Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe real

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.19

 

A Gaffe, como está provado, não é especialmente católica. No entanto, não deixa de se espantar com o modo como Deus encara miseravelmente as monarquias, tendo em consideração as cabeças que escolhe para coroar.

Os outros regimes não escapam ao desprezo divino, mas os diferentes escolhidos que os encabeçam, dizem-se eleitos por outras artes.

 

Há no entanto, algumas - raras -, excepções a esta indiferença divina.

 

Há mulheres que são ocultas, latentes infantas, herdeiras dos reinos mais íntimos das almas dos homens e, mesmo sem diadema repleto de jóias solares, são capazes de urdir a mais imponente das insígnias reais: as coroas que ostentam são entrançadas com as próprias fibras.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe no seu dia

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.19

Dia da Mulher

A Gaffe tinha decidido deixar passar incólume o Dia da Mulher.

 

As características, as capacidades, as potencialidades e as qualidades que particularmente neste dia são atribuídas às mulheres e publicitadas em parangonas que fazem o Correio da Manhã parecer um jornal discreto ou um panfleto do Vaticano, dão imenso trabalho a manter e são, se bem aprofundarmos o assunto, uma maçada monumental que permite aos parceiros uma vidinha abençoada.

 

Mas a Gaffe considera lamentável que por entre os quase santificados elogios, óbolos, laudas e sinfonias que hoje são depostos no altar do feminino, se deixe escapar três dos mais importantes dotes que são apanágio da mulher:

 

O decote

As pernas

O beicinho

 

A transformação vulgar que ocorre nas auréolas que nos entregam equiparam-nos muitas vezes a guerreiras. São armas de heroísmo que empunhamos e somos mais do que nós, porque enfrentamos de peito aberto e soutien à vista desarmada a insensatez humana.

 

Tolices.

 

Tudo o que é dito e é hoje apenso a nós, pertence aos mais básicos deveres, obrigações e direitos de todos e não é agradável ou justo confinar esta parafernália de heroísmos apenas a um sexo. Não é exclusiva do feminino.

 

Há no entanto, o decote, as pernas e o beicinho.

 

A Gaffe continua a usar a metáfora bélica e considera que estas três armas fizeram mais pela humanidade e por uma carreira de merecido sucesso do que muitas palavras de Beauvoir.

 

É uma tontice condenar o uso destas três jóias como desviante, indecente, indigno, abjecto, grosseiro e mercantil ou adjectivá-lo com a colecção de mimos usados por moralistas de pacotilha. Um decote, um erguer de sobrancelhas tristes a companhar um mimado trejeito de boquinha e duas pernas bem usados, apenas manipulam a idiotice do poder, apenas usam em proveito próprio a mediocridade do homem. Se coadjuvam a nossa ambição e nos permitem agarrar o que nos é negado, mesmo sendo nosso por direito, é porque a vítima não merecia sequer ser confrontada com os mais simples argumentos da inteligência.

 

Recusar o uso de três armas únicas e decididamente femininas em nome de um feminismo musculado, é pateta, constitui um erro de estratégia e é abdicar de uma das mais eficazes formas de controlar, dominar e vencer a patetice dos machos.

Se Deus nos deu voz, foi para cantar, mas se nos deu um decote, umas pernas perfeitas e a capacidade de convencer através do beicinho, não foi proprimente para regozijo mais ou menos lúbrico dos homens. Foi para anexar ao outro equipamento e usar quando nos convém.

 

Minhas queridas, recusar o uso das armas que são exclusivamente nossas, é acabar como Frida Kahlo: de bigode, de sobrancelha única, paralíticas e, para desgraça nossa, tudo isto sem o seu talento.

 

Ilustração - Fernando Vicente

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe muito feminista

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.19

A Gaffe feminista.jpg

Não é necessário, rapazes, que acordem de madrugada, tomem um duche silencioso, escovem os dentes, se perfumem, se escanhoem, troquem de pijama e se coloquem em pose, deitados ao nosso lado, para que tenhamos um acordar principesco.   

 

Acreditem, meninos, que aguentamos despertar ao som do Krakatoa ou dos Moon Spell; suportamos o velho vizinho do andar de baixo que de pantufas, pijama de flanela e roupão felpudo, nos toca à campainha preocupado com a possibilidade de nos termos esquecido de fechar as torneiras do WC, desconhecendo por completo a força com que usais a sanita; perdoamos a encharcada toalha do vosso banho que enrolais à cinta, mesmo reconhecendo que o paninho com que limpamos os óculos taparia com a mesma eficácia o que cobris fanfarrões; aceitamos a vossa biblioteca com o Kama Sutra ilustrado e o outro do Tio Patinhas, sabendo de antemão que o primeiro vos causa problemas ortopédicos e que do segundo não entendeis o argumento; abdicamos da máscara de oxigénio quando nos sussurrais o brejeiro beijito matinal; aguentamos estóicas a panóplia de roupa atirada para os cantos à espera de ganhar raiz, folhas, flores e frutificar oferendo-vos as peças que substituiriam o que finalmente foi a vossa escolha; compreendemos até os vossos boxers com tubarões estampados.

