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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num encontro

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

Vou ao encontro da minha irmã.


Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos tapados por óculos de sol quadrados e grandes, um pouco vintage, um pouco da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.

 

Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da gola redonda do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor estranha.


Quantos vidros terei de partir para lhe chegar?
Quantos vidros somos, antes de chegarmos?


No reflexo, a mulher despe os olhos e repara em mim.  

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Gavetas:

A Gaffe de Genghis Khan

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.19

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O almoço tagarela decorre num barulhento restaurante que serve comida caseira e que visito pela primeira vez a convite de duas amigas que se cansaram de manobras groumet.

 

As palavras à deriva não cativam e procuro distracções nas mesas ocupadas.

Na minha frente um homenzarrão de costas gesticula animado e galhofeiro. Um dos interlocutores está tapado pelo corpanzil da discussão que parece estar relacionada com as comendas de um comendador a quem permitiram ser um trapaceiro.  

Ao lado, ainda mais risonho, um homem de pouco menos de quarenta anos torna-se o foco de toda a minha atenção.

É magro, seco, relativamente baixo, sem indícios de ginásios tresloucados, de mão pequenas - um homem não pode ter mãos pequenas! -, com um cabelo desmanchado, castanho, com madeixas soltas claras, quase ondulado, de barba de três ou quatro dias desleixados, sem plano e sem controlo e um sorriso deslumbrante. Traz um pólo azul com um logo branco, de trabalho, desconcertado e bambo, aberto, permitindo breves aparições das clavículas bonitas. Um homem banal, muito bonito, mas aparentemente sem nota capaz de me atrair.

 

No entanto, vejo-me incapaz de não olhar para ele, de me sentir presa, de me sentir cativada, de me sentir seduzida e de considerar que aquele trintão desleixado à minha frente é um dos mais sensuais rapagões da história das minhas histórias.

Espreito-lhe os gestos, masculinos e sinceros. Observo-lhe a atenção divertida com que ouve os companheiros. Vejo-o responder, sorrindo sempre luminoso e franco, sempre atento e irrequieto e nem as mãos pequenas e brandas são capazes de me desviar o olhar.

 

Não entendo.

 

O homem não tem qualquer uma das características que me levam a cometer indiscrições ou que me atraem de forma tão física. Esta constatação obriga - ainda mais - a que o observe, o espie e o deseje. O homem apetece-me e eu não sei porquê.

 

Depois de acabar de beber o copo com vinho, levanta-se. Traz umas miseráveis calças de ganga largas e desbotadas, velhas e coçadas. Vira-se, de repente, e volta a sorrir à laia de despedida.

 

Descubro então.

 

Os olhos, que fazem lembrar mogóis, estepes, tundras e guerreiros - Genghis Khan a cavalgar pelas mesas de um restaurante caseirinho -, quase se fecham quando ele sorri.

Foi esse extraordinário pormenor que me atraiu, que o tornou atraente, que fez com que eu o desejasse, que subitamente o tornou único.

 

A beleza, a mais subtil, imperceptível e tímida beleza, é como um guerreiro escondido nas frestas ou ameias da nossa desatenção. Dispara, mesmo já vencido. Podemos conquistar todos os campos de batalha, que tombamos perdedores se esquecermos que há lâminas que demoram tempo e silêncio a chegar ao coração.  

 

Imagem de Huang Yang Chih

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Gavetas:

A Gaffe num pregão

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.19

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A mulher passa no passeio da Avenida e vejo-a passar de canastra à cabeça. Sem mãos, como eu mais pequena passava na Avenida de bicicleta, também sem mãos no fio do equilíbrio.

Peixeira de coturnos pretos sem pregão, que levas à cabeça a tua sina como se andasses de bicicleta, ensina-me a passar na Avenida com um pedaço de mar à cabeça sobre a alma enrodilhada.

Diz-me como se atravessam as ruas de coturnos pretos nos pés, ruas de canastra sem mãos a oscilar e meia dúzia de ondas cobertas com telas de navios.

