O que aconteceu em seguida é que fez o iogurte estancar de pasmo.

O rapaz, ZÁS!, borrifa desodorizante a sul do umbigo. O anterior tinha feito o mesmo.

 

A Gaffe esbugalhou os olhos.

 

Rapazes! NÃO borrifem desodorizante em locais onde apenas deve ser usado, com muita insistência, o gel do vosso banhinho diário. As axilas estão perfeitamente adaptadas ao uso de produtos desta gama. O resto, não!

O que pode pensar uma rapariga esperta quando lhe chega ao nariz o ainda que apagado aroma, assim deslocalizado, das vossas axilas a não ser que distraída confundiu geografias ou que deve estar muito mal posicionada?!

 

Credo! Aquilo não vos arde ali espargido?! 

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A Gaffe de carrapito

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.19

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O que se passa convosco, rapazes?

 

O que vem a ser aquela coisa minúscula, aquela caganita, aquele pechisbeque, aquele carrapito patético com que agora ornamentais a cabeça?!

 

Há dias em que uma rapariga consegue ignorar o botão de cabelo que amorosamente criais, mas há momentos que só apetece bater-vos com um taco de baseball nos vossos mais protegidos recantos até que aquilo se desfaça de vez.

 

Pode eventualmente ser admitido em gigantes musculados e barbudos. O corpanzil disfarça e é provável que uma rapariga se distraia com o conjunto ou que não consiga ver o bebé no topo da cabeça, mas os mais franzinos deviam abster-se de usar uma desfaçatez daquelas, embora nos pequeninos o cornicho pareça proporcionado.

O problema agrava-se quando não há cabelo que enrole e é exposto uma vassourinha minúscula, espetadinha e ouriçada, o pincel laçado do nosso verniz. Não há nenhuma criatura que vos ache inteligentes.

É o chamado preconceito piaçábico.

Para além disso, dá-vos um ar ansioso. Fica a pairar a vossa impaciência. Dir-se-ia que não aguentais esperar que o cabelo cresça para o poder prender com dignidade e o que desejo leonino que vos invade arrisca sem vergonha fazer-vos passar por idiotas capilarmente ambiciosos.

 

Não há nenhuma conversa séria que resista ao vosso pechisbeque. Ninguém consegue discutir a Teoria do Caos ou os reflexos do naturalismo na Literatura portuguesa dos fins do século XIX com um homem que tem uma coisa espetada no cérebro a olhar para nós e não adianta nada declararem que só admitem discussões de carácter artístico, porque nos apetece de imediato mandar-vos colorir de pernas no ar um livrinho com figuras geométricas.

 

A única razão para o uso de tão peculiar penteado é aquela que nos informa que talvez seja possível pendurar-vos pelo pequerrucho puxo.

 Justifica-o, mas não funciona. Uma rapariga prefere sempre pendurar um homem por outros enfeites.  

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Gavetas:

A Gaffe de terceiro grau

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.19

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A prova irrefutável de que os homens vivem num planeta distante com difíceis pontos de proximidade com aquele que habitamos é o modo como atribuem aos objectos capacidade de se tornarem autónomos e de desempenharem tarefas corriqueiras, mas essenciais, sem intervenção humana.

 

É mais do que usual ouvir um rapagão dizer, depois de chegado a casa, sapato marujo ao vento, beijinho fofinho ao lado:

- Vou espreitar o futebol enquanto as batatas se fritam.

Ou então:

- Vou ler um pedacinho do Expresso enquanto a salada se lava.

Mais frequentemente:

- Vou descansar um bocado enquanto os bifes se grelham.

Ainda com maior frequência:

- Vou ali num instantinho ler os mails enquanto a mesa se põe.

 

A salada toma banho de forma muito independente; os bifes atiram-se sozinhos para o grelhador e procuram não esturricar, exactamente como os banhistas ao sol do meio-dia no Algarve; as batatas descascam-se e nuas, magras - uns palitos! –, decidem ficar loiras e a mesa veste-se sem dar satisfações a ninguém para receber estes convidados, qual Carmen Miranda caseirinha.  

Depois a loiça lava-se enquanto o moço saboreia um Chivas Regal Royal Salute esparramado na poltrona enquanto o café se tira.