 

Nós acordamos é dispostas a ver-vos sapos.

 

O que vos faz perder a coroa, meus queridos, é a crença na Igualdade dos sexos. Nada é mais prejudicial do que confiar na disponibilidade de uma rapariga para abdicar dos seus privilégios femininos por tão pouca coisa. Um mulher que quer ter o mesmo que um homem, não tem ambição.

 

Somos raparigas pragmáticas. Muitíssimo menos românticas do que aquilo que sonhais. Não reivindicamos nada a não ser o que nos é palpável e que vos foi entregue como apenso à vossa condição de macho. O lugar de direcção, a chefia do departamento, a liderança dos exércitos, a Lei, a Ordem, o Progresso e todas essas maçadas que inventais e dominais pensando que vos vão aumentar aquilo que podeis cobrir com o paninho dos óculos.

 

O que vos transforma em sapos, rapazes, é o acreditar que vos vamos engolir se nos brindardes com aquilo a que chamais tratamento igualitário, esquecendo que o vosso trabalho se tornou duplo, porque nos tereis de enfrentar de modo feroz à mesa das mais altas negociações e, depois de aceitardes as derrotas, tereis de nos continuar a segurar o guarda-chuva e a abrir a porta do automóvel.      

 

Não convém esquecer, rapazes, que não há histórias de sapos femininos.

Por muito que façamos, continuaremos princesas que não trocam os seus reinos conquistados por cavalgadura alguma e que sabem que se o príncipe afinal é um batráquio, existe a guarda de honra obediente para segurar o leque do nosso acordar.   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe aos trinta

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.18

Trintona.jpgEm Abril de 2019, a Gaffe atinge os trinta e muito poucos anos, iniciando o seu percurso balzaquiano.

Não que a preocupe o génio com que o francês de eterno roupão descreve as mulheres que vão observando a subtileza com que se riscam as rugas, mas confessa que a intriga a distância e os pedregulhos que vão crescendo e surgindo entre ela e as que há uma década antes dela viram a luz do dia.

 

Esta distância é pedestre. Pode atingir todas as superfícies, mas começa indubitavelmente pelos pés.

 

A Gaffe não consegue deixar de sentir uma aversão descomunal em relação aos brutais penedos que as meninas jovens decidiram calçar e tornar o denominador comum das suas andanças. Um must, o pico do Everest, o orgasmo. A textura, o aspecto do plástico e as cores primárias aliadas ao preto e ao branco luzidios que acentuam as trombas grossas que fornecem aos pés, deixam a Gaffe próxima da revolta e pronta a enfrentar ataques terroristas.

 

Passada a indignação, a Gaffe desiste de sentir o cérebro quando apanha com os monumentais tacões, grossos troncos com uma base ondulada, que são compensados por uma plataforma igualmente embondeiro e com uma base também às ondinhas. A Gaffe não entende como é que estas raparigas não se apercebem que ao contrário do que se pensa, aquilo lhes aproxima os pés das ancas, fazendo-as parecer um dos carrinhos anões com pneus gigantescos que divertem imenso os americanos trepando e esmagando uma fila de sucata. Presos a eles, as leggings que deixam os tornozelos desnudos e quase obscenos a surgir daquele amontoado de plástico e os calções de couro que soltam a barriga apertada por lycras zebradas, fazem a Gaffe acreditar que o Apocalipse já anda à solta pelas avenidas.

Esta imagem feminina dá razão àquele que diz que uma jovem mulher é como a salcicha: pode ser boa, mas é preferível nunca saber como se arranja.

 

Outro sinal, este mais agradável, que os trinta e muito poucos anos da Gaffe estão no activo é o facto de já conseguir cruzar as pernas.

 

Não é de todo fácil.

Cruzar as pernas é das operações mais complexas que uma mulher realiza e a perfeição é atingida apenas com o tempo. Uma perna é colocada em cima da outra que, inclinada, constrói um ângulo agudo com o chão, e o mimoso pé da perna que se eleva vai prender-se na barriga da perna em sossego enquanto o tronco permanece numa vertical inatacável e se beberrica o chá.

As tentativas imaturas da Gaffe fizeram-na tombar, Torre de Pisa, e esbardalhar-se no sofá, suplicando auxílio para desencravar o pé e com a bebida derramada no colo dos brocados. Hoje, trintona, consegue contorcer-se na perfeição e acrescenta a este notável número de equilibrismo a bolacha de chocolate, duas gotas de leite no chá e um sorriso Charlene de Mónaco.