Diz-me como entras no meu quarto a gingar a alma de canastra e atravessas os vidros da janela no fio do equilíbrio como se andasses de bicicleta e eu fosse ainda menina.

Diz-me com se passa na Avenida com ondas na cabeça cobertas por um lenço preto por onde passa a bicicleta com rodas de meia dúzia de peixes sem mãos.

Diz-me como se torce o farrapo de navio que equilibra a canastra na tua cabeça e ensina-me a atravessar as ruas como se fosse menina outra vez, porque a minha alma sem mãos é a tua rodilha.

 

Imagem - Fabien Delaube

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Gavetas:

A Gaffe muda

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.18

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Há uma hora em que não ouço a minha Avenida.

 

Próxima do alvorecer, a hora do deserto interrompe as ruas e passa como um vadio com o silêncio nos bolsos. Nessa hora, o mar não tem queixume e dele apenas sinto as mudas ondulações da desbotada lua.

É a hora das palavras por dizer. Chegam nos bolsos do vadio que passa, junto aos silêncios, e ficam presas nos frouxos candeeiros como frutos ou pombas ou pedaços de gente bêbada, escura, que adormece.

 

Invento o meu ruído, nessa hora. O que me faz ouvir o que nas outras horas emudece. Abro a porta e debruço-me nos bolsos dos vadios, dos que usam o silêncio como frutos ou pombas ou travos de gente pendurada nos vagos candeeiros e deixo que as palavras sigam deslumbradas como se tivessem nascido há pouco tempo e pasmadas se infiltrassem nos rochedos.

 

A minha hora muda é o silêncio dentro dos vadios e uma mulher com cabelos soltos, nua, morta sobre as ondas.

 

Foto - Mario de Biasi

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Gavetas:

A Gaffe sem Alma

rabiscado pela Gaffe, em 08.10.18

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Subiam e desciam a ladeira lentos e lassos, de manhã e ao entardecer. Ele vinha sempre à frente, porque era mais novo, porque tinha mais força. Ambos velhos como o tempo que demorava a galgar o esforço.

Durante cinco anos vi-os passar da minha janela. Quatro vezes por dia. Nunca quis saber se tinham dono. Estavam bem nutridos e bem tratados, embora a cadela mostrasse por vezes sinais de maleita, raspando o dorso nas pedras dos muros até à ferida. Nunca lhes soube os nomes. Nunca quis saber.

 

- Ela é arraçada d’alma. Ele é um pastor.

 

Bastava. Ter um pedaço d’alma guiado por um pastor, é muito mais do que por vezes temos.

Não creio que fossem corajosos. Eram assustadiços. Tímidos, ensimesmados, de uma fragilidade comovedora que afastava os homens por respeito.

Quando a Alma se atrasava, o Pastor – dei-lhes eu os nomes -, voltava-se para trás e ladrava. Ela ouvia e vinha. Os dois caminhavam. Cambaleavam. Nunca os vi isolados. Amavam-se com uma simplicidade digna, com uma inevitabilidade eterna.

 

Há dias, o Pastor ladrou de modo inusual. Um ladrar insistente. Forçado, zangado.

Fui ver.

Estava sozinho.

Não completou o passeio habitual. Voltou para trás.

Voltei a vê-lo, depois e várias vezes. Sozinho. Não tinha Alma.

Passava devagar. Sozinho. Não ladrava. Gania baixinho.

 

Deixei de o ver.

Não sei se me sentiu chorar.

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Gavetas:

A Gaffe sombria

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Via-os passar iluminados pelo calor.

Ficava parada a observar-lhes as sombras que se contorciam nas pedras, mais maleáveis ainda que os corpos que as deixavam escapar. Sempre me pareceram mais frescas, as sombras, mas talvez fosse dos vidros frios onde me fechava para as ver atravessar. Talvez a dependência da luz as arrefecesse. Talvez a percepção da inexistência daquelas manchas na ausência do brilho gerador, me fizesse acreditar que não me afligiam, escaldando como os corpos.

Inspiravam-me confiança, aquelas sombras.

 

Dependo de sombras.