Esta extraordinária esperança masculina de ver as coisas a acontecer sem intervenção humana é claramente extraterrestre.

Se os não podemos vencer mandando-os para o planeta que os pariu ou, em alternativa, para a pata que os pôs, podemos acompanhar a sua visão do universo, aproximando-nos do modo de comunicar desta espécie. É uma excelente forma de aculturar estas criaturas, adaptando-nos a elas, e ao mesmo tempo saborear as vantagens que nos traz e que reconhecemos num instante.

 

O ideal é trabalhar nos verbos.

Há que evitar o singular. Usemos o primeiro verbo na primeria pessoa do plural sempre que uma tarefa nos pareça problemática e, se possível, façamos com que a restante frase siga os parâmetros usados pelo alienígena.  

- Temos de dar banho ao Rottweiler.

- Hoje saímos sem cuecas, porque a máquina não se ligou.

- Vamos pagar uma multa, porque o carro ficou no lugar das grávidas.  

- Não podemos evitar a reunião do condomínio, porque a convocatória se abriu.

- Temos de ir comprar frango de churrasco, porque o jantar não se fez.

 - Vamos espancar o vizinho que ouve o Roberto Leal a gritar que vai, que vai, que vai lá para a terra da Maria.

- Houston we have a problem.  

 

Se acabarmos a cantar hit the road Jack com o volume nos píncaros para que dentro da nave os radares que o avisam do perigo se avariem com a vibração, estamos então muito próximas de o mandar para casa da mãe onde o fogão cozinha sempre muito melhor que o nosso.

 

Seja como for, alteramos-lhe o planeta.  

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A Gaffe dos desobedientes

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.19

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Penso tantas vezes que se torna secundária, mesmo inútil, a imagem de correcção política, de aprumo vincado, de sensatez moderada e isenta de qualquer percalço mais ousado, de rigidez polida e conveniente ou de eventual perfeição consensual que tenta induzir uma desejada aceitação social, primeiro degrau para uma ascensão planeada.

 

Aqueles que são a imagem estereotipada do jovem adulto urbano, integrado, sociável e sociabilizado, detentores de títulos académicos pomposos, colaboradores empenhados de multinacionais, ou nomeados pelos governos como especialistas, possuem, geralmente, uma reputação acima das suas possibilidades morais.

 

Mas obedecem.

 

Obedecer não é erro imediato. Só se torna condenável quando a gravata Cerruti, normativa, aperta e asfixia muito mais do que o colarinho da escolha Lagerfeld - vamos manter dúbia esta pequena frase.

 

A conquista de uma liberdade capaz de se demarcar do jogo que acaba na uniformização e no massificar dos indivíduos, é lenta e, como o ballet, exige que se comece cedo.

 

A prova de que foi solidificada surge, de vez em quando, numa das mais vulgares ruas das cidades, usada por homens que - ao contrário dos que parecem governar as multidões -, jamais conseguirão perder o tempo, porque exibem esta liberdade carismática ao lado da cicatriz que fica da conquista.

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A Gaffe do papá

rabiscado pela Gaffe, em 19.03.19

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Sendo hoje Dia do Pai, a Gaffe decide homenagear todos os homens dedicando alguns conselhos às mulheres que vão atravessando as camas onde por descuido, acaso, ou premeditação, os marotos adquirem o estatuto que lhes permite chamar filho a alguém e onde se espera justifiquem cabalmente a existência das pilas.

A Gaffe implora que as suas companheiras de folguedos a leiam com redobrada atenção, pois que é neste pequeno repositório de alertas que pode residir a chave para a harmonia do casal.

Há regras de oiro que não podem ser quebradas quando a piloca está em jogo. Uma rapariga tem de as conhecer se não quer um divórcio complicado ou a responsabilidade de ter de encontrar um psiquiatra para o parceiro mentalmente destroçado.

 

Enumeremos as quatro magníficas. Haverá mais a seu tempo, que Roma não se fez num dia e algumas pilas levam anos a edificar.  

 

I - Não pasmar quando surge uma pila pela frente

 

Sobretudo quando já a conhecemos d’outros carnavais.  