 

Ter trinta e muito poucos anos deve ser isto. Perceber finalmente que a idade também não está na cabeça, mas nos pés.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe tigresse

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

Solvay - 1927.jpg

No aniversário de Marie Curie - a menina, convém referir, faz hoje 151 anos -, a Gaffe fica perplexa quando se lhe depara uma magnífica fotografia da Conferência de Solvay em 1927, onde ninguém está a usar padrões tigresse.

 

Se por um lado é compreensível que a cavalheiros os ditos não favorecem, é por outro escandaloso que Marie Curie não reforce a sua feminilidade com uma peça, um apontamento, uma nuance, um sapato, ou uma calça, ou uma luva - ou qualquer coisa assim no singular -, uma bandolete, um cintinho, um chapelinho, um lencinho, um niquinho de trapo ou uma pochete, em padrão tigresse.

 

Tendo em consideração que a cientista é o único pipi a marcar presença entre as pilas nobelizadas ali presentes, e sobretudo o único pipi a quem foi atribuído por duas vezes o Prémio sueco, seria de esperar que marcasse a diferença, que desse nas vistas - embora no caso até se compreenda que não -, com uma nota tigresse que é, sabemo-lo hoje, o orgasmo de toda a mulher que se preza - e das outras também.

 

Sendo o padrão tigresse a maior porcaria, a maior imbecilidade, a maior pantufada, a maior cacada, o mais ranhoso dos padrões mais ranhosos, uma das mais irritantes visões da humanidade, a maior ofensa ao bom-gosto e a negação absoluta do bom-senso, seria de prever que Marie Curie o usasse. Demonstrava às pilas contentes - às do passado e às de tanto presente - que por muito Nobel que ganhe, uma mulher vai continuar parva o tempo todo.

 

Assim, Marie Curie provou apenas que dois passarinhos na mão, valem muito mais do que uma data de pilas no ar.   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe na aldeia

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.18

3108801460_f7a0699001_b.jpg 

Minhas queridas, nunca, mas nunca, se atrevam a visitar uma aldeia pitoresca que nunca vos viu mais novas, com os pés vertiginosamente enfiados no vosso glamour Louboutin.

 

O descalabro espera-vos.

 

Esqueçam a sofisticação do equilíbrio treinado nas ruas das capitais europeias; ignorem a delícia que é ver o pasmo das burguesas pequeninas e adocicadas, que saltitam excitadas na hora da catequese; procurem evitar o orgasmo que é sentir que, perto de nós, a princesa lendária que se espetou contra o poste, é cilindrada pelo nosso merecido cintilar.

Tudo o que é deslumbre, sedução e requinte se eclipsa no segundo em que o nosso pé Louboutin surge à porta do Jaguar para pisar as pedras da calçada.

 

A partir desse momento, tudo é trágico.

 

Se a sola rubra do sapato não pisar pistas biológicas deixadas pelas cabras - e não me refiro às catequistas - e por bois que quase nos enfiam o focinho húmido nas axilas, corremos o sério risco de nos estatelarmos no centro da aldeia, com o tacão cravado num interstício manhoso, numa fenda traiçoeira, nas pedras da calçada, sem termos sequer um garboso matulão Armani para nos amparar a queda. Se não formos mordidas pelas galinhas - falo também das catequistas - e sentirmos o nosso jovial conjunto, Valentino Verão 2017, esventrado pelas garras de gatos psicopatas, acabamos a enfardar chouriços de sangue suspeitando que o interior está recheado com uma das nossas incautas antecessoras.  

 

O campo, minhas caras, é um lugar perigoso para uma rapariga pedante, pretensiosa, afectada e snob como eu. Engana-se quem pensa que as cidades sobrelotadas são ninho de armadilhas, incubadoras de crimes. São as perdidas aldeias no perdido interior de Portugal o Dexter Morgan desta história.

 

Nunca, mas nunca, se esqueçam, na rota das aldeias esquecidas, de incluir nas vossas Louis Vuitton um parzito de chinelos que não vos descalce a dignidade e um rosário. Há que pedir a Deus para que, pelo menos, não se nos estale o verniz.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe laçada

rabiscado pela Gaffe, em 04.06.18

MA.jpg

 No corpete de Maria Antonieta, Rainha dos franceses, existiam laços que, pecaminosos, tinham nomes consequentes das posições que ocupavam no tecido e nas varetas que sufocavam Sua Majestade.

As fitas que nos mamilos da Rainha se laçavam, eram os pequenos contentamentos e aquelas que desciam ao encontro do início da púbis, sem a tocar, apenas aflorando o caminho doce que a ela chega, a chave da felicidade.

 

Os laços e os nós são, na lingerie, a essência da feminilidade, imprescindíveis no jogo de sedução e do prazer e contribui de forma decisiva para que sejamos donas do universo em que o erotismo deixa marca.