Dependo demasiado daqueles que me asseguram um frio de abrigo quando a luz se enfurece.


As ausências da minha irmã e do meu irmão provocam-me uma sensação de desabrigo e de falta de ar que controlo mal.
O meu irmão tem olhos com paisagens retiradas do rio, mas tem também obscuridades de fúria e desalmamento que se estendem pelas ruas como negritudes. Os abismos da sua alma, que surgem subitamente e subitamente aos nossos pés se abrem, dão-me a sensação angustiante de queda e de abandono, mas, em simultâneo, abrigam-me e turvam ameaças.
A minha irmã tem alma veneziana. Canais de pedras húmidas e praças sombreadas. Há gôndolas e palácios de claridades entrançadas, mas o escuro afunda os alicerces e é neles que encontro o meu esconderijo.


Dependo destas sombras de praças deitadas sobre a luz que passa.


A minha irmã e o meu irmão e a sombra das águas quando os dois se juntam para me abrigar.

Nada mais é meu. 

 

Fotografia - Alair Gomes

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Gavetas:

A Gaffe quotidiana

rabiscado pela Gaffe, em 28.05.18

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Dizem que a banalidade não tem narrativa, que as histórias que ficam presas à memória cravam as raízes nos dias que não são derramados nas ruas vulgares, que apenas o incomum nos deixa marca.

 

Possivelmente.

 

No entanto, as histórias mais simples, aquelas que atravessam as ruas connosco ao lado, as que se esfumam no passar das horas destinadas a não ser colhidas por ninguém, são sempre as nossas, as que riscamos a todo o instante sem que se percebam os traços que ficaram esbatidos nos instantes que passaram, banais, quotidianos.

 

Pertencem-nos, são coisa nossa e são coisas dos outros. Iguais ou similares em toda a gente. Não trazem narrativas presas à banalidade comum a todos os que passam, porque o banal é tido como surdo e mudo.

 

Passamos pelas nossas histórias como cegos.   

 

Imagem - Jorge Gamboa

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A Gaffe e uma paixão

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.18

 

 

Há homens que atravessam o tempo e se deixam atravessar por ele, sem piedade ou condescendência, mas sem macular a mais ínfima das partículas de que são compostos.

 

São, na sua maioria, homens de génio que rasgam os limites das impossibilidades quotidianas e refazem o universo, vertendo-o num copo com vinho que bebem no entardecer de uma esplanada qualquer, depois de terem restabelecido a ordem e a alma das coisas breves distorcidas pelos outros. 

 

Na foto -Samuel Beckett

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A Gaffe ao vento

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.18

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Vamos todas almoçar que já não chove ao restaurantezinho que inaugurou há pouco, amoroso, mesmo ali a duzentos metros? Vamos, que já não chove! É tão fofo e tão bem frequentado! Come-se divinalmente e baratíssimo!

Vamos todas que já não chove e é giro e podemos falar dos outros!

 

E fomos todas ao restaurantezinho amoroso, que já não chove e é ali mesmo a duzentos metros.

 

Jamais conhecerei a razão que me leva a embarcar no Titanic, mesmo sabendo que a Céline Dion está lá dentro preparada para desatar aos gritos.

 

Quatro tresloucadas. Duas delas agarradas às saias, uma revoltada por se atribuírem nomes de pessoas pobres aos temporais - não há um Salvador, um Tomás, uma Benedita, uma Maria Antónia! -, e eu a tentar colar as solas dos sapatos ao chão com o cocó dos cães chiques que andam pelo ar - os cocós, pois que os cães, mesmo os chiques, não são parvos e recolheram aos seus aposentos, pese embora o restaurantezinho, a duzentos metros que já não chove, ter reserva de mesa para os ditos - cães e não cocó dos cães, pois que esse, percebi depois, era servido enfeitado com uma flor comestível.

Quatro enlouquecidas ao vento com medo de ficar sem soutiens, já que as calcinhas tinham sido estraçalhadas e, pelo que se adivinha, suspeito não ser necessário marcar a depilação tão cedo pois que o vento é de lâminas.