Uma rapariga que esbugalha os olhos, deixa cair o queixo, e durante um tempo que vai parecer interminável, se imobiliza, estaca, estanca, petrifica, com um allure aterrorizado, pode ser interpretada erradamente e fazer com que pareça que a pila não é de todo a Passagem de Ano em Nova York. A pila acaba inevitavelmente por sentir que mirrou, que se delapidou por completo durante as actividades anteriores à observação, que lhe fugiram componentes que impediam que aparecesse como uma personagem amiga da Branca de Neve, que tem um rato morto preso nos tintins ou, o que é arrasador, acreditar que este maior orgulho do seu dono mais lindo, não é mais do que o Gollum do Senhor dos Anéis.

    

II - Não brincar com pilas sérias

 

Uma pila, minhas amigas, não é de todo uma Barbie.

Não é com uma pila que podemos experimentar bater naquelas coisas muito americanas que largam confettis, serpentinas e papelinhos, quando rebentam. Uma pila não é um helicóptero! Uma pila não é de plástico - embora sabendo, minhas queridas, que as há bem jeitosas nas lojas da especialidade, não é a mesma coisa, diz quem sabe. Uma pila não é capaz de tomar chá por chávena com o Mickey estampado, na baby party da prima grávida que obviamente já a experimentou. Uma pila não joga à macaca, nem salta à corda - salvo algumas excepções, que não se referem aqui por pudor e decência e sobretudo porque há tesouros que devemos guardar só para nós. Uma pila não é um cavalinho de pau - embora neste caso exista, muito aplaudida, opinião contrária – e não pode ser incluída nos nossos carrosséis. Um pila tem de ser respeitada e tratada de modo adulto. Brincar com pilas, minhas caras, é brincar com fogo. Só o devemos fazer se pertencer a um bombeiro de calendário.      

 

III - Não baptizar uma pila

 

Nenhuma pila gosta de diminutivos.

Chamar Zézinho, Manelinho ou Francisquinha a uma pila - ou nomeá-la como se fosse um bichinho -, é matá-la. É menosprezar, achincalhar e humilhar uma pila desatar aos gritos nominais - Ai, bichaninha! Ai, meu Luizinho! Se páras dou-te um soco nos alforges! - durante aquele minúsculo período de tempo em que funciona capazmente. Berrar pelo Quim Zé, ou pelo Pedrinho, ou pelo Martim, ou Bernardinho – as boas famílias - pode perfeitamente fazer surgir à porta uma pila diferente da envolvida no caso e toda muito contente.

 

IV - Não permitir que uma pila apareça como quiser 

 

Uma pila não nos pode aparecer desnuda!

Se quiséssemos uma pila depilada matávamos a Barbie e ficávamos com o Ken – que para todos os efeitos, é de plástico … -, mas não é necessário que pareça ter-se aliado ao Estado Islâmico. Há pilas que impedem que lhes vejamos os olhos! Há pilas que são terroristas barbudos, sem poder de encaixe e sobretudo sem qualquer célula activa. Há pilas que se julgam Tarzan e que desaparecem no meio da selva sem sabermos sequer se de liana em liana. Há pilas gorilas na bruma. É evidente que uma rapariga não aceita, nem quer aceitar, retirar uma pila do seu habitat natural, mas urge que tenhamos em conta a campanha governamental Portugal Chama e limpar o mato. Uma pessoa nunca sabe por onde pode começar um incêndio …      

    

 

Estas, minhas amigas, são as recomendações que podem fazer a diferença entre uma pila na mão e duas a voar.

 

Há, meus amores, que as ter sempre presentes nas nossas camas.  

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A Gaffe muito feminista

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.19

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Não é necessário, rapazes, que acordem de madrugada, tomem um duche silencioso, escovem os dentes, se perfumem, se escanhoem, troquem de pijama e se coloquem em pose, deitados ao nosso lado, para que tenhamos um acordar principesco.   