São o modo como tecemos a teia e o primeiro vibrar anunciador da queda da presa.

 

Maria Antonieta, Rainha decapitada de uma França já perdida, reconhecia o poderoso apelo das laçadas mais íntimas. Sejamos pois absolutas soberanas no reino onde sabemos dominar.   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe imperiosa

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.18

Nefertiti.jpg

 

Todas as mulheres possuem um desenvolvidíssimo espírito científico, pese embora apenas algumas o usem para tentar dissecar a alma alheia. Por norma os instrumentos usados não incluem a inteligência, posto que para a operação fica aquém do esperado e, no máximo, o que se obtém é a pele do observado, que fica sempre bem no soalho de madeira.

 

Há no entanto casos em que é possível tentar chegar a resultados interessantes, se o analisado for um conceito.

As mulheres são peritas em elaborar pareceres, a formular noções e a construir máximas que os homens gostam de usar depois. São Piçarras e Tonys das nossas melodias e chegam aos festivais já vencedores. Deixamos, porque não importa o resultado do júri. O que nos dá gozo é a certeza do engano dos jurados que se revelam ainda mais tontos do que na realidade são.

 

Os conceitos que nós, mulheres, fazemos florir são como papoilas. Surgem às centenas, em campos magníficos e dão ramalhetes perfeitos, porque efémeros. É lógico que cada uma de nós escolhe a papoila que mais condiz com o seu tom de pele, com a cor do blush, com a cor do dia do decote, ou com a forma que lhe parece próxima da perfeição sonhada.

 

Malgré tout, é sempre uma papoila que é escolhida.

 

Esta inteligentíssima, - apesar de modesta que sou, devo assumir -,  introdução, chega a propósito dos conceitos de elegância feminina que provocaram um olhar bucólico sobre este campo plano e tão singelo onde pulula, aqui e ali, o escarlate das florinhas.

Há que pegar no bisturi.

 

A elegância - a Elegância -, pode ser analisada com objectividade científica. É possível arrancá-la do somatório dos distintos conceitos que são construídos por cada uma de nós e tornados de certo modo distintos uns dos outros. Há a elegância da mulher magra e alta, esguia como a haste de um lírio. Há a elegância da que veste sem ser vestida por Valentino. Há a elegância construída pela fleuma gélida perante incêndios de barracão. Há a elegância da maturidade que constrói castelos de reserva e discrição e há outras que não se dizem por exaustão.

Por norma, alia-se, mesmo inconscientemente, a elegância de uma mulher à sua biografia. No entanto, a Elegância pode ser isolada, pode ser objectivada, pode ser detectada sem as interferências usuais e sem as premissas que habitualmente nos levam a resultados viciados.

Uma mulher pode ser Elegante independentemente do mundo que a olha, para além de si, para além da sua história ou da sua voz. Neste pressuposto, pode ser Elegante uma psicopata, uma assassina, uma inócua dona de casa, uma apaixonada pelo funk, uma vendedora do Bolhão - estas são quase todas, quando calmas! -, ou uma candidata a Prémio Nobel da Paz.

 

A Elegância é um palimpsesto. Talvez exista uma facilidade relativa em separar camadas, desagregar substratos, definindo-os como eleitos na subjectivização do conceito, mas no final - e afinal -, o somatório torna-se indistinto, quase invisível, quase mistério, porque, diz o aviador, o que realmente importa não se vê.

 

A Elegância não é portanto uma projecção do olhar do Outro. É o reconhecimento do Outro da existência imperiosa e única de alguém.

 

Sentimos a Elegância, somos Elegantes, porque somos, nós também, palimpsestos, mas nesse aglomerar, nesse sedimentar de histórias que são nossas - apenas nossas e sem domínio algum sobre o olhar dos outros - existe um elemento essencial que atravessa cada substrato, solidificando o todo.

 

A inteligência.

 

Nenhuma mulher é Elegante se não for inteligente e logicamente madura (aos dezoito anos escolhemos sempre o perfume errado).  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe das Josefinas

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.18

roseleslie_josefinas_t.jpgMeninas!

É dado o alarme. Nenhuma, depois de o ouvir, pode afirmar que não encontra o refúgio certo para salvar e resguardar os pés das explosões de péssimo gosto que grassam por este vale de lágrimas e de lojas.

 

É imprescindível visitar este lugarÉ impossível deixar de calçar, pelo menos, as estupendas botas manufacturadas com um desvelo antigo - e adornadas com pérolas verdadeiras -, que chegam em caixas maravilhosas, com um porta-chaves dentro para encerrar o luxo, longe do olhar de cobiça e de inveja das pindéricas que não acompanham, por exemplo, Rose Leslie - Downton Abbey e Game of Thrones -, e não sabem pisar como nós e como ela - que somos todas fabulosas -, os soalhos dos bailados mais perfeitos.