Quatro loucas aos gritinhos, uma para cada lado, a tentar mostrar o perfil ao lobo do vendaval que uiva e sopra nos capuchinhos vermelhos de fúria e no capachinho que passou a voar.

Quatro taradas a precisar de picaretas para espetar na corrente a tentar escalar e se possível de um míssil para, em cima dele, se atingir a porcaria do restaurantezinho a duzentos metros que já não chove.

 

Cheguei à porcaria do restaurantezinho a duzentos metros que já não chove, sozinha e como se tivesse saído de uma centrifugadora. 

 

Uma ficou pendurada no homem do leme, a outra com os dentes cravados num banco de jardim a tentar que o verniz das unhas dos pés não fosse arrancado e a terceira atracada a um poste disfarçado de matulão. Que ninguém me responsabilize pelo estado em que lhe ficou a pila.

 

Fofas!  

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Gavetas:

A Gaffe de pisca-pisca

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.17

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 A Gaffe, em viagem, não se importa de ser parada pela polícia.

 

É evidente que há pormenores que a preocupam nestas ocasiões.

Receia que lhe perguntem pela caixa negra, porque sabe que o modelo que guia é de bom gosto, não possuindo apetrechos que violam a privacidade de pessoas de berço. Para além disso, garantiram-lhe que o paralelepípedo colocado ao lado de imenso fios, era a bateria, o que muito a desiludiu. Supera este embaraço, assumindo uma pose de quem está quase a desmaiar de nojo por ter sido incomodada. Resulta, se fixarmos um ponto na nossa frente - convém que seja imóvel, pois de contrário andamos de cá para lá com as órbitas tornando tudo bastante suspeito -, baixarmos os cantos da boca, como D. Clemente a avisar que não quer forrobodó nos seminários, e entregarmos a papelada com a ponta dos dedos, tendo o cuidado de não fornecermos as cópias que usamos para apanhar o cocó do caniche dos comentários anónimos nos blogs.

 

Tomadas estas precauções, a Gaffe fica deliciada quando um matulão alto e espadaúdo, com um rabo apertado numas calças que devem ser milagre, ou que o fazem pela certa, a aborda e lhe pede a papelada.

 

Apesar disso, da última vez que tal ocorreu, não correu bem.

 

A Gaffe viajava com a prima, uma sósia de Rita Hayworth e a quem se exige a compostura que não teve. A Gaffe de soslaio, para não se afastar muito do ponto que fixava, ficou mesmo assim quase cega pelo brilho dos olhos esbugalhados da mulher que chispavam de cobiça e suspeitou que a baba que começava a escorrer doa boca aberta da prima, não era consequência de AVC, porque a mulher continuava sem nada torto - a maldita!

 

Compreendeu quando seguiu - uma vez não conta -, a direcção do olhar da petrificada cintilante e quase espetou os Valentino que protegiam o seu mavioso olhar, na piloca do polícia - que se tinha erguido - o polícia, não a piloca, embora connosco haja razões de sobra para elevações diversas -, para separar o que lhe interessava do resto dos tickets das compras -, ali na frente, toda desenhadinha no tecido das calças.

Um milagre, uma aparição, nunca é exagero repetir. A Gaffe não entende como D. Clemente não ergue uns santuários pela estrada fora. Uma falta de empreendedorismo muito pouco católica.      

 

Este enorme percalço - sublinha-se enorme, para encorpar o tecido do texto -, não invalida o gosto que a Gaffe tem quando é mandada parar por agentes muito pouco informados que cometem deslizes engraçadíssimos que resultam, como é evidente, do desconhecimento da mecânica de uma mulher, e que apenas encontra equivalente na ignorância dos homens das garagens.

 

- A menina precisa de mudar os calços.

Como se os nossos sapatos tivessem mais de duas semanas.

- A menina qualquer dia fica sem travões!

Como se alguma vez os tivéssemos.

- A menina tem de mudar o óleo.

Como se não usássemos o da Cartier. Que tontos! Tão cómicos!

 

- A menina tem de ir à revisão.

Enfim. Há também casos de assédio.