 

Acreditem, meninos, que aguentamos despertar ao som do Krakatoa ou dos Moon Spell; suportamos o velho vizinho do andar de baixo que de pantufas, pijama de flanela e roupão felpudo, nos toca à campainha preocupado com a possibilidade de nos termos esquecido de fechar as torneiras do WC, desconhecendo por completo a força com que usais a sanita; perdoamos a encharcada toalha do vosso banho que enrolais à cinta, mesmo reconhecendo que o paninho com que limpamos os óculos taparia com a mesma eficácia o que cobris fanfarrões; aceitamos a vossa biblioteca com o Kama Sutra ilustrado e o outro do Tio Patinhas, sabendo de antemão que o primeiro vos causa problemas ortopédicos e que do segundo não entendeis o argumento; abdicamos da máscara de oxigénio quando nos sussurrais o brejeiro beijito matinal; aguentamos estóicas a panóplia de roupa atirada para os cantos à espera de ganhar raiz, folhas, flores e frutificar oferendo-vos as peças que substituiriam o que finalmente foi a vossa escolha; compreendemos até os vossos boxers com tubarões estampados.

 

Nós acordamos é dispostas a ver-vos sapos.

 

O que vos faz perder a coroa, meus queridos, é a crença na Igualdade dos sexos. Nada é mais prejudicial do que confiar na disponibilidade de uma rapariga para abdicar dos seus privilégios femininos por tão pouca coisa. Um mulher que quer ter o mesmo que um homem, não tem ambição.

 

Somos raparigas pragmáticas. Muitíssimo menos românticas do que aquilo que sonhais. Não reivindicamos nada a não ser o que nos é palpável e que vos foi entregue como apenso à vossa condição de macho. O lugar de direcção, a chefia do departamento, a liderança dos exércitos, a Lei, a Ordem, o Progresso e todas essas maçadas que inventais e dominais pensando que vos vão aumentar aquilo que podeis cobrir com o paninho dos óculos.

 

O que vos transforma em sapos, rapazes, é o acreditar que vos vamos engolir se nos brindardes com aquilo a que chamais tratamento igualitário, esquecendo que o vosso trabalho se tornou duplo, porque nos tereis de enfrentar de modo feroz à mesa das mais altas negociações e, depois de aceitardes as derrotas, tereis de nos continuar a segurar o guarda-chuva e a abrir a porta do automóvel.      

 

Não convém esquecer, rapazes, que não há histórias de sapos femininos.

Por muito que façamos, continuaremos princesas que não trocam os seus reinos conquistados por cavalgadura alguma e que sabem que se o príncipe afinal é um batráquio, existe a guarda de honra obediente para segurar o leque do nosso acordar.   

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A Gaffe adjectivada

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

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É certo e sabido que os rabiscos da Gaffe estão pejados de adjectivos e de advérbios. Uma coisa tremenda que foi desde sempre apontada como desgraça para o bom fluir de um texto. Também é evidente que a Gaffe sempre teve perfeita noção da ocorrência e nunca levantou o dedo da tecla para evitar a desfaçatez. Esta rapariga não gosta de se desgastar com o gosto dos seus críticos, nem tem a intenção de elevar rascunhos tontos ao nível dos escritos dos contidos consagrados. É o que se poderá chamar um vê se te avias de adjectivação.   

 

A Gaffe aproxima-se desta forma das figuras curiosíssimas que de quando em vez trespassam os nossos areais, vendendo bugigangas. Capazes de enfrentar a maior canícula e os mais agressivos raios meridionais, estes senhores pisam brasas carregados de varapaus onde pesam centenas de inutilidades que incluem lenços de coloridos gigantescos, óculos de sol, fios, pulseiras, estatuetas africanas, elixires capilares, berloques, quinquilharia marítima, destroços de automóveis, saídas de praia para matizar gorduras, vestidinhos de alças e de bordado inglês feito na China, mantas da Covilhã, bronzeadores e uma ou outra fotografia de Mapplethorpe apanhada no caixote do lixo de Serralves.

 

A Gaffe não tem qualquer prurido em ser literal e literariamente comparada a estes corajosos vendedores de banhas de praia.

O que a aflige - de forma ligeira e muito precavida, pois que a Gaffe é muito dada a  brunouts repentinos -, é ver-se próxima daqueles senhores que aparentemente não vendem frandulagem, mas que a usam por todo o lado. O importante é que se consiga avistar a olho nu – para contrastar.

 

É evidente que os excessos femininos são condenáveis, mas nós, raparigas, podemos sempre dizer que carregamos a herança cultural de legiões de druidas. Fica bem e ninguém se atreve a passar por inculto. O dente encastrado em ouro que trazemos ao pescoço, que arrancamos à chapada a um passado recente, turbulento e barbudo, é visto como um chamariz da aura ancestral emanada pelos barbeiros, alquimistas ainda imberbes, chegado da escura, densa e esconsa Idade Média.