 

Morro de amores por estes laços portugueses!

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe assediada

rabiscado pela Gaffe, em 03.11.17

Qistina Khalidah 2017.jpg

 

Sempre considerei que uma mulher que luta pela igualdade entre géneros, é uma mulher sem ambição.

 

Nunca foi minha intenção ser igual aos homens. Jamais foi meu plano equiparar-me ao senhor que na minha frente bate com os joelhos na barriga quando cruza as pernas, de rabo alapado na poltrona dos poderes. Não quero a igualdade apregoada pelas caricaturas do feminismo que grassam nas redes sociais, que se cruzam comigo nas ruas e me conspurcam o sossego límpido da minha pacatez segura pelos ferros do que quero e pela certeza de que o machismo - e mesmo a misoginia - é apenas mais uma ferramenta de trabalho que nos é entregue e que pode servir os intentos das mulheres bem melhor que um panfleto feminista de pacotilha.

 

Sou indiscutivelmente uma mulher. Quero ser mimada, apaparicada, protegida da chuva, levada ao colo para atravessar a lama, receber gigantescos ramos de flores no amanhecer de um pequeno-almoço de lençóis de linho, ser considerada frágil demais para mudar um pneu que suja imenso as minhas mãos angelicais, ter asas que despertam a Poesia e - entre o mais que me cansa descrever - ser defendida das bestas por um musculado gigante bem barbudo. Não quero que se descartem estas obrigações masculinas em nome de uma igualdade de pantomima. Não quero sentir as obrigações, os deveres e as regras instituídas que fazem a tradição do macho/cavalheiro, esbatidas ou diluídas, porque sou mulher e logo igual e imediatamente tratada como se tivesse uma pila no cérebro antoniodamasiano.

Não quero.

Quero, isso sim, que os meus direitos solidifiquem. Poderão eventualmente distar daqueles que a mulher do quinto esquerdo decidiu que seriam os dela, mas convém que os dela recebam igual deferência e reverência.

Quero - à laia de exemplo -, ter o direito de usar o véu islâmico no centro dos que sabem em Paris, apenas porque me fica bem ou porque me converti; quero que a senhora do andar de cima use saias terríveis e apertadas sem que lhe digam que sabia para onde ia quando foi atingida pelo escarro das palavras do troglodita da esquina; quero levar para a cama todos os amantes que desejar sem me sentir, através dos outros, maldita, mal dita e culpabilizada; quero ser virgem o tempo que quiser, quando e enquanto assim o decidir; quero mover-me sem peias nas decisões que deslocam montanhas, sem que os ratos paridos o sejam por mim; quero ser livre sem que me aborreçam com a treta da minha liberdade acaba quando começa a dos outros.

Não quero ser igual aos homens. Não quero ter os mesmos direitos. É um tédio. É limitado. É circunscrito. A falta de ambição levada ao extremo.

Quero ter os meus direitos. Se os adquirir e preservar, com certeza que contribuo para a preservação e solidificação dos alheios.

 

É evidente que encontro abrolhos.

 

A beleza de uma mulher e o poder que adquire - sobretudo o simbólico -, são demasiadas vezes engulhos que contradizem e negam de modo ínvio os direitos que reivindica - e estes direitos são sempre subjectivos, metamorfoseando-se e amadurecendo de modo diferente em cada uma de nós -, e é quase circense, de uma mediocridade quase trágica, apercebermo-nos que são demasiadas vezes outras mulheres que negam e boicotam a Mulher e lhe arrimam a primeira pedra, embora seja polido e eivado de moral e bons costumes esconder a mão - e não refiro Donna Karan, porque sinto pena.

 

Os casos que vão surgindo e que nos informam da miríade de atentados, assédios, violações e estupros cometidos por machos hollywoodescos sobre mulheres belíssimas e detentoras de um capital simbólico significativo, são subvalorizados, porque - li eu, escrito por mulheres - uma grande parte das ofendidas sabia para onde ia. As vítimas destes crimes são assim prostitutas - e a prostituição é sempre uma violação consentida -, pois que apenas as prostitutas sabem para onde vão quando permitem uma violação em troca oportunista seja do que for. A beleza, o talento e o poder feminino são desta forma usados para incriminar e produzir sentenças que rastejam disfarçadas de bem senso, lógica e evidência, aos pés do acórdão coadjuvado pela juíza da Relação do Porto.

Implica este silogismo torpe que apenas as mulheres feias, miseráveis, pobrezinhas, órfãs da sorte e marcadas pela fatalidade e fado maldito, são vítimas reais - as que vivem nos antípodas são oportunistas que sabiam para onde iam -  e dignas de se fazer ouvir, mesmo que a queixa seja apresentada séculos depois do crime cometido, como se o tempo, o espaço, a circunstância, o medo, a culpa, a vergonha, a sobrevivência - a multidão de razões dramáticas que induzem o silêncio quase eternizado -, não fossem as mordaças de todas as mulheres sofridas e violentadas.

