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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no carrinho de História

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.19

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A Gaffe considera despropositado o choque dos vetustos professores da Universidade de Coimbra que abominaram o tema do carro alegórico que no desfile da Queima das Fitas tentou cumprir a sua missão pelas avenidas da cidade, carregando cerveja.

 

Uns queridos exagerados.

 

Afinal, meus amorosos e escandalizados velhotes, os meninos e as meninas que tiveram a glamorosa ideia de baptizar o veículo de carga com a referência encapotada a um genocídio, pertencem ao curso de História.

Não há nada a recear.

O futuro dos petizes passa por umas calças pelos tornozelos, muitíssimo slim, de modo a esmagar os tintins sem muito alarde, por uns sapatos bicudos e por uma camisa coleante aliada a um casaquinho dois números abaixo do normal, para realçar a musculatura e atestar que se não se está interessado em arqueologias, pois que a empresa do pai é mais bolos e pasteis de bacalhau com queijo da Serra. Às meninas está destinado um bom casamento e unhas de gel. A ambos, caso não se concretizem estes desideratos, está assegurada a caixa de supermercado que não estiver ainda ocupada por licenciados em Filosofia. A Assembleia da República está fora de alcance, pois que já tem os advogados a preencher cadeiras.

 

Não é grave.

 

A Gaffe também não compreende muito bem a reacção dos piquenos.

Colar um papelão no carrinho com o que parece ser um irónico protesto contido no Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre, não é muito eficaz, porque é verdade.

 

Os meninos não podem fazer o que querem, exactamente porque vivem em liberdade, meus queridos. Não é?

 

Faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo, se pisassem com a miséria dos sapatos de plástico do traje académico as avenidas de um qualquer lugarejo onde a liberdade fosse mais um pedaço de porcaria incluída nas toneladas de lixo que deixaram para trás durante o desfile.

Assim, não.

A liberdade de que usufruem, embora vos deixe usar poliéster preto e não vos obrigue a lavar o cabelo, impede que forneçam asas a estropícios mentais com intuitos humorísticos.

 

Meus queridos, o nome que decidiram entregar ao vosso carrinho alegórico, não tem piada, não é sequer inteligente, não é bonito, não tem bom-gosto, não é palestiniano, não é anti-semita. É só parvo.

Se já é péssimo que desfilem vestidos com aquilo que torna impossível que não se cheire a suor - para além de vos realçar os cabelos maltratados, mal lavados, mal cortados -, permitir que aliem esta desgraça a uma demonstração de imbecilidade, seria catastrófico para a Academia em geral e para os futuros desempregados inscritos no curso de História em particular.

 

Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre não é, de todo, sarcasmo ou ironia, reveladores de repressão, ou de esmagamento dos vossos anseios, meus amores, e não o é por causa da treta irritante do A minha liberdade acaba, onde começa a do outro, porque tal não passa de uma tolice creditada pelos coleccionadores de frases do facebook que ignoram que a liberdade não acaba em lado nenhum e que jamais terá limites na vida do Outro, porque se multiplica, aumenta, se une a outras, se reproduz, adicionando-se às liberdades alheias que se cruzam com a nossa.   

 

É só mesmo por causa do mau gosto. Se tem de haver desfile, sejam elegantes. Já basta o traje académico e o resto da praxe.

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A Gaffe académica

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.16

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Não sou fã das praxes académicas, mas acredito que uma memória das bacanais do Império ido e enterrado tenha ainda seguidores, mesmo com os seus laivos sadomasoquistas, absolutamente desagradáveis e muito pouco sofisticados.

 

O que me recuso aceitar é a pobreza pindérica dos trajes das meninas que desfilam de negro, aos pinchos e aos gritos pelas avenidas da cidade. Não há qualquer justificação plausível para comportamentos que tocam o patológico e nos levam directos aos frascos da automedicação inevitável. Tornam urgente a ingestão de relaxantes e de substâncias que nos fazem esquecer a mediocridade com que se brinca a qualquer coisa sem nexo no recreio de uma instituição criada para albergar doentes mentais no século XIX.

No entanto, mesmo sob o efeito de milagrosas pílulas, é impossível não entramos em choque com o que as universitárias se atrevem a vestir.

 

O traje feminino é escandalosamente deselegante. Os materiais com que é executado são miseráveis e o corte do tailleur é mesquinho e faz lembrar as catequistas velhas e solteironas da província onde o demo só não perdeu as botas, porque não é parvo para percorrer os trilhos das cabras e não aprecia calcar bosta.

A capa, demasiado quente para a época em que normalmente é usada, para além de favorecer odores pouco compatíveis com a flor da idade de quem a usa, chega aos tornozelos ou é várias vezes dobrada no pescoço, de acordo com a etapa académica que se frequenta. Esta mimosa obrigação transforma as doces raparigas em frascos - alguns bastante encorpados, alguns bidões, - sem gargalo ou deixa-as com os mais deselegantes ossos do corpo prontos a sofrer um escrutínio minucioso, sendo os únicos passíveis de observar.

Os sapatos de plástico, os dolorosos e patéticos sapatos de plástico, golpeiam a tragédia, encerrando a catástrofe.

O conjunto lamentável obriga necessariamente que se desvie o olhar para outras paragens mais libertas deste fado e é então que lançamos âncora nos cabelos das donzelas.