Com os homens estas preformativas justificações não resultam.

 

Um rapagão que se disfarça de mostruário de farraparia é, por norma, excluído da selecção de rapazes que podem ser despidos por raparigas muitíssimo empáticas, ou demasiado sociáveis nas noites das iguanas.

Os berloques, as medalhas, os anéis nos dedos e os penianos, os botões de punho, os alfinetes, os pins nas lapelas, as pulseiras, as correntes, as fitas nos punhos, as fitas ao espelho, os cintos complexos de fivelas torpedeiro, os picos das botas, os piercings nos mamilos e príncipes nas pilas, as coisas pendentes e as tretas sem dentes, os brincos, os aros, argolas nasais e as depiladas pernas que reluzem de noite, são provas cabais dos crimes que os donos cometem quando desatam a acreditar que é atraente a Feira da Ladra.

 

A Gaffe propõe que toda a fancaria usada por estes rapazes-mostruário, seja neles tatuada. Poupa imenso tempo, não oxida, não sai, nem vai, não foge, não escorrega, não se perde, não se ganha e contribui para que se cumpra o desiderato de toda esta gente à beira mar exposta. Em 2020, os portugueses terão todos uma tatuagem algures e uma selfie com Marcelo.  

 

A Gaffe dá o exemplo e tatua adjectvos e advérbios.                        

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A Gaffe e uma paixão

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.18

 

 

Há homens que atravessam o tempo e se deixam atravessar por ele, sem piedade ou condescendência, mas sem macular a mais ínfima das partículas de que são compostos.

 

São, na sua maioria, homens de génio que rasgam os limites das impossibilidades quotidianas e refazem o universo, vertendo-o num copo com vinho que bebem no entardecer de uma esplanada qualquer, depois de terem restabelecido a ordem e a alma das coisas breves distorcidas pelos outros. 

 

Na foto -Samuel Beckett

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A Gaffe psicanalista

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.18

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Freud tinha razão!

90% daquilo que os homens pensam é transformado cedo ou tarde em sexo.

O restante é sexo que transformam em ideia. 

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A Gaffe, ela própria

rabiscado pela Gaffe, em 18.10.17

A Gaffe fica perplexa perante a definição de moda apresentada pela maioria dos criadores portugueses que nunca leram Barthes, mas que vão seguindo a linha dos congéneres estrangeiros que, por sua vez, deviam enfiar um rolo de tecido na boca e outros nos orifícios similares.

 

Segundo a excelsa visão dos referidos, Moda é o que nos fica bem. Moda é sermos nós próprios - ou nós mesmos, se estivermos para nós virados.

 

Sermos nós próprios - ou nós mesmos - permite muito paspalho visual, mas, no entanto, o certo é que se cada um reconhecesse - e vestisse - as grandes verdades que somos, o mundo ficaria muitíssimo mais elegante, mais simples, mais claro, e sem dúvida muito mais pacífico.

 

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A Gaffe dos homens tristes

rabiscado pela Gaffe, em 04.10.17

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No Douro, os homens amadurecem a dor. Amadurecem a tristeza.

No Douro, a tristeza dos homens - daqueles que conheço -, vai envelhecendo com eles. Pacifica-os. Entrega-lhes uma benevolência calma e uma tranquilidade benévola, que são metamorfoses da indiferença.

 

Ao contrário dos homens, as mulheres do Douro param na tristeza. Urdem casulos pretos onde escolhem esconder a vida que estancou. Fechadas dentro da alma, espiam de negro amargo o voltear das estações, assistem enlutadas ao inexorável oxidar do tempo, detêm-se hirtas na demora da morte da memória.

Ficam só elas.

 

A tristeza dos homens, aqui no Douro, é um corpo a envelhecer ao lado deles, com o sossego do inevitável, com a delicadeza do silêncio que acompanha o paradoxo que é ter, ao mesmo tempo, uma espécie de cortesia oriental, dócil, delicada, emudecida, translúcida, submissa, e a combatividade dos retorcidos troncos das videiras.