 

O que a Gaffe não entende são os sinais de luzes que avisam os condutores da presença esconsa da polícia nas esquinas da multa.

 

Vai uma pessoa apressada a enviar SMS ao senhor que segue no carro ao lado e que tem a amabilidade de lhe oferecer umas amostras irrisórias do imenso que traz na mala da viatura, e é encadeada pelo pisca-pisca dos faróis do irresponsável que surge na frente e que não entende que pode provocar um acidente quando o cavalheiro das amostras guina de súbito para inverter direcções.

 

Vai uma pessoa interessadíssima por suspeitar que, no camião que segue, segue um psicopata assassino com a arma disfarçada de tubo de escape e meia dúzia de porcos a estrumar as bermas espargindo cocó, e surge um pisca-pisca de luzes a obrigar o condutor a manobras doidas que podem perfeitamente fazer disparar os porcos, atingindo-nos com presuntos - toda a gente sabe que os danos que estas situações causam nos nervos dos bichos equivalem aos que ocorrem nos fumeiros.  

 

Vai uma criatura de Moët & Chandon à tiracolo e com uns binóculos invertidos cravados nos olhos, à espera de encontrar D. Sebastião por entre o nevoeiro e os vapores que entretanto se ergueram das garrafas e do hálito, e aparece um pisca-pisca pela frente a destroçar esta valorosa demanda histórica.

 

Vai uma pessoa de berço a catrapiscar a novíssima obra da Bobone, presa no volante - o livro, a Bobone só emperra na embraiagem -, e apanha com os mínimos do carro da frente a dar-a-dar. Uma afronta, pois que com a Bobone apenas os máximos são justificados.

 

Vai alguém em paz e sossego com um carrito emprestado a prazo indefinido que coadjuvou um levantamento um bocadinho explosivo no multibanco da aldeia, e é encadeado pelo pisca-pisca alheio que não tem consciência que vai perturbar os sonhos dourados do que agora é obrigado a retroceder, encetando a rota por trilhos menos nobres.    

 

Este vício português - trafulha e patifezinho - de accionar o prevenido pisca-pisca dos faróis quando a polícia está na curva a seguir, sugerindo aos anormais que surgem pela frente a fuga discreta, caso estejam a exercer os seus talentos psicopatas conduzindo anomalias - a Gaffe suspeita que não faz sentido sugerir a fuga a carros dentro das normas estipuladas e a condutores sérios -, leva esta rapariga a congratular-se com a desgraça da amiga que, depois de se ter esbardalhado numa canseira imensa a fazer sinais de luzes ao condutor do camião das mudanças que com ela se cruzou, avisando-o que tinha a polícia logo ali à frente, chegou a casa e percebeu que os seus electrodomésticos tinham deixado de existir. Os arredores inquiridos declararam que não tinham estranhado coisa alguma e que não desconfiaram de nada quando viram uns simpáticos senhores a enfiar uma televisão e um frigorífico num camião de mudanças. Só ficaram chorosos ao perceber que iriam perder uma tão amorosa e tão prestável vizinha.   

    

A Gaffe - pelo sim, pelo não -, mal vê piscar uma luz passa a usar óculos escuros. Disfarçam imenso e impedem que as pessoas maliciosas se apercebam que esta rapariga fica sempre muito atenta ao que a autoridade lhe revela.

O único problema é a baba que teima em tombar, embaraçando-lhe a pose, embora se possa sempre justificar o percalço deslizante com a ocorrência de um AVC provocado pela visão apocalíptica de um ameaçador casse-tête.  

 

Na foto - a prima da Gaffe apanhada na situação referida

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Gavetas:

A Gaffe digitalizada

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.17

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Quando dei por finda a minha página no facebook  - uma belíssima página, devo acrescentar, com um maravilhoso tratamento de imagem e inúmeros macaquinhos -, disseram-me de olhos esbugalhados pelo espanto, que se não alimentasse aquele cantinho, assassinando desta forma uma quantidade de likes e de amigos, não existia.