 

Este olhar fugitivo acaba quase sempre num renovado acidente. O preto total faz realçar as guedelhas e são guedelhas desgrenhadas, jubas soltas e sujas - durante o período da praxe, segundo informação obtida, não é permitido prender o cabelo, - e melenas que não sonham sequer que existe o meu muito querido, talentoso e deslumbrante amigo Miguel Viana.

 

Meninas, é valoroso e de capital importância a frequência universitária, mas citando, numa adaptação livre, o assustadoramente culto Abel Salazar, uma universitária que não percebe que de traje académico se transforma em morcego com restos de rato morto na cabeça, nem da primária deveria passar.

 

Há que renovar, minhas queridas. As touradas também são tradição e não deixam de ser macabras e ofensivas.

 

Fotografia  - René Maltête

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A Gaffe praxada

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.15

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À entrada da adolescência, decidi que tinha de ostentar um piercing, algures na paisagem do meu corpito ainda breve. Era uma decisão irrevogável até a ter comunicado à minha mãe.

Fui terminantemente proibida.

A minha revolta entrincheirou-se nas acusações de tirania, de insensibilidade, de falta de cumplicidade e de mais uma ou duas tiradas dramáticas até desabar inútil e acabrunhada.

 

- Sou tua mãe. Sê-lo-ei para sempre, minha querida. Não sou e jamais serei a tua melhor amiga.

Estás proibida de te mutilares.

 

Invoco este incidente com imensa ternura e profunda gratidão. Creio que foi em consequência dele que percebi a dimensão do comprometimento que implica a maternidade e recordo-o quando vejo da varanda, pela noite dentro, um carro empapado em jovens machos universitários fardados e bêbados que retiram da mala – da mala do carro, insisto -, um jovem colega que parece bastante divertido, pese embora os ganidos e a necessidade de ser levado em braços.

 

Os jovens machos de traje académico que ficaram para trás, erguem-lhe agora as pernas e o farrapo é transportado deitado de rosto voltado para o chão, para que vomitar não implique paragem.

 

Estranhamente, pela calada da noite, chega-me à memória o triste episódio do meu frustrado piercing.

Lamento profundamente que a mãe de cada um dos protagonistas da praxe a que assisto nunca lhes tenha negado o que exaltava na minha adolescência e que supunha ser a vitória e a glorificação da maternidade. Foi uma pena que nunca tenham ouvido:

 

- Sou tua mãe. Estás proibido de te mutilares.  

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Gavetas:

A Gaffe praxa Miró e pede factura

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.14

A Gaffe tinha prometido aos botões Chanel do seu tailleur não admitir que teria de fazer coro com Cavaco Silva que, em relação ao pandemónio instaurado com o processo de venda de uma colecção de quadros, tem apenas a declarar que gosta de Miró como pintor. A Gaffe, embora prefira Miró como dona de casa, confessa que está desta vez ao lado do senhor Presidente e que é obrigada a assumir também que não entende mais do que isso.

A Gaffe acredita não estar sozinha com Cavaco (o que a tranquiliza imenso). Nesta ignorância participa a esmagadora maioria dos portugueses a quem apenas é dada a possibilidade de gostar, ou não, dos surrealistas ou de acreditar que os seus rebentos são capazes de produzir na pré-primária rabiscos similares aos do pintor susceptíveis de despertar a gula da Christie's.  

A colecção Miró, pertença da Parvalorem e implicitamente dos portugueses (nenhum trocadilho será bem acolhido por demasiado fácil), não teve a oportunidade de os ver, de lenços brancos desfraldados e chorosos, cantando um adeus piedoso e desolado. No entanto, merecia. Virgem e imaculada a colecção imerge, depois de ter estado pousada num Oliveira Costa. As semelhanças merecem atenção. Que se saiba, nenhum crítico de arte, nenhum especialista em surrealismo, nenhum historiador de arte, nenhum inútil do calibre destes a conspurcou, informando-nos do seu verdadeiro capital simbólico ou mesmo se deve ser total ou parcial, imediata ou faseada, a alienação. Não há notícia. A colecção é virgem e os petizes que nos governam afirmam que é para vender, comportando-se nesta operação com a irresponsabilidade de minorcas e com a ilegalidade do desenrasca vigaristazito ao ponto de ser necessário um raspanete humilhante de uma leiloeira.

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A Gaffe e a Resistência

rabiscado pela Gaffe, em 11.09.13

No ano passado, fecharam quatrocentos numa sala com capacidade para suportar menos de metade. Ficariam de joelhos durante duas horas com portas e janelas vedadas.

Começaram a suar.

A temperatura elevou-se a níveis insuportáveis, insustentáveis. Empapados e com dificuldades sérias em respirar, alguns desmaiaram, outros choraram, outros vomitaram e uma teve um ataque de pânico. O histerismo misturou-se com o cheiro a suor e a vómito quente e nauseabundo.

O António chegou com meia hora de atraso. Para que não fossem abertas as portas, quiseram que ele os seguisse, de joelhos, para onde quer que fossem. O António agarrou a farda do mandante e obrigou-o a morder-lhe o hálito e a suspeitar da segurança da cana do nariz.

Foi o António que abriu a porta a tempo de retirar e levar em braços a uma farmácia próxima uma rapariga a quem tinham surripiado e perdido a bomba de asma.

Não usam braçadeiras com uma cruz macabra, nem as elegantes e sinistras fardas dos facínoras da Guerra, nem o António pertence à Resistência.

É apenas a praxe, no ISCAP. Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto.

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Gavetas:




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