A tristeza dos homens do Douro, usa mantos tatuados com dragões coloridos, sobreposições de sedas e de cores. Faixas pacientes. Tem cabelos lisos, pretos, presos por travessas de jade trabalhado, olhos de pálpebras fechadas, pés impalpáveis com passos delgados e mãos de chá puro de ritual antigo.

 

O rosto de alabastro.

 

A tristeza dos homens tristes, aqui no Douro, vem e vai, sempre atrás deles.

Acorda-os com o som do Shamisen. Vê-os brutais comer, despedaçando a carne ensanguentada, e toca os alimentos com a brandura dócil da deferência. Canta-lhes como cantavam as Goze, enquanto suam curvos pelas vinhas.

A tristeza dorme sempre aos pés dos homens tristes ou fica acordada a guiar o vento para lhes amainar os corpos destroçados.

 

Ao contrário das mulheres, aqui no Douro, os homens tristes nunca ficam sós.       

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A Gaffe terrorista

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

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Toda irritada, a amiga da Gaffe – enquanto as duas vão mordiscando uma porcaria comprada pela Mélinha no café que agora vende pra fora munto barato, pernas cruzadas e sapato a dar-a-dar -, dá conta da aversão que tem aos homens peludos quando por elas passa num doce balanço a caminho do bar, um macho alpha, gingão e marialva, de calções de sarja e t-shirt cava por onde se avista a Amazónia. Negra Amazónia de mistérios densos.

 

- Aquilo tem bichos dentro e a gente não sabe – avisa muito preocupada.

 

A Gaffe não pode solidarizar-se. Nunca apreciou homens que se depilam até à total humilhação do Ken e não entende o actual culto masculino por esteticistas fanáticas, psicopatas e radicais.

 

- Tens de concordar comigo que não é agradável andar à procura do homem no meio daquela mata, correndo o risco de sermos engolidas - pausa meditativa e acrescenta perplexa - lembro-me sempre de areias movediças, nunca soube porquê.

 

A Gaffe tem de concordar num pequeno pormenor. Um homem que decide não se depilar, tem de ter particular cuidado com as suas zonas menos públicas e mais púbicas. É evidente que a piloca não pode parecer, nos seus momentos mais entusiasmados, o Pinóquio que se juntou aos Talibãs.  

 

Imagem - Giovanni Paolo Cavagna

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Gavetas:

A Gaffe cro-magnon

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.17

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Não é segredo eu gostar de barbas.

 

Os homens deviam usar barba por obrigação e deviam ser encarcerados no vagão do cacilheiro de Joana Vasconcelos, algemados a Joana Vasconcelos e a ouvir Margarida Rebelo Pinto a ler um dos seus cumances, se não cumprissem o estipulado por Lei.

 

Provavelmente esta minha predisposição pilosa está ligada ao facto de todos os homens importantes da minha vida terem usado, ou usarem, barba e daí também haver à minha disposição e apreciação imensos tamanhos de barba que vão desde a lixa número três, até a uma intimidadora barba branca de cavaleiro medieval - embora não tenha memória de ter a presença do exemplar ostentado por Salvador Sobral.

 

É claro como água que usar barba não significa trocar os minutos matinais usados para um escanhoar em condições, por uma escapadela ao Facebook enquanto o pão torra e o café se faz - por norma os homens barbudos não são fãs de pequenos-almoços repletos daquilo a que chamam mariconices.

 

Usar barba é muito mais trabalhoso do que arrastar, todas as manhãs - em tronco nu, de toalha felpuda traçada na cinta, pés descalços sobre o ladrilho frio, axilas por depilar, peitorais retesados, pernas dignas da estatuária grega se o mármore fosse peludo, cabelo desalinhado e ainda a pingar nas costas, umbigo a interromper uma espinha de pelinho penteado e duas covinhas mesmo logo acima do rabiosque - e vamos lá tentar retomar a lucidez e voltar ao assunto -, uma lâmina pelo queixo.

 

Usar barba é assumir que é necessário obter um tempo realmente longo para despender no desenho, na lavagem, na hidratação, no condicionamento, no amaciar, no perfumar, no escovar, no pentear e sobretudo no aparar da dita.

 

Usar barba não é sinónimo de ter apensa ao queixo uma homenagem à Amazónia com bichos raros lá dentro. Nestes casos miseráveis, uma rapariga sente sempre muito a falta de um Centro Comercial bem desbastado onde o único animal visível é a pantera da Cartier e, lembrem-se rapazes, que acordar ao lado de um gigantesco pirilampo mágico electrocutado não povoa as nossas fantasias.   