Naquele momento, confesso que atribui a desfaçatez do dito à instabilidade hormonal da autora que à data tentava enfurecida dominar a oleosidade da pele. No entanto, fui posta há dias perante as imagens de uma agressão bárbara às portas de uma coisa nocturna, o Urban Beach, e soltou-se no cérebro o eco borbulhento do que me haviam dito.

Aliei esta experiência de cariz paranormal, à visão de duas crianças de pouco mais de quatro anos que almoçavam com a família no mesmo restaurante que esta rapariga aparentemente inexistente e à de uma adolescente na mesa do canto sorvendo a sopa ao lado dos pais.

As crianças, que revelavam um comportamento irrepreensível, mimoso, fofinho e adorável, foram colocadas na frente de um monitor onde de imediato colaram os olhos e calaram todos os movimentos e sinais vitais, dando oportunidade à mãe de lhes ir enfiando o garfo nas bocas sem perder pitada da alegre, embora discreta, discussão erguida pelo tão saudável convívio familiar. A adolescente levava a colher à boca curvada sobre o telemóvel onde se adivinhavam a cor e o grafismo das páginas facebookianas, enquanto os pais miravam em silêncio a paisagem urbana e as minhas pernas quando entrei. O resto da refeição foi constantemente intervalado com uma consulta exaustiva às novidades dos murais.

 

Esta aliança da visão de uma passividade inumana das testemunhas da agressão numa coisa nocturna e três criaturinhas suspensas num monitor, foi perniciosa.

Percebi que aquilo que ecoava no meu cérebro, vindo dos confins do esquecido, consubstanciava uma verdade incontornável. Sentimos no Facebook, estamos no Instagram, indignamo-nos no Twitter, passeamos no Pinterest e trocamos de insanindades no youtube.

Somos o que para nós olha através de um vidro, somos o objecto inanimado que vai produzindo digitalmente uma individualidade, um indivíduo com um código binário em vez do outro, um algoritmo que absorve todas as nossas emoções, revoltas, indignações, frustrações, empatias, conquistas, alegrias, erros, quedas, vitórias e tudo o que mais há capaz de nos tornar donos daquilo que nos enforma a alma que vai deixando desta forma de mensurar o mundo pelo pulsar do coração, medindo-o pela quantidade de cliques que visualiza.

 

A desumanização do real e o galopante apagar do real fora de um visor, não se confinam a estes factos, mas estes factos originam indubitavelmente a ausência de resposta à barbárie. Não vemos a maior das abjecções e não reagimos aos mais escabrosos atentados à dignidade humana e não impedimos o opróbio e a infâmia, porque vai deixando de existir o tempo real, o tempo da empatia do instante e do instante de empatia, o tempo do acontecimento testemunhado pelo nosso corpo presente e pela nossa capacidade de condenação imediata do erro imundo cometido perante os nossos olhos sem artefactos digitais.

Sentimos depois através do teclado, ou libertamo-nos através do indivíduo que somos digitalmente e é da mesma forma que arriscamos todas as outras emoções de natureza e verdade mais solares, porque permitimos que surjam no monitor vividas pelo indivíduo que ali somos e morremos digitalmente se negarmos a entrega do que resta a um login e a uma password. Morremos duplamente, pois que já não somos sem as redes sociais.

 

As duas crianças continuam sem ver e sem ouvir o barulho da vida fora dos seus bonecos animados e a adolescente fotografou a sobremesa. Possivelmente aplicou um filtro ao doce da casa antes de o comer no facebook. Não existe o que tem à frente.

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A Gaffe sacrificada

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.17

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De forma a aproveitarmos a presença breve da minha prima por terras lusas, fomos as três muito unidas rumo à confeitaria/leitaria Quinta do Paço onde uma pequena esplanadita nos faculta umas mantas vermelhas bastante ranhosas, mas muito quentes - que, digam lá o que disserem, o fim de tarde já arrefece - e uns éclairs recheados - chantilly ou chocolate - de morrer ali todos diabéticos.