 

Talvez seja por isto que, não querendo ser igual aos homens, também não queira ser igual a um demasiado vasto grupo de mulheres.

Escolho ser um sedutor ramo de flores nos braços de um homem, garantindo que no meio delas há sempre uma carnívora. 

 

Ilustração - Qistina Khalidah

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe das nails

rabiscado pela Gaffe, em 02.11.17

FK.jpg

 

A Gaffe observa com pasmo dantesco a menina da recepção que toca as teclas do seu PC com a polpa dos dedinhos encimados por uma espécie de floretes esmaltados.


A Gaffe fica fascinada com a perícia com que os dedos erguidos apontando o céu conseguem tocar as vítimas, enquanto as unhas, as nails, o gel, vão riscando o monitor em arrepio de giz.

Ao lado, uma loira ripada e explosiva, atira os dedos e faz deslizar outros punhais de gel no telemóvel, arriscando lancetar a jugular da companheira com um mover das armas mais violento.

A Gaffe fica encantada, enquanto se introduz nas suas envergonhadas e tímidas unhas por prolongar até à curvatura do espaço, a suspeita da maldição que as donas das nails carregam pelas suas vidas íntimas envernizadas em todas as suas extensões e prolongamentos.

 

É evidente que estas duas mulheres não sentem, por exemplo, a fricção que é, postas perante um rapagão perito em física atómica - e demasiado atraente para que o ouçamos narrar as aventuras dos electrões, dos iões, dos protões e dos positrões, despido pela nosso imaginário mais maroto que deseja apenas que lhe acelerem as partículas -, pousar o nosso dedinho indicador nos lábios carnudos do potentado intelectual e fazer com que os nosso olhos deslizem pelo deslize que vamos desenhando, impedindo-o de continuar a perder tempo.

Com certeza que, no caso em que o gesto é protagonizado pelas duas portadoras de nails, o pobre rapaz acaba com um olho vazado, ou pronto a ser embalsamado à boa maneira egípcia que arrancava o cérebro pelas narinas.

Por razões similares, as coleccionadoras de nails arriscam ser excisadas durante os seus devaneios e solilóquios, transformando ocasiões propícias a alegrias várias - relembremos que saber estar só revela saúde mental - em trágicas subtracções de capacidades autonómicas. Torna-se também evidente que quando a alegria é partilhada, o lamentável parceiro de folguedos tem grandes hipóteses de ficar sem as bolinhas, mesmo que sejam de Berlim e fáceis de azedar, reconhecendo-se também que a piloca corre grandes riscos de ser aberta a todo o comprimento como uma sardinha sanjoanina ou como uma salsicha de feira popular - de preferência alemã.

 

A Gaffe não vai por decência - atributo que muito a caracteriza - reportar-se às idas ao WC destas portadoras de armas brancas, sobretudo porque acredita que as criaturas não usam as sanitas. São provavelmente como Beth II, que a Gaffe em criança acreditava piamente não ter intestinos - por razões que excedem o âmbito deste pequeno rabisco. Em consequência, os resíduos alojam-se no cérebro.

 

Posto assim, há que admitir que existem algumas das mais importantes intimidades gravemente abaladas pelo uso de nails cuja única vantagem é apenas a possibilidade de se usarem como chaves de fendas, pese embora o problema referido atrás.

 

Antes de colar nos dedos os parolos punhais da mais rafeira das escolhas estéticas, pensem, minhas queridas, que cravar as unhas naquele físico atómico lindo de se morrer repleta de descargas - sendo bem-vindo tudo o for que se dispare - não implica um entendimento literal da acção enunciada. Basta, meus, amores, um dedinho nosso, de garras recolhidas, a contornar os lábios com silêncios.    

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe para o fim-de-semana

rabiscado pela Gaffe, em 01.09.17

David Ho.jpg

 

Cruzamo-nos nos corredores, partilhamos horários, intervalos, pausas entre tarefas, pequenas banalidades e outras minudências distraídas, sem exigir mais do que uma amizade plana, simples e muito pouco exigente. Uma espécie de ligação de fim-de-semana, em dias úteis.

É uma mulher muito bonita. À elegância quase minimalista aliou o carisma proveniente de uma inteligência activa, muito prática e capaz - sem Mariazinhas -, responsável por uma carreira distinta e mesmo temerosamente respeitada.

Tem cinquenta e quatro anos e no cabelo uma madeixa alvíssima que teima em conservar e apurar, sem rodeios nem subterfúgios, como se fosse marca distintiva, como se fosse um aperto de mão, como se fosse um troféu de guerra, pois que surgiu aquando do fim do seu conturbado divórcio, já lá vão anos.

Recusou, de modo racional, quase obcecadamente científico, qualquer outra aproximação do amor. Um deslize mais comprometedor que indiciasse uma emoção mais envolvente, tinha sempre como resposta um afastamento definitivo, um corte imediato ou um arrefecimento global do planeta onde até o sol era contido.

Os amantes foram escolhidos com parcimónia e nunca lhes foi dada a importância dos grandes gestos amorosos, ou primazia, ou a decência que subjaz ao reconhecimento da partilha, ou ainda a possibilidade de algum, de entre os poucos, se aventurar a mais do que uma dulcíssima, pacífica e superficial ronda por aquela alma que nunca se deitou ao lado dele.

 

O actual é cerca de duas décadas mais jovem. Conheceu-o algures, não precisou.

 

É um homem muitíssimo bonito, moreno, com olhos grandes, negros, pestanudos, sorriso luminoso e sempre aberto, boca carnuda, de lábios desenhados a cinzel. Um homem meigo, tranquilo, quase pachorrento, com uma bonomia da mesma dimensão do corpanzil cuidado.

Apresentou-mo há já algum tempo. Não é inteligente. Nada existe em comum com a mulher que o fascinou. Nada. Nenhum motivo, nenhum projecto, nenhum livro - partindo do princípio que sabe ler -, nenhum som, cor, ou dimensão, nenhuma gente, nenhuma solidão, nenhum deserto ou urbe carregada, nenhum parágrafo, frase ou travessão, nenhum país dentro ou fora dela e - o que é mais trágico - nenhum amigo. 

 

Apesar de me aperceber da cumplicidade mesclada de ternura, quase amorosa, respeito e reconhecimento, visível entre os dois, não compreendi a escolha. Entendi-a absolutamente inesperada, não se coadunando com critérios e exigências antes definidos e honrados com rigor, mas não me atrevi a mover o que quer que seja, incluindo as inconvenientes sobrancelhas.

A relação, confidenciou-me, era muito discreta, muito reservada, sem grandes narrativas, sem poemas e sem qualquer espécie de vulcânicas ocorrências emocionais. Havia uma imensidão de gestos inefáveis e pouco mais e o mais, pouco valia. Não era um homem de fim-de-semana - como a leitura destes rabiscos -, mas tinha os dias contados.

 

O idílio terminou.

 

O homem mentiu.

Provavelmente não com os belíssimos dentes todos. Provavelmente nem sequer mentiu. A justificação que entregou para a falha cometida foi de tamanha simplicidade, de tão grande despojamento e imbecilidade, que é plausível que seja a verdade.

Encontravam-se sempre que existia disponibilidade. Bastava uma mensagem inócua e o encontro era marcado de modo natural, se houvesse resposta condigna.

A réplica foi dada.

A mulher foi ao encontro do amante no lugar habitual. Informaram-na que o homem se encontrava a trabalhar há alguns dias na filial mais próxima. No novo posto, o atrapalhado e espantado mocetão disse-lhe que se tinha esquecido de completar a mensagem com o novo endereço. Pensava que o tinha feito. Pensava mesmo. Que o desculpe.

A mulher não desculpou.

 

Intrigou-me.

Quis muito compreender aquele mecanismo.

O que fazia uma mulher inteligente, lindíssima, sofisticada e perfeitamente capaz de seduzir os maduros potentados que por aqui deslizam, com um bronco, vinte anos mais novo, que por muito atraente que fosse, jamais a complementaria?

 

- A velhice - disse-me ela.

 

Aquele homem era o seu último fôlego. Comprovava a sua ainda intacta capacidade de conquistar efebos, antes da derrocada das rugas. Assegurava-lhe a permanência do talento que lhe permitia atrair os deuses gregos no antigamente das estrelas.  Precisou dele para acreditar que as rugas que a vão macerando, não causam qualquer dano na sua segurança ou na sua autoestima - denunciando desta forma a sua imprevista obediência estranha ao paupérrimo conceito de beleza feminina que sempre contrariou, que sempre a indignou e contra o qual lutou a vida toda.    

 

É possível - continua - que o homem não lhe tenha mentido, mas a hipótese de o ter feito, transformou-se em agulha cravada no orgulho. Bastou uma leve brisa que passou ténue e que lhe entregou a dúvida, a insidiosa suposição, o possível facto do homem ter mentido por não querer ser visto ao lado dela no seu novo cargo, para que a falência da ilusão viesse em tornado. Não lhe perdoou ter de admitir que se vai transformando numa velha e que esta condição lhe entrega em simultâneo a consciência de ter ultrapassado um prazo de validade.