 

Estas considerações devem-se apenas ao facto do rapagão ter tombado no jantar - depois de um exílio de quase três semanas no meio do Minho -, com uma barba descomunal.

Atrasado, ainda por cima! Se já lá estivesse, sentadinho à mesa, ninguém notava que estava vestido como se tivesse chegado de uma visita aos pobrezinhos, ao lado de Assunção Cristas, e evitava ser picado pela minha irmã:

- Tiveste dificuldade em estacionar a vaca.

Vai hoje directo - que não se atreva a tomar primeiro o pequeno-almoço -, ao António, jovem e competentíssimo barbeiro, que de armas em punho cuidará de encontrar os olhos deste brutamontes por entre o matagal cerrado e negro e decepará pelo menos metade do seu allure cro-magnon.

 

Rapazes, entreguem os queixos barbudos pelo menos duas vezes por mês a um profissional capaz de vos transformar em valentes príncipes de outras eras, sem pêlos nas orelhas e de nuca rapada. Acreditem, meus queridos, que o self-made man neste caso específico é um fracasso. Um orangotango que ao depilar-se se esqueceu que também deve atacar os pêlos que não vê.

 

Na foto - Marlon Brando

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Gavetas:

A Gaffe a apanhar pedra

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.17

Os rapazes possuem uma aptidão muito peculiar que me deixa perplexa e me faz repensar as razões da nossa permanência neste mundo pobre e pouco digno de respeito.

Acaba por se tornar uma característica e, em maior ou menor grau, é detectável em todos.

 

Resume-se à extraordinária capacidade de mostrarem ao mundo - e sobretudo à parte ocupada por mulheres -, como são maravilhosos a tentar fazer o que não sabem.

 

Esta tendência é proporcional à sua ineficiência. Quanto mais totós, mais capazes se sentem de realizar o que se transforma num palácio para os bois mirarem. Quando os factos os contradizem, escapam à realidade crua e nua, convencidos que apenas apanharam pedra.

 

O meu irmão, por exemplo, digníssimo representante da espécie, afiança que é capaz de pregar um prego com uma facilidade descontraída e humilhante.

As paredes estão cravadas de buracos que representam todas as tentativas de martelar um inocente ferrito que como por encanto costuma saltar disparado ao primeiro embate. No segundo o prego entorta, no terceiro o prego desaparece no ar, como um OVNI depois de ter avistado o Terço de Joana Vasconcelos.

 

- Apanhei pedra.

 

O homem apanha pedra sempre que tenta espetar a porcaria de um prego na manteiga! Suponho que esta evidência seria de vital utilidade se o pobre um dia se enfiasse em areias movediças. Caso tivesse à cinta um martelo e no bolso um prego, apanhava pedra. Salvava-se.

 

Em decoração não resulta.  

 

Os rapazes permanecem, conscientes ou não, convencidos que a genética lhes forneceu as aptidões dos grandes machos e que nós, recolectoras de corpinho frágil, estamos aptas apenas a realizar tarefas a que elas atribuem um ficheiro feminino.   

O resultado pode ser catastrófico, não só para a decoração, mas também para a imagem que deles temos e que benevolamente vamos mantendo com algum esforço.

 

Seria muito mais proveitoso assumir que são uma perfeita nulidade a trocar um pneu, a dominar uma prancha de surf, a arrastar móveis sem colapsar imóveis, a instalar um circuito eléctrico, a reparar o portão da garagem, ou, no mínimo, a provocar-nos um orgasmo, admitindo em contrapartida que são exímios a tricotar pegas de cozinha, ou a construir arranjos florais mirabolantes.

 

Não!

 

Preferem que assistamos ao descalabro que é ver a sua masculinidade, pura e dura, a exibir-se lampeira e toda competente rumo a um ocaso pousado nas ondas das nazarés desta vida para logo depois sermos obrigadas a cristãmente caminhar sobre as águas para os repescar e ouvir dizer logo a seguir, a abanar a negra madeixa ao vento, que apanharam pedra.

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Uma proposta de discussão feminista a não deixar escapar.

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