As duas mulheres desprevenidas enroscaram-se nas mantas transformando-se em índias Cheroqueques, muito felizes. A perfeição da minha irmã recusou o allure, porque tinha trazido casaco e um objectivo. Já que ali estava - e suspeito que estávamos ali por isso - tinha marcado encontro com o arquitecto italiano que a substituirá durante uns dias. Queria que o homem visse in loco uns detalhes nos edifícios em frente. Os pormenores estudados seriam reproduzidos aquando da recuperação de um mamarracho qualquer, algures de onde o homem veio.

 

Vimos o rapaz chegar de sorriso aberto.

 

Muito agradável à vista desarmada, em excelente forma física, moreno e luminoso, de olhos pretos e negra madeixa ao vento, o descontraído rapaz trazia vestida uma t-shirt arrepiada, um casaco desleixado e umas calças de malha fina que são um cruzamento entre um fato de treino e umas ceroulas, mas que parecem ser consideradas um must pelos musculados concorrentes do Big Brother mais guna – ouvi na Ribeira e não sei o que significa, mas acho que fica bem aqui -  e pelos artistas mais boémios que citam Sartre e entendem Miró até ao âmago - o que une extremos consideráveis.  

 

Apercebemo-nos, talvez devido à luz de Outono que tombava devagar, que havia qualquer coisa estranha no andar do moço, mas, como se diz no velho Douro, nem fun nem fanforreira partilhamos, guardando cada uma a estranheza no mais íntimo da alma. 

 

A minha irmã levanta-se, o homem sorri-nos – ciao! - e desatam os dois a apontar as pedras e as varandas, com a anfitriã a rabiscar explicativos riscos no bloco que tinha tirado da carteira.

 

As duas índias Cheroqueques, sentadas, quietas, caladas como ratas, de éclair parado e perplexo, tinham avistado a razão da anomalia no andar do homem.

As calças largas de malha fina tinham-se colado, tinham-se grudado, à pila do moço!

Aquilo ou era electricidade estática ou então tinha chovido na véspera e encharcado uma anaconda da Amazónia. Contornos, desenhos, protuberâncias, trilhos, volumes, escavações, bossas, saliências e arredores, tudo ali mesmo à mão de semear tempestades e colher a ventania que deve aquilo fazer ao abanar.  

                                                                                                                                                    

Se tivesse aparecido nu da cinta para baixo, seria mais discreto, valha-nos Deus!

 

O homem pousava o peso na perna esquerda e a piloca acompanhava toda elegante o movimento, o homem pousava o peso na perna direita e o monstro lá estava, pronto para se aninhar noutras paragens.

 

Olhei de soslaio para a minha prima.

A rapariga estava com o nariz franzido, com os cantos da boca repuxados e os olhos transformados em frestas orvalhadas por onde se escapava um riso destravado. O queixo termia um bocadinho, mas nada que indicasse epilepsia. 

Bastava que o meu joelho tocasse o dela, avisando que também testemunhava os movimentos de Loch Ness, para termos foguetório.

A minha irmã pousou o bloco na mesa e desembainhou as armas brancas dos olhos. Percebemos que bastava um nosso inocente e simples risinho parvo e totó para sermos atingidas na jugular pela lapiseira encharcada em cicuta. 

 

Quietinhas. Caladinhas. A tentar não nos esbardalharmos, nem fazer ruir os edifícios. 

 

A minha prima olhava para os transeuntes, evitando cruzar manigâncias comigo e com o que oscilava ali na frente. Ouviam-se uns ruídos surdos que soltava pelo nariz, acompanhados por esquivos solavancos nos ombros e no peito. Eu, muitíssimo mais controlada nestas ocasiões - é nestas e nos terramotos. Foi ver-me no de 1755! -, procurava encontrar forma de lhe causar a perdição completa.

Peguei no bloco e escrevi:

 

O homem não traz cuecas!!!

 

 Estendi o bloco e a lapiseira. A minha prima leu e com os queixos a tremer, com as maminhas a saltar e os ombros a abanar, conseguiu os riscos:

 

Ou traz o fio dental ao contrário.    

 

Voltei à carga:

 

Não é italiano. Está a mentir.