 

Obedece nesta última revelação ao estipulado, ao normalizado, ao normatizado, ao preconceito, ou ao estereotipado - tudo o que se queira, que somos capazes disso tudo. Rende-se ao peso do olhar feminino e jovem - desejado -, que tomba dos cartazes colados pela vida fora e descobre que as rugas não contam histórias, não são frases, nem crónicas, nem riscos, nem narrativas épicas dos trechos que vivemos. As rugas são apenas sulcos na pele. Terríveis sulcos. Feios sulcos indeléveis que apenas asseguram a incapacidade de regeneração celular. As rugas são apenas velhice. Ninguém as lê. São cartas de cartomante. Não dizem nada.

Vai agora entreter-se e divertir-se com as paliativas lengalengas que inventaram para iludir a velhice.  

 

- É mentira o que nos dizem. Envelhecer é medonho, digam tudo o que quiserem. Tomamos consciência das cordas que nos atam à morte. Envelhecer é terrível e precisava de alguém que me mostrasse que estou velha. Desde novinha que sei que tinha de ser eu a encarregar-me disso.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de patins

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.17

Pin-up_Fernando+Vicente_40-41.jpg

 Aos vinte, uma mulher desliza de patins em linha ao encontro da porta seguinte que se abre para que entre nos trinta depois das piruetas, rotações, círculos, diagonais, serpentes e rectas.

 

Aos trinta, os patins adquirem o domínio técnico do Lutz, do Toe Loop, do Axel e Duplo Axel, do Salchow e sobretudo do Avião Base. A mulher aprendeu que patinar é para ela tão fácil como guiar um Jaguar, de saltos altos.

 

Aos quarenta a mulher percebe que o ringue se vai transformando em pista de ski e de snowboard e troca os vaporosos patins pelo equipamento adequado que a fará chegar à casa dos cinquenta.

 

Aos cinquenta, passeia pelos bastidores da competição depois de exibir a mestria de quem ganhou medalhas, olhando da esquina do seu know-how as debutantes que experimentam olear as rodas.

 

Dos sessenta em diante, decide tirar carta de pesados.A estrada é curta daqui para a frente, mas convém que as rodas sejam resistentes, que a direcção já não é às curvas. A partir dos setenta vai em roda livre sem saber para onde, sem saber porquê, sem saber para quê e sem se lembrar para que serve o travão de mão. Se tem de se esbardalhar, que seja com o volante do Vin Diesel.

 

Todo este percurso atribulado mistura em cada lanço o masculino.

É fácil distingui-los. O homem percorre sempre o dele de triciclo.   

 

Ilustação - Fernando Vicente

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe num teatro antigo

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.17

123.jpg

Lembro-me, já lá vão alguns anos, antes de voarmos pela Rua de Cedofeita todas as tardes em bando tresloucado de pardais, de pararmos no Piolho, café destinado a uma certa boémia quase decadente que atirava bolas de sabão aos muros da vida com a facilidade dos imaturos. Nesses fins de tarde, estalando gargalhadas e tilintando copos, víamos passar uma rapariga que nos intrigava, espalhando no ar os devaneios que se prendiam ao seu sorriso solar.

 

Lembro-me que usava peças desencontradas, oriundos de universos díspares, muitas vezes contraditórios. Tules de palcos barrocos, chapéus de Al Capone, rendas Sevilhanas presas nos dedos, blusas de românticas paragens, fitas de veludo nocturnas de Chopin, sapatos de rapaz que estuda em Oxford e lenços que eram pássaros a passar.

 

A intrigante figura de menina-puzzle provocava os mais diversos dislates nos rapazes e alguns remoques tontos na boca das meninas.

 

Deixei de a ver.

 

Como no tempo já passado do velho café das ilusões banais, vejo-a ainda a esvoaçar com as nuvens frágeis dos enredos que só ela sabia unir com a luminosidade do sorriso transparente.

 

Um belíssimo passar no Dia Mundial do Teatro

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe e as lolitas

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

1.jpg

  

Todas temos, nas mais matreiras das esquinas da nossa alma, prontas a saltar e a jogar à macaca, lolitas tão ou mais perigosas que a original.
 

Somos pérfidas, perversas, maliciosas e, quase por instinto, reconhecemos que a mais pueril das inocências se pode transformar numa lâmina que não vai apenas escanhoar o esperado. Ignorar as lolitas que espreitam, espertas, picantes, o momento exacto em que podem fazer silvar o chicote de uma das mais implacáveis formas de sedução, é arriscar demais, de olhos vendados.

       

O poder que subjaz a uma consciente inocência, tangente a uma infantilidade controlada, transforma uma mulher num crime. É inodora, incolor e não traz sal à superfície, mas não é seguro, para um rapaz desprevenido, entrar nesta aparente transparência. Mergulha, solto e leve, refrescado e calmo e duas braçadas depois, há sangue na água.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)