 

A minha prima ficou curiosa. Beberricou o sumo de laranja para acalmar, franziu as sobrancelhas e já muito séria inquiriu - com os olhos, porque qualquer palavra dita, por imbecil que fosse e a ano-luz de ter piada, provocaria o descalabro.

 

É de Mirandela. Traz o fumeiro dentro das calças.

 

Desastre absoluto.

A mulher esbardalha-se sem dó nem piedade e até pelo nariz. O sumo de laranja disparado num borrifo imenso atinge a prima Cheroqueque que fica com o cabelo como se tivesse atravessado o furacão Maria e sofrido em seguida uma tempestade tropical, pois que até das pestanas o sumo pingava. 

Já nada nos trava. Depois de chorar desalmadamente, ensopando as gargalhadas, e depois de sentir o ar a fugir, o riso abrandou.

Olhamos as duas para a morte que se perfilava.

A minha irmã tinha na mão o bloco e tentava salvar e limpar os gatafunhos. Tinha lido as nossas angelicais considerações.

Havia explicações a dar.

Vira-se devagar para o homem atónito e sussurra com um perfeito sotaque spaghettiano.

 

- Questionaram a tua nacionalidade. Uma tolice, já que trazes a Torre de Pisa enfiada na porcaria das calças.

 

Apesar de, pela primeira vez, a minha irmã ter conseguido ser brejeira - há inesperados que abanam pesados no meio das mais sólidas convicções -, estas duas primas Cheroqueques vão morrer em breve; quiçá abrasadas pelo rubor incandescente que assolou o pobre do rapaz; quiçá vítimas de facas embebidas em curare, atiradas pela grande sacerdotisa - cuja mira é falacciosa -; quiçá sacrificadas em rituais tribais onde são trespassadas por alheiras do tamanho de anacondas.

 

A minha prima admite que a última hipótese é a que prefere.

 

Ilustração - Sérgio Martinez

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Gavetas:

A Gaffe de repente

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.17

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De repente passa por mim espampanante a sinuosa mulher de corpo denso e rotundas curvas, roliças esquinas de carne potente perfumada por perfume quente e passo compassado para apoiar a amiga que quebradiça a segue cega e calada pela fúria da carteira cara que bamboleia nos braços robustos da indignação ruborizada que desarvorou ao lado.

 

- Tu bem que me avisastes aqui á uns tempos atrás.

 

Aposto que aquele não tinha h.

E prontus.  

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Gavetas:

A Gaffe terrorista

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

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Toda irritada, a amiga da Gaffe – enquanto as duas vão mordiscando uma porcaria comprada pela Mélinha no café que agora vende pra fora munto barato, pernas cruzadas e sapato a dar-a-dar -, dá conta da aversão que tem aos homens peludos quando por elas passa num doce balanço a caminho do bar, um macho alpha, gingão e marialva, de calções de sarja e t-shirt cava por onde se avista a Amazónia. Negra Amazónia de mistérios densos.

 

- Aquilo tem bichos dentro e a gente não sabe – avisa muito preocupada.

 

A Gaffe não pode solidarizar-se. Nunca apreciou homens que se depilam até à total humilhação do Ken e não entende o actual culto masculino por esteticistas fanáticas, psicopatas e radicais.

 

- Tens de concordar comigo que não é agradável andar à procura do homem no meio daquela mata, correndo o risco de sermos engolidas - pausa meditativa e acrescenta perplexa - lembro-me sempre de areias movediças, nunca soube porquê.

 

A Gaffe tem de concordar num pequeno pormenor. Um homem que decide não se depilar, tem de ter particular cuidado com as suas zonas menos públicas e mais púbicas. É evidente que a piloca não pode parecer, nos seus momentos mais entusiasmados, o Pinóquio que se juntou aos Talibãs.  

 

Imagem - Giovanni Paolo Cavagna

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Gavetas:

A Gaffe "en passant"

rabiscado pela Gaffe, em 11.07.17

- É que até aquilo dos encológicos!

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Bai-me tudo pás ancas.

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Gavetas: